Vivemos em uma sociedade que idolatra os músculos e abomina os neurônios. Enquanto do atleta se espera que se esforce para ser o melhor, que lute para atingir resultados superiores aos dos outros e que busque reconhecimento e fama, do intelectual se cobra que não exagere, que não fique se comparando e que seja humilde e discreto. Enquanto o atleta merece ser festejado pelas multidões, o intelectual deve se fechar no gueto da academia. Honra e glória aos malhados, descaso e rejeição aos intelectualizados.

Quase todo mundo admira os atletas. Por algum motivo que me foge à compreensão, a maioria das pessoas acha fantástico que um sujeito passe a vida inteira treinando para dar uma corridinha, um pulinho e tcharââân! Dever cumprido. A maioria também acha que os atletas estão cobertos de razão ao reivindicar patrocínio oficial – leia-se dinheiro público – para que possam se dedicar com exclusividade e com o apoio dos melhores treinadores e da melhor tecnologia para obter o melhor desempenho possível no seu pulinho. Se essa verba tem que sair do mesmo caixa de onde saem os investimentos em saúde, educação e preservação ambiental, ora, o que são estas prioridades comparadas à importância de um pulinho perfeito?

Poucos admiram os intelectuais. Por algum outro motivo que me escapa ainda mais à compreensão que o anterior, a maioria das pessoas trata com certa reserva – e freqüentemente com explícita desaprovação – os indivíduos que se dedicam a desenvolver os neurônios e não os músculos. Termos como nerd e CDF surgiram com clara conotação pejorativa. A maioria das pessoas também acha um absurdo a idéia de se fazer investimento com dinheiro público em escolas para superdotados – afinal, eles já são tão inteligente, tem tanta gente que precisa mais do que eles! Temos que ter prioridades, não é?

Não vai faltar quem diga que eu sou contra o esporte. Nada mais falso. Esporte é ótimo – se você praticar para cuidar da sua saúde. Não é o caso de financiar pulinhos alheios para serem assistidos na TV. Não é o caso de o Estado gerir loterias para entregar sem licitação dinheiro público a empresas do ramo do entretenimento, porque isso é o que são os clubes de futebol. Se é para financiar o esporte, que seja construindo ginásios polidesportivos abertos à comunidade nas escolas e incentivando ativamente a população a buscar orientação e praticar esporte nas escolas, o que aliás ajudaria o país a economizar muito em internações hospitalares e também com a previdência.

O investimento na intelectualidade, de modo diverso ao que ocorre com o esporte, traz benefícios mesmo para quem não pratica a atividade estimulada. É de quem malha os neurônios e não os músculos que virão o desenvolvimento de novas tecnologias, a cura do câncer, a erradicação da AIDS e as soluções para evitar o colapso climático que ocorrerá se o aquecimento global não for detido imediatamente. Mas esta constatação não se reflete em políticas públicas.

Há um completo desequilíbrio nos incentivos e nos investimentos, privilegiando sempre o desenvolvimento do físico e negligenciando o desenvolvimento do intelecto. Qualquer fim de mundo possui um campo de futebol ou uma quadra polidesportiva, quando não um ginásio de esportes. Procure porém um sarau literário, um clube de xadrez ou uma olimpíada de matemática em uma cidade com menos de cem mil habitantes.

O resultado disso é que direcionamos o desenvolvimento da sociedade com base nestes valores. Os meninos querem ser jogadores de futebol e as meninas querem ser modelos fotográficos. Ninguém quer ser cientista nem professor. E a grande tristeza é que essa é uma escolha economicamente racional, pois jogadores de futebol e modelos bem sucedidos viajam pelo mundo, são paparicados pela mídia e assediados pelas multidões, além de obter contratos milionários, enquanto um cientista bem sucedido em geral permanecerá anônimo e um professor bem sucedido com sorte terá uma bela festa de despedida na escola quando se aposentar após 35 anos de serviços para ganhar aquela maravilha do INSS.

Será exagero o que eu estou dizendo? Bem, faça um pequeno experimento. Anote em uma coluna o nome de todos os jogadores de futebol, pilotos de Fórmula-1, ginastas, tenistas, velejadores e outros atletas que você conhece, depois tente escrever ao lado de cada um deles o nome de um cientista, escritor, matemático, ganhador do Prêmio Nobel e outros intelectuais que você conhece. Tem que ser gente viva e você não pode consultar o Google nem a Wikipédia.

Poste nos comentários deste artigo a sua lista e as suas considerações sobre o futuro da sociedade que estes valores estão construindo, eu adoraria conferir.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 24/06/2009

32 thoughts on “Atletas são estimulados, intelectuais são reprimidos

  1. Excelente reflexão sobre a hipervalorização dos músculos sobre o intelecto na sociedade.

    1. Aristein, fico grato pela apreciação positiva. 🙂

  2. Airton Senna, Ronaldinho … hmm, valores? Namorar loiras lindas e famosas ou futuramente famosas.

    1. Se bem que eu não tenho nada contra namorar uma loira linda. 🙂

  3. KKKKKKKKKK

  4. Rocco Litencourt

    22/06/2010 — 21:57

    Não sabe como eu gostei desse texto e como me fez enxergar melhor algo que eu tinha uma noção básica, mas sem definição, como olhar por um papel manteiga.

    Também gostei muito do título [Pensar não dói], e um outro artigo sobre como lidar com trolls, mas na vida real.
    Finalmente achei alguém que não acredita 100% no “não liga que desliga”, em que na internet pode funcionar fácil, mas na vida real não. Sobretudo quando sai da palavra e vai pro físico, agressivo ou debochado.

