Recebi um iradíssimo puxão de orelhas numa mensagem privada por “estimular as pessoas a beber e dirigir” no artigo de ontem. Ai, ai… NÃO, gente, eu NÃO disse que era pra beber e dirigir. O assunto do artigo de ontem não era o álcool, era “nivelar a cidadania por baixo”. Eu usei a política de alcoolemia zero apenas como exemplo para ilustrar o princípio de que a lei não deve tratar todo cidadão como retardado em nome de uma suposta praticidade. Perdoem-me os leitores que entenderam o artigo de ontem, mas hoje eu preciso dizer explicitamente o óbvio: eu recomendo expressamente que se beber, não dirija. Agora vamos ler uma historinha, porque postagem de sexta-feira tem que ser leve.

Uma vez eu saí de carona com um amigo e um pessoal da nossa turma para assistir outro amigo tocar um violão num barzinho. Programa legal, todo mundo se divertiu muito, mas a ngalera só se esqueceu de um detalhe: tínhamos que voltar para casa de carro e todo mundo bebeu demais da conta, inclusive o motorista.

Como eu não costumo beber álcool e só tinha tomado refrigerante, pedi as chaves para dirigir na volta, mas o motorista, que mal conseguia andar em linha reta, mesmo após muita argumentação e vários pedidos e mesmo tendo caído de cara no chão ao tentar “fazer o quatro” não quis me dar as chaves porque jurava que estava em perfeitas condições para dirigir.

Virei para a turma e disse: “ou tiramos as chaves dele à força, ou ele vai se matar e matar mais alguém junto”. Ninguém quis intervir. Disseram que eu estava exagerando, que eu ia estragar a noite de todo mundo… e entraram no carro. Eu me coloquei em frente ao carro e não os deixei sair dali, segundo eles “bancando o chato”, na minha opinião tentando evitar que eles se matassem. Então o motorista abriu um pouco a porta e disse “tá bom, Arthur, pode dirigir”.

Quando eu dei a volta para entrar no carro, ele arrancou e fugiu de mim. Meus “amigos” riram da minha cara, fizeram gestos obscenos, me chamaram de mala, chato, inconveniente…

Resultado: meia quadra depois o carro saiu da estrada, caiu numa valeta e todo mundo teve que sair nadando no esgoto. Erraram um poste por milagre.

Quando o meu táxi chegou, todos vieram com a maior cara deslavada me pedir carona, claro. Mas o taxista disse que fedendo a esgoto ninguém entraria no carro dele. Então eu fui para casa sozinho no táxi e eles tiveram que caminhar sete quilômetros bêbados, fedidos e reclamando de mim porque eu “não tinha sido solidário”.

Peraí… o motorista comete a irresponsabilidade de beber feito condenado sabendo que ia ter que dirigir depois, eu me disponho a dirigir para ninguém correr riscos, todos os outros reclamam que eu estou exagerando quando a situação está nitidamente insustentável, eu decido preservar pelo menos a minha vida, eles sofrem um acidente totalmente previsível, eu me disponho a pagar um táxi para todo mundo, o taxista não aceita que os sujismundos emporcalhem seu carro e eu é que não sou solidário?!!!

Adivinhem se eu ainda falo com algum deles.

Quando o cara vai sair pra beber, ao chegar no bar tem que tomar uma decisão antes do primeiro gole: definir quem vai dirigir na volta e entregar imediatamente as chaves para o sujeito – que não pode beber a noite toda. Se todo mundo quiser beber, já tem que ficar claro que o carro vai ficar estacionado ali e que a volta é a pé, de ônibus, de lotação, de táxi ou de tapete voador, mas jamais com alguém que bebeu ao volante, por mais que o cara pense que está ótimo.

Quem gosta de uma bira tem que saber que depois de beber sempre vai achar que está em condições, portanto tem que definir antes de beber quais são os seus limites. Uma cerveja na noite, junto com alguma comida, mais um intervalo de uma ou duas horas batendo papo e bebendo refrigerante antes de dirigir? Até acho razoável, mas teríamos que testar com um bafômetro pra ver se a alcoolemia fica dentro dos parâmetros legais. Qualquer coisa além disso é muita irresponsabilidade.

Hoje eu tenho uma turma de amigos que pergunta: “Arthur, topas dirigir na volta?” Galera esperta. 🙂

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 06/08/2010

11 thoughts on “Se beber, não dirija

  1. Tweets that mention Se beber, não dirija | Pensar Não Dói -- Topsy.com
  2. era disso que eu estava falando no outro artigo, de forma confusa, mais era isso rsrsrs
    abraço

    1. Às vezes é necessário explicitar o óbvio.

  3. Aconteceu algo parecido comigo não faz muito tempo, só que um pouco mais assutador, em resumo, o imbecil que estava dirigindo (que sobrio já dirige muito mal, só pra constar) encheu a cara também e não queria me deixar dirigir (eu não tinha bebido porque não gosto dessas misturebas com vodka), como eu era o único sóbrio, e sem grana, tive que me sentar quieto no banco de trás pra não ter que andar muito mais que 7 km de volta pra casa. Noite horrível.

    1. Celular, carregador, identidade e talão de cheques sempre no bolso. Ou ligas pra casa e pergunta se dá pra pegar um táxi e alguém pagar, ou chamas um tele-táxi (é bom ser cliente sempre da mesma companhia) e já avisas que vai pagar com cheque.

      Prevenido vale por dois.

  4. Manga-Larga

    07/08/2010 — 09:45

    Pô Arthur, explicar a piada não tem nada a ver!

    1. Vício de professor. A gente acostuma a explicar até por que não vai explicar alguma coisa. 😛

  5. Roberto Tramarim

    09/08/2010 — 02:15

    Pois é Arthur, e voce não sabe o que acontece comigo. Nos ultimos tempos, quando saio com “turma” pra se divertir, via de regra eu é que dirijo. Se eu sei que na volta eu vou dirigir, não vou arriscar minha vida e, principalmente, a vida de outros.
    Então me limito a um chopp no máximo, logo no começo e depois só no refri. Sabe o que acontece depois?! Eu fico, perante a “turma”, com fama de “careton” porque só eu não bebo. PQP, eu queria é poder beber a noite toda tendo alguém que não vai beber alcool pra me levar de volta pra casa em segurança, mas não, me sacrifico e ainda levo uma fama infame dessas.
    PLANETA DOS…

    1. MACACOS. Eu sei.

      Experimenta comprar um bafômetro, beber junto com todo mundo e na saída dizer: “OK, eu não fui careta e curti a festa junto com vocês, mas também não serei irresponsável: agora eu vou ficar aqui bebendo suco e soprando essa porcaria de meia em meia hora até minha alcoolemia baixar para eu poder dirigir sem correr riscos nem infringir a lei. Vocês têm duas opções: podem esperar comigo, como bons amigos, ou podem me deixar aqui sozinho, como bons FDP que só são amigos na hora da festa”.

      Mas leva uma filmadora, porque as reações serão impagáveis. 🙂

  6. Eduardo Marques

    09/08/2010 — 12:10

    Deve ter sido uma noite triste p/ vc. Perder tantos amigos assim, de uma lapada só…

    1. Aí é que está… antigamente eu pensava assim, mas acabei aprendendo que não se pode perder aquilo que não se tem. Essas pessoas não eram realmente meus amigos, eram apenas companheiros de festa.

      Eu fiz um registro a esse respeito este ano, quando encontrei acidentalmente uma daquelas almas perdidas: quando se conhece as pessoas.

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