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Tolerância Zero e a Teoria das Janelas Quebradas

Revoltados contra os abusos e crimes cruéis cometidos contra as pessoas ou contra o patrimônio, volta e meia alguns propõem que seja adotada uma Política de Tolerância Zero Contra o Crime. Prestando atenção ao discurso subjacente entre a maioria das manifestações deste tipo, porém, percebe-se uma grande incompreensão média acerca do que seja tal política, e em muitos casos identifica-se apenas uma vaga intenção de combater a violência com ainda maior violência, chegando ao ponto de defenderem ações truculentas francamente ilegais e mesmo criminosas por parte da população e dos agentes do Estado, revelando um espírito tão ou mais belicoso, anti-social e pernicioso que o daqueles a quem supostamente desejam combater.

Este artigo vem esclarecer o que é e o que não é uma Política de Tolerância Zero Contra o Crime, quais seus fundamentos históricos e teóricos, quais as ações que caracterizam uma aplicação coerente de tal filosofia e que benefícios se pode esperar desta aplicação.

O que a Política de Tolerância Zero não é:

A Política de Tolerância Zero Contra o Crime não é uma política de tapar o sol com a peneira em relação aos ilícitos cometidos pelas polícias durante o combate ao crime. Muito antes pelo contrário, é pressuposto de sua implantação a estrita legalidade dos atos policiais e o absoluto respeito ao Estado Democrático de Direito.

A Política de Tolerância Zero Contra o Crime não é uma proposta de tornar a polícia mais audaz, agressiva ou invasiva. Muito antes pelo contrário, é pressuposto de sua implantação a valorização do agente policial como representante de um Estado pacífico e mantenedor da ordem e da harmonia social em benefício de todos os seus cidadãos.

A Política de Tolerância Zero Contra o Crime não é baseada em qualquer forma de violência. Muito antes pelo contrário, é pressuposto de sua implantação que haja um grande desejo social de repelir a violência em todas as suas formas e manifestações, reconhecendo que não é possível mascarar a truculência nos calabouços do Estado com qualquer tipo de cosmética social.

Para deixar bem claro, a Política de Tolerância Zero Contra o Crime não é sequer uma política de enfrentamento direto do crime.

Bem, então o que é a Política de Tolerância Zero?

A Política de Tolerância Zero é uma estratégia indireta de combate ao crime, baseada na Teoria das Janelas Quebradas. É uma estratégia de manutenção da ordem pública, da segurança dos espaços de convivência social e da adequada prevenção de fatores criminógenos.

A Política de Tolerância Zero Contra o Crime inicia pela tomada de consciência do Estado da necessidade de primeiro cumprir seus deveres legais para com a população, oferecendo-lhe condições adequadas de desenvolvimento psicossocial e acesso aos serviçoes do Estado, depurando suas fileiras da corrupção e da venalidade, reconquistando a confiança da população e estabelecendo com ela a aliança que desde sempre deveria haver entre o Estado e seus cidadãos.

E o que é a Teoria das Janelas Quebradas?

A Teoria das Janelas Quebradas é o fundamento psicossociológico que estabelece uma ligação entre o grau de manutenção de ordem social e a vulnerabilidade do sistema social a uma escalada criminal.

O nome “Teoria das Janelas Quebradas” trata-se da alcunha com que ficou conhecido um estudo publicado em 1982 pelo cientista político James Q. Wilson e o psicólogo criminologista George Kelling na revista Atlantic Monthly, intitulado “The Police and Neiborghood Safety” (A Polícia e a Segurança da Comunidade). O estudo usava a imagem de janelas quebradas e não consertadas para explicar a lógica de decadência social que levava à infiltração da criminalidade em um ambiente até então saudável.

