Surgiu um papo interessante lá no blog do Dr. Plausível que começou com sobrenomes e acabou em sexo. Calma, calma, o assunto não é impróprio para menores. Trata-se de uma questão interessante de biologia evolutiva que vale a pena a gente dar uma analisada: ela explica muito do comportamento real dos indivíduos ainda hoje.

Macho e fêmea são estratégias evolutivas co-dependentes no exato sentido da expressão: uma não existe sem a outra, uma depende da outra pra existir. O que aconteceu na verdade foi o oposto do que o Dr. Plausível sugeriu na resposta que me deu: estas estratégias co-evoluíram devido à divergência a partir de um organismo comum. Eu explico.

Em termos que não façam o leitor fugir apavorado, achando que está em uma aula preparatória para o vestibular, a história da biologia evolutiva dos sexos aconteceu assim:

Era uma vez uma bactéria meio entediada, assim sem nada para fazer além de dividir-se por cissiparidade,  que resolveu se divertir um pouco melhor. Ora, nada melhor para se divertir do que criar o sexo! Então ela inventou um jeito de trocar material genético com outras bactérias entediadas – e a coisa toda foi muito bem recebida, diga-se de passagem.

O problema é que essa brilhante desbravadora de sacanagens nunca antes tentadas criou um sexo só. Seus gametas eram todos mais ou menos do mesmo tamanho e tinham a mesma mobilidade, podendo portanto se combinar livremente: gameta A com gameta B, ou gameta B com gameta C e até gameta C com gameta A, sem problemas. Gameta nenhum era de ninguém.

Aí pintou um grupo de bactérias meio moralistas que resolveu acabar com toda aquela promiscuidade e botar um pouco de ordem na zona. Algumas delas passaram a produzir uma grande quantidade de gametinhas e outras passaram a produzir uma pequena quantidade de gametões. Passaram a se chamar, respectivamente, de machos e fêmeas. E acharam que estava tudo muito bem.

Ora, dois gametinhas não tinham vitelo (nutrientes) suficientes para se desenvolverem caso se unissem, e dois gametões não tinham como se achar para se unirem, pois abandonaram as estruturas locomotoras (cílios e flagelos).

Com o passar do tempo, ficou cada vez mais difícil de ocorrer o encontro de material genético pertencente a dois organismos que produziam gametas do mesmo tamanho, e as formas intermediárias tinham um sucesso reprodutivo menor, fazendo valer a pena investir na produção somente de gametinhas ou somente de gametões.

Foi assim que os machos passaram a investir na dispersão dos gametinhas, que eram muitos e baratinhos, e as fêmeas a investir no cuidado com os gametões, que eram poucos e caros.

E foi assim também que os machos passaram a ser mais promíscuos, querendo espalhar gametinhas para todo lado, e as fêmeas mais interesseiras, exigindo recursos (nutrição e segurança) para permitir que seus gametões fossem fecundados por um gametinha barato.

Qualquer semelhança com o que ocorre hoje em dia não é mera coincidência – mesmo que o pessoal das ciências humanas insista erradamente em afirmar que se trata de “pressões culturais” devido ao desconhecimento da biologia ou a interesses ideológicos.

14 thoughts on “Biologia evolutiva dos sexos

  1. Não se esqueça da outra força, comum em varias situações, onde a fêmea “pula a cerca” e se arrisca a ter um filho de um macho “bunito” enganando o “macho” que vai cuidar da prole…

    Mesmo a monogamia, mas espécies onde isso acontece, ( nem que seja temporária) não seria outra força para garantir a viabilidade e a sobre-vida da prole?

    1. Existem inúmeras estratégias de maximização do próprio sucesso reprodutivo que parasitam o sucesso reprodutivo alheio.

      Muitas destas estratégias são evolutivamente instáveis em sua forma pura mas estáveis em conjunto com outras, por isso vemos uma grande diversidade de pilantragens sexuais e contragolpes “conservadores” tanto na natureza quanto nas sociedades humanas.

      O que é ridículo é ver a turma do “politicamente correto” defender com unhas e dentes justamente as mais instáveis e ridicularizar as mais estáveis, sem se dar conta que com isso pioram muito a qualidade média dos relacionamentos em uma sociedade, com prejuízos para todo mundo.

  2. Sei não, Golgo. Usar palavras como “estratégia evolutiva”, “resolveu”, “inventou”, “querendo”, “exigindo” dá a impressão de q vc imagina uma intencionalidade na evolução – idéia q não compartilho. Claro q vi a piada. Mas considerando a visão q tá por trás dela, acho muitíssimo mais plausível a explicação de q a dimorfia sexual apareceu em organimos pluricelulares como reação à velocidade de reprodução dos vírus: apesar de sua relativa lentidão, o processo sexual produz entre indivíduos uma variação maior do q a q é possível produzir assexuadamente, como fazem os vírus. Toda a história da vida orgânica neste planeta pode ser resumida a uma batalha entre os vírus e os organismos pluricelulares. O vírus é o *predador* dos pluris. Inclusive, se a moralidade do ser humano é a culminância dessa batalha, ela é a ideologia necessariamente resultante de ser a presa na relação com o vírus.

