A pretensão de expressar sofisticação através do abuso de expressões em língua estrangeira é uma breguice recorrente no mercado de propaganda brasileiro. Até que é compreensível que isso seduza meia dúzia de broncos deslumbrados, que acham muito chique um pleigráundi ou um sivuplé, mas fico indeciso entre me esborrachar de rir e chorar num cantinho quando vejo empresas conceituadas apelarem para esse expediente rasteiro tentando vender suas traquitanas.

Caderno de imóveis de jornal de grande circulação. Anúncio de prédio de apartamentos. Jargão encontrado em apenas duas linhas:

– Salão de Festas com Espaço Gourmet
– Fitness Outdoor
– Pet Place
– Playground
– Fitness Center
– Basket Street
– Piscina com Solarium

Vamos traduzir?

– Salão de Festas com Espaço pra Fazer um Rango
– Uns Equipamentos de Ginástica no Jardim, na Chuva
– Lugar com Caixinha de Areia pros Cachorros
– Lugar com Caixinha de Areia pras Crianças
– Uns Equipamentos de Gisnástica numa sala, sem Chuva
– Quadra de Basquete pela Metade, Imitação Barata dos EUA
– Piscina com Mesas e Cadeiras Espreguiçadeiras em Volta

É isso aí, tudo “chiquérrimo”!

Isso sem falar da profusão de Villas, Villes, Villagios e Vilões da comunicação onde deveria haver simplesmente Condomínios.

Ou da onipresença de expressões supostamente engrandecedoras dos locais que descrevem: towers onde deveria haver torres ou mais apropriadamente simples prédios, terraces onde deveria haver terraços, gardens onde deveria haver jardins, decks onde deveria haver deques, spaces onde deveria haver espaços e living rooms onde deveria haver salas de estar, só para citar os mais comuns.

O ridículo chega a níveis estratosféricos.

Ultimamente inventaram de anunciar um cubículo onde mal cabe um computador e uma impressora com o pomposo nome de web space, provavelmente os dois metros quadrados mais bem cobrados da construção.

E aquele balcão rodeado de banquetas que a gente sempre chamou de barzinho, que em inglês também se chama “bar” e portanto não oferece chance de englishização, passou a ser chamado de american bar. Meteram uma palavra desnecessária no barzinho só para poder estadunidizá-lo.

Adianta criticar? Provavelmente não.

Acho que, pra curar esse mal, só a terapia do joelhaço.

21 thoughts on “Complexo de inferioridade tupiniquim

  1. HAHAHAHAHA TERAPIA DO JOELHAçO!

    É meio forçado demais mesmo usar palavras estrangeiras para valorizar. Parece que quanto menos as pessoas entendem o significado de uma palavra em inglês, mais abrem-se as portas para a imaginação aflorar e elas acabam construindo o que querem na cabeça… Se não funcionasse com certeza não seria usado… Vergonhoso

    1. Tu és de Poa e não conheces a terapia do joelhaço? 😮

  2. Quando eu estava no mestrado, um colega meu estava estudando a escolha dos nomes de edifícios em uma área da cidade. Os residenciais, invariavelmente, recebem nomes italianos e franceses, sinônimos de sofisticação europeia (ahannn…). Os comerciais sempre têm nome em inglês. 🙂

    1. O cara estava estudando isso num mestrado de quê? E sobre o que exatamente foi a dissertação dele? Fiquei curioso.

  3. Arthur! Eu ia convidar você para uma palestra sobre a legalização da maconha mas resolvi não convidar porque no programa havia uma tal de quebrada rápida bem no meio que ficou mal esclarecida….! 🙂 Já no Banco do Brasil eu fico aliviado quando o caixa eletrônico diz Take your card. Ufa. E eu que pensei que eles iam ficar com ele….! Diríamos que isto é culpa do DOS, do Basic, do Windows, da Internet, do Orkut, do Twitter, do Facebook, ou isto é só uma trollice minha? Aliás, você sabe porque nós dizemos marcianos e não martianos? Porque os romanos não foram capazes de colocar uma sonda em marte antes dos americanos. Então de mars vêm os marcianos! 😀

    1. Hehehehe… não seria a primeira vez que eu seria “desconvidado” para um evento sobre drogas. Eu fui o único da turma de formação de multiplicadores da Cruz Vermelha – dirigido por um médico e um policial – que não recebeu os convites para os eventos depois do curso. E houve um episódio em que uma colega me convidou para dar uma palestra em uma escola e a direção proibiu minha presença. Tem muita gente que tem medo de quem pensa independentemente.

      O caixa eletrônico do Banco do Brasil diz “take your card” ao invés de “retire seu cartão”? Fala sério!

      Quero ver tua explicação para o nome dos habitantes de Vênus. Eles não deveriam se chamar “vouyers”? 😛

  4. …Ademas há um outro porém. Nos jornais paga-se os anúncios por caracteres. Veja a quantidade de letras a mais que custaria em português o mesmo anúncio!