Descrição da Teoria das Janelas Quebradas

Imagine um bairro residencial de classe média, com casas com gramados bem cuidados, ruas limpas, ajardinadas e bem iluminadas. Este é um ambiente onde há percepção de ordem e sensação de segurança. Os imóveis residenciais e comerciais são valorizados, e o bairro é considerado um bom local para morar ou para instalar uma pequena atividade comercial, como uma loja, uma padaria ou o escritório de um profissional liberal.

Imagine agora que alguém jogue uma pedra na janela de uma casa e a quebre. Duas coisas podem acontecer:

1) Se o vidro quebrado for logo substituído, nenhum indício de desordem social permanece. O ambiente permanece saudável, e nenhum estímulo à desordem se insinua. Isso não quer dizer que o nível de desordem seja nulo, mas que existe investimento na manutenção de um ambiente saudável. Provavelmente existe também vigilância contra a desordem. A mensagem transmitida é: nós cuidamos do ambiente onde vivemos.

2) Se o vidro quebrado não for substituído, um indício claro de desordem social permanece. O ambiente foi violado e ninguém corrigiu o problema, e o estímulo à desordem surge. Isso não quer dizer que não existe interesse na ordem, mas que não há investimento nem esforço para manter o ambiente saudável. Provavelmente também não existe vigilância contra a desordem. A mensagem transmitida é: este ambiente é vulnerável.

Ora, se um ambiente passa a mensagem de ser bem cuidado e o outro de ser vulnerável, onde há de ocorrer preferencialmente a próxima ação desordeira?

Conseqüências da Teoria das Janelas Quebradas

Uma janela quebrada não foi substituída. O sinal de vulnerabilidade à desordem foi dado. O próximo passo é um teste: outras janelas serão quebradas para ver se ninguém toma uma providência. Logo o prédio inicialmente atingido se encontrará com a maioria das janelas quebradas, e o sinal se tornará claro a todos que passarem em frente daquele prédio: este ambiente está se degradando, está se degenerando, está vulnerável.

As conseqüências são bastante impactantes: os imóveis começam a se desvalorizar. Casas são colocada à venda, tentando ainda pegar um bom preço pelo imóvel, e algumas ficam longos períodos sem ocupação. Novas janelas são quebradas e não são substituídas, e gramados deixam de ser aparados, indicando abandono do local. Eventualmente um imóvel é invadido, e o invasor obviamente não cuida do que não é seu. O ambiente começa a ficar com um aspecto sujo, cada vez pior.

Famílias e pessoas ordeiras começam a se mudar daquele ambiente, e desocupados e desordeiros começam a se mudar para aquele ambiente. Os comerciantes começam a ter menos lucro e cessam suas atividades ou tentam passar o ponto. Comércio de boa qualidade sai e entra comércio de quinquilharias e bares de quinta categoria. Uma boca-de-fumo se instala. O índice de furtos sobe nas imediações.

O Poder Público deixa de substituir luminárias quebradas. O lixo começa a se acumular nas ruas e o pavimento não é mais recuperado com a mesma freqüência do pavimento em outros bairros. Eventualmente uma via é bloqueada para reduzir o acesso da polícia ao local. Água e luz passam a ser ligadas clandestinamente. O local passa a ser conhecido como “barra-pesada”.

Todo um ciclo de desordem levando a mais desordem se estabelece, em uma espiral de degradação e degeneração do sistema social. No princípio ocorre uma substituição de moradores, mas em seguida o ambiente degenerado passa a produzir crianças que nascem e crescem nestas condições. A situação se agrava continuamente e nunca se resolve sozinha.

Como recuperar um ambiente assim degradado?

É neste ponto que se insere a chamada Política de Tolerância Zero, que recupera em primeiro lugar a ação do Estado sobre o Estado, depois a ação do Estado sobre o ambiente, e finalmente reconquista a colaboração da população para a proteção do ambiente comum.

O melhor modo de ilustrar estes três tipo de ações é apresentar o exemplo mais conhecido, iniciado na cidade de New York quando Rudolph Giuliani ainda não era prefeito. O prefeito de NY na ocasião era David Dinkins, e Rudolph Giuliani seria seu sucessor.