    E o melhor! Você consegue escrever um texto bom de se ler sem usar daquele humor que vejo muitos cultos usando por aí na internet: algo semelhante [de longe] a Veríssimo.

    1. Rocco, mil desculpas por não ter visto teu comentário antes, obrigado pela visita e pelos elogios. Teu comentário justamente neste texto vai contribuir bastante para que eu aprimore o blog. Volta sempre.

  5. Hahahahah, demais! Sinto falta de idéias de como lutar contra esses valores, no dia-dia. Não soluções como: o governo tem que investir mais em bibliotecas!
    Sempre penso nas pequenas ações, e te admiro por fazer o mesmo. Dê alguns exemplos aí!

    1. Eu criaria um torneio semestral de leitura e outro de matemática para crianças de três a cinco anos. Prêmios de um milhão de reais para os dez primeiros colocados de cada estado da união em cada categoria e sorteio de trezentos prêmios de um milhão de reais entre todos os que atingirem a nota mínima de um teste de leitura e de matemática por faixa etária (cem para leitura e cem para matemática para quem tem três anos, cem para leitura e cem para matemática para quem tem quatro anos e cem para leitura e cem para matemática para quem tem cinco anos).

      Critérios de eliminação do concorrente: não gostar de ler, não gostar de matemática. Se ficar evidente que a criança foi forçada a ler ao invés de ter o gosto pela leitura incentivado, ou que não gosta de fazer cálculos, babaus, não ganha um centavo.

      Metodologia proposta para ensinar a criança a ler:

      Como ensinar seu bebê a ler

      Metodologia proposta para ensinar matemática à criança:

      Como ensinar matemática a seu bebê

      Mais informações:

      The Gentle Revolution Press

      Imagina o impacto que o lançamento de um programa desses teria.

      Em dez anos todo o sistema educacional do país seria outro. Em vinte anos todo o país seria outro. Em trinta anos todo o mundo seria outro.

  6. Não é à toa que temos mais farmácias do que livrarias,rs.

    E a ABL só serve de museu,
    cenário para o chá dos imortais.

    Enquanto as bibliotecas das universidades estão no limbo.

    1. Que tal achas a idéia dos torneios, que citei na resposta acima?

  7. Danilo envia saudações…..quase esqueci de transmitir,rs.

    1. Meu contato com ele era principalmente pelo MSN, mas eu parei de usar o MSN porque ele é uma terrível ferramenta anti-produtividade. Tenho que passar mais vezes no blog dele…

  8. Pois é……amigos são plantinhas,rs.

  9. Rafael Holanda

    11/02/2012 — 02:52

    Acho que os clubes de futebol e universidades/grupos de pesquisa deveriam trocar de método de recrutamento de jogadores/pesquisadores: Enquanto os grandes clubes detém um status quase mítico e escolhem a dedo os jogadores que receberão a honra de fazer parte do seu grupo, as universidades deveriam oferecer milhões se quiserem assinar um contrato com um pesquisador excelente.

    Quem sabe nesse mundo ao inverso não veríamos a maioria dos jogadores se matando de treinar pra ganhar uma mixaria e pesquisadores famosos sendo flagrados saindo da balada mais quente da cidade com uma loira gata desconhecida.

    Sonhar ainda é de graça, né? 🙂

    1. HUAHUAHUAHUA!!!!!

      É, sonhar pode. 😛

  10. A ignorância nunca foi uma opção. Estamos em processo de jumentização, quanto mais asnos, melhor pro poder.

  11. E o povo ainda se apega a um hedonismo tolo, totalmente hipnotizados, não sabem quem os controla, como são feitos os processos de manipulação através de engenharia social.

    Vou deixar um resuminho de um livro muito bom:

    1. Verdade também.

  12. Manipulação
    Chomsky e as 10 Estratégias de Manipulação Midiática – O lingüista estadunidense Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” através da mídia

    1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

    O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

    2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

    Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

    3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.

    Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

    4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.

    Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

    5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE.

    A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”)”.

    6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.

    Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

    7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

    Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

    8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE.

    Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

    9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE.

    Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

    10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

    No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

  13. Recomendo esse livro a todos, vão ver como funciona o processo de alienação da população.

    1. Nelson, na próxima vez que postares, preenche de novo o campo de e-mail manualmente. Fui verificar com que e-mail estavas te identificando e percebi que cometeste um erro de digitação, escreveste “neslon” ao invés de “nelson”, por isso o teu monstrinho está diferente.

    2. A propósito do teu comentário… qual é mesmo o nome do livro que recomendas? É o “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”? Ou é “10 Estratégias de Manipulação Midiática”? Fiquei confuso.

  14. Nossa, Nelson, eu jurava que você não leria nada de alguém de esquerda com medo de pegar burrice incurável, ou talvez, de se converter…

    1. Tambem estranhei um pouco. Mas obrigado Nelson, os 10 pontos são bem interessantes.

    2. “Conhecer o inimigo para melhor combatê-lo.”

      O Nelson sabe que isso é necessário. 😉

  15. “A propósito do teu comentário… qual é mesmo o nome do livro que recomendas? É o “Armas silenciosas para guerras tranqüilas”? Ou é “10 Estratégias de Manipulação Midiática”? Fiquei confuso.”

    Arthur: o nome do livro é: ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

  16. Autor: O lingüista estadunidense Noam Chomsky

    1. Sei, conheço a figura.

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