Se o uso de drogas e o tráfico de drogas são tão ruins, por que não oferecemos algo melhor à juventude?

*** Revisto e modificado em 11/05/2010 e 28/05/2010. ***

Escolha o que consumir: você prefere comer lixo azedo ou um prato de arroz com feijão? Escolha como quer trabalhar: mergulhado até a cintura numa fossa séptica com risco de explosão ou limpinho e confortável numa sala refrigerada? Se as escolhas são tão óbvias, diga-me por que entre consumir uma substância tóxica que faz mal à saúde e consumir apenas alimentos saudáveis os jovens fazem uso de drogas. É porque são burros? Se as escolhas são tão óbvias, diga-me por que entre correr o risco de levar tiros ou ser preso e procurar um emprego honesto os jovens vendem drogas. É porque são maldosos? Ou será que as escolhas de consumir ou vender drogas não são tão óbvias assim e que na verdade a nossa sociedade é vergonhosamente incapaz de oferecer alternativas melhores para a juventude?

Pelo simples fato de você estar lendo este artigo há uma série de coisas que eu posso dizer a seu respeito. Você sabe ler, ou possui um leitor automático instalado no seu computador. Você tem acesso a um computador ligado à internet. Você tem tempo disponível para navegar pela blogosfera e ler um artigo sobre drogas. E você provavelmente não tem a menor idéia do que é nascer e crescer no ambiente de uma família desestruturada e disfuncional que mora em um barraco em um bairro miserável onde o Estado só se faz presente quando a polícia entra em confronto com alguém.

Dito de outra maneira, você não é um analfabeto miserável que nunca conheceu outra realidade exceto o abandono emocional, o completo descaso de todos com seu bem estar e a dura luta diária pela sobrevivência em meio a uma sociedade que idolatra o consumo e procura de todas as maneiras seduzir as pessoas a comprar os mais diversos bens, mostrando todo dia na TV que você é julgado pelo que tem e não pelo que é.

Eu já fui tão ignorante sobre a questão das drogas quanto qualquer um que nunca tenha vivido ou estudado a fundo a dinâmica social da drogadição e do tráfico, mas passei os últimos dez anos estudando o mundo das drogas para tentar compreender o que leva as pessoas a usar e a vender estas substâncias. O pequeno vislumbre que tive deste mundo nestes dez anos foi suficiente para me convencer que nem eu eu nem ninguém jamais conseguiria compreender integralmente o quanto tal ambiente pode moldar um ser humano a ele exposto desde o nacimento e por toda sua vida, muito menos tentar impor padrões morais e éticos a quem nasceu e cresceu mergulhado naquela realidade.

A vida da maioria dos usuários e comerciantes de drogas é muito mais dura e sombria do que a maioria imagina. Eles vivem em um mundo em que todos os caminhos levam à dor. As drogas são sua última oportunidade para aliviar seu sofrimento. Não é difícil deduzir como hão de reagir quando o governo e a sociedade, ao invés de buscar oferecer-lhes alternativas melhores, procuram negar-lhes até mesmo a última alternativa desesperada de que eles dispõem para tornar sua realidade suportável.

Quando eu leio algumas “mentes iluminadas” em fóruns da internet dizerem transbordando ódio e preconceito que “desigualdade social não gera criminalidade, ou todo pobre seria ladrão”, e que é necessário aumentar a repressão, investir em policiamento, construir mais presídios e asneiras do gênero, eu não sei se devo sentir pena de um ignorante ou nojo de um mal intencionado. Quem diz esse tipo de bobagem ou ignora completamente o assunto ou está defendendo uma postura ideológica na qual impera o desprezo pelo ser humano, somente se importando com seus próprios interesses. (Se você vestiu a carapuça, deveria tentar descobrir se precisa estudar mais sobre este assunto ou se deveria rever seus conceitos de ética e sua vida espiritual.)

Quando quem diz estas bobagens é um “especialista” na questão das drogas, eu não tenho dúvidas de que o sujeito só está jogando para a platéia, dizendo o que os ignorantes e os preconceituosos querem ouvir, para ser repercutido na mídia e valorizar o próprio passe. Ninguém que conheça realmente a dinâmica social do abuso de drogas e do tráfico de drogas apostaria um centavo sequer nestas alternativas, porque elas apenas pioram o problema que supostamente deveriam resolver.

