As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 2 de 4)

A segunda terrível verdade sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência é que, como a maioria dos estudos são financiados por entidades públicas ou privadas com indisfarçável compromisso com a agenda proibicionista, praticamente nenhum estudo proposto por pesquisadores isentos recebe financiamento, o que promove a hegemonia dos pesquisadores com viés proibicionista tanto na realização de estudos quanto nas comissões responsáveis pela aprovação da publicação de estudos em periódicos científicos.

A imposição ideológica proibicionista sobre os pesquisadores ocorre, portanto, em pelo menos duas frentes: a primeira no momento da produção de conhecimento e a segunda no momento da publicação do conhecimento.

Logo que eu concluí o mestrado em ecologia, uma amiga me solicitou auxílio para desenvolver o delineamento amostral para um projeto de pesquisa em saúde pública.  Ela pretendia usar o mesmo grupo como amostra ao longo do mestrado e do doutorado, realizando um trabalho extenso do tipo que chamamos de “acompanhamento de coorte“, para pesquisar a relação entre o consumo de Cannabis durante a gestação e a amamentação, as condições de saúde e o desenvolvimento cognitivo das crianças. Ela sabia que esse era o tipo de pesquisa que eu adoraria fazer e que eu não admitiria produzir nada menos que um delineamento amostral perfeito.

Pensa daqui, pensa de lá, eu propus um modelo de pesquisa triplo-cego: os pacientes não saberiam o que estaria sendo pesquisado; os médicos, psicólogos e pedagogos responsáveis pelas avaliações das mães e das crianças não saberiam o que nem quem estaria sendo pesquisado; e os estatísticos responsáveis pela análise dos dados não saberiam o que, nem quem, nem por quem estaria sendo pesquisado. Deste modo ninguém a não ser minha amiga e o orientador dela saberia o que estava sendo feito, logo não poderia haver qualquer alegação de impropriedade ou viés de análise.

Ela objetou, entretanto, que a banca examinadora poderia alegar que ela e o orientador dela pudessem ter algum viés de análise em função de algum posicionamento político referente à questão da legalização da Cannabis ou algo semelhante. Resolvi o problema transformando o estudo em um quádruplo-cego: bolei um método de seleção de amostra que permitiria que nem mesmo ela e o orientador dela saberiam quem era quem entre os pacientes estudados.

OBS: minha proposta original era tão radical que o resultado da pesquisa só seria descoberto no meio da apresentação, com a abertura de um envelope lacrado com os dados que permitiriam identificar que grupo correspondia a que tratamento. Esse envelope seria confiado a um membro da comissão de curso antes do início da pesquisa e aberto somente na metade da apresentação da tese, momento em que a própria pesquisadora e seu orientador descobririam, juntamente com a banca examinadora, qual era o resultado da pesquisa. Esta é uma solução extremamente radical, que exigiria aprovação prévia da comissão de curso, mas garantiria total isenção e inviabilizaria qualquer objeção subjetiva aos resultados da pesquisa. Minha amiga agradeceu nos seguintes termos: “brilhante idéia, Sr. Spock, mas prefiro propor um projeto que tenha alguma chance de ser aprovado por um comitê de pesquisa terrestre”. Enfim, divago.

Definido um modelo de estudo tradicional porém muito elegante, o problema crucial passava a ser como garantir uma amostragem o mais perfeitamente possível pareada (mães com mesmas características em tudo o mais exceto no que diz respeito ao consumo de Cannabis) e ao mesmo tempo aleatorizada (sem viés na escolha das integrantes do estudo).

Encontrar um método neutro de seleção de amostra pareada para avaliar as conseqüências do uso de uma substância ilegal em um estudo pelo menos triplo-cego era extremamente difícil. Não poderíamos contar para as pessoas pesquisadas o que estava sendo pesquisado, porque isso poderia alterar seu comportamento e viciar a amostra. Não poderíamos utilizar métodos não autorizados pelas pessoas pesquisadas para detectar se elas consomem a substância, porque isso é ilegal e não seria aprovado pelo comitê de ética. E não poderíamos pedir aos médicos para colaborar com a seleção da amostra, porque isso violaria a objetividade das futuras avaliações clínicas. Mas ela minha amiga estava certa ao supor que eu não me contentaria com um delineamento amostral menos que perfeito.

Resolvi o problema consultando o comitê de ética e a assessoria jurídica da universidade, redigindo um termo de consentimento informado que garantia total anonimato em todas as fases da coleta de dados, da avaliação clínica, da análise estatística e da divulgação dos resultados da pesquisa, mas que nos dava ampla liberdade para testar livremente qualquer coisa que quiséssemos em qualquer amostra clínica.

