Hoje recebi o seguinte tweet do GreenpeaceBR: “Use os dois lados da folha de papel. Se for reciclado melhor ainda. Essa dica faz a diferença.” NÃO, GREENPEACE, ESSA DICA NÃO FAZ A DIFERENÇA! Fico pasmo com a incapacidade do Movimento Ecológico e Ambientalista de abrir os olhos e reconhecer que as estratégias que faziam sentido na década de 1970 hoje são inócuas, diversionistas e portanto suicidas! PAREM DE SE ENGANAR, PAREM DE ENGANAR AS PESSOAS! Estamos no Século XXI, o mundo mudou muito desde a Estocolmo 1972 e da Rio-92, precisamos de um tipo completamente diferente de ativismo ecológico! 

ecobag
Não, você não é verde. Você é só ecochato.

O Movimento Ecológico durante décadas investiu em estratégias inócuas de “conscientização” e em medidas pouco práticas e com baixo potencial resolutivo.

Agora que estamos assistindo o colapso do equilíbrio climático e dos sistemas de suporte de vida planetários é evidente que estas estratégias têm que mudar.

O ativista ecológico não pode mais perder tempo investindo em medidas paliativas implementadas a passo de formiguinha, é necessário mobilizar com urgência as comunidades e alterar os rumos da vida política e econômica nacional.

Eu me recordo de uma notícia que li em 23 de janeiro de 2009 e que após pelo menos uma década de meditação a respeito foi a gota d’água que fez com que eu finalmente firmasse posição radicalmente contra toda e qualquer estratégia de “conscientização” ao estilo “usar os dois lados da folha de papel”:

PETROBRAS investirá US$ 174,4 bi entre 2009 e 2013

RIO DE JANEIRO (Reuters) – A Petrobras anunciou na sexta-feira um plano de investimento de 174,4 bilhões de dólares para o período de 2009 a 2013, contra 112,4 bilhões no plano anterior, de 2008 a 2012.

Do total de investimentos, 157,3 bilhões de dólares, ou 90 por cento do montante, serão aplicados no Brasil; e 16,8 bilhões, ou 10 por cento, no exterior.

O total destinado à exploração e produção, incluindo a camada pré-sal, foi projetado em 92 bilhões de dólares entre 2009 e 2013, contra 65 bilhões no plano anterior.

De acordo com anúncio feito pelo presidente José Sergio Gabrielli na sede da estatal, o plano de produção prevê que a produção alcance 3,3 milhões de barris de óleo equivalente por dia em 2013.

(Reportagem de Denise Luna)

Perante este imenso volume diário de lançamento de carbono fóssil na atmosfera, é piada de mau gosto orientar as pessoas a realizar pequenos sacrifícios cotidianos para “salvar o planeta”!

É ridículo pedir para o povo fechar a torneira da pia enquanto escova os dentes para “fazer a sua parte” e “economizar recursos”.

É ridículo pedir para a dona de casa guardar o óleo de cozinha usado em uma garrafa PET ao invés de jogar na pia.

É ridículo fazer campanha para alguém usar papel reciclado.

Mesmo que todos os habitantes do planeta passassem a fazer todas estas coisas hoje, o impacto do somatório de todas essas pequenas atitudes seria ínfimo e o resultado total seria inócuo para redefinir o futuro do planeta. Isso não é Movimento Ecológico, isso é mera auto-ilusão com objetivo de desencargo de consciência.

As ações que realmente vão fazer a diferença não estão ao alcance da atuação individual. Mesmo que todos os cidadãos façam “a sua parte”, a Petrobrás sozinha com quatro anos de “investimento” será capaz de poluir o planeta com “3,3 milhões de barris de óleo equivalente por dia” e realmente fará isso, tornando qualquer esforço de atuação individual totalmente irrelevante.

Temos que abandonar as ilusões.

Orientar as pessoas a usar o outro lado da folha de papel quando a Petrobrás está prestes a lançar 3,3 milhões de barris por dia de carbono fóssil na atmosfera é como repetir aquela história ridícula do beija-flor que durante um imenso incêndio florestal insiste em buscar uma gotinha d’água no bico e jogar nas chamas. Muito bonitinho pra ensinar as crianças alguns rudimentos éticos para que não se corrompam – e só.

No mundo real, investir em “conscientização” para a tomada de atitudes individuais só impede que as pessoas façam realmente alguma coisa que traga resultados concretos. Isso é ilusório. Esta bobagem tem que ser abandonada!

Temos que mapear adequadamente a realidade.

O Movimento Ecológico não sabe mais com o que está lidando. Não estamos mais na década de 1970, quando as grandes referências eram a Carta do Cacique Seattle, Silent Spring (“Primavera Silenciosa”) de Rachel Carson, Small is Beautiful (“O Negócio é Ser Pequeno”) de E. F. Schumacher e Pesadelo Atômico de José A. Lutzemberger. O Movimento Ecológico perdeu todas estas batalhas!

