A divisão do Movimento pelos Direitos Humanos é sempre contraproducente e deletéria. Quando um grupo social luta apenas pelos próprios direitos, de modo egoístico e desarticulado, ele prejudica o desenvolvimento de um verdadeiro Movimento de Direitos Humanos.

Se as mulheres fazem movimento feminista, gays fazem movimento GLBT, negros fazem movimento negro, cada um pode conseguir “vitórias” puntuais, isoladas, parciais e eventualmente conflitantes. O resultado desta vastidão de pequenas conquistas é um imenso caos no ordenamento legal e jurídico que em nada beneficia uma real consciência pró-DH na sociedade, eternizando lutas fragmentárias e alienantes.

Eu não estou nem aí para “direitos das mulheres”, eu não acho que mulheres tenham que ter qualquer direito específico diferente de qualquer outro ser humano. Mas eu estou 100% comprometido com o ser humano do sexo feminino que tiver algum direito desrespeitado.

Eu não estou nem aí para “direitos dos negros”, eu não acho que negros tenham que ter qualquer direito específico diferente de qualquer outro ser humano. Mas eu estou 100% comprometido com o ser humano negro que tiver algum direito desrespeitado.

Eu não estou nem aí para “direitos dos gays“, eu não acho que gays tenham que ter qualquer direito específico diferente de qualquer outro ser humano. Mas eu estou 100% comprometido com o ser humano gay que tiver algum direito desrespeitado.

Não estou interessado no motivo pelo qual alguma pessoa é desrespeitada, se foi por sexo, cor, orientação sexual ou o que seja. Estou interessado em que nenhuma pessoa tenha seus direitos desrespeitados. Isso faz muita diferença!

Eis como deveria ser a organização dos movimentos sociais:

– Frente Feminina pelos Direitos Humanos.

– Frente Negra pelos Direitos Humanos.

– Frente GLBTS pelos Direitos Humanos.

O particular afirmando o global. Nunca a busca de uma vitória isolada, mas da afirmação de princípios globais. Isso sim seria produtivo. Isso sim seria progressista. Isso sim geraria sinergia e começaria a mudar a estrutura da sociedade e do Estado rumo a um mundo justo, digno, melhor para todos.

Postado originalmente no Orkut em setembro de 2008. Revisto e ligeiramente modificado em outubro de 2009.

Atualização em 14/10/2009:

Este artigo surgiu em um contexto impossível de reproduzir, entre diversos tópicos em que militantes de diversos movimentos sociais discutiam acirradamente. Espero que o leitor compreenda que esta provocação tinha um objetivo pacificador. Bem, pelo menos na época eu consegui unir todos eles contra mim. 😐

Atualização em 10/07/2010:

Andaram me perguntando em off se eu ainda acreditava nisso. A resposta é: acredito cada vez mais nisso. Estou cansado dos movimentos sociais que usam os Direitos Humanos apenas como mastro para suas bandeiras. Se acreditamos realmente e afirmamos radicalmente que os Direitos Humanos são universais, inalienáveis, indivisíveis e interdependentes, então a própria luta por “direitos das mulheres”, “direitos dos negros”, “direitos dos gays”, etc. constitui uma violação do espírito do princípio da universalidade dos Direitos Humanos.

9 thoughts on “Mulheres? Negros? Gays? Pobres? Ou apenas humanos?

  1. Por isso é que surgiu por aqui o MMM – Movimento Machão Mineiro! Já que todas as ‘minorias’ podiam ter seu próprio movimento de mobilização, os machões acharam por bem exigir seus direitos, alegando que o HQEH (Homem Que É Homem), também estava caminhando para a extinção. O mais incrível é que teve muita gente que levou a brincadeira a sério e saiu protestando e brigando com o grupo; mas era só dar uma olhada na pinta dos ‘machões’ e prestar um pouquinho de atenção no discurso deles pra ver que era tudo uma tremenda gozação… 🙂

    1. Mônica, devido aos excessos do feminismo e aos absurdos ditos por muitas feministas já existe o movimento masculinista em diversos países.

