Quando aconteceu o terremoto no Chile, com magnitude 8.8 na Escala Richter, as cinco primeiras coisas em que eu pensei foram: (1) quanta gente terá morrido? (2) quantas pessoas estarão soterradas vivas? (3) será que o Lula vai marcar uma reunião para a semana que vem, para começar a discutir o que fazer? (4) será que a ONU vai votar uma moção em duas semanas ou vai ficar dois meses discutindo quem deve chefiar uma missão humanitária? (5) será que vai haver um tsunami devido a este sismo?

As estatísticas de mortos, desaparecidos, desabrigados e feridos, confesso, eu não li. Estou de recesso na leitura sobre tragédias. Não tenho assistido TV, não tenho escutado rádio, não tenho lido jornais e revistas, não tenho nem sequer acessado os sites de notícias. Estou me presenteando com uns meses de alienação voluntária para recarregar as baterias e me focar na completa mudança de vida que estou realizando. (Para quem não sabe, decidi sair da capital de um estado e largar o serviço público para ir morar em uma aldeia de pescadores com três mil habitantes e me dedicar à produção de alimentos. Mas divago.)

Como estou por fora das notícias, desta vez não sei se o Brasil e a ONU vão mandar ajuda imediatamente, afinal o Chile é um país com muito mais importância econômica que o Haiti, além de ter população predominantemente branca, ou se vão ficar enrolando do mesmo jeito, afinal dá um trabalho danado escavar atrás de sobreviventes, é muito melhor deixar a maioria morrer e tirar meia dúzia dos escombros pra ter histórias de “coragem, solidariedade e esperança” para atrair público e assim contentar os anunciantes das grandes empresas de comunicação.

Sobra a comentar o suposto tsunami que deveria seguir um sismo de magnitude tão elevada.

Ao contrário da vez em que deixaram milhares de pessoas morrerem horas após o sismo na Indonésia, desta vez, como havia risco de atingir o Havaí, deram um baita alerta de tsunami imediatamente. A população do Havaí foi avisada imediatamente, teve tempo para ir ao posto de gasolina abastecer os automóveis, dar uma passadinha no supermercado para abastecer a despensa para alguns dias, voltar para casa, namorar um pouquinho e sair tranqüilamente para as montanhas, levando o cachorro, o gato, o papagaio e o peixinho dourado. Aí foi só esperar o tsunami e assistir de camarote o show das ondas gigantes derrubando prédios e arrasando a costa.

Mas… cadê o tsunami?

A “previsão” inicial era de ondas de até dois metros e meio, “previsão” essa depois atualizada para ondas de até quatro metros e meio. Isso seria resultado da propagação de ondas de energia que se deslocariam na água dos oceanos a uma velocidade média de 920 km/h, promovendo grande acúmulo de energia ao atingir a costa e portanto causando imensa devastação pontualmente às 19:52, horário de Brasília.

Mas o tsunami não veio.

Ao invés da devastação esperada, assistimos um ligeiro recuo das águas e a formação de uma marolinha ridícula com cerca de um metro de altura, muito menos do que qualquer surfista amador da região está acostumado a enfrentar.

Aí começou o show de explicações furadas. “Tecnicamente” isso é um tsunami, dizia um. “Oficialmente” o tsunami já começou, dizia outro. “Não necessariamente” um tsunami causa devastação, dizia um terceiro.

Ah, pára!

A verdade é que todos os “tsunamólogos”, “terremotólogos” et caterva pagaram um mico imenso, um verdadeiro king-kong, com sua “previsão” furada e incompetente de um grande tsunami. Isso porque não houve “previsão” alguma, eles simplesmente viram a magnitude do sismo nos instrumentos e sairam chutando que haveria um grande tsunami em função disso. Felizmente para a população costeira de todo o “círculo de fogo” do Oceano Pacífico, não é assim que funciona.

Para que um terremoto gere um tsunami, não basta que o sismo tenha grande magnitude, a direção do deslocamento do solo é fundamental para a transferência de energia do solo para a água.

Você que está lendo este artigo, faça uma experiência em casa: encha uma bacia com água, coloque as mãos inteiramente submersas e friccione uma mão na outra vigorosamente. Observe a água nas bordas da bacia. Ela não se move muito, certo?

Pois bem, agora ponha uma única mão dentro da bacia, em formato de concha voltada para baixo, e levante e abaixe a mão com o mesmo vigor e a mesma amplitude de movimento com que friccionou as mãos anteriormente. Observe a água nas bordas da bacia. Deste modo ela se move bastante, certo?

