Eu não gosto de pizza de banana. Portanto, eu simplesmente não como pizza de banana. Ponto. Eu não gasto meu tempo pensando em pizza de banana, não encho o saco de quem gosta de pizza de banana dizendo que pizza de banana é ruim e não tento organizar as pessoas que não gostam de pizza de banana para impedir por via legislativa que as pessoas que gostam de pizza de banana tenham os mesmos direitos que eu através de legislações discriminatórias, muito menos alego para fundamentar a pretensão de banir do do mundo a pizza de banana que pizza de banana é uma abominação porque consta nas escrituras sagradas do anti-banananismo que Deus não gosta de pizza de banana, até porque isso é irrelevante para quem não é anti-bananista. 

Banana Arco Íris


As igrejas cristãs não gostam da homossexualidade. Entretanto, ao invés de simplesmente não realizar casamentos religiosos entre pessoas do mesmo sexo, as igrejas cristãs passam o tempo todo pensando nas relações entre pessoas do mesmo sexo, enchendo o sexo de quem gosta de relações com pessoas do mesmo sexo dizendo que relações com pessoas do mesmo sexo é ruim, tentando organizar as pessoas que não gostam (ou dizem não gostar) de relações entre pessoas do mesmo sexo para impedir por via legislativa que as pessoas que gostam de relações com pessoas do mesmo sexo tenham os mesmos direitos que as que não gostam (ou dizem não gostar) de relações entre pessoas do mesmo sexo e alegam para fundamentar sua pretensão de banir do mundo as relações entre pessoas do mesmo sexo que relações entre pessoas do mesmo sexo são uma abominação porque consta nas escrituras sagradas do cristianismo que Deus não gosta de relações entre pessoas do mesmo sexo, mesmo isso sendo irrelevante para quem não é cristão.

Eu gostaria de saber por que as igrejas cristãs são tão obcecadas pela bunda alheia.

Ontem a Argentina aprovou uma lei que garante a gays e lésbicas a igualdade de direitos em relação a casais heterossexuais. Foi uma decisão histórica, que colocou a Argentina na vanguarda da América Latina na afirmação dos Direitos Humanos.

Pois não é que uma (debilóide) juíza argentina disse hoje que “jamais realizará o casamento de casais homossexuais” porque foi “criada lendo a Bíblia”.

As palavras dela foram estas:

– Que me acusem do que quiser. Deus me diz uma coisa e eu vou obedecer com todo rigor, mesmo que custe meu posto, e mesmo que me custe a vida, porque primeiro está o que Deus me diz. Fui criada lendo a Bíblia e sei o que Deus pensa. Deus ama a todos, mas não aprova as coisas ruins que as pessoas fazem. E uma relação entre homossexuais é uma coisa ruim diante dos olhos de Deus.

Dito de outro modo:

– Que se dane a lei. Eu sou juíza mas não vou cumprir a lei porque minha crença religiosa vale mais que a lei e tem que ser imposta aos outros mesmo que eles não acreditem no mesmo que eu.

Isso é o que o cristianismo faz com a cabeça de muita gente. Todo o cristianismo, porque a única coisa para a qual os católicos e os evangélicos se unem é para discriminar, humilhar e ofender os gays e as lésbicas, além de fazer todo o possível para impedir que estes cidadãos e cidadãs conquistem isonomia de direitos com os cidadãos e cidadãs heterossexuais.

Interesantemente, se perguntadas a respeito da sharia e da obrigatoriedade do hijab ou da proibição ao estudo para as mulheres, estas mesmas pessoas diriam que se trata de um absurdo e que o Estado nos países islâmicos não deveria permitir que a religião impusesse um código de vestimenta nem impedisse que as mulheres estudassem, porque Direitos Humanos, blá-blá-blá, dignidade das pessoas, blá-blá-blá, Estado laico, blá-blá-blá, etc. e tal. Dois pesos, duas medidas.

O que essa juíza fez – e que será apoiado por muitos (debilóides) fundamentalistas religiosos – foi o seguinte: no Livro do Levítico, mais especificamente em Levítico 18,22, “Deus” declara que é abominação “deitar homem com homem”, portanto a juíza temente a “Deus” declarou que jamais casará dois homens entre si.

Pelo mesmo raciocínio, essa juíza poderia negar-se a cumprir as leis contra o trabalho escravo, pois no mesmo Livro do Levítico, mais especificamente em Levítico 25, 44-46, existe expressa permissão de “Deus” para se ter e negociar escravos. Como é que uma juíza temente a “Deus” haveria de punir aquilo que “Deus” permite expressamente?

“Ah, mas é diferente!”

Sim, claro, sempre é diferente. Sempre há uma explicação furada para justificar o injustificável. Sempre há uma longa exegese para fundamentar o fato que “isso aqui vale, aqui ali não vale”, apesar de ambos os preceitos – entre muitas outras aberrações – estarem claramente expressos no mesmo livro da Bíblia.

O que é realmente absurdo, entretanto, não é que haja quem acredite que Deus fala através de um livro, de profetas ou seja lá como for, mas que essas pessoas tentem impor aos outros aquilo em que acreditam quando elas mesmas não cumprem aquilo que está escrito no seu livro sagrado, ou dito pelo seu profeta, ou seja lá o modo como acham que Deus se manifesta.

