O que tem de maluco no trânsito não é mole. É impressão minha ou está cada vez pior uma verdadeira epidemia de semnoçãozice em nossas ruas e estradas?

Hoje eu estava transitando em uma estrada de terra muito estreita, por onde em muitos trechos só passa um carro de cada vez, quando passei em frente a um grupo de pessoas que conheço e quis parar para conversar. Como obviamente eu não poderia ficar atravancando a estrada, comecei a manobrar o carro para entrar no terreno da casa de um amigo quando um maluco apareceu lá embaixo no morro e avançou em minha direção.

Eu coloquei o pé no freio, liguei o pisca, meti a mão para fora da janela e fiz sinal para ele parar, mas nada adiantou: o maluco passou numa velocidade muito acima do razoável para aquele trecho, quase raspando no meu carro – tão perto que bateu com o retrovisor direito no meu retrovisor esquerdo – e seguiu sem reduzir. Como o maluco não chegou a quebrar meu retrovisor, limitei-me a xingar com a buzina e deixar pra lá.

Conversei com quem eu queria conversar e depois segui adiante. Pois não é que logo em seguida lá estava o maluco parado? Encostei, falei educadamente que ele deveria ter mais cuidado… e o maluco disse que eu é que estava errado por estar parado ali. Eu até tentei dialogar, mas quando o maluco veio com ironias pernósticas, perguntando se eu havia tirado a carteira, fiquei tão tapado de nojo da arrogância medíocre dele que engatei uma primeira e o deixei falando sozinho.

É raro eu achar que uma pessoa merece tão pouco respeito que não me importe sequer de mandar à m*rd* antes de deixá-la falando sozinha. (Minha atitude seria outra se meu retrovisor tivesse sido quebrado, é claro.)

Como até uma pilha atirada na testa da gente continua tendo um lado positivo, resolvi transformar esse episódio em um artigo, para fazer valer a pena os poucos momentos de atenção que desperdicei com o maluco. E sabem no que eu lembrei direto? Da nova campanha de Porto Alegre para ensinar os motoristas a parar na faixa para os pedestres passarem.

A campanha é bonitinha: mostra os pedestres estendendo a mão aberta para indicar que pretendem atravessar a rua e os motoristas parando educadamente  antes da faixa para permitir a travessia dos pedestres. Na prática, porém, a situação é bem outra.

Há motoristas que simplesmente ignoram a indicação de preferência dos pedestres na faixa de segurança e seguem seu caminho sem dar atenção aos pedestres. Lei do mais forte, pura e simples. Mas há pedestres que – paradoxalmente – sentem-se “mais fortes” que os motoristas, por estarem amparados pela lei, e que estendem a mão e saem andando forçando a travessia sem sequer dar tempo para que os motoristas percebam sua presença. Lei do mais alucinado, só pode ser, pois não imagino palavra melhor para descrever quem acha que estender a mão é suficiente para frear imediatamente um bólido de 800 kg a 60 km/h. E esse pessoal aposta a própria vida nisso.

Enquanto escrevia eu me lembrava de outras coisas sem noção no trânsito, como o pedágio no meio da cidade de Florianópolis, fechado pela justiça, mas que fez escola: na BR 101, no meio da cidade de Palhoça, meteram uma praça de pedágio. O resultado é que o cidadão palhocence que mora ao sul do pedágio precisa pagar R$ 1,10 na ida e na volta de casa até a prefeitura de sua cidade, bem como na ida e na volta para o serviço, para a escola dos filhos ou para ir ao supermercado, todos os dias.

Lembrei-me dos carroceiros que colocam tanto peso na carroça que o cavalo é erguido do solo. Lembrei-me das escolas que tem o mesmo horário de entrada e de saída para todas as turmas de todas as séries, “colaborando” com a completa paralização do trânsito em seus arredores. Lembrei-me dos quebra-molas totalmente fora dos padrões do Código de Trânsito Brasileiro que a prefeitura coloca em Florianópolis, em locais absurdos como curvas e subidas de morros.