Pois é, a sua bacia funciona do mesmo modo que qualquer oceano. Movimento horizontal de solo, por maior que seja a magnitude do sismo, não provoca grande transferência de energia para a água. Movimento acendente ou descendente de solo, mesmo que o sismo seja de pequena magnitude, provoca grande transferência de energia para a água.

Agora perceba o seguinte: você aprendeu isso em menos de cinco minutos, lendo o Pensar Não Dói, que é um blog escrito por um biólogo. O que me irrita profundamente é que os “especialistas” na área passam quatro, seis, dez anos “estudando” o assunto na graduação, mestrado e doutorado, lendo periódicos especializados e participando de simpósios, conferências e congressos, mas não são capazes de aprender o que você aprendeu lendo um artigo escrito por um leigo com dois neurônios funcionais.

E, já que estamos em dia de grande aprendizado, aqui vai mais uma, para fechar o artigo: você viu as imagens do Havaí no suposto horário da suposta chegada do suposto tsunami? Havia um grande número de barcos ancorados, certo? Pois é, aquilo é a última coisa que se deve fazer num caso desses. Foi uma estupidez monumental, que teria aumentado muito os danos e prejuízos caso o tsunami tivesse realmente acontecido.

É só parar para pensar um segundinho: surfistas pegam onda antes da formação da crista ou depois da formação da crista? Pois é, eles pegam onda depois da formação da crista, caso contrário a ondulação simplesmente passa por baixo deles e segue adiante.

Outra coisa: pra que serve aquela cordinha flexível que o surfista amarra uma ponta no tornozelo e outra na prancha, o leash? Eu mesmo respondo, já que estou escrevendo o artigo: para impedir que a onda já arrebentada carregue a prancha embora quando ele cair.

A mesma física vale para embarcações: se elas estiverem longe da costa, antes que o tsunami forme uma onda com crista, a ondulação simplesmente passará por baixo das embarcações; se elas estiverem próximas da costa, elas serão carregadas pela onda arrebentada e arremessadas ao encontro da costa e de tudo que lá estiver.

Alguém aí faça o favor de traduzir para o inglês e avisar o pessoal do Havaí que a coisa certa a fazer em caso de tsunami é o oposto do que eles fizeram: ao invés de ancorar as embarcações próximas à costa, o correto é ir para alto mar, em direção às águas mais profundas que houver na região, o mais longe possível da costa.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 1°/03/2010


13 thoughts on “Terremoto no Chile… e o tsunami no Havaí virou marolinha

  1. poxa, foi a primeira chance na história de uma catástrofe com hora marcada e não condicionada à culpa de nenhum governo… foi um mico, mas vc acha que eles não lucraram com isso? Eu tb fiquei vendo pela tv ondinhas repetidas na praia, na hora marcada…

    vou roubar teu espaço para pedir que vá no meu blog, e para os outros comentaristas tb… na postagem sobre autores desconhecidos, a idéia (que não é minha) é boa e merece ser divulgada…

    1. 1) Foi um gorilão.

      2) Divulgação feita.

  2. Caro Arthur,
    Postei um comentário à tarde, mas não sei se foi publicado ou se está aguardando moderação.
    De qualquer forma, meu e-mail é ericorenatoserra@gmail.com
    Abração e espero que esteja tudo bem!

    1. Não tem nada na fila de moderação… nem nas primeiras dez páginas de spam… foi engolido pela internet. 🙁

  3. credo, que site bestaaaaaaaaaaaaa, ñ tem nada do meu trabalho !!

    1. HUAHUAHUAHUAHUA!!!

      De todos os motivos absurdos para alguém classificar um site como “besta”, com certeza “não ter nada para o seu trabalho” foi o pior até agora. 🙂

    1. “Aff” digo eu…

      É cada um que aparece…

  4. é “leash” iashiuahsiuahs … e tbm não é flexível!
    abraço!

    1. Corrigido o termo no texto. Mas não é flexível? Nadica de nada? Então dá um tranco danado na perna do coitado? Tem mais algum surfista aí pra palpitar? 😮

  5. O que eu tenho em casa não é flexível, mas o leash que os “bodyboarders” usam é normalmente em espiral e flexível…

    1. Bem, os que eu conheci eram de borracha, tinham uma certa flexibilidade.

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