      “Masculinismo é um conjunto de teorias sociais, movimentos políticos e filosofias morais que se fundamentam na experiência masculina. Propõe analisar as desigualdades de gênero e promover o combate ao sexismo antimasculino. Os masculinistas veem esta ideologia como uma visão alternativa das questões de gênero, focada na experiência dos homens.” (Wikipédia)

      Vale a pena ler: http://pt.wikipedia.org/wiki/Masculinismo

      Aqui no Brasil – atrasado como sempre, como se pode ver pela Lei Maria da Penha e pelo Estatuto da Igualdade Racial – ainda estamos na crista da onda do sexismo institucional pró-fêmea e do racismo institucional pró-negro, então vai custar um pouco até as reações masculinas e brancas se formarem.

      As “contra-medidas” heterossexuais é que foram antecipadas às reivindicações homossexuais, sinal que os gays brasileiros comeram mosca no processo… e que os grupos religiosos e conservadores estão mais antenados no cenário dos movimentos sociais internacionalmente do que o público GLBTS.

      No final das contas eu só tenho a lamentar a imensa falta de visão desse pessoal todo. Ao defender suas bandeiras particulares, cada um destes movimentos sociais obriga cada grupo discriminado a montar sua própria organização para defender sua bandeira particular, pois não há um núcleo ideológico agregador.

      Isso fragmenta a luta pelos Direitos Humanos e transforma o tabuleiro político em um jogo-do-lobby-mais-forte que só pode beneficiar alguns poucos grupos ao invés de garantir cada conquista para todos. E ninguém percebe que isso é exatamente o que os agentes encastelados no poder desejam: dividir para governar.

  2. 100% de acordo. Se observarmos o assunto pela lente do reencarnacionismo (se me permitem os contrários à idéia),onde o “ser humano” migra de polaridade sexual, raça e condição social em cada jornada encarnatória, sua opinião fica ainda mais exata.

    Arthur, me permita um assunto aqui. Vc trabalha na edição da wikipédia brasileira, não é? Eu estava fazendo pesquisa sobre a Madame du Barry e em VIDA NA CORTE, na primeira linha, foi colocado o CArdeal Richilieu junto com Luis XV. Desculpe se aqui não é o local adequado pra isso,mas não encontrei outro caminho pra corrigir.

    1. Camargo, eu não sou espírita, mas achei bem interessante este ponto de vista. Os budistas tibetanos dizem algo semelhante, também: não se deve fazer mal a qualquer ser vivo, pois é praticamente certo que em algum momento ele já foi nossa mãe. (Meio ruim de lembrar disso antes de entrar numa churrascaria, né?)

      Eu sempre tento me colocar na pele de um eventual extraterrestre que tente entender como funciona a sociedade humana. (Não é difícil, eu me sinto um completo ET com freqüência.) Ou, o que é melhor ainda, tento me colocar na pele de um eventual astronauta ET que encontra nosso planeta e se põe a tentar entender nossas leis e nossas culturas:

      “Hmmmm… são conferidos distintos níveis de dignidade a indivíduos da mesma espécie com fenótipos distintos, apesar do fenótipo ser irrelevante para a determinação do caráter do indivíduo… bárbaros! [Aciona telecomunicador.] Alô, capitão da frota estelar? Teleporta a espécie dominante inteira do terceiro planetinha pra dentro do Sol que não se perde nada, vamos usar o planeta como colônia de férias. O quarto planetinha eu ainda não avaliei…”

      Quanto à edição da Wikipédia, não precisas solicitar que um editor faça as alterações, podes editá-la tu mesmo! Há duas maneiras de fazê-lo, com e sem uma conta na Wikipédia. No primeiro caso todas as tuas edições são registradas sob teu perfil de usuário e tu vais adquirindo prestígio como editor conforme vais contribuindo (ou afundando teu nome, conforme o caso…) e te qualificando para se tornar um administrador (com poderes para bloquear usuários, fazer algumas alterações mais profundas, etc.). No segundo caso há certas limitações para editar páginas muito disputadas ou polêmicas, mas permanece a possibilidade de editar a maioria dos verbetes.

      A Wikipédia é um imenso projeto colaborativo, muito interessante. Só aconselho ficar longe dos administradores e da Esplanada se não quiseres enfrentar umas batalhas de ego chatíssimas. É muito melhor contribuir tecnicamente do que aturar a política dos bastidores. Eu mesmo pulei fora por dois anos e só agora estou de volta.

      Queres contribuir com a Wikipédia? Começa por aqui:

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Tutorial

      Isso é suficiente para entender todo o processo.