Lembrei-me dos “gênios” que acham que a redução da alcoolemia permitida e não o aumento da fiscalização é que trouxeram algum resultado para a “lei seca” nas estradas. Lembrei-me que a BR 101 já está duplicada próximo a Florianópolis e que mesmo assim apresenta quilômetros de engarrafamentos diariamente, o que indica que a obra já foi entregue obsoleta.  Lembrei-me que o transporte aquaviário é amplamente desincentivado em um país com milhares de quilômetros de costa e uma imensa malha hidroviária.

E lá pelas tantas lembrei-me que é carnaval, que ninguém quer saber de um artigo pesado e que eu não estou interessado em imitar os sem noção que tanto critico, nem no trânsito nem no blog, então é melhor terminar o artigo por aqui antes que fique chato.

Veja se não se mata no trânsito neste carnaval, tá?

25 thoughts on “Motoristas malucos, pedestres alucinados e outros bichos irresponsáveis

  1. Salve Arthur! Primeiro: o cara não era maluco, e aí é que está o perigo! os malucos são do bem! Segundo: Floripa ainda fica no Brasil, portanto não saquei sua esperança de uma radical guinada para o bom senso! Terceiro: é tudo uma fantasia; um carnaval permanente; alguns dias travestidos de dias sérios, mas na essência nada disto é relevante! Saudações pesqueiras.

    1. O cara não era maluco beleza, era só maluco. E chato. E pernóstico. E dirigia uma lata velha que indicava claramente que se ele me albarroasse o prejuízo seria certo. Tudo de bom…

      Mas eu nem espero uma “radical guinada” para o bom senso, uma leve correção de rota na direção certa já estaria de bom tamanho. Difícil é ver a coisa piorar a cada dia.

      Sabe que “carnaval permanente” não está muito longe da realidade?

  2. A lógica do transporte individual é uma loucura. O negócio é ciclovia, troleibus, VLT e metrô, todos integrados entre si.

    http://www.youtube.com/watch?v=V6B0U37ONpI

    Minha política de divulgação de blogs (heheh):
    http://adrianobranco.eng.br/

    1. “A lógica do transporte individual é uma loucura.”

      Não, poxa… ela se torna problemática somente quando a rede de transporte coletivo é ruim.

      Se uma boa rede de transporte coletivo atendesse um percentual alto das necessidades de transporte cotidianas, com praticidade, agilidade e conforto, o transporte individual seria menos utilizado.

      O que não dá pra fazer é querer complicar a vida de quem prefere o transporte inddividual porque ele é mais prático, ágil e confortável para tentar obrigar esse pessoal a optar por uma alternativa pior.

      Quem quer que o pessoal use transporte público precisa primeiro torná-lo mais prático, mas ágil, mais confortável e mais barato que o transporte individual. Aí a migração será espontânea.

  3. Eu me expressei mal, leia-se: “A lógica atual do transporte individual”…

  4. é complicado, mas fazê o que né!?
    beijos

    1. Emigrar para um país com IDH > 0,9 e Coeficiente de Gini < 0,3.

    1. Ah, sim:

      Emigrar para um país com IDH > 0,9, com Coeficiente de Gini < 0,3 e sem usinas nucleares que isso é coisa de doido. 🙂

    2. Aliás, acabo de ler o artigo linkado… e acho que não o leste, Marcus, porque 90% do conteúdo reforça a posição anti-nuclear.

  5. Eu li sim, foi um presente pra você! 🙂
    Um detalhe é que, mesmo fechando usinas, nos últimos anos a produção de energia através da matriz nuclear tem se mantido constante.
    E vai aumentar, com certeza, apesar de demonizações. Como até o Obama (num país que há 30 anos não investia construía uma usina sequer) optou por construir uma nova usina na Geórgia e indicou que isso seria “só o começo”.
    Eu acho que todas as tecnologias nucleares antigas são inconvenientes. Agora, defendo a ciência nuclear e o seu avanço. E o avanço nuclear deve ser respeitar a sua vocação: reatores de pequeno porte em substituição das atuais Termoelétricas a carvão.

