Democracia é um sistema de aferição da vontade de um grupo baseada na aferição das vontades de seus componentes individuais, independentemente do quanto qualquer desses indivíduos esteja qualificado para tomar uma decisão inteligente e bem informada sobre o assunto que esteja sendo decidido. Tipo assim desarmar uma bomba da qual saem um fio vermelho e um azul votando na cor do fio a ser cortado ao invés de investigar o mecanismo. Não sei como reclamam das mazelas da atual política, porque um sistema desses não tem mesmo como dar certo.

Para provar que toda democracia é burra, vamos fazer um experimento muito simples.

Imaginemos uma eleição qualquer, digamos para prefeito de uma cidade. Vamos então selecionar os 2% mais inteligentes e bem informados habitantes desta cidade e organizar a votação em duas urnas, da seguinte maneira:

Urna “A” = votos dos 2% mais inteligentes e bem informados.

Urna “B” = votos de todos os cidadãos restantes.

O próximo passo é proceder à votação e depois analisar os resultados. Temos duas diferentes possibilidades: ou os resultados eleitorais das urnas “A” e “B” são iguais, elegendo o mesmo candidato, ou são diferentes, elegendo candidatos diferentes.

Se “A” e “B” são iguais, significa que a inteligência e a boa informação não são relevantes para a democracia, pois não alteram seus resultados. Ouch!

Se “A” e “B” são diferentes, significa que a inteligência e a boa informação são relevantes para a democracia, mas acabam sufocadas pela burrice e desinformação majoritárias. Ouch!

Conclusão: toda democracia é burra, provadíssimo e sem escapatória!

.

(O texto é meu, mas o argumento é de Scott Adams, o criador do Dilbert e do Dogbert. Postado originalmente como tópico de debates no Orkut.)

12 thoughts on “Toda democracia é burra!

  1. Arthur,

    Desde que a Política começou a ser levada em consideração nas antigas cidades helênicas, o grande debate que sucedeu a esse fenômeno foi a respeito de qual forma de governo seria melhor: A Democracia ou a Aristocracia.

    A primeira forma de governo partia do pressuposto que todos os cidadãos eram iguais e que para diminuir a margem de erro das decisões políticas, quanto mais gente decidindo, a chance de erro era menor. A segunda forma de governo partia da concepção de que os cidadãos não eram iguais e que só os “melhores” – cuja superioridade era fixada por uma algum critério – deveriam mandar.

    Isso tudo num cenário onde a cidadania era um privilégio e toda a bagaça era mantida por escravos – levando em conta que a escravidão antiga mais se assemelhava ao nosso do trabalho assalariado do que à escravidão colonial, do contrário não seria possível manter a fabulosa relação cidadão/escravo que eles tinham não só lá como em toda costa do mediterrâneo.

    Isso vai até que a Democracia ateniense mata Sócrates. Pausa dramática. Platão se revolta, some de Atenas, volta anos depois e escreve a gloriosa Politheia – desditosamente traduzida como a República. Ali, surge a primeira grande apologia Ética da Aristocracia – mas os melhores seriam justamente os filósofos e não os ricos ou guerreiros.

    Aristóteles era aristocrata, mas defendia, ao contrário, de Platão, que tanto a Monarquia quanto a Democracia ou a Aristocracia eram viáveis ainda que todas corressem o risco de se degenerarem.

    Marco Túlio Cícero, em sua República – essa de fato, República mesmo – diz que o regime ideal era a…República e que ela se materializa enquanto uma mistura de Monarquia com Democracia e Aristocracia. Como isso? Cícero se inspira na própria Roma republicana que tinha os cônsules como monarcas, os comícios como manifestação de Democracia e o Senado como Aristocracia – República deixa de ser o sinônimo romano para Democracia e se torna assim algo maior.

    Nos pós-idade média, vemos a ideia de “cidadania” ressurgir com o iluminismo e se materializar apenas nas duas últimas Revoluções Burguesas. Cidadania deixou de ser privilégio para ser direito, mas pouca coisa mudou: Mesmo nos EUA, só votavam homens brancos e ricos – com efeito, os verdadeiros cidadãos. Também se inspiravam os americanos nas concepções do Barão de Montesquieu que larapiou de maneira descarada a ideia republicana de Cícero – deu naquilo que viria a ser a teoria da tripartição dos poderes com Executivo (Monarquia), Judiciário (Aristocracia) e Legislativo (Democracia).

