Uma vez, há mais de vinte anos, eu tinha ido a um show punk a caráter, estava voltando para casa a pé no finzinho da madrugada e ao dobrar uma esquina me deparei com um desconhecido muito drogado, armado e gritando com uma moradora do prédio vizinho: “tu não tem dinheiro, eu vou te matar, sua vagabunda”.

Eu não tinha mais como evitar ser visto, então cheguei mais perto e disse pro cara: “não mata, não, vende pra mim, te dou vinte pila por ela” e entreguei duas notas de dez para o sujeito. O cara ficou tão pasmo com a proposta absurda que só disse “tá, pode levar”.

Peguei a guria pela mão, falei “vem” e saí puxando a infeliz para longe do sujeito, que não esboçou reação alguma e saiu correndo na direção oposta quando já estávamos uns cinqüenta metros adiante.

Ela nunca me pagou os vinte pila. Péssimo investimento. 😛

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 14/01/2010

33 thoughts on “A vez em que comprei uma mulher

  1. HAHAHA Eu sou da geração Raimundos que paga e leva HAHAHAHA…

    Falando em show punk, eu me lembrei de um, há algum tempo atrás:

    Eu fui ao Forum Social Mundial 2003, fugido de casa, tinha 17 anos e sou de Ponta Grossa, Paraná. Vim num ônibus do falecido partido dos trabalhadores, o PT, lembram daquele partido?
    No acampamento da Juventude no Parque Harmonia (quando me perguntaram qual era a minha organização, eu disse: “Al Qaeda!”… o pessoal riu).
    Era uma das 5 tardes desse FSM, eu estava degustando calmamente uma caneca dessas de chopp, com dois dedos de coca-cola e o resto da pura, boa e traiçoeira Ypioca.
    Vem um amigo meu e pede um gole, vai com sede àquele elixir… e cospe em seguida. Com arrombos de revolta me pergunta como eu poderia estar bebendo aquilo. Disse que se eu “virasse” a caneca ele sairia pelado pelo acampamento. As pessoas que estavam em volta acharam interessante a possibilidade de ver aquele humilde rapaz desfilando pelado num acampamento com 40.000 pessoas. Eu não decepcionei. Meu amigo de infância, Aknaton, teve que desfilar pelado pelo acampamento.
    A reação inicial dele foi de vergonha. Mas depois ele se aclimatou, se animou com as pessoas vindo ali para fotografá-lo e continuou pelado. Nisso, uma turma mutcho loka começou a bater palma e fazer grito de “é isso ae!!”… “abaixo a repressao, vamo protestar”…
    Convidaram ele para ir ao banho público, chamar um protesto. Ele foi. Por lá foi uma muvuca. Rapidamente mais 100 pessoas começaram a se reunir, peladas.
    Eu fiquei na barraca me recuperando da caneca de Ypioca.

    Devia ter passado umas 2 horas da saída do Aknaton junto à turma mutcho loka, quando ele volta todo molhado, embrulhando numa bandeira do CHE.
    Olhei pra ele e perguntei onde ele estava. Ele disse que estava num protesto com mais de 200 pessoas peladas. Mil coisas se passaram em minha cabeça. Sempre quis (inconscientemente) apanhar da polícia. Sempre participei dessas caminhadas, protestos, atos públicos,…, ao mesmo tempo que pensei nas mulheres pulando com os peitos saculejando e na possibilidade de fazer uma bela amizade casual com uma delas.

    O Aknaton estava voltando ao protesto quando gritei “espera! eu vou junto”. Eu estava bêbado. Mas hesitava em tirar a roupa assim, à toa. Ao ver a reação das pessoas com o Aknaton andando pelado por um acampamento de 40.000 pessoas, eu me convenci e fui solidário ao Aknaton.

    Chegando ao bojo do movimento, percebi que as canções já estava prontas, era só cantar e caminhar ao maior estilo naturista Geraldo Vandré:

    CONTRA A REPRESSÃO, TIRE O CALÇÃO
    CONTRA A TIRANIA, TIRE A CALCINHA
    ABAIXO A REPRESSÃO TODO MUNDO PELADÃO
    VOCÊ AÍ PARADO, TAMBÉM NASCEU PELADO

    Andamos por todo o parque. Até chegar ao show do Dead Fish. Os punks que ali estavam se viram numa condição menos punk que os que agora ali chegavam. Ao chegarmos ali, eles abriram espaço até o palco. Eu estava bêbado e na frente. Não tive escrúpulos em subir no palco. Tomei o microfone do vocalista. E comecei a cantar junto com um outro cidadão muito peludo:

    HAHA HUHU VOCÊ TAMBÉM TEM PULGA

    A cavalaria estava cercando aquele local. Notei que as pessoas estavam indo embora. Desci dali e voltei pra minha barraca, sem fazer amizade com nenhuma moça.

