Observando o bizarro comportamento humano, eu freqüentemente me sinto como um alienígena explorando um mundo desconhecido e incompreensível. Vocês assistiram a comédia romântica “como perder seu homem em dez dias”? Pois a vida real traz exemplos muito mais tragicômicos de atitudes que afugentam pessoas em muito menor tempo.

Fulano é um homem que valoriza relacionamentos estáveis e há muito tempo deseja constituir família. Entretanto, após suas duas últimas decepções amorosas, ambas com mulheres que se demonstraram egocêntricas e individualistas, decidiu abandonar temporariamente a procura de uma companheira e “cuidar do próprio jardim”. Aos quarenta anos, ele está focado em uma reestruturação profissional e tentando mudar alguns hábitos para melhorar sua forma física. Ele não chama isso de “crise dos 40” e sim de dar atenção àquilo que é importante enquanto há tempo.

Sicrana é amiga de Fulano há mais de uma década. Ela acompanhou o estresse que levou ao final dos dois últimos relacionamentos de Fulano e entende o conflito do amigo entre o desejo e o receio de se envolver novamente. Talvez por isso tenha demorado alguns meses para decidir lhe apresentar sua colega de trabalho.

Beltrana tem 30 anos, trabalha no mesmo setor de Sicrana em uma instituição pública, tem uma criança de um relacionamento anterior e diz estar aberta a um novo relacionamento.

Há duas semanas, Sicrana pediu uma carona a Fulano porque precisava ir à casa de Beltrana. Lá chegando, Sicrana fez as apresentações e houve uma simpatia muito grande entre Fulano e Beltrana. Dois dias depois ele pediu à Sicrana o telefone da colega para convidá-la para um jantar.

Fulano telefonou, fez o convite, Beltrana aceitou. Simples assim.

O encontro foi um grande sucesso. Um dos dois falou qualquer coisa sobre política e os dois passaram a debater e filosofar animadamente, a ponto de as horas passarem sem que os dois percebessem. Foram os últimos a sair da pizzaria, já com o garçon empilhando as cadeiras sobre as mesas vizinhas e apagando as luzes.

A conversa prosseguiu no carro, rodando sem destino pelo prazer da companhia e depois por mais uma hora em frente ao prédio onde ela morava. Tão logo Beltrana entrou no prédio, Fulano mandou uma mensagem pelo celular dizendo que adorou a noite, que esperava vê-la muitas vezes novamente e que lhe desejava um bom descanso.

Sabendo que Beltrana deveria estar cansada, Fulano não telefonou na sexta-feira, mas – conforme haviam combinado – enviou no horário do almoço uma mensagem para o celular de Beltrana informando o e-mail que usa no Orkut e no MSN. Ele iria viajar no início da tarde do dia seguinte e passar três semanas fora da cidade a trabalho, mas os dois não queriam perder contato.

No horário de almoço de sábado, Fulano telefonou para Beltrana. Ela estava ocupada organizando um evento, então não era possível conversar naquele momento. Fulano disse que estava tudo bem, que depois conversariam e despediu-se mandando um beijo.

Por volta das 15h houve uma completa mudança nos planos de Fulano. Ele foi buscar o carro na oficina e ficou sabendo que não poderia mais viajar naquele dia, porque o mecânico não havia encontrado uma peça que precisava ser trocada e não havia mais onde comprá-la no sábado à tarde.

Por um lado incomodado com o inconveniente, por outro lado contente com a oportunidade de ver Beltrana mais uma vez antes de viajar na segunda-feirta, Fulano mandou uma mensagem informando a mudança de planos e pedindo que ela lhe desse um toque no celular quando terminasse o evento, quando então ele ligaria de volta para que pudessem conversar.

O sábado terminou sem que houvesse resposta.

Fulano imaginou que Beltrana tivesse saído muito tarde do evento e que não tivesse achado razoável ligar sem conhecer os horários dele. Deixou passar o domingo, pois sabia que ela estaria na festa de aniversário de um parente durante a tarde. Saiu a rodar sem rumo à noite, como costuma fazer para espairecer.

