As pessoas complicam muito os relacionamentos, de modo totalmente desnecessário. Se rola química, conversa interessante, afinidade cultural, boa vontade para compatibilizar projetos, transparência de propósitos e confiança mútua, 90% do caminho está trilhado. Agora você vai aprender como garantir mais 9% de fatores de sucesso. O 1% restante é a margem de erro reservada para você não brigar comigo se a dica não der certo…

Eu vejo muita gente se estressando em função de besteiras que jamais deveriam ter a menor influência em um relacionamento: ela reclama da toalha molhada que ele deixou em cima da cama, ele reclama da calcinha molhada que ela deixou pendurada na torneira do chuveiro, os dois discutem em que posição deve ficar a tampa da privada, etc. Estes são exemplos bobos e clássicos, mas todo casal tem sua cota de bagatelas que geram brigas recorrentes. Quando os ressentimentos começam a se formar, a paciência começa a diminuir, o clima fica ruim e ambos começam a preferir a companhia de outras pessoas sem saber direito por quê – resultado previsível do desgaste do relacionamento.

Outros tantos se ressentem da falta de aceitação e de apoio ou da interferência excessiva da família, ou esquecem que se seus filhos são mal educados a culpa é sua mesmo, ou descontam as frustrações do trabalho na pessoa que amam, ou brigam por dinheiro, ou começam a acreditar que sozinhos teriam maior chance de enfrentar os seus problemas, venham eles de onde vierem.

E há também aqueles que, perante as dificuldades da vida, terceirizam a responsabilidade pelo próprio sucesso ou fracasso, culpam outras pessoas, apelam a fórmulas mágicas, acham que Deus, ou os Orixás, ou o pastor, ou o psicólogo, ou o amigo, ou uma simpatia, ou um caso extraconjugal, ou outra muleta qualquer terá o poder de salvar seu relacionamento. Tem até gente que lê artigos na internet que prometem revelar “o segredo do sucesso nos relacionamentos”, veja só!

(Arrãm.)

Se você já entendeu que o segredo para o sucesso nos relacionamentos é assumir a responsabilidade de fazer os relacionamentos darem certo, então eu tenho algumas reflexões para compartilhar com você que podem ajudar.

1) Ninguém é perfeito

Seu chefe é um tubarão, seu funcionário é um burro, sua sogra é uma jararaca, seu sogro é um porco, seu cunhado é um verme, sua irmã é uma perua, seu filho é um veadinho, sua filha é uma galinha? Nem tudo no zoológico da vida se pode controlar. Mas quem escolhe casar com um cavalo ou com uma piranha é você. Não seja uma anta. Você precisa escolher uma pessoa com defeitos que você possa aceitar e conviver a longo prazo.

Uma vez reconhecido o fato que a pessoa que você ama tem e terá seus defeitos por toda a vida, você não precisa nem deve se resignar e passar a aceitar qualquer barbaridade como se tivesse sangue de barata nas veias. Mas você pode aprender a informar com delicadeza que algo está lhe fazendo mal. Pode agir com mais generosidade e ajudar esta pessoa a superar algumas de suas dificuldades. E pode mostrar maior compreensão quando a pessoa que ama revelar alguma limitação. Não é este o tratamento que você preferiria receber?

2) Você não é a perfeição em pessoa

Você também tem defeitos. E os seus defeitos mais graves não são aqueles que você considera mais importantes, mas aqueles que mais incomodam a pessoa com quem você convive intimamente. Você pode achar irrelevante aquela calcinha pendurada no chuveiro ou aquela toalha jogada na cama, mas isso pode ser importante para quem vive com você. Se a pessoa que você ama se incomoda muito com a atitude “x” e para você a atitude “x” não é relevante, evite o atrito. Se “x” é relevante para você, negocie.

Eu tinha escrito que “é bem provável” que você não consiga evitar certas mancadas, mas logo percebi que na verdade isso é uma certeza. Você vai errar. E vai errar inúmeras vezes, de diversas maneiras diferentes, sendo que algumas vão se repetir de modo bastante irritante. Portanto, cultive a atenção e procure corrigir os seus defeitos mais graves, assim as mancadas que você inevitavelmente cometerá serão de menor importância.

3) Nenhum relacionamento é perfeito

Se os seus defeitos ou os defeitos da pessoa que você ama começarem a perturbar o relacionamento, então vocês precisam estabelecer um diálogo, não uma troca de monólogos. Nos dois casos as duas pessoas falam o que querem, a diferença é que num diálogo ou dois ouvem e levam em consideração o que a outra diz.

Ser paciente é bom, mas os problemas não se resolvem sozinhos. Engolir sapos sem digeri-los só retarda a chegada do dia de explodir numa torrente de ressentimentos, por isso o diálogo franco é importante para resolver os problemas em conjunto. Se você quiser construir um relacionamento saudável e duradouro, precisa lembrar-se que você e a pessoa que ama formam uma equipe, vocês não podem nem deixar o outro jogar sozinho, nem jogar em times adversários.

Abra o coração, diga o que sente, mas abra também a mente e procure resolver os problemas de modo criativo e satisfatório para ambos. Negociar de modo ponderado é produtivo, eliminar os problemas é melhor ainda. Coloque um varal dentro do banheiro para pendurar calcinhas e toalhas, junte a calcinha dela ou a toalha dele ao invés de reclamar, bole alguma solução, invente uma maneira de preparar Neston, faça alguma coisa, Mutley, só não espere que soluções milagrosas caiam do céu.

