As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 1 de 4)

A primeira terrível verdade sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência é que, tanto devido à proibição quanto à má formação científica de nossos pesquisadores, praticamente nenhum estudo sobre drogas é feito com o rigor metodológico necessário para que tenha validade científica.

Há muitos anos atrás, quando eu ainda estava cursando a faculdade de biologia, eu estava discutindo sobre a qualidade dos artigos científicos em geral com um amigo que era bibliotecário e trabalhava na biblioteca do Instituto de Biociências da UFRGS.

Ele dizia que confiava nos cientistas, eu dizia que apesar de ainda estar cursando a graduação era capaz de identificar erros metodológicos na maioria dos artigos que lia. Então ele propôs uma aposta, valendo um lanche no bar da biologia.

Ele selecionaria um assunto ao acaso, nós abriríamos a base de dados, escolheríamos um artigo ao acaso e usaríamos as palavras-chave daquele artigo para selecionar outros vinte artigos que eu deveria analisar e apontar falhas metodológicas. Se dos vinte e um artigos eu encontrasse falhas em onze ou mais, eu ganharia a aposta, caso contrário ele venceria.

Objetei.  Argumentei que mais de metade dos artigos científicos com erros metodológicos seria um descalabro absurdo, portanto deveria bastar que eu encontrasse erros em apenas cinco dos vinte e um. E ele disse: “negativo, tu disseste que a maioria dos artigos que tu lias tinha problemas, maioria é 50% mais um, então são onze”.

Gelei. Mas eu tinha um trunfo na manga.

“Certo, já que queres ser tão preciosista, terás que concordar que, se esse rigor todo vale para para meu uso da palavra ‘maioria’, então também tem que valer para meu uso da expressão ‘artigos que eu lia’, ou seja, quem escolhe o tema sou eu, porque eu é que sei sobre que tema eu lia.” Ele concordou.

Alguém aí adivinha sobre que assunto fomos buscar artigos na base de dados?

Ponto para o internauta que disse “sobre drogas ilícitas”.

Gente, foi covardia. Nada menos que  dezessete dos vinte e um artigos selecionados do modo proposto tinham problemas metodológicos graves.

As batatas fritas estavam deliciosas.

Má ciência

O erro mais freqüente foi de delineamento amostral, ou seja, problemas relativos à escolha da amostra. Se o delineamento amostral está errado, não adianta medir tudo direitinho e meter os dados numa fórmula porque o número que a fórmula vai cuspir representará apenas a amostra, não a população. Nenhuma extrapolação válida pode ser feita a partir de tais dados. No popular, um artigo assim não presta pra nada, por mais que pareça tudo muito bonitinho, muito lógico e muito bem desenhadinho em tabelas e gráficos coloridos.

A impropriedade mais comum era selecionar a amostra de usuários para o estudo em clínicas, hospitais e delegacias, mostrar o quanto esses usuários eram problemáticos e então extrapolar este perfil para toda a população de usuários e alardear o quanto seria perigoso e potencialmente catastrófico se o uso de drogas se alastrasse.

O que tem de errado selecionar usuários nestes locais? Simples: estes usuários não representam de modo algum a população de usuários, porque são selecionados justamente entre os mais problemáticos, os que já tiveram ou causaram tantos problemas que acabaram tendo graves problemas de saúde ou com a lei. Um estudo deste tipo tem tanta validade para falar da população de usuários quanto um estudo sobre as conseqüências do uso de álcool teria se selecionasse os usuários a partir da lista de espera para transplante de fígado.

Outro problema freqüente era a incrível quantidade de falácias post hoc ergo propter hoc. Essa falácia consiste em pressupor que uma coisa que apenas aconteceu antes seja necessariamente causadora de um evento posterior. Nós estamos acostumados a ver esse tipo de falácia todos os dias na grande mídia: “homicida esfaqueia a própria mãe trezentas e trinta e três vezes após fumar maconha”. Ora… e daí que ele fumou maconha?

Se ele tivesse bebido um copo de água antes de matar a mãe, será que a chamada seria “homicida esfaqueia a própria mãe trezentas e trinta e três vezes após beber água”? Não? Então fica evidente que a chamada está tentando induzir o leitor a concluir falaciosamente que a droga causou a violência. Ainda que haja inúmeros outros dados na reportagem, o estrago na mente do receptor da mensagem já está feito, porque a informação mais destacada é a que fica na memória.

O mesmo tipo de coisa acontecia nos artigos científicos.

Os resumos (ou “abstracts”) e as conclusões diziam “fumar maconha aumenta risco de esquizofrenia”. Aí eu lia o artigo atentamente e descobria que na verdade “os dados sugerem um discreto aumento da freqüência de episódios de esquizofrenia, na ordem de um milésimo de ponto percentual, em usuários crônicos que fumaram mais de uma tonelada de maconha por dia nos últimos oitenta anos”.

