Crianças não são anjinhos, elas podem ser terrivelmente desafiadoras e manipuladoras. Isso está codificado no DNA de nossa espécie – somos primatas – e requer respostas que estabeleçam claramente uma hierarquia em termos facilmente compreensíveis por um filhote de primata.

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Cena clássica do Episódio IV: Darth Vader esgana com a Força um oficial do Império que ousa desafiar sua autoridade.

Uma vez eu tive que cuidar de uma criança que se transformou de anjinho em demoniozinho assim que o carro dos pais dobrou a esquina.

O guri imediatamente deixou de me obedecer, passou a fazer exigências de modo acintoso e começou a derrubar objetos pela casa. Perante minha negativa em ceder espaço para manipulação, ele resolveu atirar um copo com suco de laranja em mim. Não somente o suco, mas o copo junto. Eu desviei a trajetória do copo com um tapa e consegui evitar ser atingido no rosto, mas não consegui evitar que o copo se despedaçasse no chão, espalhando suco e cacos de vidro.

Lógico que, perante um comportamento abusivo desses e uma clara agressão física, eu não ia consultar o “manual teórico de como educar uma criança sem palmadas” escrito pelos teóricos da frescurite politicamente correta, até porque eles nunca escreveram isso, limitando-se a proibir as palmadas sem sequer indicar as alternativas.

Eu falei: “Mas que estupidez é essa? Tu vais apanhar, moleque!”.

Ele respondeu debochando: “Tu não podes bater em mim, tu não és meu pai”.

Ou seja: as crianças sabem se aproveitar muito bem das regras estúpidas que criamos.

O que eu fiz? Tratei de mostrar quais eram as verdadeiras regras.

Agarrei o moleque pelo pescoço, levantei-o até a altura dos meus olhos e enquanto ele esperneava perguntei entre dentes, olhando firme nos olhos dele: “E quem é que vai me impedir? Tu estás vendo teu pai aqui? Não, né? Então primeiro tu vais levar uma surra e depois tu vais reclamar pra ele, quando ele chegar. Mas até lá tu vais ficar trancado no quarto chorando com o lombo ardendo.”

Abaixei o moleque até o chão, larguei o pescoço dele, agarrei-o pelos cabelos, arrastei-o até o quarto e avisei num tom de voz que deixou inequívoca a veracidade das palavras: “fica aí enquanto eu junto os cacos de vidro ou o chinelo vai cantar na tua bunda!”

Santo remédio, Batman!

O guri ficou quietinho na porta do quarto até eu terminar de secar o chão e juntar os cacos de vidro.

Então eu liguei o videogame e comecei a jogar sozinho, sem olhar pro guri. Ele ficou se torcendo todo na porta do quarto, louco pra jogar, mas sem coragem de falar nada.

Esperei até o momento em que achei que ele não se agüentava mais e estava prestes a abrir o bico, virei pra ele e perguntei: “queres jogar também?”

Ele respondeu que sim com a cabeça, bem quietinho.

Aí eu disse: “se tu prometeres te comportar direitinho, podes jogar comigo”.

O guri abriu um sorriso, correu até onde eu estava, pegou o joystick e disse “tá bom, tio”.

Quando os pais dele chegaram, horas depois, estávamos os dois rindo no sofá da sala, ainda brincando com o videogame, numa boa.

Isso aconteceu há mais de quinze anos, o guri hoje é adulto e meu amigo. Ele não ficou traumatizado com o episódio nem acha que eu cometi qualquer abuso. Pelo contrário, ele acha ótimo que eu tenha tido a paciência de explicar e demonstrar quais eram as verdadeiras regras do jogo antes de aplicá-las. Na rua, lidando com estranhos, ele não teria a mesma oportunidade. Treino é treino, jogo é jogo.

É por isso que a Lei da Palmada constitui um imenso perigo para as próprias crianças que supostamente pretende defender: ao invés de uma palmadinha dos pais e das mães, muitas crianças criadas sem limites por pais acuados por uma legislação abusiva vão receber suas primeiras noções de limites no jogo da vida. E estas lições serão aplicadas por jogadores que também não tiveram noção de limites, ou seja, não serão palmadinhas, serão espancamentos, facadas e tiros.

Nossos legisladores e a turma “politicamente correta” vão produzir exatamente o contrário do que pretendem com a Lei da Palmada: um vertiginoso crescimento dos índices de violência entre crianças e adolescentes e contra crianças e adolescentes.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 27/07/2010

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Se você não acredita na Força, bem… Darth Vader podia usar a força, também.

16 thoughts on “Pedagogia Darth Vader

  1. Tweets that mention Pedagogia Darth Vader | Pensar Não Dói -- Topsy.com
  2. Arthur, idiotas são idiotas em qualquer situação.

