Eu sempre disse que o naturismo nada mais é que a simples expressão da mais pura humanidade. Há pouco tempo descobri a existência de Irwin, alguém que pensa exatamente do mesmo modo que eu, mas tem a sorte de viver em um país um pouco mais civilizado que o Brasil. Na Espanha, se por um lado ainda existe o mesmo ranço cultural que contamina o mundo inteiro com a noção absurda de que o corpo humano deve ser coberto porque sua simples visão constitui “atentado ao pudor”, por outro lado já é possível viver legalmente o ideal naturista. Falta muito para chegar ao nível da Alemanha, onde se pode tomar banho de sol nu em qualquer praça sem que ninguém ao redor se importe, mas os naturistas somos pontas-de-lança de um movimento por um mundo mais saudável e digno.

Pelo que entendi, Irwin não se considera um revolucionário. Ele apenas reivindica o direito de ser saudável e agir de modo saudável em meio a um ambiente cultural onde os preconceitos são dominantes e as ideologias derivadas de antigos mitos religiosos foram convertidas em leis há tanto tempo que quase ninguém ousa questioná-las.

Este é o conteúdo da reportagem em que descobri a existência de Irwin:

Ciclista nu é atração no litoral da Espanha

Todos os dias, a orla marítima de San Sebastián, no nordeste da Espanha, tem uma atração a mais: Irwin, o ciclista nu. Indiferente às polêmicas, ele reivindica o direito de pedalar sem roupas pela rua porque isso não é crime. E até a Justiça espanhola concorda.

O ciclista nudista, um francês de “mais de 50 anos” e que prefere ser chamado “só de Irwin, sem sobrenome”, passeia com uma antiga bicicleta pela praia de La Concha desde 2006, sorrindo a quem encontra pelo caminho e sem se preocupar com olhares e críticas.

A decisão de pedalar sem roupas pela orla já rendeu ao francês duas prisões e um processo judicial, mas Irwin nunca passou mais de meia hora na delegacia de Hendaia, no País Basco.

Com argumentos jurídicos, ele afirmou ao delegado que a legislação espanhola proíbe o nudismo em praias não designadas para esta prática. Ou em casos de exibicionismo ou provocação que caracterizem atentados ao pudor. Mas não há artigos que citem restrições à circulação nu em bicicleta.

Nas duas prisões (a última em outubro de 2008), os policiais atenderam a apelos populares, mas reconheceram na delegacia que o ciclista não provocava ninguém.

Em entrevista à TV local do País Basco, Euskal Telebista, Irwin afirmou que foi preso por desobediência (não acatou as ordens dos guardas para se vestir), mas não por exibicionismo, porque em seus gestos “nunca há nada de libidinoso”.

O ciclista considera “andar nu pela rua o mais básico de todos os direitos humanos” e questiona a razão da polêmica.

“O que tem de mal o corpo humano? Sim, há gente que só olha 1% do meu corpo, os genitais. Algo curioso, porque é o órgão que nos dá a vida.”

As declarações coincidem com a sentença judicial que absolveu o ciclista. Depois da última prisão, um deputado conservador processou Irwin por exibicionismo, e a decisão do tribunal anunciada nesta quarta-feira foi de inocência.

Segundo a sentença, “o acusado não manteve atitude libidinosa ou de provocação sexual”. Nem há “indícios de reclamar a atenção pública, nem insinuações ou provocações de caráter erótico ou excitação sexual”.

Irwin disse ainda que não circula sem roupas para reivindicar direitos para os nudistas, apenas reclama liberdade de expressão para ele mesmo e porque considera “uma coação ser obrigado a fazer algo que nenhuma lei obriga”.

Insistindo que não faz mal a ninguém, o ciclista reconhece que muitas vezes ouve queixas e palavrões na rua, mas diz que o problema não é dele. “Já me chamaram de porco, sem vergonha e outras coisas. Mas o problema não é meu, mas de quem olha”, afirma.

Quem me xinga, reflete o estado do seu coração“, acrescenta. “O que deveria fazer é se limpar por dentro. Eu não julgo ninguém pela aparência porque o essencial está lá na alma e no coração.”