Apesar da carta do Cacique Seattle, a terra não se tornou um lugar sagrado. A tribo Manhattan foi extinta e a terra continua sendo vista como mero recurso econômico, como commodity, como meio de produção e como instrumento de especulação, apesar de todo discurso ecologicamente correto usado para maquiar este fato.

Apesar do alerta de Rachel Carson, a produção de alimentos não se tornou saudável nem menos destruidora do meio ambiente. Os agrotóxicos continuam sendo usados em larga escala, tendo dominado o mercado a tal ponto que agora se fabricam seres vivos através de engenharia genética, os famosos transgênicos, para resistir ao tremendo poder assassino de venenos cada vez mais tóxicos e letais.

Apesar do livro de E. F. Schumacher, a economia não se adaptou à escala humana nem aos valores humanos. O ser humano continua sendo usado como mero meio para atingir objetivos econômicos (“Recursos Humanos” significa exatamente isso) ao invés de ver a economia trabalhar a seu favor.

Apesar do trabalho incansável de Lutz, que chegou a ocupar o posto de Secretário Nacional do Meio Ambiente, entre inúmeras outras atividades de uma longa e brilhante atuação ecológica, o caminho estúpido da energia nuclear não foi abandonada no Brasil. O Pesadelo Atômico hoje é econômico, mas as suas particularidades mais mortíferas continuam latentes e podem se manifestar a qualquer momento em algum acidente de proporções inimagináveis.

O Movimento Ecológico é ineficaz e ineficiente

Hoje o planeta está sendo destruído muito mais rapidamente do que estava na década de 1970. Eu poderia facilmente descrever várias outras batalhas que foram irremediavelmente perdidas pelo Movimento Ecológico ou Movimento Ambientalista. O que é difícil para mim é descrever alguma que tenhamos vencido. É muito evidente que temos que mudar completamente nosso modo de atuação.

A população humana continua crescendo em ritmo vertiginoso, mas ninguém quer meter o dedo na ferida e falar que é necessário fazer um controle populacional rigoroso antes que ocorra um colapso ambiental global ou diversos colapsos de abastecimento que levarão bilhões de pessoas à morte, que é o jeito da natureza promover equilíbrio.

O consumo de recursos naturais está cada vez mais acelerado, mas ninguém quer meter o dedo na ferida e dizer aos países ricos e às grandes empresas “parem de destruir o planeta, desgraçados!” porque isso “é feio”, “é irracional”, “pega mal”, “é coisa de radical”, “é utópico”, “é impossível” ou sei lá eu qual é a porcaria da desculpa furada que cada um elege para justificar a continuidade do sistema econômico que está levando o planeta à mais perigosa desestabilização climática desde a Grande Extinção do Permiano.

O panorama político é o mesmo desde que eu me conheço por gente. A direita diz que a solução é mais do mesmo veneno que criou o problema. A esquerda diz que a solução é mais do mesmo veneno que criou o problema, só que melhor distribuído. E sempre há uma nova rodada de negociações, um compromisso sem números claros ou sem sanções claras em caso de descumprimento, um monte de palavrório politicamente correto mas inútil, etc. Maldito jogo de enrolação descarada que todo mundo aceita sem questionar!

Enquanto as coisas continuarem assim, nada mudará, continuaremos fingindo que estamos fazendo alguma coisa, os economistas continuarão fingindo que se preocupam com o meio ambiente, os políticos continuarão preocupados com seus horizontes de quatro a oito anos, as pseudo-soluções ridículas comocréditos de carbonocontinuarão vingando e quando a cobra fumar não vai adiantar nada encher o saco dizendo eu te disse, eu te disse, eu te disse.

Temos que produzir resultados palpáveis, não “conscientizar”

Tudo que os atuais detentores do poder não querem é mudança. Se 5% dos políticos e dos grandes empresários que disserem o contrário estiverem falando a verdade já é muito. Se eles quisessem realmente mudar alguma coisa, já teriam mudado. São eles que mandam no mundo, são eles que estão arrebentando com o planeta, que história é essa que eles querem mudança mas não fazem o que tem que ser feito para mudar? O que os segura, exceto suas verdadeiras intenções de sugar o sangue do planeta até a última gota sem se importar com ninguém mais, contemporâneo ou futuro?

É necessário partir para a ofensiva contra os atuais detentores do poder político e econômico e ocupar espaço nos parlamentos e nos mercados. É necessário oferecer produtos alternativos a preços competitivos, é necessário abrir escolas que formem cidadãos que não peçam licença para exercer sua cidadania, é necessário montar redes de solidariedade ativa que passem ao largo dos sistemas financeiros, é necessário desmoralizar os hipócritas, os irresponsáveis e os arautos da mediocridade que estão nos colocando em risco e fazendo pouco caso de nossas vidas. É necessário fazer ao invés de papagaiar.

Temos que priorizar uma agenda emergencial

Eu defini as cinco prioridades mais urgentes para o planeta da seguinte maneira:

Agenda Para Ontem Se Quisermos Ter Um Amanhã

Arthur Golgo Lucas

1) Fim do crescimento populacional para ontem.

2) Fim do consumo de combustíveis fósseis para ontem.