Enxugar gelo

Quando alguém tem febre, tomar um anti-térmico proporciona um alívio temporário da febre. Se a causa da febre é uma infecção, porém, o anti-térmico irá apenas mascarar brevemente o problema, que logo em seguida retornará com maior gravidade. Insistir em tratar esta febre apenas com anti-térmicos não combaterá a infecção subjacente, exigirá quantidades cada vez maiores de anti-térmicos para segurar a febre e acabará por matar o paciente. Isso é exatamente o que a proibição e a repressão policial proporcionam no caso das drogas: um alívio temporário e enganador.

Qualquer aumento da repressão contra o abuso de drogas ou contra o tráfico de drogas irá apenas mascarar brevemente o problema, que logo em seguida retornará com maior gravidade. Foi isso que aconteceu na Lei Seca dos EUA, foi isso que aconteceu nos morros do Rio de Janeiro e é isso que está acontecendo no mundo inteiro.

Quanto maior a repressão, maior a violência com que atuarão as quadrilhas de tráfico. Assim como não existe um nível de anti-térmico capaz de debelar uma infecção, também não existe um nível de repressão capaz de debelar o abuso de drogas e o tráfico de drogas. Somente será possível enfrentar essa questão sem piorá-la através da eliminação das causas que levam as pessoas a abusarem de drogas e a venderem drogas. Isso é tão elementar que eu me impressiono que seja necessário repetir essa informação com freqüência e fico pasmo com a incapacidade de tanta gente compreender o óbvio.

A solução

Ao invés de querer obrigar os miseráveis a abrirem mão de sua última alternativa de fuga de uma realidade em que todo caminho os leva à dor, é necessário construir caminhos que os levem para longe da dor, em direção à segurança, ao conforto, ao bem-estar e à dignidade. Sim, é simples assim.

Enquanto houver desigualdade social ao ponto de haver quem precise lutar para sobreviver ao mesmo tempo que outros usufruem de luxos inatingíveis à maioria, continuará existindo forte estímulo econômico à criminalidade. A equação é realmente muito simples: se a sociedade planta diariamente na mente das pessoas desejos que não podem ser atingidos pelos caminhos legais, um certo percentual de otários permanecerá dócil para ser explorado e um certo percentual de inconformados se revoltará e buscará satisfazer esses desejos através de qualquer meio disponível.

Ou investimos pesadamente em qualidade de vida, segurança, conforto, bem-estar e dignidade para todos de fato, ou continuaremos estimulando a juventude despossuída a ingressar no caminho do crime, gerando violência que afeta a todos.

A objeção comum

“Ah, mas não é somente a desigualdade social que gera criminalidade, ou não haveria ricos que cometem crimes.”

Sim, corretíssimo. Existem outros fatores criminógenos, não tenho a menor dúvida. Se não fosse assim, o Congresso Nacional seria a instituição em que a população brasileira mais confia, porque todo deputado e senador recebe rendimentos mensais que chegam à casa das centenas de milhares ou até dos milhões de Reais. Se não fosse assim, não assistiríamos juízes desviando verbas, vendendo sentenças e até torturando crianças, como se viu recentemente nos noticiários.

Canalhas existem em todas as classes sociais, oriundos de todos os tipos de berço. Entretanto, se compararmos os índices de criminalidade de países como Noruega, Canadá, Holanda, Suécia, França, Japão, Finlândia, Dinamarca, Bélgica, Alemanha, Coréia do Sul e República Tcheca, que apresentam simultaneamente IDH > 0,9 e Coeficiente de Gini < 0,33, com os índices de criminalidade da maioria dos países que não atingem esses dois patamares, chegaremos forçosamente a uma de duas conclusões: ou existe uma imensa coincidência de “temperamento criminal” que envolve povos com as mais diferentes culturas e localizações geográficas, ou o desenvolvimento humano e a igualdade econômica realmente influenciam no nível de criminalidade. Faça sua escolha.