E nunca diga que estaria melhor só. Nunca. Jamais. Em nenhuma hipótese. Aliás, se você não estiver absolutamente calmo, nem sequer pense nisso. Esse é o tipo de idéia perniciosa que envenena a mente e obscurece a visão de todas as boas alternativas. Não é assunto para se pensar de cabeça quente.

4) O mundo não é perfeito

Você pede para seu chefe para sair uma hora mais cedo para reservar um restaurante para comemorar seu aniversário de casamento e ele demite você por “falta de foco no trabalho”.

No dia seguinte você pergunta para sua filha adolescente se ela quer uma festa de quinze anos ou uma viagem para a Disney e ela diz que não vai dar para fazer nem um, nem outro, porque no dia do aniversário, dali a quatro meses, estará com uma barriga de oito meses.

Então você conta a história para sua sogra, achando que vai receber algum apoio, e a jararaca põe a culpa em você por ser fútil e não saber cuidar dos filhos como ela cuidou.

Você vai ter uma crise de estupidez e usar estes problemas para dinamitar de vez seu relacionamento ou vai recorrer a seu relacionamento como um porto seguro no meio da tempestade?

5) Não existe uma fórmula perfeita para o sucesso

O que existe é uma contínua seqüência de decisões que vão construindo ou destruindo o relacionamento um dia após o outro. Você escolhe a pessoa errada. Ou escolhe a pessoa certa, mas cria problemas. Ou não cria problemas, mas não sabe solucionar os que surgem. Ou soluciona os problemas que surgem, mas destrói o relacionamento no processo.

Seja qual for o seu caso, eu só posso lhe dizer que com amor, respeito, diálogo, boa vontade e confiança você pode construir uma relação saudável e gratificante, mas sem sem estes elementos a sua chance é próxima de zero. Sem compromisso, porém, a sua chance é mesmo zero, pois no primeiro abalo alguém vai achar mais fácil pular fora que lutar para superar um obstáculo.

Quer uma dica? Leia este texto junto com a pessoa que você ama e assumam juntos, olhos nos olhos, a responsabilidade e o compromisso de fazer o relacionamento de vocês dar certo e se tornar um porto seguro e uma fonte de alegria e felicidade. Afinal, só vocês podem fazer isso.

Você já conhece o segredo. Agora coloque-o em prática.

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7 thoughts on “O segredo do sucesso nos relacionamentos

  1. Pois é o que minha sábia avozinha, que hoje joga mahjong com Santa Rita, dizia: é preciso muita paciência. Com os outros, com o mundo e com a gente mesma. Bom, ela foi casada por quase 65 anos com meu avô, então quem sou eu pra discordar, né? 🙂
    abraço!

    1. O problema é que só paciência, sem cumplicidade, ninguém consegue manter por 65 anos. Certamente vovó não contou tudo. Aposto que eles gostavam muito um do outro. 🙂

  2. Mulheres iguais a minha há aos milhares. Possivelmente algumas com características superiores em um ou outro quesito. Mas a minha é especial. Especialista. Única. Duvido encontrar uma que me suporte com toda minha maluquice. Este é o segredo de um bom relacionamento.

    1. Hehehehe… Parabéns, meu caro, pois isso está cada vez mais raro. Hoje em dia todo mundo exige ser aceito como é, mas ninguém tolera as idiossincrasias alheias. O resultado é que perante a primeira dificuldade séria a maioria dos relacionamentos se desfaz.

  3. Um dos fatores a que imputo maior responsabilidade pela dificuldade generalizada de manter relacionamentos duradouros hoje em dia é a cultura do “ficar” que se estabeleceu a partir da minha geração e atingiu níveis aberrantes hoje em dia.

    Eu tive algumas amigas com quase trinta anos que ainda saíam para a balada toda a semana “pra pegar uns gateeeeenhos e beijar moooooito”, nas palavras delas. Não é que elas sejam retardadas ou coisa que o valha, é simplesmente o resultado do treinamento a que os jovens hoje em dia se submetem desde a mais tenra adolescência, quando a disponibilidade de parceiros é praticamente ilimitada e o desestímulo à formação de vínculos vem tanto da família quanto dos amigos.

    A conseqüência trágica dessa dinâmica é que ninguém aprende a construir um relacionamento, limitando-se a trocar experiências superficiais ao longo de mais de uma década e chegando à idade adulta sem nenhuma idéia de como lidar com uma pessoa real.

    Esse pessoal não percebe que para matar a carência afetiva é necessário desenvolver a capacidade de construir vínculos afetivos. Contato meramente físico não supre a necessidade de afeto de ninguém. Quem entra nessa onda nunca fica satisfeito, podendo sempre ser encontrado na noite seguinte procurando mais uma dose de ilusão na balada. (Qualquer semelhança com a atitude de viciados em drogas não é mera coincidência.)

    Como muita gente se encontra preso na mesma armadilha, o mercado de carne humana na balada se retroalimenta e perpetua o ciclo de relacionamentos superficiais de alta rotatividade.

  4. Eu te admiro, cara. Você é machista, irônico, ateu (pense nisso comicamente, pois é o soar que quero dar) mas incrivelmente sensível ao mesmo tempo. Você acredita simplesmente que o mundo é uma coisa fácil de se entender a teoria e complicado de se colocar em prática, e eu tenho que admitir que concordo. Afinal, escreva sobre Pedofilia, pois ainda não vi nenhum tópico seu sobre isso, e esse é um tema que me faz rir muito. Obrigada.

    1. Pô, eu não sou machista, nem ateu. Mas ironicamente só estou respondendo esta mensagem quase um ano e meio depois. 😛 Certo, registrado, eu ainda vou escrever sobre pedofilia.

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