    Mas paro por aqui; pq se não, vou antecipar a segunda parte do texto lá.

    1. É óbvio que não há intencionalidade na evolução. Mas a expressão “estratégia evolutiva” não está no mesmo nível das outras expressões usadas por brincadeira. O termo é corrente entre biólogos evolutivos, usado para descrever… bem… “estratégias evolutivas”, ora! Mas não tem conotação de intencionalidade.

      O dimorfismo sexual apareceu entre os seres unicelulares. Aconteceu por acaso, como tudo em biologia, e se fixou porque foi eficiente, como tudo em biologia. Também não houve intencionalidade para combater os vírus, simplesmente aconteceu de os organismos que tinham esse método de reprodução terem maior sucesso reprodutivo que os que usavam outros métodos.

      Eu não vejo a moralidade humana como culminância de um processo biológico, mas como mais um elemento que surgiu na arena de fenômenos que influi no sucesso reprodutivo e na qualidade de vida.

      Nosso planeta é finito e está no limite de sua capacidade de suporte de vida humana. A partir de agora, “sucesso reprodutivo” para nossa espécie cada vez mais estará relacionado a estratégias K no contínuo r-K (ou seja, menor prole e maior cuidado com a prole). Em um mundo competitivo e com capacidade de retaliação, a ética é um excelente lubrificante de relações sociais para garantir que possamos dedicar a maior parte das energias na garantia de bem estar ao invés de na sobrevivência. Isso renderia algumas teses de matemática aplicada. 🙂

  3. Arthur,se as pessoas tivessem filhos por amor a eles e não por amor a elas mesmas,as coisas seriam muito melhores.

    Por filho no mundo é fácil,mas tratar esses filhos com amor e responsabilidade…é bem diferente.

    Milhares de pessoas não deveriam ter um filho sequer,tamanha é a irresponsabilidade dessas pessoas.

    Filhos….é preciso ama-los!

    1. Plenamente de acordo.

  4. isso dava uma historinha legal de animação pras aulas de biologia! 🙂

    1. O penúltimo parágrafo me rendeu o indeferimento da inscrição do painel “a influência da biologia evolutiva na determinação dos papéis de gênero” em um encontro sobre estudos de gênero e uns empurrões e tentativas de unhadas pelas escadas da universidade…

  5. Roberto Tramarim

    29/08/2010 — 17:24

    “Qualquer semelhança com o que ocorre hoje em dia não é mera coincidência – mesmo que o pessoal das ciências humanas insista erradamente em afirmar que se trata de “pressões culturais” devido ao desconhecimento da biologia ou a interesses ideológicos.”

    Tai o que me “emputece” em humanas, e posso falar tranquilamente porque tenho e faço graduaçao em 2 áreas de humanas. Que fatores culturais e psicológicos existem eu não tenho dúvidas, mas desconsiderar a biologia beira a insanidade.
    Maais um belo texto Arthur. Abraços!

    1. Tem uma turma que gosta de dizer que “o ser humano já transcendeu a biologia”. E dizem isso com a maior convicção! Mas continuam tendo necessidade de descanso, sentindo dor, ficando doentes, envelhecendo e morrendo. Por que será que eles não transcendem esses incômodos biologicos, né?

  6. Arthur,

    nessa brincadeira vejo uma mão de via dupla: onde as pessoas que se especializam em humanas valorizam o estudos culturais, sociais e psicológicos; mas as pessoas voltadas mais para a área de biologia e saúde afirmar veemente, com até um certo determinismo biológico inescapável, todas as condições humanas reduzidas a um quadro biológico.

    O grave problema é que não existem pesquisas interdisciplinares em abundância como deveria ocorrer para um estudo mais sério e pesquisas mais amplas. No meio acadêmico ficamos muitas vezes reduzidos à algumas áreas de interesse e pesquisas voltadas a resultados imediatos. O que me parece uma pena, pois o conceito de universidade é bem distante do que vemos hoje nas universidades brasilieras. Uma pena.

    1. Todas as vezes que eu me meti em um “estudo interdisciplinar”, cada um redigiu o capítulo referente a sua profissão e foi tudo juntado num relatório só que recebia o título “relatório de estudo interdisciplinar sobre…”.

      Ou seja: isso non ecziste. 🙁

  7. Golgo,
    Finalmente consegui tempo pra publicar a última parte do texto sobre a genealogia da moralidade. Se tiver (bastante) tempo, dá uma olhada. Pra virar a resposta padrão atéia/agnóstica sobre a origem da moralidade, só falta à minha hipótese ser publicada em inglês.

  8. Golgo,
    Finalmente consegui publicar o artigo final sobre a origem biológica da moralidade. Confira no linque.
    Abs!

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