    Essa lei já nasceu de mentes idiotizadas,fazer o que?

    Continuo afirmando que na MINHA família mando eu.

    1. Pelo menos ontem tive a grata surpresa de decobrir que pelo menos 54% da população brasileira é contra essa lei absurda. Mesmo assim achei 54% um percentual muito pequeno perante o tamanho do problema.

  3. Roberto Tramarim

    27/07/2010 — 23:15

    Isso me lembra uma vez que eu assisti a um desenho do Pica-pau. Ele tava passando um aperto com um moleque hiper travesso, então ele resolveu usar a “psicologia infantil”, abriu uma gaveta e tirou um livro escrito na capa: PSICOLOGIA INFANTIL.
    O Pica-pau abre o livro, que é oco por dentro, e tinha uma marreta escrita: PSICOLOGIA INFANTIL. Ele usou a “psicologia infantil”na criança e funcionou direitinho, o muleque ficou super calminho.

    É, as vezes a “psicologia infantil” funciona. Não devia ter lei contra ela(hehehe)

    1. Não tenho certeza se lembro deste episódio: a “criança” não era uma imensa morsa-bebê? (Uma versão infantil do Leôncio?)

      Depois de rir bastante eu lembrei do taco de baseball com a inscrição “Direitos Humanos”… 🙁

      Mas eu sei que tu sabes a diferença entre o Estado destruir uma família amorosa por causa de uma palmadinha e o Estado defender uma criança de espancamento em uma família disfuncional. O que me incomoda é o tanto de gente que não percebe a diferença ou que não se importa com as conseqüências.

  4. Pra tu veres,Roberto,como a fala nos atrapalha,ou de nada serve em alguns casos,rs.
    O Pica-pau……não conhecia a Supernanny.

    Criança é igual adulto,só que em miniatura.

    Tem criança aprende tudo quase que sozinha.

    Tem criança que aprende
    através de castigos.

    E tem aquelas que só aprendem….com uma palmada,um puxão de cabelo ou um tapa.

    Minha sobrinha B….puxava o cabelo de todos que se aproximavam dela.E muitas vezes o puxão de cabelo era acompanhado por beliscões e chutes.

    Minha cunhada falava,falava e nada…punha a garota de castigo e nada.
    Um dia, já cansada daquilo tudo….deu um violento puxão no cabelo da filha…..e explicou que fazia a quilo para ela saber E sentir…o quanto podia ser doloroso um puxão de cabelo.
    A menina chorou,chorou e NUNCA MAIS beliscou,puxou o cabelo ou chutou ninguém.

    Psicológos e legisladores que me perdoem,mas um pouco de violência é altamente saudável.

    Somos seres violentos….sentimos raiva….é normal…..o que eu acho que não é normal…..é sentir ódio e se deixar dominar por ele.

    Enquanto a raiva nos ajuda a reagir,o ódio nos transforma em assassinos disfarçados.

    Prefiro mil vezes lidar com uma explosão de raiva do que enfrentar o ódio silencioso e fatal de alguém.

    Crianças não são anjinhos de per si…..até podem ser….mas não é a regra.

    1. Essa história é clássica, Lya. Muitas famílias relatam a mesma coisa em relação a puxões de cabelo, beliscões, tapas, pontapés, etc.: há muitas crianças que repetem o gesto por mais que se explique que dói e por mais que se peça para não fazer, ou que se coloque a criança de castigo por ter feito, até o momento em que ela é exposta ao mesmo tratamento que dá aos outros, quando então o comportamento indesejado cessa.

      Todo mundo conhece uma criança assim, menos os deputados…

  5. Hahahaha………..pior é que quando você conta uma história dessas para um desses psicólogos antipalmada altamente teórico, sem experiência e sem filhos, ele ainda diz que se você deu uma palmada é porque “falhou” na educação da criança. Típico comportamente “não quero saber se o pato é macho; eu quero é que bote ovo”.

    1. Isso, tem esse papo ridículo do “falhou” em função do método usado e não do resultado obtido. Mas vai olhar a vida pessoal da maioria desses “politicamente corretos” e o que mais existe é uma imensa lambança… com eles colocando a culpa dos próprios problemas no “mundo burguês dominado pelo patriarcado machista falocêntrico branco opressor histórico blá-blá-blá”.

  6. E tem mais….dois de meus sobrinhos…..dois primos,um menor que o outro. O mais velho vivia apanhando do mais novo…

    Eu via,mas não podia fazer nada.As crianças que se entendam…não é assim?
    Um dia mandei o maior pedir que o menor não batesse mais nele,não adiantou.
    Então MANDEI que ele batesse no primo…da mesma forma que o primo batia nele.