    Disso tudo, ficou uma foto que achei muito tempo depois na internet e coloquei no meu blog (vazio, para que o texto não compita com a foto), para o Aknaton rendeu uma foto na capa do Jornal O SUL e fotos na revista Época e para nós todos um video no youtube (a internet onde estou agora está travada, mas é só buscar por manifesto dos pelados FSM).

    Saudade daqueles dias em que as coisas simplesmente aconteciam.

    1. Eu era mais comportadinho com essa idade, apesar de não perder um show punk. 🙂

  2. Podia ser pior, Arthur (ou tão ruim quanto): ela te dava uma nota de 50 e pedia 30 de troco!!! 😀
    Adorei a historinha. Punk a caráter? Essa eu queria ver…

    1. INfelizmente não existem registros fotográficos disso… eu publicaria numa boa. Quase não tenho fotografias. É estranho isso, não sei nem dizer por quê. Simplesmente não rolou de eu registrar minha vida em fotos. Meus parentes é que têm fotos minhas nos eventos da família.

  3. Ah, eu também prefiro ficar atrás das câmeras! Se não tem outra pessoa fotografando também – e aí ‘me registra’ – periga eu virar um substantivo abstrato, aquele que a gente sabe que existe mas não consegue ver nem pegar… 🙂 Mas sempre dou um jeito de conseguir cópias das fotos depois, assim monto meu portfolio com as que os outros tiram. Minha desculpa é que eu sei muito bem como eu sou, eu quero é me lembrar dos outros, né? Afinal de contas, eu faço as fotos pra mim, uai! 😉

    1. Bom, eu não sou fotogênico mesmo, além de não gostar muito de aparecer em fotos porque estou acima do peso, então nunca fiz muita questão de ser fotografado, apesar de não fugir das câmeras.

  4. HAHAHAH essa foi boa! Nunca tinha ouvido nada parecido!
    Pagou 20 pilas então! kkkkkkkkkk

    1. Paguei e não levei. 🙁 Ou melhor, só levei até a esquina. 😛 Depois ela correu para dentro do prédio dela.

  5. Essa aí agora sabe direitinho quanto vale a vida dela.

  6. Ehh foi dá uma de espertinho…hehe se deu mal.

    1. Pô, evitar que a guria levasse uma facada não é se dar mal. Tenho orgulho de ter tido aquela presença de espírito e de ter reagido rápido e aproveitado a oportunidade pra tirar a guria da encrenca. O interessante é que se eu estivesse bem arrumadinho aquele blefe não ia colar.

  7. COMO SEMPRE VOCÊ CONSEGUE SABER COMO REAGIR A SITUAÇÕES RAPIDAMENTE…QUERO UMA DICA.
    COMO ADQUIRI UM PENSAMENTO TÃO RÁPIDO?
    BOM,EU SOU CONSIDERADA UMA “LESMA”.PODE TER CERTEZA QUE SE ESSA FATALIDADE OCORRESSE COMIGO,EU E A GURIA MORRERÍAMOS…HEHE

    1. “Sempre”, não… geralmente a gente só conta as histórias em que se deu bem, né? 🙂

      Eu acredito que a maior parte das pessoas fica paralisada em diversas situações por três motivos básicos: medo, falta de criatividade e baixa auto-estima.

      O medo é um agente paralisante natural. Quando se tem medo, tudo fica difícil. Quem tem medo da água não consegue nadar não porque não tenha habilidade, mas porque na primeira gotinha que molha o nariz entra em pânico, perde o controle dos próprios movimentos, perde a noção de circunstância e não faz nada do que deveria fazer.

      Houve uma menina, campeã de surf, que morreu afogada numa profundidade de pouco mais de meio metro porque entrou em pânico quando se enrolou em uma rede. Bastaria ter ficado em pé para sobreviver, mas ela morreu se debatendo porque entrou em pânico e perdeu a noção de onde estava. Por isso eu digo: a primeira coisa a fazer é aprender a dominar o medo.

      A falta de criatividade é terrível. Eu não sei bem como ajudar as pessoas a se tornarem criativas, mas tenho a impressão que o treinamento para aumentar a criatividade passa por adquirir prazer em produzir soluções alternativas para diversos problemas. Normalmente isso se perde inicialmente na infância, quando nos mandam fazer as coisas “do jeito certo”, e posteriormente na adolescência, quando se busca aprovação ao invés de auto-afirmação. Mas acho que pode ser – ao menos parcialmente – recuperado através de treinamento na vida adulta.

      Simplesmente as pessoas deveriam se perguntar mais freqüentemente: existe uma forma alternativa de fazer isso? Como posso fazer isso melhor? Qual seria a atitude mais adequada nesse tipo de situação? Etc.

      A baixa auto-estima traz a sensação de impotência. Quem não “se garante” acaba paralisado. Existem milhares de métodos para lidar com isso, mas em minha opinião NADA vai funcionar sem o indivíduo primeiro tomar a DECISÃO de lidar com isso e vencer qualquer barreira no caminho. Se a ousadia não vem de dentro, não vem de lugar algum. E sem ousadia não se arrisca nada, tem-se a tendência de “deixar acontecer”, de se omitir ao invés de tentar influir, por não se ter confiança que se fará algo eficaz.