Se todo mundo que se diz cristão cumprisse os preceitos do Antigo Testamento, o mundo seria um inferno e teríamos que promover guerras para proteger as pessoas de serem assassinadas por apedrejamento por trabalhar aos sábados.

Se todo mundo que se diz cristão cumprisse os preceitos do Novo Testamento, o mundo seria um paraíso e poderíamos viver tranqüilos porque todos estariam ajudando ativamente o próximo como manda a Parábola do Bom Samaritano.

A verdade é que todas as vertentes do cristianismo fazem uma leitura self-service da Bíblia, absolutamente parcial, sem nenhum compromisso com a totalidade do que dizem considerar “a Palavra de Deus”.

E todas as igrejas cristãs continuam obcecadas com a bunda dos gays ao invés de cuidarem do próprio (rabo) rebanho.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/07/2010

54 thoughts on “Por que as igrejas cristãs são obcecadas pela bunda dos gays?

  1. Fernando H.

    13/10/2011 — 12:49

    Seguindo a ideia deste artigo, fazemos uma analogia assim:
    Eu moro no Brasil e sou contra as prisões políticas sem julgamentos, por isso eu não vou me organizar e lutar contra as que ocorrem em Guantánamo.
    Se todos formos pensar assim, ninguém tem o direito de se expressar e lutar pelo que acha certo, todos deveriam ficar nas suas casas, trancados, pensando num modo de se convencer que militância não é livre expressão.

    1. O que é que tem a ver protestar contra as violações de Direitos Humanos em Guantánamo com a “liberdade de ofender e reprimir” exigida pelos “cristãos”?

  2. Fernando H.

    20/10/2011 — 13:30

    A questão até mesmo você mostrou na resposta:
    “LIBERDADE de ofender e reprimir”
    sendo ofender e reprimir um juízo de valores seus.

    1. Ofender e reprimir também são “juízos de valores seus” no caso de um beijaço gay dentro de uma igreja? Ou aí entra aquela lógica de que “quando é a meu favor o argumento é válido, quando é contra mim não é bem assim”?

  3. Fernando H.

    20/10/2011 — 15:15

    Com certeza você está certo, o argumento funciona nos dois lados! Mas a grande diferença é que eu não estou tentando te convencer que é errado militar por alguma causa, seja qual for ela!

    1. Realmente, aí divergimos muito. Eu não acho errado militar por uma causa justa, mas acho muito errado militar por uma causa injusta… como por exemplo o direito de ofender e reprimir a sexualidade de outros cidadãos “em nome de Deus”.

      Se Deus fosse tão pervertido quanto muitos de seus “fiéis”, que passam o tempo inteiro pensando em como reprimir a sexualidade alheia e como causar constrangimentos e promover limitações à cidadania alheia, o Armagedon já teria acontecido.

  4. Fernando H.

    20/10/2011 — 17:55

    Eu realmente achei que este site serviria para palco de debates sadios e de ADULTOS no sentido maduro da palavra.
    Para mim ficou claro sua aversão pessoal ao cristianismo, o que não deixa de aparecer nos seus discursos.
    O problema do seu pensamento é que se todos a partir do seu ACHAR, iniciarem lutas contra o que consideram “militâncias injustas”. Um dia pode ser que alguém ache os seus protestos injustos e ilegítimos. Provavelmente aí iniciaríamos uma guerra egoísta,onde todos tentariam impedir o outro de se expressar.
    A segunda parte da sua resposta eu vou desconsiderar, sinto que o nível da conversa está descendo, permeada de preconceitos formados por alguém que as finge combater.
    “PENSAR não dói, mas quando criticam sua ideia aí é outra coisa né”

    1. Não, Fernando, não tenho nenhuma “aversão pessoal ao cristianismo” específica como dizes. Tenho sim uma imensa aversão à doutrinação de crianças com dogmas irracionais que geram apenas conflito e sofrimento. Tenho sim uma enorme aversão a ideologias que se pretendem inquestionáveis sem apresentar nenhuma prova que justifique seus fundamentos alegadamente divinos. Tenho sim uma imensa aversão ao relativismo cultural, que diz que tudo que qualquer um pensar “é a verdade desta pessoa e tem que ser respeitada” mesmo quando essa suposta verdade prejudica terceiros – e tenho ainda maior aversão a este tipo de ideologia quando ela só vale para um lado do debate.

      E não tenho preconceito algum contra cristãos. Eu os conheço MUITO BEM. Portanto, tenho conceitos.

  5. Caçador de pitbulls

    21/10/2011 — 12:29

    Cara, esse post foi muito engraçado. Engraçado, porém pertinente!

    1. Então acertei. 🙂

      Valeu!

  6. Fernando H.

    22/10/2011 — 10:48

    Estou vendo como conhece bem…

    1. Isso lá é contigo.

  7. Alexandremk

    11/05/2012 — 16:11

    É uma pergunta bastante instigante,além de ser bastante original.Por essas e outras que a pergunta é mais interessante que a resposta, apesar que a sua resposta é muito interessante. Realmente dá o que pensar.

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