Preste atenção: eu escrevi “em defesa dos terroristas“, não “em defesa do terrorismo“. São duas coisas bem diferentes. Vamos analisar isso com atenção e com racionalidade, ok?

O terrorista é um ser humano como eu e você. Ele possui conceitos que consideramos equivocados e mesmo maldosos, mas provavelmente ele acha que está agindo corretamente, tanto é que muitos terroristas se explodem junto com suas vítimas. É difícil imaginar um nível de convicção maior do que este, em que um indivíduo dá a própria vida em nome do que pensa. O mesmo vale para os mercenários, que embora não tenham convicção por uma causa sem dúvida estão convictos de que sua motivação é pelo menos suficiente para justificar os riscos que correm ao executar ações ilegais e passíveis de repressão e retaliação.

O terrorismo, entretanto, não é um ser humano, é um tipo de estratégia usado para atingir algum objetivo. O terrorismo é caracterizado por atos de violência súbitos e imprevisíveis praticados contra alvos inocentes, buscando vincular as ações de um Estado ou de alguma outra organização à expectativa de novos ataques. A mensagem que o terrorismo procura passar é “façam isso, e a conseqüência será esta”, e não “façam isso, e nós faremos aquilo”, ou seja, no fundo é uma estratégia de transferência de responsabilidade.

Por ser um tipo de estratégia, é óbvio que é impossível combater diretamente o terrorismo, pois isso seria equivalente a “combater diretamente os ataques pelos flancos” – simplesmente não faz sentido. Então o combate ao terrorismo se faz combatendo diretamente os terroristas, certo? Errado.

Ninguém nasce “terrorista”. O que transforma uma pessoa em um terrorista não é um instinto nato, não é uma condição genética, não é nenhum conjunto de fatores congênitos. O que transforma uma pessoa em um terrorista é a confluência de um conjunto de condições ambientais, emocionais e culturais: opressão, violência e humilhação, que geram revolta, desesperança e a ilusão de que uma atitude extrema possa ser uma solução. Com este conjunto de condições presentes, basta uma pequena fagulha – como a ação de um manipulador político ou religioso – para construir um serial killer, um religioso fundamentalista, um “patriota” fanático, um soldado que não questiona a moralidade das ordens que recebe ou um terrorista, conforme as condições culturais favorecerem uma ou outra válvula de escape para a pressão insustentável que cai sobre os indivíduos. Não podemos prever quais indivíduos serão, mas em uma grande população sempre haverá alguns indivíduos que adotarão comportamentos extremos perante uma pressão igualmente extrema.

Adianta então declarar “guerra ao terrorismo” e prever tratamentos absurdos para terroristas confirmados ou suspeitos? Não. Isso é uma estupidez que só atende ao desejo de vingança irracional de alguns e aos interesses econômicos de uma grande máquina de moer carne humana que não se importa com o sofrimento e a morte de milhares ou milhões de seres humanos desde que esteja sendo bem abastecida com dinheiro.

A única coisa que pode deter o terrorismo é a eliminação das condições que conduzem as pessoas a sentir “revolta, desesperança e a ilusão de que uma atitude extrema possa ser uma solução”. Ou seja, É a eliminação da opressão, da humilhação e da violência. E como se constrói isso? Com o respeito aos Direitos Humanos. Com a construção de uma sociedade justa. Com práticas fraternas.

É fácil eliminar os terroristas: basta tratar o próximo como gostaríamos de ser tratados.

Postado originalmente no Orkut em setembro de 2007.

2 thoughts on “Em defesa dos terroristas

  1. Aline ferreira

    27/10/2009 — 16:08

    Achei seu site show de bola.

    1. Aline, muito obrigado pela visita e pelo elogio! Volta sempre!

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