As “campanhas de conscientização” propagadas pelo movimento ambientalista e as atitudes estilo “faça-sua-parte” sugeridas pelos ativistas ecológicos são prescrições anacrônicas de um ambientalismo amador com ilusões de que fechar a torneira ao escovar os dentes pode contribuir significativamente para proteger o planeta, no melhor estilo da história do beija-flor que buscava no rio uma gotinha de água de cada vez para jogar no incêndio da floresta. Este artigo propõe dar um tiro nesse beija-flor diversionista, dinamitar partes da floresta para abrir clareiras que impedirão a propagação das chamas e instalar aquedutos que permitam um combate a incêndio menos impactante e mais eficaz antes da próxima estação seca.

Vejam um exemplo real da história do beija-flor ocorrida em nível internacional no início deste ano:

A Hora do Planeta

Planeta X Aquecimento Global

Essa é a primeira eleição que acontece simultaneamente no mundo inteiro. No páreo, nosso planeta e o aquecimento global. Quem vai receber o seu voto?

O WWF-Brasil participa pela primeira vez da Hora do Planeta, um ato simbólico, que será realizado dia 28 de março, às 20h30, no qual governos, empresas e a população de todo o mundo são convidados a apagar as luzes para demonstrar sua preocupação com o aquecimento global.

Participe! É simples. Apague as luzes da sua sala.

Eu sou ecologista militante desde a adolescência, o típico “ambientalista de carteirinha”, e por causa disso me tornei biólogo e fiz um mestrado em ecologia. Ou seja, eu sou um sujeito bastante consciente e muito bem informado. Querem saber o que eu penso da “Hora do Planeta”? Sinto muito, é impublicável. Figurativamente: %#*#$&*&%#@$%*!!!!!!

Estou farto dessas “campanhas de conscientização”. É tudo uma palhaçada sem sentido, uma enganação em grande escala, que faz as pessoas pensarem que estão dando uma contribuição significativa mas que não resolve porcaria nenhuma.

Por que eu penso assim? Porque eu conheci o movimento ecológico brasileiro por dentro. Eu participei de tudo quanto foi evento sobre ecologia e ambientalismo durante décadas. Participei das reuniões e das atividades da mais combativa ONG ambientalista do Brasil naquela época, a AGAPAN. (Naquele tem se chamava “associação ecológica”, o termo “ONG” surgiu bem depois.) Participei de congressos, feiras, workshops, painéis, palestras e outros encontros, comprei e li muita literatura, pesquisei muito, debati muito e aprendi muito tanto no movimento social quanto na academia.

E não fiquei só na teoria, não! Eu fui multiplicador e ativista militante! Organizei palestras em escolas e grupos escoteiros. Distribuí milhares de panfletos informativos sobre meio ambiente, consumo consciente, poluição e atividades do movimento ecológico. Participei de muitas manifestações como “caminhadas pela paz e pelo meio ambiente”, organizei bicicletadas, contribuí financeiramente para o GREENPEACE, atuei como fiscal voluntário na AGAPAN e tanto atuei que cheguei a ser corrido a tiros por desmatadores clandestinos em uma ronda ambiental nos morros ao redor de Porto Alegre, entre inúmeras outras peripécias.

Também não fiquei só nas coisas “fáceis” citadas acima, eu estudei e aprendi dois idiomas para ter acesso a material técnico e fazer contatos internacionalmente. Fui moderador por mais de um ano de duas das primeiras listas de distribuição da internet (fóruns jurássicos de debates via e-mail) sobre a temática ambiental, a ECOLOG-L sobre ecologia e a ECON-ECOL sobre economia ecológica, isso no tempo que a internet nem era conhecida no Brasil. (É, eu sou um bit-o-sauro.) Criei e modero uma comunidade no Orkut dedicada a repensar a ecologia política, orientar ativistas e divulgar informação de qualidade. Dei aulas de ecologia do nível médio ao pós-graduação. Enfim, durante toda minha vida eu não fui apenas “consciente”, eu assumi um profundo compromisso com a causa ambiental.

Tá, mas e daí?” – perguntará você – “O que tem isso a ver com a Hora do Planeta e outras campanhas de conscientização?

Tem a ver que, fora um ou outro detalhe insignificante e com impacto ínfimo, a minha vida é igualzinha à vida do meu vizinho que não está nem aí para “a porcaria do meio ambiente”, que ele quer mais é que se dane.

Toda minha conscientização, todo meu conhecimento e todo meu compromisso não são capazes de produzir mais que uma pífia e ilusória “contribuição”, porque as atitudes individuais são pouco práticas e se tornam irrelevantes perante o esmagador poderio de um sistema cujas lógicas tecnológica, política e econômica a tudo engolem e nos empurram na direção de um colapso.

O mercado engessa o consumidor (I)

Apesar de toda minha consciência e conhecimento, eu compro os mesmos alimentos, produzidos com alto custo energético e destruição ambiental, provocadores de êxodo rural e acondicionados em embalagens derivadas de petróleo, no mesmo supermercado do meu vizinho alienado que quer mais que o meio ambiente se exploda. Por quê?

– Porque o supermercado fica a três quadras da minha casa, enquanto a feira ecológica mais próxima fica a seis quilômetros.

– Porque o supermercado tem estacionamento próprio gratuito e com seguranças, enquanto a feira ecológica fica em um bairro onde são freqüentes os roubos de carro e não tem nenhum estacionamento com segurança próximo, exceto dois estacionamentos pequenininhos que cobram R$ 5,00 pela primeira hora e R$ 1,50 pela hora adicional.

– Porque o supermercado fica aberto sete dias por semana, seis deles até a meia noite e no domingo até às 22h, enquanto a feira ecológica ocorre somente aos sábados das 7h 30min às 13h.

– Porque o supermercado possui milhares de itens de todos os tipos à disposição, incluindo muitos similares aos produtos ecológicos, embora produzidos por métodos não orgânicos e acondicionados em embalagens impossíveis de serem recicladas, enquanto a feira ecológica não chega a ter disponíveis duas dúzias de vegetais orgânicos e meia dúzia de artesanatos inúteis.

A exigência de planejamento logístico, o alto custo de transporte e segurança, a inconveniência dos horários e a ínfima variedade de mercadorias disponível tornam a feira ecológica muito mais um sarau semanal de eco-chatos e eco-iludidos do que uma alternativa viável de mercado para abastecer uma residência com os produtos necessários para o dia-a-dia.

A feira ecológica não tem a menor capacidade de atender as reais necessidades dos consumidores. Eu estou plenamente “conscientizado” mas simplesmente não tenho alternativas no mercado para atuar segundo minha consciência.

O mercado engessa o consumidor (II)

Outra área evidente em que a lógica do mercado inviabiliza a atuação do consumidor consciente é a do transporte. Eu sei muito bem que o consumo de combustíveis fósseis causa a recolocação de carbono fóssil na biosfera, além de gerar smog fotoquímico altamente danoso para a saúde, mas mesmo assim dirijo um automóvel poluidor movido a gasolina e o utilizo até mesmo para me deslocar em pequenas distâncias. Por quê?

– Porque eu não conseguiria cumprir os mais simples compromissos do meu dia-a-dia de cidadão urbano, tanto em função das distâncias que percorro quanto em função dos volumes que preciso transportar, se não contasse com um meio de transporte motorizado.

– Porque o transporte coletivo é uma desgraça ineficiente, desconfortável e tremendamente limitada em termos de horários, além de ser gerido de um modo totalmente desrespeitoso com o cidadão.

– Porque o carro “flex” mais barato do mercado custa mais do que um ano inteiro do meu salário como funcionário público e o custo do financiamento de qualquer bem a longo prazo se tornou proibitivo em função da crise gerada pelo capitalismo financeiro predador e especulativo.

– Porque uma moto não satisfaz plenamente minhas necessidades de conforto, praticidade e segurança, tanto em função da exposição às intempéries quanto em função do trânsito caótico quanto dos roubos e assaltos, além de que eu freqüentemente me desloco na companhia de mais de uma pessoa.

– Porque andar de bicicleta no trânsito da cidade é praticamente um suicídio devido ao planejamento das cidades desconsiderar totalmente a bicicleta como meio de transporte, havendo quando muito uma ou outra ciclovia direcionada para o lazer em áreas próximas a parques e praças.

Novamente eu estou plenamente “conscientizado”, sei que meu automóvel contribui para destruir o planeta, deteriorar a qualidade ambiental urbana e prejudicar minha própria saúde, mas não tenho alternativas no mercado que atendam minhas necessidades e me permitam atuar conforme minha consciência.

O que fazer, então?

Eu poderia levantar mais uma dúzia de exemplos com a maior facilidade, mas creio que estes dois deixam suficientemente claro que não adianta “conscientizar” alguém que não tem alternativas de ação.

Não adianta papagaiar contra a sacola plástica do supermercado se não existe no mercado uma sacola semelhante, biodegradável e oriunda de carbono não fóssil. (Alternativa tecnológica.)

Não adianta papagaiar contra as embalagens plásticas do supermercado se não existe interesse nem coragem no governo para implantar uma política nacional de embalagens e normatizar o setor para garantir a possibilidade de reciclagem. (Alternativa política.)

