As drogas – quase todas elas – são velhas conhecidas da humanidade, tendo sido utilizadas em praticamente todas as culturas, inclusive nos grandes centros da civilização ocidental, sem que isso resultasse em violência ou desagregação social. Por incrível que pareça, a paranóia proibicionista é muito recente e não tem nenhuma relação com os motivos usualmente alegados, como supostas preocupações com a saúde pública ou com a segurança pública.

A amostra mais antiga de maconha usada para propósitos psicoativos é um tijolo de 789 gramas com cerca de 2700 anos que foi encontrado no túmulo de um sacerdote na China. Entretanto, indícios de uso de maconha como alimento, como medicamento e como fibra têxtil remontam há mais de 7000 anos.

A cocaína tem pelo menos trinta séculos de uso pela humanidade, era utilizada pelos Incas e foi adotada como medicamento pela medicina ocidental tradicional. A cocaína foi legalmente comercializada nas sociedades ocidentais de diversas formas, inclusive como componente de vinhos e refrigerantes.

Seria extenuante e desnecessário citar todos os usos históricos lícitos de substâncias como o ópio, a Ayahuasca, o LSD, as anfetaminas e seus derivados, até chegar ao uso puramente recreativo das drogas sintéticas modernas como a meth e às formas modernas de consumo de drogas antigas, como o crack.

O fundamental neste momento é entender o seguinte: o uso de drogas é tão antigo quanto a humanidade, mas sua demonização e a histeria em torno delas constituem um fenômeno novo. Isso não aconteceu por acaso. Conhecer os motivos pelos quais isso aconteceu é o ponto de partida necessário para toda e qualquer discussão a respeito das drogas.

Da guerra a favor das drogas à guerra contra as drogas

Para quem ainda não sabe, o ocidente já promoveu guerras exigindo a abertura de canais comerciais no oriente para vender drogas de propósito recreativo. Seria interessante ler sobre as Guerras do Ópio para sepultar de vez a pretensão ingênua de que “as drogas sempre foram inimigas da sociedade”, especialmente na civilização ocidental.

É muito interessante lembrar que, quando a China tentou impedir o comércio de ópio em 1839, com as justificativas da saúde pública e da segurança nacional, a Inglaterra lhe declarou guerra, arrebentou a marinha chinesa, sitiou e tomou cidades e em 1842 exigiu a assinatura de um tratado de abertura de portos para vender as suas drogas aos chineses, uma pesada indenização de guerra e a posse de Hong-Kong por um século, o que acabou se estendendo até 1997.

Em 1856 os chineses abordaram e revistaram o navio Arrow, de bandeira britânica, e em conseqüência em 1857 Inglaterra e França se uniram numa nova guerra contra a China, exigindo a abertura de mais portos e salvo-conduto para os seus mercadores de drogas.

A mamata não ficou restrita à Inglaterra e França: no final do século XIX todos os países europeus, mais os Estados Unidos da América e o Japão, usufruíam de concessões e privilégios comerciais na China.

Nenhum destes países demonstrou qualquer preocupação com a saúde dos chineses nem teve qualquer preocupação ética ao usar de força militar para obrigar o governo chinês a importar drogas. A única motivação presente sempre foi a pura motivação econômica.

Ah, sim: morreu muita gente dos dois lados nestas duas guerras, tanto entre os invasores pró-drogas quanto entre os invadidos anti-drogas. A peonada sempre é descartável numa guerra de interesses comerciais. Pouco importa se o nome dos peões são “soldados do império” e “súditos de sua majestade” ou se são “policiais” e “traficantes”.

O combustível básico de toda guerra é carne humana descartável, quase sempre convicta ou iludida de que luta por algo justo, quase sempre convicta ou iludida de que não existe outra alternativa. E o massacre quase sempre ocorre em nome de interesses  inconfessáveis, em geral puramente econômicos.

A virada da guerra a favor das drogas para a guerra contra as drogas também aconteceu em nome de interesses inconfessáveis.

No início do século XX, a Ford desenvolveu não somente um carro feito predominantemente de maconha como também combustíveis e plásticos derivados de maconha que eram muito mais limpos que os derivados de petróleo, com a grande vantagem de serem renováveis.

