Cientistas NÃO criaram “célula sintética”. Entenda o golpe de marketing da década!

O mundo inteiro está multiplicando uma informação falsa: não somente não foi criada a primeira “célula sintética” como não foi produzido qualquer avanço conceitual ou tecnológico pelo grupo que faz esta alegação. Desgraçadamente, quando acontece uma barriga científica gigantesca como essa todo mundo reproduz o anúncio e ninguém tem peito para publicar um desmentido.

Sejamos rigorosos com o conceito: “célula sintética” é uma célula inteiramente produzida por meios artificiais. Não é o caso. O que ocorreu foi a inserção de uma seqüência de DNA em uma célula bacteriana da qual havia sido removido o DNA original. Esta célula, então, passou a se reproduzir normalmente, graças ao fato de a seqüência de DNA ser viável e ao maquinário de síntese da célula receptora estar preservado e funcional. Não há nenhuma novidade nisso. Ninguém aí se lembra da ovelha Dolly?

“Ah, mas o DNA usado no caso da Dolly era natural, enquanto o DNA usado no presente caso era sintético!”

Não é bem assim. “DNA sintético” é uma expressão enganosa, pois dá a entender que os cientistas inventaram aquela seqüência de DNA, o que absolutamente não aconteceu. O que foi feito foi produzir uma cópia idêntica  de uma seqüência de DNA bacteriano viável em laboratório, procedimento este que é conhecido e disseminado há anos. Não há nenhuma novidade nisso. Só pra citar uma das técnicas antigas capazes de sintetizar DNA, ninguém aí ouviu falar em Reação em Cadeia da Polimerase, vulgo PCR?

“Ah, mas nunca um DNA sintetizado em laboratório havia sido inserido em uma célula viva e continuado a se multiplicar!”

Não é verdade. Organismos transgênicos estão aí há anos para provar. A técnica de marcadores genéticos também está aí há muitos anos. Todas as técnicas “revolucionárias” anunciadas podem ser encontradas descritas em artigos científicos, em livros didáticos e na internet há anos.

“Mas então, qual é a novidade?”

Nenhuma. Isso é o que eu disse desde o primeiro parágrafo do artigo. O “grande feito” desta equipe de cientistas não foi técnico, foi de marketing. Os caras pegaram uma série de técnicas que já são amplamente conhecidas, colocaram em seqüência e anunciaram para o mundo como se fosse grande novidade… e o mundo inteiro engoliu!

“E aquele papo sobre novas e incríveis possibilidades como criar organismos capazes de digerir petróleo para despoluir os mares?”

Balela. Pura especulação. Para criar um organismo assim, seria necessário conhecer toda a lógica de controle do desenvolvimento de uma célula, algo que absolutamente ninguém conhece. Mal e mal existe conhecimento para forçar algumas células a produzir uma ou outra proteína específica, que dirá uma imensa gama de proteínas, numa série temporal precisa e coordenada, com controle de expressão gênica multivariado, capaz de controlar o metabolismo de um organismo. Isso non ecziste.

Quem não conhece o campo da genética não tem idéia do tamanho monstruoso de tal empreitada.  Provavelmente algumas décadas ainda se passarão sem que cheguemos sequer perto de produzir o conhecimento mínimo necessário para começar a fazer testes neste sentido.

Prêmio Nobel de Economia para o marketeiro do J. Craig Venter Institute.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 22/05/2010

Atualização de última hora:

“Não se apresse em acreditar em nada, mesmo se estiver escrito nas escrituras sagradas. Não se apresse em acreditar em nada, só porque um professor famoso que disse. Não acredite em nada apenas porque a maioria concordou que é a verdade. Não acredite em mim. Você deve testar qualquer coisa que as pessoas dizem através de sua própria inteligência, experiência e sabedoria antes de aceitar ou rejeitar algo.”

(Siddartha Gautama, o Buddha, Kalama Sutra)

13 thoughts on “Cientistas NÃO criaram “célula sintética”. Entenda o golpe de marketing da década!