De posse de tal termo de consentimento informado, poderíamos testar laboratorialmente a presença ou não de THC nos exames de sangue do prá-natal e nas amostras de leite materno, selecionando assim usuárias e não-usuárias de Cannabis para o pareamento do estudo sem jamais entrar em contato com estas pacientes nem mesmo saber seus nomes.

Tudo que precisaríamos fazer seria debulhar todo o banco de dados do hospital em busca das mães da coorte de interesse, testar o sangue e o leite de todas elas em busca de THC e metabólitos, usar um programa de análise multivariada para selecionar os melhores pareamentos, identificar cada uma somente pelo código numérico que é associado a cada paciente e assim acompanhar cada uma das selecionadas pelo programa sem saber se é usuária ou não, nem qual é o seu pareamento, até depois que a análise estatística final estivesse pronta.

Bingo!

A essas alturas você deve estar pensando: “que estudo legal, estou louco para saber que resultados foram obtidos”, certo?

Pois é, nós também gostaríamos de saber que resultados teria este estudo.

O projeto foi imediatamente rejeitado à primeira menção da palavra “Cannabis” sob a alegação de que o departamento não queria correr o risco de ter suas verbas de pesquisa reduzidas pela entidade mantenedora caso a pesquisa concluísse que pudesse haver algum benefício advindo do consumo da Cannabis.

Veja bem, caro leitor: o projeto tinha sido tão bem planejado que qualquer conclusão seria inequívoca, sem espaço para alegações de impropriedades técnicas ou ideológicas. Justamente por isso foi rejeitado.

Esta dinâmica perversa contamina de tal maneira a comunidade científica que minha amiga não conseguiu encontrar um orientador naquela instituição, mesmo tendo mudado seu tema de dissertação. Segundo nos informou o único membro da comissão de curso que mostrou interesse pelo projeto, a negativa generalizada ocorreu porque o diretor do curso temia que ela mudasse de idéia novamente e insistisse em desenvolver o tema original, o que acabaria por criar problemas para o departamento.

Tanto ter que publicar um resultado favorável à maconha quanto ter que cancelar o vínculo da estudante com o curso após um ano ou dois de estudo subsidiado seriam eventos que descontentariam a entidade mantenedora daquela universidade. Portanto, o diretor “desencorajou a aceitação” da minha amiga pelos demais professores. Falando diretamente, ela foi barrada e acabou tendo que fazer seu mestrado sobre outro tema, em outra universidade, onde prudentemente não comentou este episódio com quem quer que fosse.

Esse tipo de manipulação dos temas de pesquisa aceitos em função de pressões exercidas por organismos financiadores ocorre tanto em universidades privadas quanto em universidades públicas, variando apenas o grau com que é explicitada a orientação para não pesquisar certos temas e não correr o risco de descobrir certas verdades.

Se este estudo fosse realizado segundo protocolos rigorosos que impossibilitassem a desqualificação da pesquisa, então haveria sólida base científica para ignorar, refutar ou recomendar o uso de maconha fumada durante a gestação e a amamentação, com vistas à saúde e ao desenvolvimento cognitivo das crianças.

Se os proibicionistas tivessem tanta convicção de que o resultado do estudo seria que “maconha faz mal para os filhos das fumantes”, este seria exatamente o tipo de estudo que eles deveriam ter maior interesse em financiar. Mas eles não o fazem.

Por quê?

R: porque os proibicionistas querem distância da verdade.

É como eu já disse antes: ao contrário dos pesquisadores que se preocupam de fato com a saúde, com o bem-estar e com os direitos fundamentais das pessoas, descobrir e tornar pública a verdade é um risco que os proibicionistas não querem correr.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/08/2010

Leia também:

Verdade n° 1.

Verdade n° 3.

Verdade n° 4.

17 thoughts on “As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 2 de 4)

  1. Tweets that mention As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 2 de 4) | Pensar Não Dói -- Topsy.com
  2. Manga-Larga

    10/08/2010 — 19:23

    Revoltante por sabermos que isso se replica indefinidamente Brasil afora, literalmente forçando um obscurantismo baseado na desinformação.

    Mas a Internet está aí…

    1. Exato. Aí vemos reportagens afirmarem que “não é assim que pensa a comunidade científica” e não lembramos que a comunidade científica – salvo poucas exceções – é censurada de modo velado pelas entidades financiadoras de pesquisas de modo a manter o pensamento único proibicionista.