  6. Suécia pode ser uma boa ideia, mas dá pra melhorar um pouquinho só a temperatura? Meu aluno tá lá e manda avisar que está menos muitos graus, o que não tem muita graça. Não precisa ser esse calor duzinfernu, mas frio demais também é dose.

    Quanto ao sem-noção, infelizmente eles se multiplicam como gremlins. E estão em franca maioria. Que Allah se compadeça de nós… 🙂

    1. Os sem-noção de Allah até que não me incomodam, o problema são os sem-noção de Aqquih… 🙂

      [Cesta de três pontos!] 🙂

  7. Problemas requerem soluções. Soluções requerem interesse. Interesse requer compreensão. Compreensão requer empenho. Todos esses atributos são pré requisitos para os nossos representantes públicos, que poderiam resolver os problemas, mesmo que dissolvendo-os entre empresas privadas, que poderiam lucrar com as soluções. Alguém conhece representantes públicos que possam se encaixar?
    Ontem, após ver a previsão do tempo, fiquei pensando num problema: a seca do nordeste. Fiquei imaginando o que aconteceria se fosse desenvolvido um programa sério de irrigação. Creio que antes de ser proposto o projeto, alguns grupos comprariam vastas áreas de terra (provavelmente em nome de laranjas), depois fariam pressão para a aprovação do progama, e aí por diante…
    Por enquanto, amigo Arthur, precisamos ser criativos e imaginativos, pensando sempre como seria possível grupos maiores terem interesses financeiros, para que os problemas que somos obrigados a conviver sejam resolvidos.

  8. Camargo,
    em 1983 eu visitei um projeto de irrigação no interior do Ceará, liderado pela Universidade Federal de lá, um trabalho muito bacana e que estava dando resultados. Na época eu tinha um amigo que trabalhava lá, o empenho da equipe toda, e da comunidade também, era incrível. De lá pra cá, está tudo como antes. Um dia eu ainda vou ver na TV algum político se gabando de um projeto-piloto de irrigação com muito blá-blá-blá e vou me lembrar do que vi há (nossa!)quase 30 anos. E há anos não vejo meu amigo…

  9. o problema é esse: o trabalho era sério, visando somente melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ficou como estava. Se fosse para melhorar (ainda mais) a qualidade de vida de quem já a tem, tomaria outros caminhos.
    Recursos temos muitos, mas o problema é o filtro por onde eles precisam passar.

    1. E se não houver necessidade de passar por estes filtros? E se houver uma alternativa política nova, através da qual novas lideranças possam surgir sem ser derrubadas pelas raposas que controlam o galinheiro nacional? Será que haveria interesse?

  10. acredito que se houver uma nova liderança com esse perfil, será de pessoas que se interessam, do contrário, pra que ser nova?

    1. Melhor ainda: é uma idéia que fomentará o surgimento de milhares de novas lideranças. Acho que pulamos essa parte por causa da Gabriela.

  11. to pensando em marcar nosso próximo encontro na 8.a DP…

  12. Sou pedestre em uma cidade que não tem calçada,rs.Pode isso? Pode!
    No lugar da calçada existem
    rampas(nas entradas de garagens)postes,estacionamentos
    e até gente trabalhando,rs.
    Aqui é impossível andar com carrinho de feira,carrinho de bebê ou com cadeira de rodas.Não entendo como deixam que uma cidade fique assim.

    1. Maravilha de cidade. Será que a prefeitura aí nunca ouviu falar de “acessibilidade”?

  13. Não,rs.
    Pior são os cadeirantes que estudam.

    As escolas,qualquer uma,é um inferno para essas pessoas.

    Esqueci de mencionar o lixo e os buracos,rs.

    Tenho uma amiga que vive com o carro na oficina.

    Culpa dela? Não, dos buracos.

    1. Culpa dela. Tem que trocar o carro por um jipe. 😛 Hehehehe…

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