O Brasil vai de mal a pior, mas a população está iludida do contrário. O “progresso” percebido na redução da miséria é uma farsa: não foi feita qualquer distribuição real de renda, foi feito apenas um mascaramento temporário da desigualdade econômica. Devido a fatores quase sempre ausentes nas análises tanto dos “especialistas” quanto dos entusiastas, o Programa Bolsa-Família trará muito mais prejuízos que benefícios se continuar com seu atual formato.

Quando uma bola de neve rola montanha abaixo, todos os seus índices são positivos: seu tamanho aumenta consistentemente, sua velocidade aumenta consistentemente, sua inércia aumenta consistentemente.

Do mesmo modo, todas as projeções que se pode fazer levando em consideração qualquer série histórica de dados pertinentes à bola de neve são positivas: seu tamanho continuará a aumentar de modo previsível, sua velocidade continuará a aumentar de modo previsível e sua inércia continuará a aumentar de modo previsível.

Mas há um porém.

Em um determinado momento, devido a um fator alheio ao desenvolvimento registrado e ao desenvolvimento previsto da bola de neve, ocorrerá uma ruptura drástica e violenta no sistema.

Quando este fator se manifestar, não haverá tempo para corrigir a rota de desenvolvimento da bola de neve: não será possível modificar seu tamanho ou dividi-la em unidades menores para facilitar seu gerenciamento, não será possível desacelerá-la gradualmente para reduzir o impacto e não haverá modo de evitar que sua inércia – até aquele momento coerente com o rumo de seu desenvolvimento – se converta no maior fator de destruição e geração de caos jamais imaginado por quem estava analisando o desenvolvimento da bola de neve com base em seus indicadores históricos.

A mesma coisa está acontecendo com a economia brasileira.

Estamos assistindo uma farra de índices positivos: nunca antes na história deste país tanta gente saiu da miséria absoluta, tornou-se consumidor, aprovou tão intensamente um governo.

Com base nesta série histórica, projeções são feitas de que o Brasil vai crescer tanto em um ano, tanto em cinco anos e tanto em dez anos, sendo que tudo que é necessário é manter no governo as políticas que geraram estes resultados até agora.

É por isso que tanto o governo quanto a oposição reclamam a paternidade do Programa Bolsa-Família, que é o carro-chefe deste desenvolvimento aparente. Mas nenhum deles parece ciente – e, se está, esconde muito bem, porque seria suicídio eleitoral reconhecer isso – que este “desenvolvimento” não passa de uma bola de neve que vai colapsar logo adiante a não ser que este programa seja drasticamente modificado com urgência.

A grande falha técnica do Programa Bolsa-Família

O Bolsa-Família não redistribui renda.

O Bolsa-Família distribui dinheiro.

Renda é a soma dos valores pagos aos fatores de produção para obter o produto num determinado período. O Bolsa-Família não remunera os fatores de produção para obter um produto, o Bolsa-Família remunera a improdutividade. Portanto, o Bolsa-Família não distribui renda, ele apenas distribui dinheiro.

Mas o dinheiro tem que vir de algum lugar.

De onde vem o dinheiro distribuído pelo Bolsa-Família? Vem dos impostos diretos e indiretos sobre a renda (genericamente falando, não estou falando só de IRPF e IRPJ). Ou seja, o Programa Bolsa-Família parasita a renda para distribuir dinheiro.

“Parasita”?!?!

– Peraí, Arthur, você está chamando de “parasitismo” um programa social que tirou da miséria milhões de brasileiros? É isso mesmo?

É.

E não é “falta de sensibilidade social” da minha parte, não. Justamente pelo contrário. É por estar extremamente preocupado com o futuro de toda essa gente hoje enganada pelos benefícios transitórios de um programa altamente deletério no longo prazo que eu estou aqui dando a cara a tapa ao criticar a “menina dos olhos” da economia brasileira na atualidade.

Acontece que eu já vi um “milagre brasileiro” antes.

Na época do “milagre brasileiro” da década de 1970, a economia tinha todos os índices positivos e todas as projeções eram positivas.

Exatamente como hoje.

O problema é que aquele desenvolvimento aparente não passava de uma bolha de crescimento devida a fatores que não somente não aprimoravam como ainda por cima enfraqueciam a infraestrutura da economia nacional.

Exatamente como hoje.

Microeconomia X macroeconomia

Este é o axioma fundamental da microeconomia:

As pessoas reagem a incentivos.

E qual é o incentivo oferecido pelo Programa Bolsa-Família?

R: paga-se pela improdutividade, sem exigir do beneficiário qualquer contrapartida que o coloque no rumo da produtividade e da independência econômica.