      Se houver dúvidas, procura as respostas aqui:

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:FAQ

      Querendo um guia rápido de consulta, encontras um aqui:

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Ajuda:Guia_Pr%C3%A1tico

      E precisando de detalhes técnicos avançados, encontras isso aqui:

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Ajuda:Guia_de_edi%C3%A7%C3%A3o

      Não pensa que eu sei isso tudo, não… sou um editor bastante eventual, domino apenas o básico, prometi que vou começar a editar para valer somente após começar os trabalhos em meus próprios livros, que estou empurrando com a barriga faz anos. (Espero mudar essa realidade ainda neste verão.)

      P.S.: eu editaria aquele artigo com prazer se não tivesse medo de pagar mico… melhor quem entende do assunto editar os verbetes que conhece. É muito mais fácil um editor avançado adequar a estrutura da página do que a informação que desconhece. Portanto, altera lá o texto que depois alguém arruma o formato se não souberes como fazê-lo. 😉

  3. Curiosidade levantada por Richard Dawkins: Na Alemanha, num laboratório de análises genéticas, dois brancos, neonazis xenofóbicos, infernizavam a vida de um colega nigeriano. Um dia, num estudo fortuito, foram avaliados os genomas do grupo de trabalho e “oh! que surpresa!” Um dos babantes racistas mostrava um mapa de DNA estupendamente semelhante ao do negro africano. Só não eram irmãos porque os alelos que exteriorizavam o fenótipo era de posições diferentes na hélice. A espécie é só uma. Nos separamos dos chimpanzés há 6 milhões de anos e genéticamente somos muito semelhantes a eles. Agora deveríamos nos preocupar com os direitos da espécie, das espécies, do planeta, da sobrevivência neste universo esmagador. O ser humano, por enquanto, não passa de um peido…primeiro deveríamos aprender a cheirar bem…e, quem sabe, num futuro hipotético, possamos nos considerar grandes bostas.

    1. Hehehehe… que abuso de trocadalho… 🙂

  4. Voltei! Ideologias não existem. Existem idéias fixas. A tentativa de votar em partidos já é a piada da vez. Partido é um casaco na cadeira. A democracia é uma farsa. E ideologia é um conjunto de slogans baratos gritados à esquerda e esquecidos a caminho da direita. Na direita vale o amor falso pelo povo que locupleta burramente os senhores do plutocratismo. “Nunca antes na história deste país” alguém se preocupou em conhecer a mãe desta tal ideologia. Esta senhora reza assim: O que vale é o que é bom para mim neste momento e o resto que se exploda. O negro é racista assim como o branco. O gay se acha diferente e desconfia de alquém que lhe estende a mão por respeitar o seu profissionalismo. O pobre quer mamar na teta do estado ao menor vacilo da vaca. E as mulheres se esqueceram que o sexo foi inventado pela evolução para misturar gens e produzir seres humanos melhores. E os homens crescem e morrem e se transformam em adubo como tudo o mais que vive neste planeta de periferia. O resto é mise-en-scène. Se estas são as ideologias vigentes fica muito difícil humanizar e unificar o pensamento. Um Nobel para quem conseguir sentar estas bundas em torno da mesma mesa e falando a mesma língua.
    Em tempo: Arthur! dá uma olhada no filme Distrito 9!

    1. Tá, vou ali na esquina cortar os pulsos e depois vejo o filme. 😛

      Olha, Romacof, eu não acho que tudo esteja perdido necessariamente, mas a situação é gravíssima. Estamos perante uma desestabilização climática inédita na história da humanidade e ainda tem gente discutindo se a solução para o mundo é impor “discriminações positivas” para que os “iguais que são diferentes” passem a ter os “mesmos direitos” através de privilégios… (PQP!)

      Eu até acho que existe vida inteligente na Terra, o problema é que os números tornam a inteligência irrelevante: http://arthur.bio.br/2009/08/05/politica/democracia/toda-democracia-e-burra

      Eu estou estudando uma maneira de virar esse jogo usando suas próprias regras. Coisa para anunciar daqui a um tempo mais, mas que vai mudar a maneira de se fazer política neste país. Aguarda. 😉

  5. Ok Arthur, obrigado pelas informações. Eu já havia passado o olho na estrutura da wikipédia, por isso confesso que mandei o assunto pra vc por perfeita preguiça. Tenho ficado mais tempo no micro trabalhando em um novo romance, e isso quando a profissão permite (dentista), mas, com esses caminhos que vc mandou, fica bem mais fácil.

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