Conclusão

Você está sendo enganado pelas campanhas publicitárias que procuram “conscientizar” a população contra o uso de drogas e pelas iniciativas governamentais de “combate” às drogas. Tudo isso é fachada para manter as coisas como sempre estiveram.

O tráfico de drogas é apenas a fuga equivocada mais fácil e a atividade econômica mais lucrativa e que dá resultados mais rápidos – e portanto mais atraente para os miseráveis – entre inúmeras outras atividades ilícitas a que o indivíduo pode recorrer quando as atividades econômicas lícitas não estão disponíveis ou não são capazes de satisfazer de maneira digna suas necessidades básicas e os desejos que a sociedade de consumo dissemina através dos meios de comunicação de massa.

Nossa juventude não é burra nem mal intencionada, é abandonada, desassistida e está desesperada por inclusão em uma sociedade de consumo. Não é necessário fazer experimentos sócio-econômicos estúpidos como a revolução bolchevique ou a ditadura castrista para produzir uma sociedade mais justa e harmônica, os exemplos citados neste artigo são todos de países de economia livre e que são geridos segundo diversos sistemas de governo.

Eu não ficaria contente em apenas seguir o exemplo dos melhores do mundo, pois estes países também enfrentam seus problemas, mas eu consideraria isso um ótimo primeiro passo.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 08/05/2010

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14 thoughts on “Se o uso de drogas e o tráfico de drogas são tão ruins, por que não oferecemos algo melhor à juventude?

  1. Se eu tivesse poderes mágicos,meu amigo,eu iria fazer um batalhão de Dogberts.
    Juro que ia, e quem sabe o mundo ficava mais sábio.
    Pensar dói, e dói muito.
    A prova é essa sociedade
    alienada em que vivemos.

    O que aconteceu com…..
    todos possuem direito de ter um trabalho digno, uma moradia decente,três refeições por dia,ensino de qualidade,atendimento médico quando e onde precisar,segurança para ir e vir,transporte eficiente e todos os seus direitos respeitados ?

    1. Ei, Lya, não me encabula com tanto elogio… 😛

      Mas, sobre o artigo, quem se lembra de promessas de campanha? Quem se lembra de Direitos Humanos exceto na hora que os seus próprios direitos funadamentais são violados? Quem se lembra que com uma gota de mel se atrai muito mais abelhas que com um barril de fel?

      O mundo anda perdido e sem bússola.

  2. Olá, Arthur.
    Descobri seu blog hoje, li alguns artigos e gostei muito do que vi até agora.
    A respeito deste artigo, fiquei meio confuso(talvez por estar com sono) em relação ao seguinte ponto:
    No texto, você cita como causa do abuso no uso de drogas as dificuldades que a vida impõe aos grupos periféricos da nossa sociedade, e diz que o problema só será resolvido quando o estado proporcionar condições de vida dignas para tais grupos. No entanto, sabemos que o abuso no consumo de drogas é muito forte também em grupos onde a realidade é, ou pelo menos deveria ser, a ideal no que diz respeito a qualidade de vida, conforto, segurança, etc. Portanto, acredito ser falho o argumento que relaciona diretamente o consumo, ou o abuso no consumo de drogas às precárias condições de vida. Gostaria de esclarecimentos teus. Obrigado.

    1. John, obrigado pela visita e pelo comentário. Vou tentar esclarecer o ponto que solicitaste. Se qualquer coisa não ficar clara, por favor, volta a questionar.

      O principal mecanismo que leva à dependência química é o mesmo em todas as classes sociais: o indivíduo possui insatisfações que não sabe resolver ou não consegue resolver, experimenta uma substância que o faz sentir-se bem por um certo tempo, passa a recorrer com freqüência a esta substãncia para se sentir melhor e acaba direcionando a maior parte de seu tempo e de seus esforços para obter e utilizar a tal substância.

      Quando ele finalmente percebe que se meteu em uma encrenca, tentar parar acaba sendo mais um problema que se adiciona a todos os que ele já tinha quando começou a usar a tal substância. Entre retornar à situação intolerável anterior, piorada pelas dificuldades da abstinência, e manter a mente anestesiada, precisando lidar somente com o problema de obter a próxima dose, a maioria acaba cedendo e “escolhendo” a dificuldade menor. Coloquei “escolhendo” entre aspas porque a essas alturas, não se trata mais de uma questão de escolha, mas de falta de capacidade para fazer uma escolha.