A situação em NY era crítica: os sem-teto ocupavam espaços públicos como praças, parques e o metrô, faziam suas necessidades fisiológicas nas calçadas e mendigavam agressivamente, eventualmente até com ameaças; pichações tomavam conta da paisagem urbana; gangues de desordeiros proliferavam livremente e tomavam conta de territórios.

O ponto de estrangulamento do sistema era o metrô, necessário para o transporte de três milhões de pessoas por dia e tornado um ambiente imundo, incivilizado e perigoso, dominado por gangues, onde ocorriam assaltos e tráfico de drogas.

Kelling, um dos autores do estudo anteriormente citado, e William Bratton, um policial de brilhante carreira em Boston, foram contratados para estudar e resolver o problema.

A maior dificuldade, e a primeira que teve que ser resolvida, foi convencer os policiais de que algo deveria ser feito, e que este algo não era combater o crime com mais violência, nem promover ações isoladas tais como grandes investigações para desbaratar quadrilhas, e muito menos propor aumento de penas e tratamento mais rigoroso para os infratores, mas simplesmente recuperar a polícia por dentro e torná-la novamente uma instituição promotora de segurança e harmonia social. Somente após vencida esta dificuldade é que foi possível aplicar a Teoria das Janelas Quebradas em NY.

Consertando a primeira Janela Quebrada em NY

O prejuízo para a cidade de NY apenas em passagens de metrô não pagas estava calculado na ordem de US$ 80,000,000.00 anuais. Bratton decidiu atacar em primeiro lugar esta janela quebrada, e passou a colocar policiais à paisana junto às catracas no metrô. Quando um grupo pulava as catracas sem pagar, a qualquer hora do dia ou da noite, todos recebiam imediatamente voz de prisão, eram conduzidos à delegacia, identificados, revistados, fichados, intimados a retornar para depor e então liberados, a menos que alguém já estivesse sendo procurado, o que se verificou ser o caso em muitas ocasiões.

Saltar a catraca sem pagamento não era motivo suficiente para manter alguém detido, mas desobedecer à intimação para depor sim. Portanto, caso alguém não cumprisse a ordem para prestar depoimento, em uma segunda detenção poderia já permanecer preso.

A população que ainda pagava as passagens começou a aplaudir quando acontecia cada um destes episódios de detenção em massa. Começou a haver a percepção de que estava valendo a pena agir dentro da lei, afinal a polícia estava agindo de acordo com a lei e garantindo o cumprimento da lei. Sem que tenha havido aumento da violência, o número de pessoas que passavam sem pagar diminuiu rápida e drasticamente.

Interessantemente, e de acordo com a Teoria das Janelas Quebradas, uma quantidade significativa dos detidos por pular catracas estava portando armas e drogas, ou estava sendo procurado por crimes anteriores.

Em pouco tempo ficou claro que estavam circulando menos armas ilegais e menos drogas, ocorrendo menos assaltos e menos homicídios, e tudo isso em função de haver uma nova visão no comando da polícia, focando suas energias mais em promover o cumprimento da lei do que em combater o crime após sua ocorrência.

Os resultados e a ampliação do programa

O sucesso desta primeira iniciativa fundamentada na Teoria das Janelas Quebradas levou à recuperação do metrô de NY para os cidadãos e fez com que Rudolph Giuliani, eleito em 1993, nomeasse Bratton para a chefia do Departamento de Polícia.

Bratton mantinha a convicção de que o policial deve ser um exemplo para a comunidade e trabalhar em parceria e colaboração com a população. Ele reestruturou o Departamento de Polícia de NY: policiais corruptos perderam seus empregos e foram presos, criando a possibilidade de ampliar a aplicação do programa anti-janelas quebradas a toda a cidade.