  1. Caro Lucas! Você sabe perfeitamente que só quem tem a verdade sou eu e quem me seguir está perdido. Há algo que nos permite discorrer sobre qualquer assunto como experts, independentemente do campo, já que num planeta de 6 pra 7 bilhões deve ter pelo menos duas pessoas que estejam neste momento escrevendo no mesmo dia coisas do tipo, digamos, Eyjafallajokul e Ahmadinejad… a impossibilidade de uma constatação formal. A rede é um colossal contêiner de lixo e as nossas mentes funcionam como estações recicladoras. Algumas mais eficientes e outras nem tanto. Eu só falo do que entendo. Além do canto lírico e das artes plásticas você sabe que eu sei um pouco de medicina, mas, e nisto você pode me chamar de trollador, sou antes de tudo um debochado. Não tiro o seu direito de sentar o pau na balela da célula criada. Tá certo. É grupo. Palmas para o publicitário. Mas você queria o quê? Eu conheço um advogado que me diz: “Não me diz que você acredita que os homens estiveram na Lua? Ah! Para!” E há quem acredita que a bactéria-que-come-petróleo foi criada mas não foi ainda usada porque pode contaminar as reservas, e aí, adeus tia Xícara. O mundo da ficção nos engoliu e amanhã ninguém lembra, ninguém viu. Tem gente que acredita eleger deputado nanico é voto de protesto, você queria quê? 😀 (Você quer saber o futuro? Vá ao “Futuro?”. Há dois tópicos para Dom Arthur.)

    1. Receber trollagem refinada é privilégio de poucos. 🙂

      Romacof, achas mesmo que houve algum progresso significativo? Tudo que foi descrito na imprensa eu já conhecia há anos, no mínimo desde o anúncio sobre a Dolly.

      A única coisa “nova” desta vez é o fato de o DNA ter sido “inteiramente sintetizado” antes de ter sido colocado na célula receptora… mas e daí? Síntese de cadeias de DNA já é lugar-comum. Ligação de cadeias de DNA já é lugar-comum. Inserção de material genético viável em células bacterianas já é lugar-comum. Que droga de novidade é essa?

      A “novidade” foi o comprimento da cadeia composta pela ligação de várias cadeias sintetizadas? Grande coisa. Vale um verbete no Guiness Book of Records: “maior cadeia de DNA sintético produzida: J. Craig Venter Institute”. Pronto, tá de bom tamanho. (Com o perdão do trocadilho infame.)

      Será que se alguém montasse uma casa com mais de quatro milhões de legos estaria fazendo algo “novo”? http://cybervida.com.br/a-casa-em-legos-de-james-may

  2. Se não fosse seu blog, nós, leigos, ficaríamos a mercê da mídia. Obrigado.

    1. Hmmm… senti uma pontinha de ironia aí ou essa minha desconfiança é reflexo do excesso de convivência virtual com o Alex Castro? 🙂

  3. Minhas ironias são bem explícitas. Ironia velada é coisa de cafajeste. 😛
    Mas não foi ironia. Você é da área, manja do assunto e quis compartilhar seus conhecimentos conosco, por isso o agradecimento sincero.

    1. Eu que agradeço, Teles. Depois vou catar uns depoimentos por aí para mostrar que há vários cientistas que estão dizendo o mesmo que eu disse. O clima de oba-oba, entretanto, continua sendo alimentado porque dá IBOPE e porque pega muito mal uma retificação que mostra que não houve profundidade maior que a de um pires ao repercutir as notícias vindas do Tio Sam.

      No Fantástico desta semana já houve alguns esclarecimentos e descobri que o tal J. Craig Venter se tornou milionário e vive como um playboy graças a sua imensa habilidade de vender seu peixe para financiamentos públicos e privados. Ou seja, eu escrevi este artigo antes de saber que o sujeito era um marketeiro de primeira e acertei na mosca. 😉

      Verdade seja dita, o instituto de pesquisas que ele montou é sério, muito bem equipado e produtivo. Foram eles que conseguiram concluir o Projeto Genoma Humano três anos antes da data prevista, antes mesmo das instituições de pesquisa oficiais dos EUA.

      Em resumo, o cara não é um picareta, mas é um excelente dourador de pílula.