3) Fim do desmatamento e início da recuperação florestal para ontem.

4) Fim da superexploração e poluição dos oceanos para ontem.

5) Fim da violação dos Direitos Humanos para ontem.

Os quatro primeiros itens da minha agenda são os necessários para evitar um colapso biogeoquímico. O quinto é o mínimo necessário para conferir viabilidade geopolítica aos esforços necessários para implementar os quatro primeiros, além de ser requisito básico para uma vida digna a todo ser humano.

Percebam que eu não incluí propositadamente coisas como “deixar de poluir o solo e as águas doces”, “reciclar materiais”, “racionalizar a urbanização e os sistemas de transporte”, bem como inúmeros outros itens importantíssimos que vocês certamente podem lembrar em poucos momentos. Meu objetivo foi listar os cinco itens absolutamente prioritários para salvar o planeta, porque já estamos na fase de “vão-se os anéis, fiquem os dedos”.

Eu ia escrever “é desnecessário dizer que”, mas me dei conta que na verdade é necessário dizer que cada um destes itens acima citados precisa de diversas ações subsidiárias para poder ser implementado. A Tarefa Número Um do Movimento Ecológico agora é eleger os três ou quatro métodos mais eficazes e eficientes para implementar cada um dos itens da agenda e focar esforços nisso. No total serão quinze a vinte eixos de atuação prioritários para salvar o planeta.

Temos menos de uma década até o ponto sem retorno

Mexam-se!

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/10/2009

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Atualização a 05/06/2010:

Leia o detalhamento da Agenda Para Ontem.

54 thoughts on “Você acha mesmo que “faz a diferença”?

  1. Renata Rossoni

    15/06/2010 — 19:32

    Como é que alguém pode ser contra a conscientização das pessoas? Você não é um ecologista, você é um tecnocrata!
    [2]

    1. *bocejo*

      Três comentários inúteis e agressivos em seqüência.

      Hora de aplicar a regra dos “três strikes”.

      [2]

    1. Falácias de uma ponta a outra, claro. Quando nós ecologistas falamos em “salvar o planeta”, não estamos nos referindo à parte composta por magma e crosta mineral. Aliás, ter que explicar isso me lemnbra do Capitão Óbvio…

      O tal “humorista” acaba dizendo algo sério: não é o planeta, mas as pessoas que vão se ralar. Mas a mensagem se perde no meio de tantos clichês anti-ecológicos e a impressão que fica é de uma irresponsabilidade atroz.

      Péssimo vídeo. Recomendo como mau exemplo.

  2. Péssimo vídeo. Recomendo como mau exemplo.
    ……….
    Ele só é realista.

    1. Qual é a parte de “Quando nós ecologistas falamos em “salvar o planeta”, não estamos nos referindo à parte composta por magma e crosta mineral.” que não ficou clara?

  3. Economizar água faz diferença sim…
    Pelo menos na conta de luz (risos)

    1. Talvez seja essa a principal razão de economizar água. Infelizmente, ao invés de se pensar em manter a qualidade dos reservatórios, para que não seja necessário viver em um mundo poluído em que é necessário tratar a água de modo caro e ineficiente antes de usá-la, o que vemos é a indução ao racionamento para ter que tratar menos água.

      Bota inversão de valores nisso.

  4. Sobre a indústria e a produção desnecessária pela obsolescência programada :
    http://www.globalresearch.ca/espanhol-e-ameacado-de-morte-por-criar-lampada-que-nao-queima/5336890

    1. É a mesma.

  5. Combater o desmatamento, a jogada de lixo no meio ambiente etc, tudo bem…

    Agora, aquecimento globol provocado por ação humana? Essa é uma das maiores farsas que já inventaram.

    As provas jorram as toneladas a cada dia, o número de cientistas dissidentes que desmentem a mentira já sobem a mais de 700, inclusive um prêmio Nobel.

  6. O mar já está recuando, se alguém que mora no litoral tiver um pouco de observação, as ondas já não batem tanto nos muros quanto a alguns anos atrás. Podem perceber.

  7. Será que isto ajuda a fazer diferença?
    http://www.avaaz.org/po/stop_the_keystone_xl_pipeline_loc/?btTktgb&v=36771

    [Enquanto lemos este email, o governo dos EUA está prestes a tomar a decisão mais importante acerca das mudanças climáticas na presidência de Barack Obama: a aprovação ou não de um oleoduto monstruoso que transportará do Canadá aos EUA, por dia, até 830 mil barris do petróleo mais sujo.

    Caso seja aprovado, o oleoduto Keystone XL ajudará a bombear bilhões de dólares para os bolsos de umas poucas companhias, além de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera. O oleoduto está sendo descrito como “o detonador da maior bomba de carbono do planeta”. Uma reação ousada da opinião pública já conseguiu atrasar o projeto antes, e outro golpe duro foi dado na semana passada, quando saiu uma decisão judicial contrária ao oleoduto. Agora, se agirmos com rapidez e em grande número, podemos ajudar a acabar com essa ideia de vez…]

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