A primeira janela quebrada a ser consertada neste novo momento foi a eliminação da extorsão de motoristas nas sinaleiras por infratores que exigiam dinheiro após limparem os pára-brisas dos automóveis sem serem solicitados nem autorizados a fazê-lo. Novamente eram expedidas intimações para depor que, se não cumpridas, resultavam em prisões no caso de uma segunda detenção. A certeza da punição eliminou em poucas semanas um problema que perdurava há anos.

A manutenção da lei, da ordem e da harmonia provou ser responsável pela identificação de criminosos procurados e pela evitação de muitos outros crimes: um indivíduo foi preso por urinar em um parque e no interrogatório revelou a localização de um esconderijo de armas ilegais; um motoqueiro detido por estar sem capacete portava armas; um camelô detido com mercadoria suspeita revelou o paradeiro de um receptador.

A experiência em NY demonstrou que em inúmeros casos o indivíduo que não se importa de cometer um pequeno ilícito pode estar ligado a ilícitos bem maiores. E, nos casos em que não está ligado a ilícitos maiores, a alta chance de ser pego e de ter que responder por um pequeno ilícito (mesmo que tenha apenas que prestar um simples depoimento) é bastante eficaz na prevenção de novos delitos. Mas, mais importante que tudo, mostrou que se o Estado cumprir sua parte, cumprir a lei e fazer cumpri-la, receberá o apoio da população para manter a legalidade.

Conclusão:

São três os pressupostos básicos da Teoria das Janelas Quebradas e da conseqüente aplicação de uma Política de Tolerância Zero:

1) Reformulação da estrutura e do funcionamento das instituições do Estado, tornando-as modelares para a prestação dos serviços a que se destinam, ou seja, aplicação do princípio da Tolerância Zero em primeiro lugar às instituições do Estado.

2) Atuação das instituições e dos agentes do Estado rigorosamente dentro da lei e focados nas necessidades reais das comunidades, promovendo benefícios ao invés de apenas procurar punir o mal já ocorrido.

3) Reconquista da confiança da população através de resultados visíveis e significativos, promovendo maior interação e a formação de parcerias entre o Estado e seus cidadãos.

Embora existam críticas à aplicação da Teoria das Janelas Quebradas e da Política de Tolerância Zero em função de este tipo de ação recair principalmente sobre populações pobres e minorias raciais, é fato que seu verdadeiro foco não são grupos específicos, mas condutas específicas, e que a radicalidade da aplicação do primeiro preceito – a aplicação do princípio de Tolerância Zero em primeiro lugar em relação às instituições do Estado – promove condições não apenas para o combate à corrupção e à criminalidade mas também para o desenvolvimento de instituições mais sadias e com melhores condições de prestar os serviços que devem à população.

As instituições policiais em especial se vêem obrigadas a assumir um novo paradigma, de trabalhar em conjunto com a população para promover a ordem, tendo os agentes policiais a obrigação de comportarem-se como cidadãos-modelo. Não é um mau negócio para ninguém, e não é pedir demais: aqueles que não se considerarem em condições de agir de modo exemplar não deveriam mesmo ser agentes do Estado.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 31/08/2010

33 comments to Tolerância Zero e a Teoria das Janelas Quebradas

  • [...] This post was mentioned on Twitter by Arthur Golgo Lucas, Arthur Golgo Lucas. Arthur Golgo Lucas said: Tolerância Zero e a Teoria das Janelas Quebradas http://bit.ly/bHeyle [...]

