O problema de não combater os trolls é que isso os deixa cada vez mais autoconfiantes e abusados, até que chega um momento em que a encheção é tanta que não nos resta alternativa senão combatê-los. É importante lembrar, entretanto, que o objetivo do troll é sempre desestabilizar as outras pessoas para sua própria satisfação, seja por divertimento, auto-afirmação ou simples mesquinharia. Quem perde o auto-controle acaba tendo atitudes que o fazem perder também a razão e passar de vítima a vilão na avaliação dos outros. É importante aprender a não cair nesta armadilha.

No início da minha atuação como moderador da comunidade de Direitos Humanos eu achava que não havia muita pressa para combater os trolls, porque uma vez identificados com certeza bastava removê-los do ambiente e o estrago estaria terminado. Ledo engano. Um troll – ou um grupo de trolls – em geral contamina o ambiente de tal forma que as demais pessoas, emocionalmente desestabilizadas, propagam a perturbação por muito tempo e acabam prejudicando a si e a terceiros. É por isso que hoje, na moderação da comunidade de Direitos Humanos, eu corto o mal pela raiz rapidinho: tem cheiro de troll? Parece troll? Eu expulso rapidinho. Se não era um troll, explique-se na comunidade “Expulsos da Direitos Humanos” que eu posso reavaliar.

Na vida presencial (não gosto muito do termo “vida real” porque a “vida virtual” também é “vida real”, mas divago) eu estou aprendendo a aplicar os mesmos remédios que aprendi a aplicar como moderador da comunidade de Direitos Humanos. Eu tinha uma grande resistência a isso, mas estou plenamente convencido que é a melhor solução. Vou ilustrar isso com uma história de ficção que já deve ter acontecido de verdade milhares de vezes.

Imaginem um otário ir fazer BO e explicar pro plantonista:

“- Sabe o que é, policial, eu fui convidado para a festa de casamento do Fulano, que é um católico convicto, mas eu sou umbandista, nada mais justo que eu portar no pescoço as guias dos meus orixás, não é? Afinal, os católicos usam crucifixos e ninguém reclama, pois estamos em um país em que a liberdade de culto é um direito garantido pela Constituição.

Pois bem, um outro convidado perguntou o que eram as minhas guias e eu expliquei, mas ele disse que os orixás que cultuo são demônios, então eu resolvi expor educadamente a minha opinião, que é um direito constitucional que eu tenho, que o senhor tem, que todo cidadão tem, certo? Eu estava explicando que meu guia é Bará, um orixá representado com o pênis ereto sob a tanga por ser símbolo de fertilidade, quando fui interrompido de modo muito grosseiro, ele chegou a afirmar que eu estava proferindo indecências, veja o senhor que absurdo.

Ora, eu não ia me intimidar perante aquela ofensa às minhas crenças, então fui obrigado a levantar meu tom de voz, é claro. Foi então que vários convidados, numa demonstração de radicalismo que beira ao fundamentalismo religioso, passaram a se dirigir a mim com palavras chulas e eu fui muito constrangido e mandado me retirar. Acabei passando um vexame, fui vítima de intolerãncia religiosa, é um absurdo que pleno século XXI não se possa dialogar livremente blá-blá-blá…”

Agora imaginem a cara do plantonista ao ouvir isso. 

Raios… na primeira menção a “demônios” deveria ter soado um alarme na cabeça desse sujeito: “ih… esse otário quer me ofender, deixa eu dar um corte”. E ele deveria ter dito:

“- Meu caro, cada um de nós tem suas próprias convicções religiosas, mas agora não é o momento nem o local adequado para termos um debate teológico, pois alguém pode se sentir ofendido. Vamos curtir a festa de casamento de nossos amigos, que eles sejam muito felizes!”

Ato contínuo, deveria levantar uma taça fazendo um brinde, deixando o troll sem ação e obrigando-o a desmascarar-se caso insista na contenda.

Do jeito que o hipotético umbandista agiu, comprando uma provocação barata e insistindo em provar seu ponto e exigir respeito a suas convicções religiosas do modo errado, no local errado e na hora errada, quem acabou trollando o ambiente foi ele. O provocador – o verdadeiro troll – deve ter sido apoiado e até mesmo desagravado pelos demais presentes.

Trollar é a arte de manipular o comportamento alheio para desagregar o ambiente. De provocações grosseiras a insinuações sutis, conforme o nível de refinamento do troll, tudo pode ser usado para atingir este objetivo.

Portanto:

Esteja atento para não morder a isca, mantenha o bom humor e jogue luz sobre a provocação para que o troll tenha que assumir a responsabilidade sobre seu comportamento.

Se você for o responsável pelo ambiente, deixe claro qual é o código de conduta exigido e quais serão as conseqüências geradas pela violação do código de conduta. E não ameace, cumpra.

Seja resolutivo, corte o mal pela raiz. Não jogue pelas regras do troll, tentando agir com cinismo ou pretenso descaso, pois isso já configura vitória para os objetivos dele. Ele estará se divertindo enquanto você tenta manter a pose.

Boa sorte.

8 thoughts on “Como combater um troll sem se tornar um troll

  1. A comunidade “Expulsos da Direitos Humanos” está valendo também para os comentários?

    1. Como assim? Comentar lá este artigo aqui? 😛

      Aquela “comunidade” na prática nunca terá mais do que dois ou três membros, porque ninguém vai querer ficar em uma comunidade com aquele nome. O cara entra, diz o que tem que dizer e cai fora. Aliás, isso é ótimo, porque evita trollagem. 🙂

  2. Como meu comentário não apareceu aqui (6 tentativas) mandei para o teu Orkut. Não apareceu nem inteiro e nem esquartejado. Pensei que o mecanismo pega-troll já havia sido instadado aqui

  3. Desisto. Leia no Orkut.

  4. nada a ver com a ótima postagem… é só pra dizer que o fórum do orkut já tá contando com minha indigníssima presença… embora não seja presencial…

  5. Nem sempre é fácil seguir os próprios conselhos… dei uma advertência com a cabeça quente e o sujeito advertido saiu da comunidade. Não era necessário chegar a tanto, bastava ele evitar os deboches, mas eu não tive calma o suficiente para escrever a advertência e ficou parecendo que misturei o debatedor e o moderador. Fui objetivo nos critérios, mas não deixei isso claro na forma. Uma pena.

  6. O que é Troll? Como agir diante de um troll ou fake? Como eliminar essas pestes online? « Marcos Masini: Jornalista, Redator WEB, Conteúdo para Mídias Sociais – Franca-SP

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