  4. Arthur, você não entendeu nada…
    O cara tava dando crédito pra galera que inventou um código morse do DNA!
    Três citações, 46 nomes e um website em um DNA é tipo “poderes cósmicos fenomenais -dentro de uma lampazinha”!
    Você chegou a ver o vídeo do TED?
    É genial, porque quando ele abre pra perguntas, a primeira coisa que perguntam é: então, resumindo, qual foi a descoberta? há!
    Enfim, eu não ligo muito, sabe, eu meio que gosto de me superlotar de informação pra depois jogar tudo numa papel vazio.
    De qualquer forma, eu acho tudo meio incrível; 15 anos de pesquisa trabalhando com o indivisível e o abstrato. É no mínimo poético, de verdade.
    Você viu o vídeo de um instituto que tá produzindo órgãos artificiais com as células da própria pessoa?
    Mande notícias da praia! (Desculpe o sumiço)
    Beijoca!

    1. Ana! Que bom te ver de novo por aqui! Como estão as coisas?

      Não vi o vídeo, mas esse tipo de pergunta é esperável. Muitos jornalistas não se dão o trabalho sequer de pesquisar um pouco sobre o assunto para conhecer o vocabulário adequado para fazer perguntas.

      Uma vez um jornalista veio me entrevistar sobre o Esperanto e a primeira coisa que ele perguntou foi “mas qual é o motivo que levaria alguém a estudar uma língua morta?”.

      A minha resposta foi “não sei, eu não conheço ninguém que estude uma língua morta”.

      O cara podia ter ido dormir sem essa se tivesse se preparado minimamente, lendo dois ou três dos resultados da busca do Google para a palavra “Esperanto”.

      Se os jornalistas pelo menos soubessem o significado da expressão “célula sintética” (ou “célula artificial”, como alguns estão dizendo), não estariam repetindo essa besteira e desinformando o público em tão larga escala.

  5. eu posso estar em falta com sagacidade, mas eu acho que essa jornalista sabia do que tava falando…
    acho que ela tava meio debochando, na verdade.
    eis aqui o video:http://www.ted.com/talks/craig_venter_unveils_synthetic_life.html

  6. Carlos da silva

    28/05/2010 — 14:21

    caro arthur sou um simples estudante do ensino médio e é a primeira vez que visito seu blog e achei muito essas suas colocações sobre mídia, sobre seus erros ou manipulações sempre para que alguém se de bem. mudando de assunto de “célula sintéica” para uma visão de mundo eu gostaria de saber de seu pensamento sobre o mundo se achas que este seja simples. Acredita que este poderia ou pode ser dominado e/ou controlado por uma sociedade secreta, a dos illuminatti tendo uma maneira basica para controla-lo a medida do possível controlando a mídia e grande parte dos líderes de estado e assim por diante.
    tive acesso a um dvd com coisas muito loucas sbre mundo agora ja não o tenho mais.
    gostaria de saber sua opinião para amplificar meus cnhecimentos. sería possível ?

    1. Carlos, obrigado pela visita e pelo comentário.

      O mundo é controlado por uma elite que na maior parte do tempo é razoavelmente discreta – ou pelo menos que evita assumir pública e acintosamente este papel – mas daí a existir uma sociedade secreta ao estilo dos supostos Illuminati que realmente dirija o planeta eu du-vi-do.

      Sociedades secretas mais cedo ou mais tarde sofrem do “mal da conspiração”, ou seja, violações de segredos. Pode haver pequenas sociedades secretas intervindo em regiões ou assuntos específicos, mas “dominar o mundo” é algo que só se pode fazer explicitamente.

  7. Um porém, meu caro.
    Até onde eu sei, a science não é uma revista IMBECIL a ponto de publicar um artigo sobre uma utilização de PCR.
    Sinceramente, 15 anos pra fazer o que eu faço em horas?
    Você quer comparar inserir uma sequência genômica curta a ter um genoma completo funcional?
    Aqui vai o Link do artigo na science: http://www.sciencemag.org/cgi/rapidpdf/science.1190719.pdf
    Espero que você leia o artigo, e mude um pouco seus conceitos extremados e nada exatos.
    Abraços

    1. Lyn, eu não disse que foi uma mera utilização de PCR. Eu citei o PCR apenas como um exemplo de técnica já “antiga” que sintetiza DNA.

      Agradeço o link. Vou ler com calma durante esta semana e então se necessário voltarei a comentar o assunto. 😉

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