      Agora vejamos o papel da classe social (educação + poder aquisitivo) nesse enredo: em que classe social “o indivíduo possui insatisfações que não sabe resolver ou não consegue resolver” com maior probabilidade ou intensidade? Logicamente, nas classes mais miseráveis.

      O indivíduo com menor educação e menor poder aquisitivo, além de ter um número muito maior de necessidades não satisfeitas, tem um número muito menor de alternativas para satisfazê-las.

      Além desta questão quantitativa de ter mais insatisfações e menos chances de resolvê-las, há também dois aspectos psicológicos importantes:

      1) Ele tem consciência de ser um miserável excluído por uma sociedade de consumo injusta e excludente e se sente revoltado por isso, o que é muito justo. Só os ricos e os acomodados acham que “isso é a ordem natural da vida”.

      2) Ele tem consciência de que não tem o conhecimento, nem o refinamento intelectual, nem o capital, nem as condições de reunir o capital necessário para se lançar no mercado em condições mínimas para progredir social e economicamente. Só os ricos e os alienados acham que existem “oportunidades iguais para todos”.

      Esse conjunto de fatores é praticamente um brete que leva à estagnação na miséria ou ao crime como único método de ascenção social e econômica. E, para muitos, qualquer dessas duas alternativas – ou ambas juntas – é tão intolerável que qualquer método para anestesiar a mente de tão dolorosa realidade se torna interessante.

      Nos países que citei no artigo existe um certo nível de criminalidade, certo? Isso se deve a outros fatores criminógenos que não a miséria e a desigualdade. O que eu digo não é que toda a criminalidade é oriunda da miséria e da desigualdade, mas que toda a criminalidade que é oriunda ma miséria e da desigualdade deve ser combatida através da eliminação da miséria e da desigualdade. Nada mais que o simples bom senso: eliminar as causas do problema ao invés de tentar enxugar gelo.

  3. Eduardo Marques

    29/05/2010 — 23:51

    Eu acho é que a vida na sociedade ocidental está ficando a cada dia mais insuportável. Não use drogas, não faça sexo sem camisinha, não isso, não aquilo… Não que eu concorde em usar drogas ou fazer sexo de maneira irresponsável — quero ser feliz e, para isso, preciso estar sóbrio e com algum dinheiro no bolso –, mas, em vez de proibições, por que não modelos a seguir? Modelos de força, saúde, inteligência.

    Eu acho que isso tudo é manipulação. Ao dizer para as pessoas “não caia no buraco”, “não caia no buraco”, “não caia no buraco”, estão é fazendo-as olhar o buraco e cair nele.

    1. Eduardo, eu acho que o buraco é ainda mais embaixo. Eles nos dizem “não caia no buraco”, “não caia no buraco”, “não caia no buraco”… e logo em seguida anunciam “tapaburacolite a ciment-cola que melhor tapa buracos”!

      O pior de tudo é que muitas vezes o sujeito “cai no buraco” porque gosta da visão do céu lá de dentro, ou porque ele acha lá dentro fresquinho, ou porque de qualquer forma se sente bem dentro do buraco, mas por apresentar esse comportamento “desviado” ele é rotulado como “doente” e o escavador de buracos que lhe presta o serviço desejado é rotulado como “inimigo da sociedade”.

      Quem é que os inimigos da livre escolha pensam que são, que legitimidade eles pensam que tem, que direito eles pensam que lhes assiste, para definir quais são as ecolhas “certas” e as escolhas “erradas” para todas as outras pessoas e ainda impor estas escolhas através do aparelho estatal que todos sustentamos com nossos impostos? Isso é um absurdo.

      Agora… vai ver se os arautos da repressão se preocupam em exigir das autoridades saneamento básico porque viver ao lado de valões com esgoto a céu aberto faz mal à saúde. Vai ver se os arautos da repressão investem em oferecimento de educação, renda digna e qualidade de vida para a população miserável deste país.