  • “Reformulação da estrutura e do funcionamento das instituições do Estado, tornando-as modelares para a prestação dos serviços a que se destinam, ou seja, aplicação do princípio da Tolerância Zero em primeiro lugar às instituições do Estado.” Não é uma crítica! Li e achei interessante a argumentação e os exemplos, mas o controlcê-controlvê da sua frase me reporta à reunião dos ratos para decidir quem ia pendurar a sineta no rabo do gato. “Pior do que tá não fica, vote em tiririca” como sucesso eleitoral é a prova de que muita água tem que rolar pra lavar esta merda. Hoje temos uma máquina pública que pensa assim: “vamos trocar todas as vidraças quebradas – será uma ótima oportunidade para um superfaturamento e um desvio a mais.” Hoje temos um povo que acha tudo isto normal. Quebra a vidraça. Reclama que está quebrada. E se surgir uma boquinha no processo quer roubar também. Parece que a sineta a ser pendurada está na “Reformulação da estrutura e do funcionamento das instituições do Estado.” Dizem que as rosas mais perfumadas nascem na terra melhor estercada. Por enquanto devemos estar na etapa do preparo da terra pois eu inspiro e só sinto o cheiro de bosta. Por falar em “tolerância zero” eu tremo só de pensar nestas duas palavrinhas colocadas entre as orelhas de alguns policiais brasileiros. Você vai encontrar indivíduos em cujas cabeças elas não caberão… Em tese sou “Tolerância Zero e a Teoria das Janelas Quebradas Futebol Clube”, mas a minha opinião não vale nada. Aliás não podemos esquecer que o Rhio (com sotaque gutural) não é uma Nuiorque.

    • Romacof, nas trevas culturais em que estamos imersos, nosso primeiro dever é acender algumas velas para ajudar alguns poucos a superar o terrível Efeito Dunning-Kruger, sensível nos debates que vemos sobre quase tudo que nos cerca, pelo menos até formar uma massa crítica capaz de se reproduzir autonomamente. Depois há que se começar a consertar janelas aqui e ali, a partir dos focos onde se concentrarem as primeiras massas críticas. Então o bonde anda sozinho.

      Só falta combinar com o adversário. :-P

  • Manga-Larga

    Muito legal e realmente funcional a Broken-Window Theory. Recentemente utilizamos tal teoria para embasar a criação de processos que controlassem a entropia dos softwares que produzimos.

    O princípio é o mesmo: uma janela quebrada (código porco, não afeito a boas práticas) deve ser rapidamente corrigido ou ao menos sinalizado (estou sabendo desse problema e já já volto para arrumar).

    Mas parece que o Efeito Dunning-Kruger foi mais forte e levou-os a concluir que suas janelas quebradas estavam inteiras!

    • Pelo tanto de policiais que eu sei que lêem meu blog (alguns na vã esperança que eu cruze a linha entre o debate saudável e a apologética), pensei que esse artigo seria mais comentado.

      Pegaste bem a idéia da coisa: bloquear a entropia antes que ela atinja massa crítica que comprometa a estrutura e o funcionamento do sistema.

      Eu devia ter aprendido isso e aplicado à organização do meu quarto antes que ele se tornasse um exemplo irrefutável da Teoria do Caos…

  • Lya

    O que tenho visto vai muito além de uma simples janela quebrada.
    É uma porta aberta por falta de fechadura:a educação
    familiar.
    Tudo começa na família.
    Um soldado e um criminoso foram educados por alguém.
    Que tipo de educação tiveram?
    O que chamo de educação é o respeito que se aprende a ter pelos outros…..e pelas coisas que são nossas.
    Como posso cuidar de algo que não é meu,se não aprendi a cuidar do é meu?
    Como posso ser educado na escola,na rua, no trabalho…..se não consigo ser educado dentro da minha casa?
    Crianças e adolescentes estão abandonados……e que coisa triste é esse abandono.
    Nosso futuro está nas mãos desses destruidores de vidraças,rs.