Em um determinado momento Fulano lembrou que não havia informado a nova data de viagem, então telefonou para Beltrana. Como ela não atendeu o telefone, ele enviou uma SMS dizendo que estava na rua, dirigindo sem rumo, e se ela quisesse poderiam se ver. Estranhando o segundo dia sem qualquer contato após um início tão entusiasmante e o fato de Beltrana não atender suas chamadas, Fulano terminou a mensagem com a frase “aguardo teu contato”.

O domingo terminou sem que houvesse resposta.

Após dois dias de completa ausência de retorno, Fulano já estava incomodado com aquele silêncio. Ele esperou o contato de Beltrana até o final da tarde, horário em que sabia que Beltrana estaria livre, e como o contato não veio enviou outra mensagem dizendo que não estava entendendo aquilo. Afinal, como é que uma pessoa é tão boa companhia em um dia e não merece sequer uma palavra nos três dias seguintes?

A segunda-feira terminou sem que houvesse resposta.

A essas alturas do campeonato, Fulano ligou para Sicrana e perguntou: “vem cá, qual é a da tua amiga?” E a resposta de Sicrana foi: “ela disse que não teve tempo de te ligar e que não gostou da tua mensagem desaforada, mas que não tem problema pra falar contigo se tu ligares para ela”.

HOHOHO!

Eu não duvido de mais nada, mas não canso de me surpreender com as histórias fantásticas protagonizadas por esse meu desconhecido, o Homo sapiens. Lá no meu planeta nós nos embriagamos com naftalina liquefeita e rimos até tropeçar nos próprios tentáculos tentando imaginar como funciona a mente de vocês, criaturas estranhas.

Quer dizer então que uma mulher tem um primeiro encontro animado e divertido com um homem, eles combinam se falar logo em seguida, depois ela dá um gelo de três dias no infeliz sem qualquer explicação, usa a desculpa esfarrapada de que “não teve tempo” para dar um toque no celular do sujeito e ainda acha que o desaforo é dele por dizer que não entende a atitude dela?

No meu planeta, por mais ocupados que estejamos, nós não levamos mais que um minuto para acionar um telecomunicador com qualquer tentáculo e informar o melhor momento futuro para uma audioconferência privada. Quanto tempo um terráqueo demora pra dar um toque no celular, dizer que está ocupado e perguntar se pode conversar dali a uma rotação planetária? Algumas horas?

No meu planeta, independentemente da quantidade de tentáculos, qualquer um que leve um gelo desses sem qualquer explicação vai ter certeza que foi chutado para escanteio sem a menor consideração.

No meu planeta, se a explicação para tal descaso for “não tive cinco minutos em três dias para dar atenção a ele”, isso é um sinal claro de que se está abaixo da remela do canto do olho na lista de prioridades do outro.

No meu planeta, a não ser em caso de força maior, procuramos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados, mas vocês terráqueos parecem achar “muito normal” racionalizar o desrespeito e a desconsideração uns com os outros.

Pelos anéis de Saturno, felizmente eu estou na Terra só de passagem!

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/04/2010

53 thoughts on “Como perder seu homem em três dias

  1. Eu gostei muito da estória,mais me conhecendo e entendendo um pouco como é a nossa vida,acredito que ela estava com alguma coisa pendente,como um outro ex,ou algum outro pretendente,na qual ela resolveu não dar mais esperanças ao fulano,as vezes isso acontece,mais não adianta criticar,pois,nós mulheres,as vezes somos como vcs homens,(algumas).É comprovado por psicólogos que homens tem dificuldades em terminar relacionamentos e vão empurrando com a barriga,pois não gostam de ver mulher chorando ou não querem causar sofrimento,é meio constrangedor,vc ver alguém super interessado e você jogar um grande balde de agua gelada não acha?Talvez ela estivesse até pensando em ficar com ele,mais ele foi impaciente e mulher detesta homem pegajozo!!!Beijos!