      Os arautos da repressão não querem melhorar a sociedade nem a vida dos outros, o que eles realmente querem é apenas que o problema seja varrido para longe, de preferência metendo todos os “desviados” na cadeia ou no cemitério. E tem muita gente desavisada que compra esse discurso.

  4. Hey Arthur, em primeiro quero parabeniza-lo pelo blog, eu ia dormir a meia-noite, mas ai conheci seu blog hoje, favoritei e estou aqui as 2 e meia da madrugada comentando haha. Gostaria de agradecer por me dar inspiração, digo, nos últimos tempos tinha descoberto o blog do meu ex professor de história que sempre admirei (se quiser conferir é o porradacultural.blogspot.com, desculpe a propaganda, mas talvez você goste, eu adoro) e agora descobri o seu blog (através de uma busca no Google sobre um filme do grupo Baader Meinhof – buscando opiniões -, então eu acabei indo parar no “Mídia Sem Máscara”, e li algumas coisas por lá, pasmo, resolvi procurar no Google sobre o site para ver se era alguma brincadeira de mal gosto ou algo do tipo (sic), haha, e acabei lendo uma critica sobre eles aqui no seu blog, obviamente era um dos resultados), e a anos venho adiando a ideia de montar um blog, mas agora não mais. Fora toda essa tentativa (espero que bem sucedida, gosto disso) de criar algum aspecto de intimidade no meu comentário, provavelmente também como forma de desculpa por não ter comentado os outros varios posts que li (e eu sei como qualquer pessoa que escreve gosta de ver o “retorno” – acho que resultado ou influência ficaria melhor – de sua contribuição), ou qualquer outra coisa, afinal eu já estou quase despencando pro lado de sono, aqui vai o verdadeiro motivo, a verdadeira questão que me fez escrever todo esse comentário é a seguinte:

    “Certo, li seu post e os comentários, coincide com o que já pensava antes, e realmente entendi (ao menos espero ter entendido), com exceção de que, quando você diz que NÓS, mais precisamente, EU, também sou o culpado pela situação de várias pessoas como Amélia, o que exatamente, no sentido mais prático, posso fazer além de escolher, infelizmente a medida do possível, e muitas vezes indiretamente (ministros por exemplo), políticos que lideram as questões sobre políticas de drogas?”

    De certa forma, sempre me questionei “o que posso fazer pelos menos favorecidos?”. Seu post sugere a implementação de políticas que melhorem a qualidade de vida dessas pessoas por parte do estado, e bem, onde exatamente entro nisso de forma prática? Serei muito grato se conseguir me responder, abraço.

    1. Oi, “Who”, primeiramente meu muito obrigado pela visita, pelos elogios e pelo interesse!

      Muito interessante o “Porrada Cultural”, embora eu particularmente não costume me expressar nestes termos. Aprecio esse tipo de dica.

      Bem, agora vou tentar te responder.

      Tu fazes duas perguntas:

      1) Onde entras na “implementação de políticas que melhorem a qualidade de vida dessas pessoas por parte do estado”.

      2) “O que exatamente, no sentido mais prático, posso fazer além de escolher (…) políticos que lideram as questões sobre políticas de drogas”.

      OK. As respostas são:

      1) Atuando politicamente.

      2) Muita coisa.

      🙂

      Hehehehe… calma, não é sacanagem, é recurso mnemônico.

      Eu poderia escrever um livro intitulado “Duzentas coisas que você poderia fazer para…” para responder cada uma das tuas perguntas. Ao invés disso, prefiro que tenhas em mente o seguinte:

      Trabalho formiguinha não resolve, porque as tendências políticas e econômicas são imensos tamanduás.

      Traduzindo, de nada adianta a gente trabalhar imensamente por um objetivo contrário às tendências políticas da época e muito menos por um objetivo contrário à racionalidade econômica.

      Vou te dar o exemplo da minha trajetória.

      Trabalhando sozinho, com muita garra, eu consegui tirar seis pessoas do vício do crack.

      Uma delas, Amélia, sem apoio familiar nem perspectivas de melhoria de qualidade de vida, recaiu e se afundou na droga.