Portanto, o Bolsa-Família estimula a dependência econômica do miserável ao estipêndio governamental.

Esta é uma notável ferramenta de formação de curral eleitoral em escala nacional, do mesmo tipo usado pelos “coronéis” do sertão que só permitiam o acesso dos miseráveis à água com a condição de que seus indicados fossem eleitos.

A diferença é que agora existem dois grandes “partidos-coronéis” oferecendo acesso a dinheiro a fundo perdido, sem exigir qualquer contrapartida de fato, cartelizando assim a política nacional.

Independentemente de qual sejam os valores praticados, o critério de escolha da população acabará sendo aquele que exigir menor esforço para a obtenção do benefício. Quem vai optar por pegar no pesado quando tem alguém oferecendo uma boca-livre?

Entre “Programa Bolsa-Família” sem contrapartida e “Programa de Qualificação Educacional e Profissional” com exigência de estudo com aproveitamento e trabalho efetivo e produtivo quando surgirem vagas, não é difícil prever qual será o preferido pela população miserável na hora do voto.

Miilhões de miseráveis respondendo individualmente ao incentivo para a acomodação na improdutividade representado pelo Programa Bolsa-Família produzirão um grande impacto macroeconômico: os postos de trabalho qualificado e melhor remunerados continuarão inacessíveis aos miseráveis, as forças realmente produtivas serão cada vez mais pesadamente taxadas e o empreendedorismo declinará devido às limitações de disponibilidade de mão-de-obra qualificada e ao custo crescente dos impostos necessários para sustentar uma imensa população de miseráveis economicamente estagnados.

Quando voltar a ocorrer um destes solavancos que freqüentemente sacodem a economia mundial, seja em função de uma catástrofe climática, do estouro de uma bolha especulativa nas bolsas de valores ou da falência de uma empresa gigante por má gestão ou por corrupção, a bola de neve da economia brasileira atingirá o vale ao pé da montanha com todo seu peso e velocidade, inexistindo mecanismo institucional e pacífico capaz de lidar com tamanha inércia cultural e econômica.

Então eu vou publicar aqui no blog um artigo intitulado “Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse!“, mas não será grande consolo.

E tem solução?

Com esses políticos que temos aí, com uma imensa população de miseráveis que pensa com o estômago e com o grande contingente de iludidos que defendem cegamente os “avanços” ilusórios da economia brasileira, duvido.

O caminho correto, registro para que não me acusem de criticar sem propor soluções, é condicionar o recebimento do benefício do Programa Bolsa-Família ao estudo com aproveitamento e ao trabalho efetivo e produtivo quando surgirem vagas.

O Estado deve disponibilizar toda sorte de curso profissionalizante e de estímulo ao empreendedorismo, inclusive com linhas especiais de financiamento para a nano e microempresa. E deve gerir um grande banco de dados de vagas em convênio com a iniciativa privada, que será também utilizado para identificar em que áreas deve haver maior incentivo à formação profissional.

Se alguém abandonar os estudos ou se negar a trabalhar sem um motivo muito justo quando surgirem vagas, deve perder o benefício imediatamente.

Se alguém apresentar baixo aproveitamento nos estudos por simples falta de dedicação e esforço, após adequada avaliação e oferta de reforço pedagógico, deve perder o benefício imediatamente.

Se alguém não conseguir mesmo estudar nem trabalhar, então deve ser aposentado por invalidez permanente.

O que não dá pra fazer é estimular a população miserável a permanecer estagnada, dependente de uma esmola oficial e cativa da chantagem eleitoral dos coronéis desta nova versão de política clientelista em grande escala.

Não se trata, portanto, de eliminar o Programa Bolsa-Família, mas de corrigir sua rota para promover educação de qualidade, qualificação profissional e verdadeiro desenvolvimento econômico.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 12/08/2010

47 thoughts on “O Programa Bolsa-Família e a farsa dos indicadores econômicos

  1. Evidente,social democracia é de esquerda,e tem esse discurso facil de que o estado pode dar tudo,mas nao existe social democracia sem um capitalismo estruturado fundado por liberais conservadores.

    Nesses termos,fica a difiniçao de que:
    O liberal conservador toma a inciativa,planta a lavoura,depois,qdo ele quer ter o lucro advindo de seu trabalho,vem os “sociais democratas” pregando a “divisao de bens” para os “excuidos” que nao podem pagar.

    Discurso facil o socialista,mas que na matematica nao funciona,pq nao se tira algo do zero.