    1. Obrigado pela visita e pelo comentário, Simone.

      Se aguardar três dias por um simples toque no celular após um encontro super-agradável que parecia promissor é ser “impaciente” e “pegajoso”, por que então as mulheres reclamam quando os homens não ligam no dia seguinte? 😉 Dois pesos, duas medidas.

      Fulano não foi impaciente nem pegajoso. Uma mensagem por dia está longe de ser um assédio insistente. A Beltrana agiu com descaso, aposto que qualquer um no lugar de Fulano interpretaria isso como desinteresse. Talvez alguns simplesmente deixassem pra lá, talvez outros insistissem mais, a atitude de Fulano foi um meio-termo ponderado: ao invés de sumir ou insistir, ele resolveu abrir o jogo e passou explicitamente para Beltrana a responsabilidade de fazer contato.

      Como mais de dez dias se passaram e ela não deu retorno, acho mesmo que ela devia estar fazendo jogo duplo, saindo com outro cara, ou pelo menos interessada em outro cara. Ou então é apenas mais uma mulher complicada, do tipo que vai passar a vida reclamando dos homens.

  2. Que bom encontrar alguém do meu planeta vagando por esta terra!
    Esses terráqueos são de fato bem estranhos.
    Aqui, essas moças são levadas a crer que só serão amadas na proporção em que se negarem, que tornarem as coisas difíceis.
    Se alguém me amar mais pela minha negação que pela minha entrega, considera-lo-ei um psicopata e colocarei meus tentáculos em movimento na velocidade máxima e na direção contrária.
    Ainda bem que no meu, quer dizer, nosso, planeta, podemos atender o telecomunicador ao primeiro toque e dizer: – Que bom que você ligou!
    Abraço,
    Iolanda.

    1. Oi, Iolanda, obrigado pela visita e por me informar que ainda há gente de nosso planeta vagando por aqui além de mim. Estamos nos tornando raros, deve haver alguma coisa na atmosfera deste planetinha aqui que esteja nos fazendo muito mal. Poluição, creio eu… tanto do ambiente quanto da mente.

      Concordo totalmente contigo em relação ao “apreço pela negação”. Quem coloca as pessoas quem gosta em um ponto tão baixo de sua lista de prioridades que em três dias não consegue retornar um simples contato repetidamente solicitado é porque não gosta tanto assim, né?

      Fulano deve ter se sentido mais rejeitado que estagiário de escritório de cobranças, que liga, liga, liga, deixa recado todas as vezes e ninguém dá retorno…

  3. Huahuahua!!! Ótima. Pode entrar pra minha lista de contos nonsense inexplicáveis. Uma vez passei por algo parecido, quando ainda estava solteiro. Uma mina, muito gostosa (aqui não tem meio termo e meu vocabulário costuma ser bastante direto), de seios fartos, bumbum arrebitado, loira de olhos verdes, demonstrou grande interesse por minha humilde pessoa, chegando ao requinte de ME ASSEDIAR. Correspondi ao interesse da guria e marcamos de sair tão logo ela chegasse de uma viagem de férias ao litoral de Minas (Guarapari).

    Estranhamente ela, após dias de namorico pelo celular durante sua viagem, não atendia mais as ligações de celular pra celular. Não compreendi, e resolvi ligar para o telefone fixo da moça. Surpreendentemente ela atendeu e duas ou três vezes disse que não atendia o celular por que estava no banho, por que tinha esquecido em casa.

    Semanas depois descobri que o telefone fixo não tinha identificador de chamada. Nunca mais liguei e ela nunca mais falou comigo. Por que? Até hoje não sei.

    1. Perguntar não rola?

  4. A parte mais divertida de ler os posts de um blog é ler os comentários. Quando comentei a primeira vez, sme querer ignorei a primeira página de comentários.

    E toma aí, Arthur, tou fritando sua MySQL.

