Eu tenho ouvido e lido muita gente dizer que “o casamento é uma instituição falida” e outras posturas ideológicas semelhantes de gente que se acha “moderna” e que considera “alienação” viver um relacionamento de um “tipo ultrapassado” como o “casamento tradicional”. O que esse pessoal parece não compreender – ou não admitir – é que o problema não é da “instituição” do casamento, mas deles mesmos, que por má orientação, por incapacidade ou por descaso não desenvolveram nem senso de compromisso nem tenacidade para superar as dificuldades básicas de uma vida a dois.

Não estou falando, quero deixar claro desde o início, de insistir em manter um relacionamento que se tornou intolerável devido à total incompatibilidade entre os cônjuges ou devido à traição, ao desrespeito ou ao descaso de um deles com o parceiro, pois nestes casos é perfeitamente compreensível e até melhor que ocorra um afastamento.

Estou falando de quem é tão egoísta e egocêntrico que considera a família apenas um item secundário de sua vida, que pode ser preterido por algumas aventuras sexuais ou por uma proposta interessante de emprego.

Estou falando de quem não sabe fazer planos de vida em conjunto porque não admite ceder uma vírgula de seus interesses para contemplar os interesses de alguém que supostamente ama.

Estou falando de quem não tem fibra para enfrentar dificuldades e superar obstáculos, preferindo fugir dos problemas a resolvê-los.

É perfeitamente compreensível que as pessoas que defendem aguerridamente as noções de “nada é pra sempre”, de que “tudo é bom enquanto dura”, de que “ninguém é de ninguém” e de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente” imputem seus fracassos em manter relacionamentos de longo prazo felizes e saudáveis a abstrações ideológicas e outros fatores impessoais. A tentativa de proteção do ego através da negação de suas próprias responsabilidades perante o fracasso é um fenômeno bem conhecido da psicologia.

Para essas pessoas, a família-de-comercial-de-margarina é “um embuste imposto pelo sistema capitalista para manter alienada e dócil a massa trabalhadora, um modelo anacrônico imposto pelo patriarcado opressor falocêntrico para subjugar a mulher e relegá-la a um papel secundário na sociedade, blá-blá-blá, whiskas sachê, pombo”. Discurso vazio e ressentido para justificar suas próprias limitações ou suas inconfessáveis segundas intenções. Lixo.

Um relacionamento a dois que não se baseia no amor, no afeto, na cumplicidade, no diálogo, no respeito, na compreensão, no entendimento, no prazer de fazer o outro feliz, não tem mesmo como dar certo. Vira uma troca de egoísmos a dois, que desmorona perante qualquer pequena frustração. E isso infelizmente está se tornando cada vez mais comum. Será que ninguém pára para pensar por quê?

Deseducação em massa

É uma praga: hoje em dia, quando um adolescente se interessa pelo primeiro namoro, pais, mães, tios, tias, professores, professoras, amigos e amigas transmitem as mesmas informações: “é muito cedo para se prender a alguém”, “você tem que aproveitar a vida”, “a fila anda”, “homem/mulher é como ônibus, perdeu um, atrás vem outro”, etc. Todos os conselhos que os jovens ouvem os direcionam para o não aprendizado da noção de compromisso e para o treinamento de um comportamento individualista e egoísta.

Aquilo que começa na pré-adolescência segue sendo treinado na adolescência, durante toda a juventude e no início da vida adulta. Desde o primeiro beijo até a formatura e o primeiro emprego, nossa sociedade ensina a cada indivíduo que ele deve se preocupar primeiro com os próprios interesses econômicos e materiais, que ele deve se divertir sem compromisso com “ficantes” e “namoros de verão” para “não interferir em sua liberdade de escolha profissional”, que “é bom ter várias experiências para aprender a escolher a pessoa certa” e que “tudo tem seu tempo para acontecer”.

O resultado dessa filosofia porca é que os indivíduos passam cerca de duas décadas treinando um padrão de relacionamentos superficial e irresponsável e lá pelas tantas começam a perceber que são incapazes de manter relacionamentos de longo prazo felizes e saudáveis.

Então começam a aparecer as justificativas furadas: “o casamento é uma instituição falida”, “eu ainda não encontrei a pessoa certa”, “eu tenho muito azar com os relacionamentos”, “homem/mulher não presta”, etc.

A verdade é que as pessoas são treinadas para fracassar nas relações pessoais. Esta constatação deveria levar toda uma geração a repensar os conselhos que dão a seus filhos e filhas.

Por que a família-de-comercial-de-margarina incomoda tanto?

Porque quem desdenha quer comprar. A imagem de uma família feliz, unida, compartilhando alegre e despreocupadamente uma refeição é um ideal que muitos almejam mas não podem assumir sob pena de ter que admitir sua incapacidade de construí-lo. A família-comercial-de-margarina é o cacho de uvas inatingível a quem a raposa acusa de estarem verdes.