    Desde então falamos em Democracia e em Estado de Direito – as regras limitando a veia linchadora da maioria; chefes de executivo eleitos assim como parlamentares e os juízes fazendo a representação contra-majoritária.

    Bullshit. O sufrágio universal só veio a ser realidade na França em 62 e nos EUA em 65 – ainda que no segundo caso as eleições permaneçam indiretas. O voto passa a ser de todos num momento em que a eleições passam a depender de máquina eleitoral e de dinheiro; não precisamos mais controlar eleitores para fazer com que eles sejam ricos, hoje os ricos eleitores compram campanhas, fabricam nomes; o poste de hoje pode ser o presidente de amanhã caso o lobby da vez pague o marketeiro certo na hora marcada.

    O Capitalismo cria uma assimetria entre os agentes políticos que mata qualquer coisa. Já temos o nosso regime de melhores. O critério é o dinheiro. É um tipo particular de Aristocracia chamado Plutocracia – e numa versão bem sofisticada.

    O Governo dos sábios como imaginou Platão permanece como uma elucubração de um gênio; a Democracia, por sua vez, nunca existiu – e não serviu nem mesmo pra matar Sócrates: Em Atenas o povo era escravo, aquilo que se chamava de Democracia era só uma forma horizontal dos melhores se organizarem para governar.

    Quiça um dia estejamos em igualdade material suficiente para fazer essa discussão de verdade, afinal, até hoje, sempre estivemos submetidos à aristocracia do momento sem que ninguém provasse de maneira cabal que o critério usado é inquestionável, mas se o fizessemos de fato e de direito, seria uma das raras e mais violentas ocorrências da Democracia.

    abraços

    1. Repostagem da minha resposta original:

      Hugo, qual o sentido de “violenta ocorrência” na última frase do teu comentário? Eu não vejo cerceamento de cidadania no fato de só permitir o voto a quem sabe o que está fazendo, porque quem não sabe o que está fazendo não está exercendo cidadania de qualquer modo, mesmo que realize o ato mecânico de marcar um “x” numa cédula ou apertar um botão colorido em uma urna eletrônica.

  2. Adoro o Scott Adams – a lógica dele é hilária!
    Curiosidade minha: qual a sua definição de ‘inteligência’? 😉
    abraço e ótimo domingo!

    1. “Inteligência é concordar com o Arthur.” 🙂

      Hehehehe… tá, foi só para não perder a piada!

      Segue em fundo verde a definição de inteligência.

  3. Definição de Inteligência

    O problema de definir inteligência é que a complexidade do conceito torna as definições ou extremamente longas ou extremamente esotéricas. Eu parei uns instantes para pensar e produzi a seguinte definição:

    “Inteligência é um conjunto multifatorial de habilidades mentais que permite utilizar informação para adaptar o comportamento de um modo distinto da tentativa-e-erro.”

    Eu acho que é uma ótima definição, mas é muito esotérica e plena de pressupostos, então vou me socorrer da Wikipédia para apresentar uma definição mais palatável para nossos propósitos:

    Inteligência é “uma capacidade mental bastante geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de forma abstrata, compreender idéias complexas, aprender rápido e aprender com a experiência. Não é uma mera aprendizagem literária, uma habilidade estritamente acadêmica ou um talento para sair-se bem em provas. Ao contrário disso, o conceito refere-se a uma capacidade mais ampla e mais profunda de compreensão do mundo à sua volta – ‘pegar no ar’, ‘pegar’ o sentido das coisas ou ‘perceber'”.

    Sendo importante a seguinte ressalva:

    “Os indivíduos diferem na habilidade de entender idéias complexas, de se adaptar com eficácia ao ambiente, de aprender com a experiência, de se engajar nas várias formas de raciocínio, de superar obstáculos mediante pensamento. Embora tais diferenças individuais possam ser substanciais, nunca são completamente consistentes: o desempenho intelectual de uma dada pessoa vai variar em ocasiões distintas, em domínios distintos, a se julgar por critérios distintos. Os conceitos de ‘inteligência’ são tentativas de aclarar e organizar este conjunto complexo de fenômenos.”