  3. Meu caro,

    Isso é realmente uma vergonha!

    Tem uma pesquisadora americana que passou basicamente pelo mesmo problema, só que ela foi para jamaica trabalhar com maes de lah. E ela constatou que nao há problema algum. E ela nao teve apoiadores e só conseguiu falar sobre a pesquisa anos depois!

    O mundo inteiro que joga do lado dos proibicionistas preferem ser cegos…

    Clica no meu nome ali que tu vai pra matéria!

    Vergonhoso!

    Bom artigo! Abracao!

    1. No “Grande Livro da Cannabis” tem alguma citação a respeito de um estudo desse tipo, talvez seja esse exato estudo. O problema é que não tenho como verificar isso agora, porque minha biblioteca está encaixotada para viagem. 🙁

      Eu estou pensando em propor o estudo que eu bolei com minha amiga para um curso de doutorado, afinal 90% do projeto era de minha autoria e ela não tem mais interesse no assunto. Mas é idéia para daqui a uns anos, isso se rolar…

  4. Eu plantaria escondido um monte de cannabis em todos os canteiros possíveis da universidade só de raiva, no mínimo.

    1. HAHAHAHAHA!!! Um MOOB agrícola canábico! Idéia divertida, pena que é ilegal.

  5. Me parece que os proibicionistas estão com a faca, o queijo, o dinheiro e boa parte da população nas mãos(vide comentário acima…)
    Não da pra negar que nesse “xadrez” eles estão sempre uma jogada à frente, não?

    1. Com certeza nao há!

      Essa repressao vem de anos desde o war on drugs e nao vai ser fácil quebrar o gelo. A nao ser que em novembro os norte-americanos recebam um Sim quanto a legalizacao da querida, que daí eles vao lancar mil produtos como já haviam tentado, até refrigerante de maconha que já patentearam! Entao eles vao dizer pro mundo que maconha faz bem, e nós vamos comecar a importar deles para depois produzir in-house, e novamente eles vao estar uma jogada na frente…

      Regressao total! Progresso e Ordem é só o que falta no Brasil… porque o resto!

    2. Marcelo, quem está com a verdade na mão? Quem estiver com a verdade na mão gradualmente acenderá luzes e eliminará o obscurantismo. Mas é preciso trabalhar com perseverança e foco na qualidade.

    3. Cabeça Ativa, pior será assistir os descarados que viraram casaca por dinheiro afirmarem que “nunca foram contra, só queriam que houvesse estudos mais cuidadosos para não tomar decisões precipitadas”… discursinho hipócrita altamente previsível.

    4. Devagar, bem devagar, as coisas mudam:
      http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2011/10/21/o-fim-da-guerra-ao-verde-412495.asp

      “O Gallup informa: metade dos americanos adultos é favorável à legalização da maconha. Mas 46% continuam contra, a maioria republicanos, conservadores, mulheres e mais velhos. Em 1969, o apoio era de 12%, em 2000 passou a 31%, foi para 40% em 2009 e dois anos depois chega a 50%…”

      Na verdade a mudança de 2009 pra cá foi bem mais rápida. Será o efeito da internet que permite discussões mais livres?

    5. Se é principalmente o efeito da internet eu não sei, mas acho que a internet tem uma boa influência. Por isso mesmo insisto em comentar esse assunto no blog com certa freqüência.

  6. Pensar tá me doendo.
    Pelo jeito não doem a vocês.

  7. Arthur,

    “Marcelo, quem está com a verdade na mão?”

    Não sei, conheço a minha realidade e de alguns poucos que fazem parte do meu circulo social… não sou pesquisador e ja que não há possibilidade de estudos sérios e imparciais sobre o assunto, por enquanto a “verdade” é uma “desconhecida”.
    Não importa a quem faz uso de substancias ilegais o que dizem os proibicionistas, ou com quem está a verdade, isso não muda nada.
    Dificil é fazer essa verdade digerível a grande massa, que por sinal acha que a verdade está na novela da 8.

    1. Eu diria que há uma verdade bem conhecida: a tendenciosidade do discurso proibicionista. Ela se manifesta nas tentativa constantes de barrar os estudos sérios e de desqualificar os pesquisadores realmente comprometidos com a ciência. De posse destas evidências, fica claro quem está realmente tentando descobrir as demais verdades e quem está apenas impondo uma agenda ideológica perniciosa para a ciência.

  8. I’m shocked that I found this info so easily.

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