A fibra da Cannabis sativa L. é simplesmente a melhor fibra têxtil que existe. Praticamente tão macia quanto a seda, porém mais resistente, e muito mais longa e trabalhável que o algodão, a fibra da Cannabis representa um concorrente de peso tanto para a indústria algodoeira quanto para a indústria de celulose de madeira.

Na década de 1920, havia imensas plantações de maconha na Europa e nos EUA, com seus produtos concorrendo diretamente com os das indústrias petroleira, algodoeira e de celulose de madeira.

Para quem não reconheceu a data, esta década foi também a década da Lei Seca nos Estados Unidos da América, que foi editada sob pressão de grupos religiosos ultraconservadores.

Ora, o clima de histeria contra o álcool era propício também para promover uma “caça às bruxas” contra o que bem se entendesse. Bastaria envenenar a opinião pública contra qualquer coisa que se quisesse proibir e aproveitar o embalo da Lei Seca. E isso foi exatamente o que aconteceu.

Harry Anslinger, um funcionário público responsável pela repressão do tráfico de rum vindo das Bahamas, aproveitou-se magistralmente desta oportunidade, a ponto de ser impossível ignorar sua influência pessoal na sórdida história da proibição das drogas.

Anslinger divulgou intensamente diversos mitos absurdos sobre a maconha, como os de que ela traria força sobre-humana a seus usuários (dando assim vantagem competitiva aos trabalhadores mexicanos, habituais consumidores de Cannabis, sobre os trabalhadores estadunidenses), que ela induzia ao sexo promíscuo (novamente objetivando difamar os trabalhadores mexicanos, que não partilhavam da moral puritana ultraconservadora estadunidense) e que ela induzia ao crime (aproveitando-se do aumento da criminalidade decorrente da Grande Depressão para usar a Cannabis como bode expiatório).

Em 1930 o governo dos EUA criou o Federal Bureau of Narcotics e Anslinger conseguiu tornar-se chefe desta instituição, passando a ser o principal responsável pela política de drogas dos EUA. Isso significava que, quanto mais substâncias fossem proibidas, tanto maior seria seu poder pessoal.

Em 1937 Anslinger publicou um artigo mentiroso e sensacionalista intitulado “Marijuana: assassina de jovens”, no qual ele afirmava que a maconha causava irritabilidade e violência. No mesmo ano ele conseguiu a proibição do cultivo de Cannabis nos EUA e a potência norte-americana passou a pressionar a Europa para também proibir o cultivo da erva, atingindo por tabela toda a indústria de derivados da Cannabis no mundo inteiro.

(Muito interessantemente, no Brasil a primeira lei contra a maconha havia sido editada um século e sete anos antes, sob a alegação exatamente oposta, pois a preocupação da elite escravagista era que o efeito relaxante da erva deixava os escravos desmotivados para o trabalho. Não por coincidência a pena para o usuário era maior que a pena para o traficante.)

E qual era a relação entre Harry Anslinger e a indústria petroleira? Simples: “Anslinger era casado com a sobrinha de Andrew Mellon, dono da gigante petrolífera Gulf Oil e um dos principais investidores da igualmente gigante Du Pont”. Não por coincidência, na década de 1920 a Du Pont estava investindo pesadamente em diversos produtos derivados de petróleo, como aditivos para combustíveis, plásticos, fibras sintéticas como o náilon e também em papel feito de madeira, todos eles produtos para os quais os derivados da Cannabis são concorrentes de melhor qualidade.

Junte-se esse apoio de peso nos bastidores com o apoio explícito de William Randolph Hearst, um milionário dono de uma grande rede de jornais e provavelmente a pessoa mais influente dos EUA, que possuía grandes extensões de terras em que plantava eucaliptos e outras árvores para produzir papel, e estava armado o cenário para a maior e mais intensa campanha de demonização da maconha, geralmente utilizando-se de preconceitos contra grupos étnicos específicos que ameaçavam interesses de trabalhadores brancos estadunidenses, como os mexicanos e os negros.