    E num belo dia…o maior bate no menor.
    Se defendeu….mas a mãe do pequeno fez a maior confusão.
    O bom é que NUNCA MAIS um bateu no outro.

    Eu digo para eles não serem violentos,digo para fugirem de confusão …aviso que a violência pura e simples não leva a nada….mas digo também que em último caso precisam se defender.

    Em algum momento da vida eles podem se deparar com um valentão…e correr não vai adiantar.

    É preciso saber quando e como usar a violência.

    Uma palmada é um ato de violência? É.

    Mas um grito dado com raiva,não é menos violento.

    1. Hehehehe… hoje em dia ninguém produziria um desenho assim. Pica-pau é um bravo remanecescente de uma feliz época ainda não contaminada pela intolerância “politicamente correta”.

  7. Acho que uma palmada, um grito, uma repreensão são coisas super válidas para educar uma criança, mas tudo tem limite. Estou falando não como mãe (já que não sou e nunca serei), mas como criança (que não sou, mas já fui).
    O meu pai me batia pelas coisas mais idiotas com uma cinta enrolada em fita isolante especialmente elaborada para me bater. Isso me causou sérios problemas psicológicos e emocionais, alguém devia ter parado ele mas ninguém fez nada. Eu denunciei e ninguém fez nada.
    Existe uma diferença entre educar e torturar. Talvez essa lei seja um exagero, mas talvez isso aconteça porque as pessoas são ignorantes sem limites.

    1. O que falta é o bendito do bom senso, Mariana. Uma palmada usada para estabelecer/fortalecer/explicitar uma relação hierárquica, como qualquer primata faz, é uma palmada 99% simbólica, seguida de um choro 99% simbólico, causado muito mais por frustração do que por dor. Esse é o padrão biológico da coisa.

      Mas aí vai o animal humano desenvolver linguagem, rotular comportamentos de modo ideológico e contrariar sua natureza… E temos a perversão da palmada, que deixa de ser um símbolo que significa “estou mostrando quem manda aqui” para ser um ato justificado em si mesmo que significa “estou descarregando minhas frustrações e desvios de caráter em quem não pode revidar”.

      Observa que eu não bati na criança citada no artigo. Eu simplesmente mostrei para a criança que era muito mais forte que ela, que estava irritado e que não jogava o mesmo “jogos dos limites” com o qual ela estava acostumada. Por sorte a criança tinha idade suficiente para entender isso com o auxílio de palavras, mas, se não tivesse, uma palmada bastaria para estabelecer a hierarquia – não seria necessária uma surra.

      Aqui no blog não acontece muito, porque todo mundo tem a noção de que o dono do blog pode simplesmente deletar as agressões rasteiras, mas pela internet afora o que eu já li de absurdos e ofensas de gente que não consegue ou não quer entender a diferença entre os fatos da biologia do primata humano e os abusos do ideólogo estúpido humano não está no mapa…


    2. “Isso me causou sérios problemas psicológicos e emocionais, alguém devia ter parado ele mas ninguém fez nada. Eu denunciei e ninguém fez nada.” (Mariana)

      Isso é o que mais me preocupa.

      Como podem uma pessoa não se importar?

  8. Eu concordo com você e achei super legal o modo como você lidou com a criança, mas nem todo mundo tem o tal do bom senso e alguém precisa olhar pelas crianças que tem o azar de nascer em uma família cheia de gente sem noção.
    E o pior é que existem MUITAS famílias assim e talvez alguém tenha dito “vamos fazer uma lei bem exagerada para ver se agora esses idiotas entendem”. Ou não.
    Continuando com o meu exemplo, o que o meu pai fez? Ele chegou na delegacia, disse que só dava uns tapinhas em mim e no meu irmão, citou algum versículo idiota de Provérbios e saiu livre. “Minha família, minhas regras”.
    Acho que o pessoal ainda acha que ninguém pode se meter com o que acontece dentro dos sagrados muros da “família”.
    Tem gente que acha que dentro de casa se pode fazer o que quiser. O cara acha que pode espancar os filhos, pode espancar/estuprar a esposa, a mulher acha que pode quebrar pratos na cabeça do marido, dentro de casa não tem lei.
    Mas isso é loucura. Lógico que é um exagero proibir uma palmada, mas o problema é que tem MUITA gente ignorante no mundo. O que tem de criança que é espancada e submetida a castigos absurdos não tem nem conta.
    Meu, tira o videogame, tira a TV, proíbe de comer batata frita, dá um tapa, deixa trancado no quarto, qualquer coisa. Mas não precisa dar surra na criança, fazer a criança comer pimenta ou sabão, tem cada loucura por aí…

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