      Outra se meteu em uma seita evangélica fundamentalista, trocando portanto um vício incapacitante por outro.

      Outras duas só conseguem se manter abstêmias com minha constante supervisão e mesmo assim eventualmente têm recaídas, felizmente não muito graves até agora, mas com óbvio risco de se afundarem novamente.

      E as outras duas se mantém abstêmias porque assumiram as rédeas de suas vidas e passaram a desenvolver atividades econômicas que lhes possibilitam um estilo de vida saudável.

      Isso ao longo de dez anos.

      Agora decidi largar o serviço público e abrir uma empresinha. Em poucos meses vou construir uma estruturazinha que vai permitir oferecer alguns empregos e ajudar mais gente a organizar sua vida de modo mais estável do que em dez anos de correrias, gastos e estresses.

      Ao invés de gastar dinheiro tentando ajudar as pessoas a se livrarem de problemas, vou passar a ganhar dinheiro abrindo oportunidades para as pessoas estruturarem suas vidas de modo mais saudável.

      Portanto, meu conselho é este: divulgar informação de boa qualidade sempre, claro, mas principalmente construir estruturas auto-sustentáveis voltadas a gerar oportunidades para que as pessoas passem a viver de modo saudável.

      “Empreendedorismo com consciência social.”

      É uma boa dica ou devo sugerir mais 199? 🙂

  5. Bem, é uma ótima dica, mas pra mim, que mal fiz meus 18 anos (e nem se preocupe que já passei da fase de seguidor-esquerdista-revolucionario-politicamente-correto faz tempo, não vou te encher o saco com isso) agorinha em dezembro – com todo orgulho que um rockn’roller que faz aniversário no mesmo dia que o Keith Richards pode ter (: – “empreendedorismo com consciência social” parece ser um futuro meio distante pra mim, daqui a pouco vou sair de casa e provavelmente mal vou ter grana pra me manter (inicialmente apenas, assim espero), então, bem, sou contra todas essas políticas proibitivas e estou longe de julgar alguém pelo fato desse fazer uso de drogas, felizmente considero isso algo (pelo menos isso) já bem desenvolvido em mim. Então acho que seria interessante ver mais algumas, as mais interessantes talvez, dessas 199 que restaram. (:

    1. Ceeeeeeeeeeerto! 🙂

      Olha, ninguém disse que precisas empreender hoje. É uma idéia a ser considerada para o futuro. Há inúmeras outras. Vamos ver, assim de improviso, o que posso sugerir.

      Os pontos que eu considero fundamentais são não tentar apenas “conscientizar” as pessoas e não se lançar em atividades que consumam tempo, esforços e recursos para manter a si mesmas ao invés de atingir um objetivo.

      Podemos tentar conscientizar as pessoas para a necessidade de praticar esportes, mas o melhor é descobrir um local adequado e acessível, organizar grupos e tratar de praticar mesmo algum esporte.

      Podemos tentar conscientizar as pessoas para a necessidade de reciclar materiais, mas o melhor é montar no condomínio ou no bairro um sistema de coleta de materiais já devidamente limpos para serem encaminhados à reciclagem e dividir o lucro desta venda entre todos os que participaram, conforme o peso e a natureza dos materiais que trouxeram, descontadas obviamente as despesas necessárias para estocar e transportar os materiais até as empresas de reciclagem e o pagamento do tempo de quem realizar esta tarefa. (Olha aí a idéia para montar uma empresa.)

      Podemos tentar conscientizar as pessoas para a necessidade de não usar drogas para ter uma vida saudável, mas o melhor é identificar o que está faltando para que elas tenham uma vida saudável e não sintam necessidade de anestesiar sua percepção de mundo com o uso de entorpecentes. O que está faltando na vida das pessoas que usam drogas que vivem próximas a ti? O que pode ser feito para suprir as necessidades delas?

      Será melhor reivindicar ao Poder Público que instale mais postos de polícia no bairro ou que aproveite as dependência de uma escola para oferecer cursos profissionalizantes em parceria com SENAI, SENAC, SEBRAE ou alguma empresa que absorva a mão-de-obra formada no curso? Ou talvez montar uma ONG e oferecer aulas gratuitas de reforço para alunos de uma escola pobre não repetirem de ano, ajudando assim a reduzir a evasão escolar?