Ironicamente, os “modernosos” que ridicularizam o modelo de família tradicional que aparece nos comerciais de margarina se tornam agentes a serviço do modelo econômico e das ideologias que criticam ao invés de investir suas energias em sua própria felicidade.

É muito mais confortável para o ego e simples para o indivíduo imputar supostos vícios a um modelo de família do que revisar suas limitações, assumir suas responsabilidades e retreinar sua mente para desenvolver as habilidades necessárias para construir um relacionamento sólido. Mas isso no fundo não torna o modelo menos desejável, pois se ele continua a ser repercutido na mídia é porque seu apelo emocional continua persuasivo.

Mas este é o único modelo de família que pode fazer alguém feliz?

Não, claro que não. Existem modelos os mais variados, para todo tipo de gosto, personalidade, temperamento e visão de mundo, que podem fazer as pessoas felizes. Mas este é o modelo de família mais atacado e vilipendiado em certos “círculos de intelectualidade”, a ponto de intimidar e fazer calar as pessoas que apreciam esse tipo de estrutura familiar.

Eu estou cansado de ver gente mal-amada envenenar a mente alheia imputando supostos vícios a um modelo de família saudável só porque eles mesmos são incapazes de estabelecer relações com alto grau de compromisso e doação mútuos.

Se este artigo ajudar uma única pessoa a perceber que o discurso dos mal-amados não deve interferir em sua escolha de viver um relacionamento fundamentado no amor, no afeto, na cumplicidade, no diálogo, no respeito, na compreensão, no entendimento e no prazer de fazer o outro feliz, então terei atingido meu objetivo.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 12/05/2010

9 thoughts on “Viva a “família-de-comercial-de-margarina”!

  1. é preciso encarar variações no modelo tradicional de relacionamento, até pq esse modelo nos foi induzido por uma necessidade da igreja dominante no ocidente por muito tempo, de aumentar indefinidamente a população de adeptos. Creio que um relacionamento em idade tenra tem grandes dificuldades em ser sério, profundo, a não ser que a sociedade toda se remodele para isso. De uma maneira geral, há uma proposta para nos formarmos em alguma profissão, formarmos família e povoarmos o mundo. Isso pode não dar certo. Felizmente a batedeira da vida está formando, com dores e suores e lágrimas e risos, novos padrões familiares, que virão, acredito, no futuro, a serem fundamentos de uma sociedade mais humana. Recentemente um juiz (ou juiza, não lembro) aprovou a adoção de uma criança por um casal homossexual (gerando jurisprudência para isso). Achei interessante os comentários que ouvi na rádio UDESC de Florianópolis, em que o locutor lia as declarações do representante da CNBB, que era contra a decisão judicial, alegando que a criança tem que fundamentar sua educação e inserção na figura do pai (homem) e mãe (mulher), do contrário poderá ser um desajustado. A mesma opinião era dada pelo representante das igrejas evangélicas. Por último ele leu a opinião do representante da FEB (e não é a força expedicionária brasileira), que dizia-se favorável à decisão, alegando que o que é realmente importante é o amor e o respeito para a formação do carater. Também alegou que atualmente a família brasileira é composta da figura do pai e da mãe, somente em 51% dos casos, e os marginais e desajustados da sociedade não vêm, nem são a maioria vindos, desses outros 49%.
    Concordo, sem proselitismos, que o amor e o respeito é fundamental. Concordo também que amor e respeito se aprende desde criança, mas que nestes assuntos só se chega à maturidade, na maioria dos casos, além dos 21 anos, idade média que ocorrem os casamentos. É um pouco irresponsabilidade nossa permitir casamentos “oficiais” para pessoas muito jovens, embora eu concorde que não se deva nunca desistimular o relacionamento nessa idade, porém, em moldes mais racionais.
    Eu casei com 22 anos e tive um bom relacionamento com minha ex esposa por 11 anos. Tivemos um filho que mora hoje tanto comigo quanto com ela, a escolher. Até hoje atendo no consultório da minha ex esposa e temos um ótimo relacionamento, até porque ela e minha atual esposa são amigas e me dou muito bem com o atual marido dela. Conseguimos, sempre através do respeito, manter os laços de amizade. Ano passado os 5 (meu filho incluso, de 22 anos) viajamos juntos e é comum os almoços e jantares com todos reunidos. Minha atual esposa também atende no consultório da ex, o marido da ex, que é um ótimo marcineiro, faz os móveis da casa da minha esposa atual (e da casa da sogra também). EStou casado há 7 anos novamente, eu moro em Balneário Camboriú, ela mora em Florianópolis. Normalmente nos vemos nos fins de semana. Isso tudo é um pouco complexo para quem não está acostumado, mas é um novo padrão, que espero aos poucos vá se disseminando. E funciona pq foi embasado sempre no amor e no respeito, como pede nosso amigo Arthur;

    1. Como é que eu não tinha respondido ainda essa confusão toda? 😛 Mas a lógica é essa, Camargo: amor e respeito são a base de qualquer relacionamento saudável. Onde estes elementos faltarem, qualquer que seja o modelo de relacionamento, certamente faltará o mais importante.