  2. Eh obvio que a europa esta guinando para o conservadorismo. O socialismo e a social democracia estao acabando com aquele continente. Em pleno seculo 21 e neguinho ainda acha que o papai estado gera riqueza e pode gastar a vontade !! A conta chegou negada !! Acordem …

  3. Eugênio Palma Avelar

    20/01/2013 — 18:46

    O articulista foi prudente ao criticar o formato e não a política de distribuição de renda – que foi o que Dona Ruth Cardoso desejou fazer ao criar a Comunidade Solidária.
    O próprio FHC confessou sua inspiração: o New Deal de Roosevelt e o Welfare State dos países europeus.
    O New Deal foi emergencial, exigia contrapartida e a maior delas era a devolução do estipêndio aos cofres públicos, assim que o cidadão saísse da situação de miséria.
    Já o Welfare State me parece mais substantivo, porque remunera um fator de produção: o salário. Com diferenças salariais menores, o poder de consumo dos europeus se tornou muito elevado. A atual crise é causada pelo “crash” americano que se anuncia, sua política de desvalorização do dólar e de não taxação do crédito ao consumidor fez com que a Europa perdesse competitividade, ensejando o fim do Welfare State.
    O programa brasileiro também prevê contrapartidas: manutenção dos alunos na escola e da vacinação em dia. Como aponta o senador Cristovam Buarque, não há fiscalização alguma dessa contrapartida. Ademais, aqui em MG, há uma política explícita de aprovação automática do aluno, tornando o Bolsa Família completamente inútil, no tocante à promoção social do pobre.

  4. O Brasil copia muito a Venezuela de Maduro e Hugo Chavez. A Venezuela começou com um tipo de bolsa família sustentado pelo dinheiro dos impostos sobre a iniciativa privada. O número de dependentes das bolsas cresceu por lá e para acompanhar o país se endividou e aumentou o imposto sobre o empresariado. Consequência algumas empresas faliram, outras foram embora,outras aumentaram o preço dos produtos. A inflação tomou conta. Maduro para controlar a inflação aumentou novamente os impostos sobre as empresas e congelou os preços. As empresas trabalhando no prejuízo se extinguiram bem como os produtos. CONSEQUÊNCIA: A VENEZUELA NÃO TEM MAIS EMPRESAS NEM PARA FAZER PAPEL HIGIÊNICO. A prova que a Esquerda nádegas suja é… E o PT, junto de Cuba, foi o único que apoia a ditadura de Maduro NA QUAL NÃO HÁ DEMOCRACIA.

    1. Li e favoritei pra ler de novo.

  5. João Lúcio

    16/12/2013 — 10:35

    Passaram-se quase quatro anos desse texto e o Brasil continua a bombar. A pobreza só diminuindo. Melhor do que antigamente quando a máxima era: “vamos esperar o bolo crescer para distribuir”.

    1. A MAV descobriu o PND!

    2. Corram para as montanhas! 😛

      Gerson, eu acho graça é nessas loas que os esquerdistas tecem a si mesmos só porque o ciclo da desgraça que eles promovem ainda não produziu seus resultados óbvios.

      Foram mais de 60 países que fizeram essa mesma experiência e em TODOS deu errado. Não tem nenhuma exceção, tanto é que eu repito isso sempre e ninguém mostra uma exceção.

      Claro, sempre tem um espertinho que aparece dizendo que a Noruega é socialista.

      Tudo bem.

      Então vamos pegar TODAS as leis norueguesas, instituições norueguesas, programas de governo noruegueses e regulamentações de mercado norueguesas e vamos imitar o “socialismo” deles tintim por tintim. 🙂

      Mas aí eles pulam feito tainha e vêm com aquele lance de que não se pode importar uma cultura, etc., etc., etc. 😉

  6. Rafael Holanda

    02/11/2014 — 01:15

    “O Brasil vai de mal a pior, mas a população está iludida do contrário. (…)”

    Por quanto tempo essa frase será verdade por aqui, hein?

  7. Qual seu prognostico hoje arthur, 2 de novembro de 2014? Estamos melhor, pior, rumo ao primeiro mundo, ou mais perto do quinto? Ou na mesma?

  8. Sarah Benezar

    18/02/2016 — 01:59

    E o momento de publicar o artigo “eu te disse!” chegou. Parabéns, por este artigo, infelizmente há pessoas que ainda defendem essa política parasita, esse Bolsa-Família não faz o pobre deixar de ser pobre,apenas o faz um pobre dependente e acomodado. Sem dúvida o programa de qualificação Educacional e Profissional seria a melhor alternativa e digo isso desde o inicio no ginásio e hoje entrando na academia, tenho e sou esperança para uma reforma política e uma reforma no ponto de vista dos brasileiros.

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