      Uma maneira de trabalhar esse problema é simplesmente estabelecer metas realistas e tratar de cumpri-las nos mais diferentes âmbitos da vida: nos relacionamentos, no trabalho, no desenvolvimento de alguma habilidade artística ou esportiva, etc. Por exemplo, eu nunca peguei num martelo ou num serrote… e de repente decidi que iria me formar em marcenaria no SENAI pelo simples prazer de desenvolver esta habilidade. Adivinha… tenho o diploma aqui a meu lado. 😉

      Treinando a mente com intensidade, mantendo a atenção para identificar quando um destes problemas nos bloqueia, vamos naturalmente nos aperfeiçoando e obtendo melhores resultados mesmo em situações inusitadas.

  8. 20 pila? há mais de vinte anos? o real naum eh de 1994?

    ¬¬

    1. Ih, na verdade eu não faço a menor idéia de qual era a unidade monetária da época e nem qual foi o valor exato que paguei.

      Lembro com certeza que foi mais de uma nota e acho que o valor citado no texto corresponde razoavelmente ao valor equivalente na época.

  9. kkkkk. vc veio puxando ela “pelos cabelo” ???

    1. Pela mão. E ela estava tão em pânico que tive que puxar mesmo, ou ela não viria comigo. Gente que entra em pânico e paralisa me estressa…

  10. Então, tá. 20R$, ou quase isso.
    Ah, como eu QUERIA ser rápida. Normalmente, minhas atitudes na hora em que o fato está acontecendo são idiotas e covardes, meia hora depois, eu pensando. “Ah, eu poderia ter feito isso, dito aquilo…” 01 minuto depois, já é tarde demais. Eu vou me exercitar. Começo já.

    1. Eu oscilo, Bru. Às vezes tenho algumas ótimas tiradas e às vezes fico que nem aquele personagem do Jô Soares que só dizia “ah, é, é?”, “ah, é, é?” 😛

  11. Bom, ainda sim é melhor que eu ;/
    Olha só, já achei uma das possiveis causas.
    Será Baixa-estima?
    Acho que só um psicólogo pro meu caso.
    Me acho extremamente linda, inteligente e prática.
    às vezes, até me coloco uma patamar acima de alguns – mesmo sabendo que é estranho, ou errado,- tanto faz.
    Acho que meu mal vem de berço. Aff. Olha aqui, eu desabafando enquanto meus alunos terminam a prova final dde excel. (isso mesmo, estou na minha sala de aula, enquanto meus alunos estudos, eu penso.)
    Me acho extramante precoce. 17 aninhos. Linda e Avançada. O que será me falta?
    Um pouco de humildade?
    Você não citou isso…

    1. Olha a propaganda… 😀

      Mas com 17 anos o que pode faltar? Bem, acho que um pouco de maturidade. Essas dúvidas são comuns na tua idade e parecem mostrar um desenvolvimento saudável. Espera mais uns anos antes de decidir pirar, tá? 😉

  12. alunos estudam*

  13. Oi Arthur. Lendo sobre este acontecimento, sobre o da voadora no supermercado, e outros, percebi que você não sabe o que é timidez. Eu penso que a coragem é mais importante na vida que a inteligência.
    Na escola o pessoal ficava invejando as minhas notas altas, enquanto eu invejava a coragem deles tirarem notas baixas. E até agora na minha vida isso se confirmou, se eu pudesse, eu trocaria minha inteligência pela coragem dos corajosos.

    1. Leandro, mil vezes ser inteligente que ser corajoso.

      A inteligência é desenvolvida em uma fase que o indiíduo não tem maturidade para fazer suas escolhas, portanto ele não pode dizer “mamãe, papai, dêem-me uma educação precoce que eleve meu QI, porque vou precisar dele mais tarde para ser bem sucedido, mas quando eu tiver consciência disso a janela de oportunidade já estará fechada”.

      Já a coragem é uma habilidade que pode ser treinada. Podemos enfrentar conscientemente nossos medos e assim treinar nossa mente, através de sucessos inicialmente pequenos e depois cada vez mais significativos, a desenvolver auto-confiança e coragem. E para isso não há idade, a janela de oportunidade não se fecha, ela vai se estreitando para quem não enfrenta suas dificuldades e vai se alargando para quem as enfrenta.

  14. Gostei da tua resposta Arthur. A partir de agora vou começar a treinar a auto-confiança e o otimismo.

  15. Gostei da tua resposta Arthur. A partir de agora vou começar a treinar a auto-confiança e o otimismo.

    Tentei submeter o comentário acima mas apareceu esta frase:
    Detectado comentário repetido; parece que você já disse isso!

  16. kkkkkkkkkk!
    Pode apagar os comentários repetitivos.

  17. Já tive esse problema aqui e em outros sites, Leandro.

  18. Hehehehe… Posso deixar assim? Ficou engraçado. 🙂

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