  2. que virão, acredito, no futuro, a serem fundamentos de uma sociedade mais humana…

    por favor leiam: que virão, no futuro, a ser fundamento…

  3. Do que é feita uma família?
    Não é o amor a argamassa da família,não o amor como o conhecemos,é o perdão,a tolerância e a compaixão.O respeito pelas pessoas conta muito e a vontade de a pessoa ser um ser humano melhor,mais ainda.
    Aquela família de comercial existe,por momentos.Ela não é assim vinte e quatro horas.
    Nem tem como ser. Não casamos só com nossos maridos,casamos também com sua parentela,e eles com a nossa.
    Imagine 300 pessoas juntas.
    Pessoas totalmente diferentes umas das outras.
    Não sou casada,e nem quero,mas vivi com um homem 10 anos. Ele é argentino e da família dele,só três pessoas me aceitaram.Eu era a “estrangeira” .Do primeiro relacionamento dele restaram dois filhos,um que ele amava e o outro que sequer gostado era.Mesmo não sendo aceita,por dez anos, eu fui a ponte entre ele e aquele filho.Eu fiz o que pude,mas não consegui transpor as barreiras do preconceito. Não sei dizer se,o fato de não ser aceita pela família dele,foi
    o motivo da nossa separação,mas ajudou bastante.Tenho, hoje, um relacionamento de 20 anos,não é igual aquele do comercial,mas com eles ganhei confiança,maturidade e a certeza que casamento bom, além de não ter um molde,tem que ter a boa vontade de TODOS os envolvidos,rs. Isso quer dizer que temos que aceitar até aquelas pessoas
    que,eventualmente,se portem com antipatia.
    A forma contratual mudou, não a relação em si. Da minha geração,não conheço ninguém que tenha casado com 18 anos e que ainda esteja junto. Acredito que a velha instituição do casamento acabe,não a família. Não precisamos de um contrato, para provar que somos pessoas respeitáveis,ele é dispensável.
    A família mudou,viva a nova família! Não precisamos casar,não precisamos ter filhos,nem precisamos mais viver na mesma casa.
    A família agora é unida pelo afeto. Pelo desejo de estar junta.
    As mulheres não gravitam mais ao redor de seus maridos e filhos,e se o fazem é por prazer.
    Os homens fazem a mesma coisa,a santa do lar,não existe mais.
    Existem pessoas que se gostam,que se respeitam e que tentam conciliar diferenças.
    Foi um choque para minha sogra descobrir que metade de seus filhos(10) se separou.Que metade de seus filhos não se casou e que seus netos são ateus,rs.
    Minha pequena família tem 150 membros,rs.
    Alguns, mais aventureiros,estão no terceiro casamento. Fica assim: os meus filhos,os seus filhos, os filhos do seu marido e os filhos da minha mulher….os NOSSOS FILHOS,A NOSSA FAMÍLIA.Que
    não é pefeita,mas que é a que temos para amar.
    O triste nisso tudo, são as pessoas que teimam em manter as velhas e carcomidas estruturas, por medo da felicidade ser da conta delas e não da sociedade.
    Quando nos damos conta de que somos vítimas apenas de nós mesmos, a felicidade se torna possível,não onde a queremos,mas onde ela está.

  4. Espero construir uma família-de-comercial-de-margarina, diferindo apenas na quantidade de filhos: quatro ou cinco.
    Na minha opinião, é um ótimo modelo de família, mas acho errado quem chamaria famílias compostas por casais com filhos de outros casamentos, famílias que nunca casaram, e todas as outras variações de disfuncionais/alternativas/diferentes. Afinal, hoje em dia, chuto que devem ser maioria.
    Mas há quem sabe que dinfuncionais são aquelas sem afeto e respeito mútuo!

    1. Só pra ter certeza que ficou claro o que eu quis dizer: eu não acho que as outras variações sejam necessariamente disfuncionais, o que me incomoda é que hoje em dia muita gente diz que o casamento é “necessariamente disfuncional” porque “falido”, “ultrapasasdo”, “obsoleto”, etc.

      Disfuncionais são os relacionamentos sem afeto nem respeito mútuo. [2]

  5. Pelo jeito, esse texto foi escrito por alguém que é religioso ao extremo e abomina a solteirice e os relacionamentos sem compromisso! Para mim, viva os relacionamentos “abertos”!
    Não estou interessado em ter uma família do estilo “comercial de margarina” como é apregoado aqui. Se eu não quiser ter filhos? E se eu quiser me separar logo em seguida? E se eu quiser me manter solteiro por pelo menos quatro anos?
    Eu não digo que “infelizmente” os casamentos estão durando menos tempo hoje em dia, eu chego a dar pulos de alegria!
    Passar bem!

    1. O Arthur, religioso ao extremo?

      HAUAUAUAHUHAUHAUAHUHAUAUHAUHAHAHAUU!!!!!!!!!

      Partir pro ataque é mais fácil que tentar entender o texto.

    2. Ele ou ela nem leu o texto, Gerson.

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