De tanto ler apologia à vingança e à barbárie nos debates sobre como deveria ser o tratamento dos detentos em nosso sistema prisional, pus-me a imaginar como deveria ser o perfil profissional e a atuação cotidiana do profissional que hoje chamamos “agente penitenciário”. O resultado foi este pequeno texto, escrito de modo provocativo para se contrapor aos arautos da truculência, mas com um grande conteúdo de verdade. Quem gostou do artigo “Batalha entre duas generosidades” vai gostar deste aqui também. 😀 

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Em primeiro lugar não devemos mais chamar este profissional de “agente penitenciário”, pois quem deve fazer penitência é o autor verdadeiramente arrependido de uma ação não virtuosa. Chamemos pois este profissional de “Agente da Compaixão Solidária”, pois seu papel é oferecer amparo emocional e orientação aos infratores para que estes possam meditar proveitosamente sobre suas faltas e assim dar seu primeiro passo no caminho da reabilitação.

Em segundo lugar devemos selecionar para o cargo somente bons ouvintes, de índole pacienciosa, habilitados na arte do aconselhamento e com sólidos conhecimentos filosóficos, capazes de acolher o infrator em seu sofrimento pela privação de liberdade e motivá-lo amorosamente a rever seus valores e reestruturar sua relação com a sociedade de modo harmônico e produtivo.

Em terceiro lugar devemos oferecer condições de trabalho adequadas para que este profissional se torne confidente e conselheiro daqueles sob sua responsabilidade, garantindo-lhes privacidade e a possibilidade de convidar seus orientados a uma experiência conjunta de leveza contemplativa que conduza à reflexão, tal como meditarem juntos andando com os pés descalços à beira-mar, observando o horizonte enquanto a fresca brisa marinha lhes recorda o valor da liberdade e da harmonia com o ambiente.

As pessoas se recuperam moral e relacionalmente com exemplos elevados e pela ação da compaixão, não através de coerção e punições. É a dignidade e não o medo que resgata a humanidade.

Postado originalmente no Orkut em agosto de 2008.

5 thoughts on “Agentes da Compaixão Solidária nos Reeducandários

  1. Ahhh isso eu concordo, tenho um amigo que é agente penitenciário no Central e vive tomando remédios pra depressão. É uma realidade triste.
    bjos

    1. Rê, imagina que maravilha se pudéssemos manter cada detento isolado de todos os outros, restrito a sua cela, exceto no momento em que estivessem estudando ou trabalhando sob rígida supervisão para que não pudessem comentar nada sobre o mundo do crime.

      Quem não troca informações sobre um assunto se desatualiza e se desliga deste tema. Quem pode dormir tranqüilo não precisa assumir compromissos com facções criminosas para poder sobreviver.

      Imagina que maravilha se durante todo o período da pena lhes fosse exigido trabalho, estudo com aproveitamento e atitude positiva perante sua própria recuperação para obter os privilégios de receber visitas, de praticar esportes, de ver TV, etc. – logicamente contando com o bom exemplo dos agentes do Estado no trato diário.

      Quem passa alguns anos num regime assim destreina sua mente para o crime e tem a chance de treiná-la para o convívio em sociedade.

      A minha utopia é ou não é mais razoável que a grotesca distopia de nossa realidade?

    2. Ah, sim: e seria maravilhoso para os agentes do Estado também. Mostra este texto para teu amigo, pergunta para ele o que ele acharia de trabalhar nas condições que eu proponho e posta aqui a resposta, ou pede para ele mesmo opinar aqui! 😉

  2. É uma pena q isso é mesmo como você falou. Uma utopia =/

    1. Victor, pode ser que no formato que eu descrevi seja utópico, mas dá pra melhorar muito – muito mesmo – apenas obedecendo a Lei de Execuções Penais.

      Se cada detento ficar em uma cela individual, como exige a LEP, nenhum detento terá que fazer acordos com o crime organizado para poder dormir sem ser mutilado ou morto. Só isso já será um avanço imenso.

      Se cada detento puder estudar e trabalhar, como exige a LEP, quem quiser aproveitar o período de detenção para algum propósito útil terá essa possibilidade, o que hoje não ocorre. Outro avanço imenso.

      O grande problema é a incoerência de um sistema que pune quem transgride a lei ser gerido de um modo que viola a lei. Essa incoerência é dose pra mamute.

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