Fonte: CICLISTA NU E ATRACAO NO LITORAL DA ESPANHA (G1)

E este foi meu comentário quando li essa notícia:

Interessante o fato de que o tema é da mais alta seriedade, a Justiça Espanhola deu razão a todas as alegações de Irwin, ele deixa claro que quem tem problemas em encarar o corpo humano de modo saudável não é ele, seu principal argumento é em defesa dos Direitos Humanos… mas a manchete trata o assunto de modo sensacionalista e vulgar.

Irwin, mais um defensor dos Direitos Humanos extremamente incompreendido!

(Postado originalmente no Orkut em abril de 2009.)

Fico imaginando se algum dia conseguiremos recuperar a sanidade e abandonar a idéia doentia de que o corpo humano – nosso corpo – possui alguma característica tão intrinsecamente má que deve ser escondida da visão de todos.

A idéia de que o corpo deve permanecer oculto por “respeito ao pudor” é doentia e degradante, pois produz neuroses e abre um mundo de possibilidades de abusos e degradação.

Em um mundo naturista, quem compraria um exemplar de uma revista com fotografias de pessoas nuas? Ninguém, pois a simples exposição do corpo não seria confundida com erotismo. Portanto, toda a indústria pornográfica que explora a neurose gerada pelo isolamento visual do corpo humano deixaria de existir.

Em um mundo naturista, quem se deixaria espremer como sardinha em lata em meios de transporte coletivo grotescamente superlotados? Ninguém, pois pessoas nuas recuperam a noção de espaço individual que a supressão do sentido do tato aniquila. Portanto, todo o abuso a que são submetidos milhões de pessoas que precisam se deslocar em ônibus ou metrôs teria que deixar de existir.

Em um mundo naturista, quem se permitiria ter má higiene pessoal, ou deixar de tratar ferimentos ou doenças de pele? Ninguém, pois tal relaxamento seria facilmente detectado pelos sentidos do olfato e da visão dos demais, que exigiriam providências. Portanto, a higidez e conseqüentemente a saúde de muitas pessoas seria consideravelmente beneficiada.

O benefício maior de um mundo naturista, entretanto, seria a promoção daquilo que Irwin preconiza: as pessoas teriam que “se limpar por dentro”, porque “o essencial está lá na alma e no coração”.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 08/04/2010

7 thoughts on “Andar nu pela rua: “o mais básico de todos os Direitos Humanos”

  1. Bom, no momento está a maior ventania aqui nas montanhas e o termômetro marca 14 graus, então a ideia de sair por aí sem lenço e sem documento não me soa lá muito tentadora não… 🙂

    1. É, mas quando faz “um calor duzinfernu”, como dizes, daqueles de fritar ovo na calçada, quando o ventilador sopra um bafo quente e nossos miolos parece que vão derreter mesmo à sombra, faz algum sentido ser obrigatório andar enrolado em um monte de panos sob pena de prisão?

  2. eu quero pasagem para ver o justin bieber

  3. Sou naturista mas não acho um “direito humano” fundamental. É coisa de homem-massa achar que seus gostos pessoais são “direitos inalienáveis” e que os outros são obrigados a aturar. Respeitar aos outros é básico. A cidade não foi feita para nús. Não é ambiente para isso. A natureza sim, onde há bastante espaço para não incomodar ninguém.
    Se eu for à praia com um equipamento de som de milhares de watts de potência para curtir o “meu som”, é um desrespeito à quem lá está para estar tranquilo.
    Mesmo em praias que não são naturistas, pode-se praticar naturismo na Espanha. E mesmo em Portugal. Se tu fores o primeiro e as pessoas que lá estão sabem que estás nu. O contrário é etiqueta pessoal: não vais tu te meteres numa praia cheia de famílias e ficar nú ao meio delas…. Não considero nenhum naturista uma “minoria progressista” que tenha qualquer coisa a ensinar aos outros… Pelo contrário, todos são iguais. E devem respeitar aos outros igualmente.


    1. “Irwin não se considera um revolucionário. Ele apenas reivindica o direito de ser saudável e agir de modo saudável”.

      A questão fundamental do naturismo é esta: não se pode considerar o corpo humano como algo errado ou vergonhoso.

      O uso obrigatório de roupas, quando não há função de proteção ou de adorno voluntário, é apenas uma forma de violência contra a saúde física e mental.

  4. Andar nu pela rua: O mais básico de todos os Direitos Humanos » Os Naturistas

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