As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 3 de 4)

A terceira terrível verdade sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência é que todos os cientistas que demonstram que estas drogas não possuem efeitos negativos tão terríveis quanto a ideologia proibicionista procura fazer crer, ou que possuem efeitos positivos em determinadas circunstâncias, sofrem ataques pessoais que visam sua desmoralização tanto na comunidade científica quanto na grande mídia, que distorce suas informações, não publica seus esclarecimentos e oferece amplo espaço para seus detratores.

Recentemente assistimos perplexos uma batalha pública de desqualificações pessoais devida à divulgação na imprensa da informação de que a maconha fumada é a melhor droga de suporte para o tratamento  da dependência de crack:

“Havia um grupo de pacientes no nosso serviço de tratamento contra o crack que não conseguia largá-lo pelas maneiras tradicionais, eles mencionaram para a equipe médica que a única maneira que eles conseguiam se manter longe do crack era quando eles usavam maconha e, normalmente, quando estamos tratando algum dependente, falamos para não usar nenhuma droga, mas como todos eles falavam a mesma coisa, que a maconha estava ajudando, resolvemos investigar esse fenômeno.

Nós os acompanhamos por um ano, fazendo o uso de maconha, tentando largar o crack. A surpresa foi que, depois de seis meses, 68% tinha largado o uso de crack através do uso da maconha, e mais surpresa ainda foi que depois eles não ficaram dependentes da maconha, eles pararam espontaneamente de usar maconha, nem trocaram uma dependência pela outra.” (Dartiu Xavier da Silveira)

Esta é simplesmente a maior taxa de recuperação já registrada em um tratamento único contra a dependência do crack, o que deveria ser recebido com entusiasmo pela comunidade científica e pela comunidade médica.

Um estudo que alega ter descoberto um tratamento capaz de promover  a maior taxa de recuperação já registrada na luta contra a dependência do crack é algo tão positivo que este estudo deveria ter sido imediatamente repetido por diversos grupos independentes para ser rapidamente validado ou invalidado devido à grande importância que a epidemia de crack tem para a sociedade.

Qual foi, entretanto, a reação de boa parte da comunidade científica brasileira e também da imprensa? A pior e mais baixa possível: ao invés de repetir o estudo, trataram de desqualificar o pesquisador.

Zero Hora, do alto de sua incontestável qualificação como periódico científico especializado, abre sua reportagem sobre o estudo de Dartiu Xavier com a seguinte afirmação taxativa:

“A pesquisa paulista que aponta a maconha como remédio para derrotar o vício em crack é considerada inválida e até mesmo irresponsável na comunidade científica brasileira.”

Logo a seguir a reportagem cita a fala de Dartiu Xavier, segundo o qual “A dependência de maconha é muito menos agressiva do que a do crack. Nesses casos, a maconha funcionou como porta de saída do vício.” apenas para servir de gancho para mais uma desqualificação:

“Não é o que pensam especialistas em dependência química.”

Helloooooo? Dartiu Xavier é especialista em dependência química. Afirmar que o que ele diz “não é o que pensam especialistas em dependência química” é uma desqualificação pessoal clara, pois transmite a idéia de que ele não tem competência para divergir dos “verdadeiros especialistas”.

Segue então a afirmação de que Dartiu Xavier teria “fugido do debate” em um Congresso Brasileiro de Psiquiatria, nos seguintes termos:

Ele não teve peito de ir. O experimento não tem a menor credibilidade científica. Foi muito criticado quando veio a público, anos atrás. Foi feito com poucas pessoas, seguidas durante pouco tempo. Dizer que a maconha pode fazer algum bem beira a irresponsabilidade. É dar as costas para a ciência.” (Sérgio de Paula Ramos, ex-presidente e atual membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), também psiquiatra.)

Vamos analisar estas afirmações.

Em primeiro lugar, “ele não teve peito de ir” é lá coisa que se diga de um colega de profissão em uma arena de debate de idéias científicas? Ou é uma fanfarronice mais apropriada a quem tem interesse em atacar a imagem e a credibilidade profissional de um desafeto?

Em segundo lugar, ao afirmar que “dizer que a maconha pode fazer algum bem beira a irresponsabilidade”, ou seja, ao colocar a questão em termos morais e fechar as portas à qualquer avaliação racional, como exige a boa ciência, o sujeito mostra abertura para a investigação criteriosa e independente ou deixa evidente que tem uma opinião preconceituosa e inquestionável a despeito do resultado de qualquer estudo científico?

Em terceiro lugar, meu caro leitor, veja os cargos que a pessoa que fez essas afirmações grosseiras e moralistas ocupa e me diga com sinceridade: você acha realmente que este é um caso isolado e que esta entidade não promoverá nenhuma outra pressão ou constrangimento contra pesquisadores e instituições que ousarem propor pesquisas cujos resultados possam contrariar as opiniões deste indivíduo?

Mas isso não é tudo.

Vou pular as inverdades sobre maconha ser “porta de entrada para drogas mais pesadas”, uma falácia tão fácil de identificar que não entendo como alguém ainda pode perpetrar sua divulgação sem corar de vergonha, e analisar a última parte da reportagem, cuja seqüência de ataques contra Dartiu Xavier e seu estudo é concluída com as afirmações de outro psiquiatra:

“O psiquiatra Félix Kessler, do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também afirma que o estudo de Silveira é muito contestado em termos metodológicos. Uma das falhas seria o trabalho não levar em conta se outros fatores, como família e emprego, conduziram os dependentes observados à abstinência.

– Do jeito como o estudo foi feito, não é possível dizer que foi a maconha que fez os pacientes deixarem de usar crack, como dá a entender – disse Kessler.”