      Uma possibilidade ainda melhor é reunir um grupo de amigos e fazer um brainstorm perguntando: “o que podemos fazer de útil para ajudar a resolver este problema, dentro destes limites”? (E como podemos ampliar estes limites?)

      Agora dá umas idéias aí também! 😉

  6. Então deixa eu ver se entendi. A ideia gira em torno da conscientização (diria propagação de ideias), mas não apenas nisso, junto disso é que vem a criatividade para pensar em algo benéfico a essas pessoas que não tem opções (que é de quem estamos falando, suponho, Amélia por exemplo) de forma em que este “algo benéfico” possa ser de certa forma, autosuficiente, em que as pessoas tramalhem em cima e ajudem a manter o meio de ajuda delas (e para elas), seja uma iniciativa empresária, ou alguma solução de um problema comum em que uma ideia (e uma iniciativa) criativa beneficie a todos, certo? Hm, confesso que já venho trabalhando nessa parte conscientizadora a um tempo, principalmente com a internet (ajuda muito a criar debates e propagar informação, incrivelmente), mas que a parte pratica, da iniciativa, eu praticamente disconsiderei, sabe, meio que jogando pra segundo plano. Sempre pensei em ser músico, se não,um professor ou um escritor, jornalista, um “formador de opinião”, mas foi realmente esclarecedor o aspecto prático. Como eu realmente adoro cultura de forma geral, acho que derrepente poderia fazer algo destinado a cultura, música, ou cinema, pintura, sabe, acredito que inclusive existam projetos com esses fins já, de oferecer arte e cultura como uma possibilidade para pessoas (principalmente jovens?) sem escolhas, mas requer sempre uma grande organização e um grupo de pessoas engajadas, pelo o que imagino. É esse o aspecto que me desanima, eu simplesmente não consigo visualizar isso na minha vida atual, é sempre algo futuro, talvez não muito distante, mas ao menos um pouco distante. Estava pensando que derrepente pudesse haver algo mais geral, cabivel a realmente todos, como hábitos diários que pudessem ser repensados por qualquer um, mas parece exigir um nivel maior de complexidade. Irei pensar em novas ideias, já que, “pensar não dói” haha, mas espero que eu tenha enxergado a ideia principal.

    1. Pois é… semana passada descobri que a pessoa que tinha se enfiado em uma seita evangélica fundamentalistas recaiu no crack… 🙁

      Vamos atualizar o ditado?

      A religião é o crack do povão.

  7. “E você provavelmente não tem a menor idéia do que é nascer e crescer no ambiente de uma família desestruturada e disfuncional que mora em um barraco em um bairro miserável onde o Estado só se faz presente quando a polícia entra em confronto com alguém.”

    Sai da casa dos meus pais muito jovem, por não concordar que o meu pai bebesse e batesse na minha mãe, em mim e nas duas irmãs mais nova sem motivo. Morei na rua, mas trabalhava de ajudante de costureira a troco de comida e banho, lugar que me permitiram guardar os meus livros, como gostava de estudar e o meu pai ja tinha me tirado da escola várias vezes, eu procurei uma escola particular contei a minha situação e pedi uma bolsa, que me foi concedida, assim eu trabalhava, almoçava e tomava banho no trabalho e ia pra escola a noite e dormia na rua quando saia da escola, e chorava de fome nos finais de semana, mas nunca comprei nada “fiado” porque sabia que não teria dinheiro pra pagar e nunca roubei também, as vezes algumas pessoas ajudavam, mas eu nunca pedi. Um dia em peguei prática o suficiente pra poder receber pelo meu trabalho e aí pude alugar um quarto.

    1. És um fantástico exemplo de determinação e perseverança! Espero, entretanto, que tenhas consciência de que teu exemplo não é generalizável e não pode servir como modelo para a produção de políticas públicas, ou daríamos razão aos insensíveis que dizem que “quem quer luta e consegue” e assim justificam um sistema político-econômico em que a solidariedade não é um valor presente.

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