    1. Por isso que precisamos de uma reforma na língua portuguesa ao espírito do Esperanto. Ficaria tudo mais enxuto e objetivo:

      – Salão de Festas com Espaço Gourmet = “festário com rangário”
      – Fitness Outdoor = “ginasticário externo”
      – Pet Place = “cachorrário”
      – Playground = “criançário”
      – Fitness Center = “ginasticário externo”
      – Basket Street = “basquetebolário”
      – Piscina com Solarium = “bronzeamentário externo”

      Só um sufixo resolveria tudo isso, viste? 🙂

  5. Putz, fui o único que não entendeu a do joelhaço?

    1. Clica no link no artigo que ele remete à explicação.

  6. e o que seria da publicidade sem os marketeiros?

    r: PERFEITA!

    1. HUAHUAHUAHUAHUAHUA!!!! 🙂

  7. O mestrado do Ivan era nos usos culturais da língua, como a língua influencia (e é influenciada) pelas diferentes culturas (desde culturas nacionais e tal até a de pequenos grupos). É uma área bem interessante, mas eu terminei meu mestrado antes de saber no que deu a pesquisa dele…

    1. Liga pro cara e pergunta! 🙂

  8. Eduardo Marques

    01/09/2010 — 20:42

    @Arthur
    Putz, dá muita vergonha alheia, isso. Espero que os estrangeiros não vejam essa mania ridícula dos brasileiros na Copa e nas Olimpíadas.

    Conheces o blog Classe Média Way of Life?

    http://classemediawayoflife.blogspot.com/

    @Romacof
    Eu entendi a da palavra marciano, mas não é um bom exemplo. Se fosse assim, “demência”, que vem de “demente”, seria “demêntia”, como no inglês. Aliás, “marciano”, em inglês é “martian”.

    http://fuckyeahdementia.com/ (link só pra descontrair)

    Mas o que vc falou ocorre com o pt, sim. Um exemplo bom é a palavra “helicóptero”, que deveria ser “heliçóptero”(hélice+ptero).

    1. Conheço este blog desde mais ou menos a décima dica, mas confesso que não gostei.

      Ah, ainda tens que conhecer melhor o Romacof… 🙂

      E essa do helicóptero eu adorei. 🙂

  9. Eu falo BRASILEIRO….uma bela língua mestiça.
    Não questiono a evolução das línguas e quem quiser ser purista….um bom proveito.
    O terrível é que não sabemos nem a nossa língua…..mas queremos,de todas
    as formas,a língua( culta) dos outros,rs.
    A língua portuguêsa não conseguiu manter sua unidade
    nos países por onde passou e se fracionou,segundo Jânio Quadros.
    Existem, ou existiram, quatro dialetos da lingua portuguêsa:
    Meridional-sul de Portugal.
    Beirão-Beira Alta e Beira Baixa
    Transmontano-Trás-os-Montes
    Interamnenses-entre os rios Douro e Minho.
    Além disso ainda havia a língua culta e o coloquial….do povão inculto,rs.
    Por longo tempo nós tivemos um DIALETO
    PORTUGUÊS…que eu chamo de Lingua Brasileira…..com muito orgulho.

    É tolice adotar palavras estrangeiras para parecer culto.

    1. Sei lá, Lya… depois desse desacordo tortográfico eu desanimei… meteram essa imbecilidade goela abaixo da gente, sem consultas populares, fizeram uma salada pior ainda, tiraram o acento das idéias (ideia? que horror) e recomplicaram o hífen a troco de nada… só pra vender livro novo. Um inferno. E a gente fica como meras vítimas do processo.

  10. Neste caso,meu amigo,eu escrevo como o Lima Barreto…
    do meu jeito.

  11. Hei, que post obsceno…arruinou meu ‘happy hour’!
    MAs, falando sério, em algumas partes fico com Monteiro Lobato que disse que a decadência de um idioma está em seus acentos gráficos. Em ‘English’ Argentina se pronuncia de duas maneiras e estamos conversados – ‘Argentina’ e ‘Argentaina’ e isso não faz os adorados hermanos mais humildes. Eu quase tive uma crise existencial quando estudei Inglês. O que deve reinar é o bom senso. Em alguns momentos a língua do Tio Sam é mais latina do que o Português. Veja o ‘butter’ (manteiga) vem do latim ‘butryum’ que quer dizer ‘queijo’. E o ‘bottle’ (garrafa) que vem do latim ‘buttis’ (vasilha)? O majado ‘delete’ vem de ‘delere’ (arruinar, destruir). Tem ainda o ‘change’ que vem do latim ‘cambire’ (trocar mercadorias). E finalizando tem o ‘blond’ que vem da matriz latina ‘blondus’ que significa a mesma coisa – loiro.
    Eu penso que temos que seguir os falante de língua inglesa no que eles tem de interessante – agregar as palvras que não tem correspondentes em sua cultura, ou por aquelas intraduzíveis e não por status apenas. Esse é o grande desafio.

    1. Eu penso que temos que imitar ZAMENHOF. A obra dele é um primor de lógica e praticidade. Precisamos fazer uma reforma da língua portuguesa usando os mesmos critérios: simplicidade, praticidade, regularidade, facilidade. Ao extremo.

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