    Essa tralha toda está contida no meu conceito enxuto. 🙂

  4. concordo com sua visão.
    cada dia fico mais irritado com o país que vivo, se vc tem opinião contrária corre o risco de ser processado por qualquer motivo bizarro.

    1. Pior ainda é saber que a burrice é cláusula pétrea da CF-88.

  5. Por que será que mudaram a quase uma década a idade mínima de votar de 18 para 16 anos?! Pois sobre o pretexto de que a maioria dos cidadãos com idade de 16 anos já tem responsabilidade e conhecimentos/informações necessárias para votar não pode ser!!

    (Tem-se responsabilidade aos 16 anos para votar em quem vai dirigir o país por quatro anos, mas não se tem resposanbilidade e maturidade para dirigir um automóvel pelas ruas e nem maturidade para interpretar as leis de trânsito?)

    Ou será mesmo somente para criar maior contingente de votantes manipulados, entre outras coisas, por programas de “benefícios” à massa miserável?

    1. Alex, a coisa vai mais além: o sujeito aos 16 não pode nem sequer decidir se casa ou compra uma bicicleta, mas pode decidir a minha vida e a tua.

      Só não vê que o sistema é incoerente quem não quer.

  6. Arthur, concordo plenamente com você, mas quem vai julgar quem é inteligente e bem informado? Para se julgar alguém dessa maneira é preciso que o juíz também se inclua nesse grupo. Uma vez que os inteligentes e informados também tem interesses próprios, tão bem como os ricos, e só eles deteriam a legitimação do que é ou não importante – afinal, é para isso que foram selecionados sob esses critérios -, o que mudaria na agenda? Onde eu seria representado, uma vez que por princípio não tenho capacidade de julgar aquilo que deve ser julgado? Essa aproximação não parte do princípio de que eu não tenho ferramentas para exercer minha vontade, mas não tenho direito de ter vontade por não ter capacidade de ter a vontade certa. Afinal, teria eu direito a ter interesses que diferem dos interesses dos outros, sendo isso considerado inteligente ou não? Se tenho, quem velará por eles? Se não tenho, que tipo de governo é esse, afinal?

  7. Caro Arthur, Como saber a data (época), em que o homem adquiriu inteligência? A antropologia, não nos ajuda muito. Mas, creio que a partir desta data ele logo percebeu a existência da burrice, aqui me refiro a babaquice mesmo, que deve ser coisa com a mesma idade da inteligência. Ora! Meu amigo, o homem que Carolus Linnaeus classificou de “homo sapiens sapiens”. Particularmente, eu o nomino de “homo stultus stultus”. Naturalmente o homem inteligente é o espécime que atende ao contido na tua pesquisa! Pois, ele já adquiriu a capacidade e a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de forma abstrata, compreender ideias complexas, aprender rápido e aprender com a experiência. O homem a que me refiro, também perdeu sua sabedoria natural, a que chamamos de “INSTINTO”. É natural que esta perca tenha sido gradual. A medida que desenvolvia a inteligência, mais ele perdia o instinto. Espero que a burrice um dia se acabe, isto, quando a espécie completar sua aquisição de inteligência. Coisa que ainda vai demorar bastante. Aqui deixei o assunto “democracia burra” de lado. A democracia não está no âmbito nem na área dos conceitos fenomênicos físicos, mas sim, na área dos conceitos noumênicos, abstratos, que no kantismo é o que é pensado ou raciocinado, e que é o oposto do fenômeno físico “acontecente” ou seja, um (phaenomena). “Sendo a democracia equivalente ao (nooúmena) abstrato de Platão. Meu prezado Arthur, vós escreveste estes inteligentes comentários em 2010, eu, o fiz tardiamente em 2015. Mas, o que são cinco anos diante da janela da eternidade? Os erros da democracia, se é que os há! Logicamente deverão ser debitados aos homens… Não ao princípio democrático. A democracia é como o capitalismo, também possui seus senões! Mas, não se inventou “ainda”, nada melhor.Com a palavra! A Rússia e a China. Se há uma coisa imune a discussão, é a lógica!, Resp. das 17,27 hs

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *