A democracia surgiu na Grécia, quando os cidadãos se reuniam em praça pública para deliberar sobre a administração da cidade. Mas cidadãos eram apenas os indivíduos do sexo masculino, possuidores de terras e escravos, descendentes de outros cidadãos. Era um sistema sexista, elitista, escravocrata e hereditário, que privilegiava uma minoria poderosa em detrimento da maioria do povo. E continua assim. Está na hora de abrir os olhos e deixar para trás este sistema problemático e obsoleto.

A democracia passou a ser considerada “o governo do povo” e dita “o pior regime que já foi inventado, fora todos os outros”, como se não fosse apenas um modo de administrar que tem virtudes e defeitos como qualquer outro sistema político ou forma de governo. Ao tomar-se um mero método organizacional para confronto de idéias e tomada de decisões pela suprema encarnação dos princípios mais nobres da humanidade, perdeu-se a objetividade para analisá-lo.

A ideologia democrática virou dogma inquestionável, quem se “atreve” afirmar que a democracia não é necessariamente a última bolachinha do pacote passa a ser imediatamente acusado de “antidemocrático” (uma tautologia óbvia, mas que por algum motivo absurdo é vista como xingamento) e confrontado com argumentos “iluminados” do naipe de “o que você quer então, uma ditadura?” – como se só existissem essas duas alternativas.

O fato é que a democracia nasceu torta, cresceu torta e já demonstrou que possui problemas praticamente insanáveis. O princípio “uma pessoa, um voto”, que deveria representar “a expressão máxima da igualdade entre os homens”, demonstrou ser uma excelente maneira de maquiar a manipulação das massas, fazendo-as crer que decidem alguma coisa importante, enquanto o verdadeiro poder continua sendo exercido de outras fontes e continua sexista, elitista, escravocrata e hereditário, só que maquiado e palatável.

Será que estamos condenados a remendar eternamente as instituições ao invés de gerar um sistema político mais capacitado e coerente para instituir os ideais que insistimos em apelidar de democráticos mesmo quando as evidências não suportam essa tese?

Qual o problema de imaginar um regime pós-democrático em que os vícios da democracia sejam sanados e que produza mais justiça e mais satisfação?

Postado originalmente no Orkut em março de 2009. Revisto e ampliado em setembro de 2009.

13 thoughts on “A democracia já deu o que tinha que dar!

  1. Caro Arthur! Ainda acho que a democracia pode ser melhorada sem nunca chegar a ser um sistema perfeito. Para que um povo tenha condições de escolher de forma madura os seus representantes necessita antes ser um povo maduro, e do modo como as coisas se apresentam corremos o risco de servos extintos antes de atingirmos este estágio. No Cágado, (graças pela permanência dos acentos nas proparoxítonas), afirmei que a democracia é uma farsa…uma deturpação da palavra para fins aliciadores em prol do interesse econômico de uma minoria aristocrática. Se me permite deixo o link para quem quiser concordar ou sentar o pau. Saudações. http://romacof.wordpress.com/2009/09/06/a-democracia-e-uma-farsa/

    1. Saudações, Romacof! Fica à vontade para linkar teus artigos sempre que quiseres! Eu tentei comentar lá no teu blog mas o comentário evaporou, tu habilitaste a moderação dos comentários?

      Eu concordo planamente contigo que “a democracia pode ser melhorada sem nunca chegar a ser um sistema perfeito”, porque (1) sou da opinião que as atuais democracias possuem muitos vícios corrigíveis e porque (2) quando as atuais democracias forem depuradas de seus vícios corrigíveis, será finalmente visível o conjunto de vícios incorrigíveis do sistema democrático, permitindo-nos elaborar um sistema político distinto que promova todos os benefícios da democracia sem no entanto os riscos e distorções possíveis na democracia.

      Muito resumidamente eu diria que eu quero acabar com a democracia aperfeiçoando-a tanto que suas contradições internas se tornem evidentes e estimulem os povos a buscar um sistema político melhor. 🙂

  2. lá nos meus 15 anos, quanda li pela primeira vez a Taylor Caldwell expressar opinião semelhante, confesso que fiquei chocado. Porém, estou escrevendo mais um comentário aqui, na idéia de dizer que estou ficando seu fã. Um amigo meu colocou recentemente na coluna que assina num jornal, que está farto de pessoas repetirem que os livros sempre são melhores que os filmes, e deu alguns exemplos em que os filmes ficaram melhores. É um risco de ser massacrado, como falar a verdade sobre a democracia. Admiro quem tem coragem. Parabéns.

    1. Mauro, eu não conhecia a Taylor Caldwell, tive que rezar para São Google. 🙂 (Compara os verbetes sobre ela na Wikipédia em português e em inglês, mas primeiro pega um lenço de papel, porque é de chorar.)

      Tenho dois comentários a respeito de Taylor Caldwell:

      “The nature of human beings never changes; it is immutable. The present generation of children and the present generation of young adults from the age of thirteen to eighteen is, therefore, no different from that of their great-great-grandparents. Political fads come and go; theories rise and fall; the scientific ‘truth’ of today becomes the discarded error of tomorrow. Man’s ideas change, but not his inherent nature. That remains. So, if the children are monstrous today – even criminal – it is not because their natures have become polluted, but because they have not been taught better, nor disciplined.” – On Growing Up Tough, chapter The Purple Lodge

      Esta afirmação eu posso avaliar tecnicamente.

      Do ponto de vista da escala temporal que ela deve ter feito a avaliação, ela está correta em dizer que a natureza humana é imutável. (Eu suponho que ela deva ter usado uma escala histórica e não uma escala evolutiva.) Se usássemos uma máquina do tempo para trocar uma criança nascida há 10.000 anos por uma nascida ontem, os pais de ambas teriam a mesma chance de identificar a troca que teriam se a troca tivesse sido feita entre duas crianças nascidas no mesmo dia.

      Porém, ela está apenas parcialmente correta em sua análise quanto às causas da mudança perceptível do comportamento “das crianças da presente geração” (ironicamente uma expressão válida em outras gerações). É fato que a educação moral e cívica (termo escolhido propositalmente) tem decaído bastante, muito em função da confusão da era pós-moderna. Mas a educação não é o único fator que determina o comportamento humano: o ambiente onde hoje se desenvolve a maioria dos seres humanos está muito diferente daquele em que se desenvolviam nossos antepassados, e o mesmo animal em um ambiente diferente comportar-se-á de modo distinto. Por exemplo, eu não costumo usar mesóclises batendo papo no barzinho. 🙂

      Esta é uma excelente temática para um futuro artigo no Pensar não dói, vou ver se rascunho alguma coisa. Por enquanto deixo apenas uma imagem para pensar a respeito: dois machos de “peixes-de-briga” (Betta splendens) podem viver no mesmo aquário? Resposta: a maior parte das pessoas diria que não, mas na verdade depende do tamanho do aquário.

      OK, voltando à Taylor Caldwell: “Many of Caldwell’s books centered on the idea that a small cabal of rich, powerful men secretly controlled the world.”

      Esta afirmação eu não posso avaliar tecnicamente, nem acho que alguém possa, mas se evitarmos enveredar pelo caminho da “teoria da conspiração” ela se apresenta bem plausível. Eu saberia dizer até mesmo onde é possível encontrar uma boa quantidade destes indivíduos: eles operam nas bolsas de valores e nas cúpulas dos maiores partidos das nações ricas. Faz sentido?