Não adianta papagaiar contra os plásticos em si se não houver um produto capaz de concorrer em praticidade e preço, mesmo que para isso seja necessário instituir subsídios ou taxações para promover uma economia sustentável. (Alternativa econômica.)

Portanto, pessoal, que raios ajuda a “Hora do Planeta”? Vocês vão deixar de consumir eletricidade produzida por termelétricas? Vocês têm realmente esta opção?

As alternativas tecnológicas existem: pode-se ter em casa painéis solares, cataventos, biodigestores, pode-se até gerar energia hidrelétrica em casa!

Mas e as alternativas políticas? Cadê os políticos alertando seus eleitores de que eles podem ajudar a preservar o ambiente, pagar menos eletricidade e ainda propiciar maior segurança para o sistema energético nacional? Sem isso as ações de meia dúzia de abnegados defensores das energias alternativas se torna irrelevante perante o tamanho do parque instalado de geração energética tradicional.

E as alternativas econômicas? Cadê o Plano Nacional de Financiamento de Instalações Domésticas Geradoras de Energia? Sem isso o consumidor acaba sendo forçado a optar pela forma tradicional porque seu custo de implantação é menor, embora seu custo de manutenção seja maior.

É por alternativas tecnológicas, políticas e econômicas de alta praticidade, resolutivas e acessíveis que temos que lutar, não para “conscientizar” sem propiciar alternativas realistas implementáveis em larga escala! E isso requer uma completa reorientação do movimento ecológico brasileiro, com ampla reorganização política, segundo um modelo radicalmente diferente de todas as alternativas hoje disponíveis no cenário nacional.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 31/08/2009

Publicado originalmente no Orkut em março de 2009.

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One thought on “Ecologia Política de Resultados não se faz com ambientalismo amador

  1. Olá Arthur

    Concordo parcialmente. Apagar a luz é inócuo e a feira tá mais pra sarau de bicho-grilo. Onde vou, metades das barracas traz tudo do Ceasa, puro veneno e os cara-da-pau t6em coragem de dizer que “só tem um pouco’……Eu vou nela todos os sabados e tento nao usa ro plastico, mas nem sempre dá. Mas achoq ue , pelo menos o fato do Homer Simpson ali do AP viziho ser alertado sobre os problemas ambientais é melhos do que nada. A soclucao esta mesmo na pesquisa E na vontade politica. Quem elege os politicos? O cidadão. Se tivermos uma massa crítica que comece a ver que meio ambiente tenha a haver com ele, mesmo que de longe (só mandando a ele água e comida, essas coisas que todo mundo usa e nao precisam muito da natureza, c sabe como é né). Mas como vamos consicentizar esse bolo de gente que vive entafuiada na sala sobre meio ambiente senao pro meio dessas campanhas? Acho que a principal funcao delas é essa, e só. Mas esse “só” se tiver o efeito em larga escala, acho que vale.

    Num país acostumado a ver tanta corrupcão e impunidade, que tolera cola como coisa normal, que tem uma vilencia assutadora, que tem nos estados do Centro – Oeste e Norte – e faz vista grossa – a vários Wounded Knees, ainda temos um bocado que andar pra chegar a ter voto ecológico em massa e politicos que façam juz a ele. Mas, o mercado regula quase tudo, desde que também regulado (senão, dana tudo, como bem sabemos).

    O governo precisa agir com propostas e incentivos de larga escala pois deve dar repostas às demandas da sociedade. Logo, se ela se mexe e força o governo, entao a coisa começa a ndar. A força motriz da mudança pode ser o bolso ou a educação (entendida aqui amplamente, incluindo aquela que leva as pessoas a se rebelarem contra a opressao). Acabou de haver nos EUA um congresso sobre agricultura organica em que se esperava umas 50 pessoas. Vieram mais de 300. a coiaas começam a mudar, mesmo no país da coca-cola e na terra-mãe do Homer Simpson (do desenho e dos de carne-e-osso).

    A coisa também tem que mudar na zona rural. É filosófica também. A forma de tratar a terra muda completamente quando você trata a fazenda ou sítio como uma fábrica de comida ou como um lugar pra se viver (isso não é fala minha, com a qual concordo, mas do Aldo Leopold, que a cada dia me impressiona mais). Grandes companhias começam a estabelecer no Brasil o sistema “fábrica de comida”, numa relacao perigosa para os produtores com a que a Monsanto estabeleceu nos EUA com os plantadores do seu milho. Pra que lado vamos? O produtor rural MESMO, especialmente o pequeno, tem matar um leão por dia pra poder vencer o mês

    Bom, precisamos de ciencia, vontade politica, votos da massa e de gente que afaca a ponte ciencia-politicos pra tentar mudar as leis que, afinal, definem muito do que somos como sociedade.

    Enquanto tiver água, vamo remando…

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