    1. A primeira página de comentários deste artigo aqui é mesmo o bicho! 🙂

  5. Você é uma pessoa incrível com noções psicoestranhas da realidade. Mas amei seu texto, tenho que admitir.
    Tenho uma LEVE Impressão que você é machista. Afinal, é INCRÍVEL O FATO de que ELA não ligou para ele, sendo que a maioria das minhas estastíticas pessoais confirmam o oposto. Mas enfim…
    Se eu fosse ele, não perderia tanto tempo tentando a entender. Afinal, de que adianta ficar correndo atrás de alguém que não dá a mínima e ainda ser humilhado? Eu preferia ser chamada de traidora e pegar outro na lata. É bem mais divertido.
    Sou sua fã, só para deixar registrado.

    1. Oi, Ianne. Que pena que não vi tua mensagem na época. Mas, respondendo: eu não sou machista, não. Nadica de nada. E não entendo COMO tem gente que infere isso a partir deste texto, que me faz dar risadas cada vez que o releio, ainda sem compreender o comportamento absurdo de Beltrana.

  6. Meu Deus, o tempo todo em que estava lendo, estava também rindo, irritada, torcendo e agitada.
    Eu fiquei enfurecidamente apaixonada pelo Arthur.
    Eu fiquei loucamente apaixonada pela Rita.
    Em meio essa troca de post’s por ambos eu descobri:
    É ai que se dá o meio termo.
    Simplesmente adorei.
    Abraços.

    1. Oi, Bru. Bem-vinda ao Pensar Não Dói. Obrigado pelo delicioso elogio. Mas podes me explicar o que poderia ser um “meio termo” nessa história?

      No meu entender, só tínhamos duas possibilidades: ou Beltrana estabelecia contato, ou não estabelecia. Ela decidiu não fazer um novo contato, e Fulano logicamente pulou fora dessa canoa furada.

      Aí vem a Rita e tenta justificar por A + B, ou melhor, por Marx + Beauvoir, que Fulano não tem o direito de ter sentimentos e esperar ser tratado com o mínimo de consideração porque é um machista opressor histórico enquanto Beltrana tem o direito de agir como bem entender e tem que ser compreendida e admirada porque é uma mulher trabalhadora, mãe solteira e “revolucionária”, portanto quadruplamente oprimida… Afff…

      Enquanto isso, tudo que eu questiono é: não dava pra arrumar cinco minutos em três dias pra telefonar pro sujeito, que obviamente estava ansioso por uma resposta?

      Pela Tigela do Buda, qual é o “Caminho do Meio” nessa história? 😛

  7. Oi, obrigada.
    Poxa, fiquei emocionada pela atenção, eu fiz um comentário apenas. 😀
    Pensa bem:
    Fulano foi um pouco apressado, poxa.
    Ok, a noite foi maravilhosa, para ambos. Só.
    Fulano, como beltrana adoraram, ponto.
    O que faz fulano pensar que ele pode, ou deve ser insistentemente chato?
    Se Beltrana não respondeu um dos primeiros SMS (qualquer que fosse seu motivo), pra que insistir?
    Pressa em repetir a noite… Tá, mas e dai?
    Beltrana não lhe deu tal confiança para essa possessividade.
    (Ih, lá vem mais uma falando de posse, que MER#@ não tem possessividade nenhuma no meu post.)
    Pois, é o que parece. Não adianta argumentar. Duas coisas ficaram claras:
    Fulano e Beltrana gostaram da noite.
    Fulano se apressou e estragou tudo.
    E porque raios, Beltrana seria a culpada?
    Ok, sem culpados e inocentes, não havia nada entre os dois, certo?
    Então ela não tem o porque retornar a ligação, se não quiser e fulano não tem base pra ficar chateadinho. Simples assim.
    Tá… E o meio termo, srtª Bru?
    O meio termo:
    Se Fulano não fosse insistente (tivesse mandado dois ou três SMS, apenas), não haveria descaso da parte de Beltrana, certo?
    Ou seja, Beltrana só foi indiferente por que Fulano foi chato.
    Aff. Simples.

    Abraços emocionados da Bru.

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