Perante uma campanha gigantesca destas, que envenenou a opinião pública com mitos e temores infundados, os EUA acabaram por proibir não somente a maconha como também quaisquer outras substâncias psicoativas, gerando e divulgando internacionalmente a cultura de paranóia anti-drogas. A pressão do governo dos EUA atingiu primeiramente a Liga das Nações e depois a sua sucessora, a Organização das Nações Unidas, levando a Europa e depois o resto do mundo a uma onda proibicionista irracional e geradora de corrupção e violência.

Os resultados da proibição das drogas

Como toda proibição exige fiscalização e repressão, o espalhamento da paranóia anti-drogas iniciada nos EUA gerou um efeito dominó de recrudescimento das políticas de Estado em todo o mundo, desviando para o policiamento, para a compra de armas, para a construção e manutenção de presídios e para outras atividades repressivas os recursos que poderiam estar sendo usados para investir em saúde, educação, moradia, transporte e outros setores de infraestrutura necessários para garantir à população qualidade de vida e acesso à renda.

As conseqüências da paranóia proibicionista são, como podemos conferir em todos os países que se alinharam à paranóia proibicionista, que nunca se matou tanto em nome da saúde, nunca se encarcerou tanta gente em nome da liberdade, nunca se promoveu tanta violência em nome da segurança pública e nunca se teve tanto medo em nome da paz.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 02/04/2010

9 thoughts on “Drogas: de velhas amigas a novas inimigas

  1. Nossa… porque tu não vai ser cartomante??? Aquele teu comentário lá no blog me deixou de queixo caido, tu me leu praticamente…
    Tem msn??? Anota o meu aí: [deletado para proteger a privacidade da Rê]

    Obrigada pelas tuas palavras, adorei o que tu escreveu e me fez pensar.

    Bjo

    PS: depois passo aqui pra “te ler”, vou responder os comentários do pessoal que são muitos, porque não atualizo o blog faz dias!

    1. Bem… não criei uma comunidade chamada “Melhores Conselhos Possíveis” à toa. 🙂

      Hehehehe…

      Mas, falando sério agora, já te adicionei no MSN. A gente bate um papo mais tranqüilo e mais privado por lá. 😉

  2. As conseqüências da paranóia proibicionista são, como podemos conferir em todos os países que se alinharam à paranóia proibicionista, que nunca se matou tanto em nome da saúde, nunca se encarcerou tanta gente em nome da liberdade, nunca se promoveu tanta violência em nome da segurança pública e nunca se teve tanto medo em nome da paz.
    ………..
    Realmente o mundo desenvolvido, entre eles o Japão, USA e Europa deve aprender com o Brasil a malandragem e por ai vai kkkkk, vc tem que entender que eles realmente não gostam de criminosos, só nascendo de novo pra vc ver a realidade algum dia.

    1. Só passei os olhos por cima, depois vou ler com calma e colocar o assunto em pauta no blog. Que raiva que me dá esse tipo de hipocrisia assassina!

  3. Não-humanos tambem se drogam. Já sabia de animais terrestres, mas esta é nova pra mim:
    http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/golfinhos-usam-toxicina-liberada-por-peixe-como-um-tipo-de-droga

    [Golfinhos usam toxina liberada por peixe como um tipo de droga
    Comportamento foi flagrado por câmeras camufladas durante gravação de um documentário da BBC

    Câmeras movidas por controle remoto, disfarçadas de tartarugas marinhas ou de peixes, captaram um novo comportamento entre jovens golfinhos: utilizar uma substância liberada por uma espécie de tetraodontídeo (conhecido como baiacu ou peixe-balão) como um tipo de entorpecente. Imagens feitas pelas câmeras mostram os animais passando o peixe uns para os outros, e agindo de forma estranha em seguida…]

    1. Uau!

      Aposta quanto que não vai faltar quem se mate dando um “pega” num baiacu pra ver qual é o barato? 😛

  4. Clínica de Recuperação Grupo Casoto
    http://www.grupocasoto.com.br
    A Clínica de Recuperação Grupo Casoto conta com diversas unidades para tratamentos da dependência química. Unidades com equipe especializada

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