Tecnicamente não dá pra negar que um discreto aumento em casos muito específicos sob condições muito especiais seja um “aumento”. Mas pelo mesmo raciocínio também não dá pra negar que comida gordurosa aumenta as chances de doença cardíaca e nem por isso tem gente por aí querendo criminalizar o x-burguer nem prender os donos de lancherias por tráfico de gordura. E olha que morre vinte e uma vezes mais gente por má alimentação do que pelo consumo de todas as drogas ilícitas somadas.

Outra coisa que acontecia muito era o uso de fórmulas estatísticas sem observar os pressupostos de aplicação dos testes. Fulano reunia os dados e metia na fórmula sem se preocupar se o tamanho da amostra era suficiente, se os dados seguiam a distribuição estatística necessária, etc.

Isso entre muitos outros erros escandalosos, falácias maquiadas e argumentos tendenciosos.

Má legislação

Verdade seja dita: apesar das graves limitações acadêmicas de inúmeros pesquisadores, o pior entrave para a produção de boa ciência sobre as drogas hoje ilícitas é justamente o fato de serem ilícitas. A maior culpa por não termos uma boa produção científica nesta área é daqueles caras lá em Brasília.

Suponha que você queira fazer um estudo sobre os efeitos fisiológicos do crack. A coisa mais lógica a fazer seria levar alguns voluntários para dentro de um laboratório, colocar um acesso venoso e meia dúzia de sensores diversos neles e fornecer a droga com pureza e quantidade controladas para avaliar os efeitos de cada unidade real consumida. Isso é o que deveria ser feito.

Agora tente conseguir autorização e financiamento para fazer isso.

Isso tem que ficar bem claro:

A legislação brasileira impede o desenvolvimento da ciência.

O resultado é que as políticas brasileiras sobre drogas são fundamentadas na ignorância e no preconceito.

O caso recente de uma pesquisa que demonstrou que a maconha é a melhor droga de suporte para tratar a dependência do crack é emblemático: os cientistas comprometidos com a agenda proibicionista estão crucificando o pesquisador que divulgou este resultado, promovendo ataques pessoais, repetindo a velha lenga-lenga de clichês batidos… e o estudo não pode ser reproduzido em outras instituições porque pesquisadores e voluntários que tentarem fazer um estudo desta natureza podem acabar na cadeia.

A impossibilidade de fazer estudos adequados é tudo que o pessoal comprometido com a agenda proibicionista mais deseja manter.

Imagine que o mesmo estudo fosse repetido em uma centena de universidades no Brasil. Ou em uma dezena, que seja.

Se os mesmos resultados do estudo original fossem obtidos por pesquisadores independentes de outras instituições, estes caras que hoje dizem que isso é um absurdo e que o cara que fez o estudo original tem que ser enforcado no arame farpado teriam que aceitar a verdade e passar a recomendar o tratamento mais eficaz.

Mas se os resultados de diversos estudos promovidos por pesquisadores independentes de outras instituições desmentissem o estudo original, ficaria definitivamente estabelecido que o estudo original era falho e bye-bye pra carreira acadêmica do autor daquela loucura.

Por que então não se replica este estudo com um grupo de cinqüenta usuários em cada capital do Brasil em que exista uma Universidade Federal, com o Ministério da Saúde acompanhando de perto os protocolos utuilizados em cada experimento?

R: porque os proibicionistas querem distância da verdade.

Se este estudo fosse repetido segundo protocolos aprovados pelo pesquisador que desenvolveu o estudo original, para evitar falsificação na reprodução do experimento, então haveria sólida base científica para refutar ou recomendar o uso de maconha fumada para tratar a dependência de crack.

Ao contrário dos pesquisadores que se preocupam de fato com a saúde, com o bem-estar e com os direitos fundamentais das pessoas, descobrir e tornar pública a verdade é um risco que os proibicionistas não querem correr.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 04/08/2010

Leia também:

Verdade n° 2.

Verdade n° 3.

Verdade n° 4.

113 thoughts on “As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 1 de 4)

  1. Arthur, muito bacana o artigo. parabéns.
    Manga, está no caminho certo tentando de uma forma humana levar outro a reflexão.
    Leandro uma dica, reflita sobre o que o manga tentou passar-te nesta postagem:
    …….
    Leandro, vi o trailler e gostei bastante do enredo, lembra muito o Tropa de Elite II que te comentei.
    O engraçado é que nós dois vemos a mesma coisa, uma guerra urbana com mortes, injustiças e tudo o mais.

    Só que enxergamos razões totalmente diferentes para todo este caos.

  2. Drogas – Um debate necessário | Jerimum Beta

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