  3. O Brasil está precisando de um despota esclarecido. Na minha opiniao poderia ser o Gilmer Mendes! Ele comanda!

    1. Peraí que eu vou ali na esquina colocar a cabeça embaixo da roda de um ônibus em movimento e já volto…

  4. na verdade vc já está conhecendo bem mais da Taylor que eu (e se tentasse descobrir mais sobre ela na wikipédia em português, choraria mesmo). Confesso que o que mais me atraía nela eram as obras e fui fisgado por alguns bons romances. Meio copiando o meu amigo, que falou que nem todos os livros são melhores que os filmes feitos deles, eu digo que implico com quem “passa longe” da estante dos best sellers, até pq já fiz isso e acabei deixando de ler alguns bons livros. A Taylor caiu na graça da mídia literária e emplacou muitos best sellers. Em relação ao pensamente sobre democracia dela, que foi uma grande pesquisadora histórica, ficou marcado na memória a frase: toda democracia tende a descambar para uma ditadura. De certa forma, hoje, na cultura de endeusamento (ela é quase uma entide a ser venereda) da democracia como única forma moderna de governo saudável, não deixa de haver várias ditaduras nela embutida, fazendo pano de fundo aos ideais de liberdade (o que está bem colocado na sua matéria).
    Ficarei esperando a postagem sobre aguários de peixes…
    e obrigado por colocar meu blog na lista dos amigos.
    mauro

    1. “toda democracia tende a descambar para uma ditadura”

      Para ser mais exato, uma ditadura do proletariado manipulado.

  5. vivemos em uma democracia aristocratica

  6. Layane! Os dois conceitos são excludentes. A aristocracia segue o princípio da casta superior (auto-conceituada) perpetuando-se pelo bem da própria casta. A democracia pressupõe igualdades e gerenciamento pelo consenso. Na democracia, que alega-se existir no Brasil, todos os poderes se aristocratizaram, dando razão ao paradoxo que você enunciou. Por isto algumas cabeças afirmam que a democracia morreu, ou é uma farsa, ou “já deu o que tinha que dar”. Primeiro por que o povo em geral está fazendo suas necessidades fisiológicas e deambulando para a política e para os políticos. Na essência o povo se divide em duas facções: uma minoria que quer trabalhar e quer que os pretensos gerenciadores não atrapalhem, e uma imensa maioria que boia…espera que Puja seja uma dalit que consiga mamar na teta do estado, acha o Zé Dirceu “um ômi tão bão”, e se o “Coríntia ganhá o resto qui sisprôda”. Com tanta massa de manobra é uma delícia governar este país! Mas há uma saída…! Não é Arthur?

    1. “o povo em geral está fazendo suas necessidades fisiológicas e deambulando para a política e para os políticos”

      HUAHUAHUAHUA!!! Essa foi genial, não sei como eu ainda não tinha comentado isso! 😛

      A saída tu já conheces, Romacof, vamos amadurecer a idéia para que ela possa ser divulgada sem distorções. 😉

  7. Olá Arthur,

    Bom, devo perguntar o mesmo que você perguntou ao Alex, quando ele disse ‘falhamos com as mulheres’…

    Ok, vc disse que é contra a democracia, e contra a ditadura. Mas o que, exatamente, deveria ser colocado no lugar?

    1. Opa! Eu estava viajando quando postaste esta pergunta, só a encontrei agora. Tomara que ainda esteja valendo a resposta.

      No lugar da democracia deveria ser colocado um regime mais adequado para promover os ideais democráticos.

      A democracia é um método que não é capaz de promover os ideais que diz promover. Ora, o que interessa é promover estes ideais através do método mais eficaz, mais justo, mais prático, mais eficiente e menos corruptível que possamos desenvolver, não apegar-se a um método falho só porque damos a ele um nome semelhante ao nome que damos aos ideais que ele supostamente promove.

      Eu poderia sugerir diversos métodos para promover alguns dos mais nobres ideais democráticos de modo muito mais eficaz, mais justo, mais prático, mais eficiente e menos corruptível do que tem sido feito (?) hoje em dia, mas já fiz o teste aqui e ali e ficou evidente que a democracia é um dogma que muito poucos aceitam questionar, então estou pensando melhor em como abordar a questão.

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