Helloooooo? Quer dizer então que o estudo de Dartiu Xavier conseguiu a façanha de testar uma hipótese absolutamente ousada em um grupo de “cinquenta pacientes usuários de crack que não respondiam a tratamento por remédios” (confiram a informação no quadro em letrinhas pequenas ao pé da página da reportagem de Zero Hora) justamente no único grupo de usuários de crack no mundo capaz de reagir com tamanha eficiência apenas com o apoio da família e do emprego?

Esse é o tipo de crítica que “cola” muito bem na cabeça do povão, que não tem qualquer noção de estatística e não é capaz de perceber a falácia, mas o leitor do meu blog sabe que comigo o desvio padrão é mais embaixo. O que este crítico fez foi inverter o ônus da prova de modo descabido.

Em ciência, alegações excepcionais requerem provas excepcionais. A alegação de Dartiu Xavier é a de que o resultado excepcional foi causado por um tratamento excepcional (uso de maconha), o que não é uma alegação excepcional. Já a alegação deste crítico é de que o resultado excepcional pode ter sido causado por um tratamento absolutamente convencional que raramente surte efeito razoável (apenas apoio da família e emprego), o que é uma alegação excepcional.

Quem tem que provar como um tratamento convencional poderia fugir ao padrão observado na maioria dos casos e produzir os resultados excepcionais obtidos neste experimento é o crítico, pois o pesquisador original apresentou um argumento com uma lógica interna muito mais sólida e cautelosa.

Entretanto, perante o público leigo é fácil promover a confusão entre a excepcionalidade do tratamento e a excepcionalidade da relação entre o tratamento e seu resultado. Mas quantas pessoas que leram a notícia em Zero Hora vão ler a identificação da falácia e a correção do raciocínio no Pensar Não Dói?

Sob a alegação de que não encontrou Dartiu Xavier, Zero Hora não publicou a opinião dele nem de qualquer pessoa que tenha a mesma opinião que ele, apesar de existirem muitos pesquisadores que pensam de modo semelhante.

Óbvio, né? Pra que ter o trabalho de dar meia dúzia de telefonemas se é mais fácil dar a entender que Dartiu Xavier estava se escondendo com medo de falar? Conhecendo-se o compromisso de Zero Hora com a agenda proiobicionista, fica fácil perceber por que dois detratores de Dartiu Xavier receberam espaço para atacá-lo e por que nem ele nem qualquer um disposto a defendê-lo foi entrevistado.

Mas eu dei uma grande volta mostrando os  ataques pessoais e intimidatórios contra Dartiu Xavier e contra as supostas falhas metodológicas de seu trabalho para chegar a uma simples perguntinha:

– Dada a imensa importância de que se reveste a epidemia de crack e dado que os críticos afirmaram ter dúvidas sobre a hipótese científica de altíssima relevância postulada por Dartiu Xavier, alegando que a amostra utilizada no experimento foi pequena demais, acompanhada por tempo pequeno demais e com sabe-se lá quais outros supostos problemas metodológicos, então por que em dez anos estes pesquisadores não trataram de testar a hipótese de usar a maconha como tratamento para dependência de crack realizando estudos com amostras mais significativas e metodologias mais confiáveis?

R: porque os proibicionistas querem distância da verdade.

Sim, querido leitor, você já leu a frase anterior em algum lugar. Foi no meu artigo anterior sobre o mesmo tema. Infelizmente às vezes eu sou obrigado a repetir o óbvio.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 16/08/2010

Leia também:

Verdade n° 1.

Verdade n° 2.

Verdade n° 4.

38 thoughts on “As quatro terríveis verdades sobre a relação entre as drogas ilícitas e a ciência (parte 3 de 4)

  1. Me diz aí, Leandro, quando foi a última vez que ouviste falar em “perigosa quadrilha de traficantes de cachaça metralha delegacia, manda fechar as escolas e o comércio e queima ônibus”
    …………
    Isso é extremamente complexo sendo que o álcool exatamente por estar tão ligado a humanidade mata mais que qualquer coisa, todas as toneladas de drogas que seriam utilizadas no comercio legal viriam de traficantes de drogas internacionais, eu realmente não sou a favor de plantações enormes de maconha no Brasil, sendo que no futuro isso pode gerar um problema maior ainda caso seja possível.

    A reportagem mostra o retrato do Brasil gigantesco onde praticamente não existe fiscalização, vamos a um exemplo atual na minha cidade, ontem mesmo recebi novamente uma denuncia onde uma grande festa de fim de ano estaria vendendo ingressos para menores de 13, 14 e 15 anos sendo que essa festa possui bebida alcoólica de graça, a rua onde residem estas festas obviamente é a rua com maior índice de mortes no transito. O MP não tem como fiscalizar todos os bares e festas que hagem dessa forma absurda, o juizado não serve para nada praticamente, e a policia não tem efetivo para fiscalizar sendo que mesmo fiscalizando nossas leis solta os vendedores e donos de bar antes que o policial na delegacia, ou seja perda tempo total, fiscalizar a festa com uma blitz seria uma boa, mas apenas diminuiria e o bafômetro é inutilizado diante de nossas leis ridículas novamente, o povo brasileiro não tem educação suficiente para ser livre em relação a mais drogas, a probabilidade de termos mais mortes na famosa avenida é grande, e o pior lotado de menores de 15 anos bebados. O sistema simplesmente não funciona, o povo finge que é ficalizado e policia finge que fiscaliza mas do lado da policia eu sei que é perda de tempo fiscalizar nossas cidades em relação a isso.

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