  • Caro Arthur! Acho que vale a pena alongar este tema (embora ultimamente você tenha demonstrado uma certa preferência pelo crack… como tema). Já que veio a tona o efeito observado por Dunning e Kruger, e “janelas quebradas” e “tolerância zero” são aspectos políticos do nosso principal problema (que acredito ser a educação), pergunto (não como debochado, pois não nego minha natureza): se passadas as eleições você perguntar na rua para alguém: “Diga, verbalize, uma frase que sintetize a última campanha eleitoral.” Não estranhe se ouvir algo do tipo: “Titica por titica vote no Tiririca, ou era algo meio assim, não era?” Esta é a síntese. Pois merda bóia. Continuando: A dupla D-K avaliaria o Tiririca e o colocaria em que ponta de uma curva de Gauss? Ele é o sem noção que se acha, ou ele é o palhaço-profissional que disse: “Vou botar minha mão neste bolo,” quando percebeu o nicho do voto-protesto? Temos a mulher melão, ou será pêra? Sempre confundo as frutas. E temos um Piva que concorre ao Senado e quer fechá-lo (a meu ver o único certo no meio da loucura geral). A pergunta que permanece é: Como criar uma massa crítica com elementos deste quilate? Certamente não é neste meio político que a “aplicação do princípio da Tolerância Zero (poderá ser aplicado) em primeiro lugar (nas) instituições do Estado.” Volto à afirmar, sem trollar, que gostaria muito de ouvir a planificação de uma arquitetura revolucionária que nos leve a algo semelhante ao “Sistema” aventado por Pongo. A lógica supra-humana como elemento consciencial. O poder que está no que é certo pela simples razão de que é certo.

    • O crack é um assunto pesado, mas é o principal assunto de saúde, segurança pública e política institucional da atualidade, do qual depende o futuro da situação de violência e corrupção do país, não tenho como não abordá-lo.

      A formação de uma massa crítica de protagonistas políticos pode acontecer de dois modos: por aglutinação ou por multiplicação. O ideal é fazer primeiro uma coisa e depois a outra.

      Eu estou pensando e repensando aquela idéia de que te falei quando te visitei, mas ela ainda está em um estágio muito insipiente de maturação. Ainda não há condições de debater aquilo em público.

      Vou viajar nos próximos dias e passarei pela tua cidade, vamos conversar de novo a respeito. Em breve te ligarei para marcar a data. ;-)

  • gustavo

    o metrô do rio é um belo exemplo da aplicação da teoria. É muito mais limpo que as ruas da cidade, pois tem sempre alguém limpando, tem funcionários para orientar as pessoas, etc. Se o indivíduo olha o chão e não vê sujeira, então fica até constrangido de jogar algo, ou cuspir, etc.

    Note que não estou falando da qualidade do serviço, que tem muito a melhorar, mas apenas comparando a questão da limpeza.

    • Quando o próprio funcionário da empresa alerta a hierarquia que os passageiros estão descontentes devido aos horários pouco confiáveis ou à superlotação dos serviçoes de transporte – e a hierarquia da empresa premia esse funcionário pelo alerta e procura investir na qualidade dos serviços – é que passamos ao nível de “país desenvolvido” no qual a pequena falha é corrigida para evitar que se torne uma grande falha ao invés de ser ignorada até que não haja outra opção.

  • Manga-Larga

    Foi bem isso que eu notei quando estive na Holanda, Gustavo: com um lixeiro a cada 100 metros e serviços de limpeza que realmente funcionam, a pessoa fica até constrangida de jogar lixo no chão. Aliás, algo que muito me impressionou lá foi ver alguns BRASILEIROS se comportando como gente civilizada e mais tarde, os mesmos brasileiros, ao desembarcarem no Brasil, voltarem a primitividade!

    • Esse é um dos pontos que fala a favor da Teoria das Janelas Quebradas. Fica assim demonstrado que, mesmo que o indivíduo ainda não tenha interiorizado os valores necessários para manter um ambiente saudável (o que demora algum tempo pra acontecer), investir para manter o ambiente saudável acaba gerando resultados positivos na mudança do comportamento do indivíduo.

  • Leandro

    Tolerância Zero e a Teoria das Janelas Quebradas
    …………
    Sou completamente a favor desse modelo, mas com a atual justiça brasileira onde pessoas que cometem 25 homicídios ficam soltas é impossível tal coisa. A primeira coisa é concertar o proprio sistema pra depois concertar a sociedade.

  • Manga-Larga

    Leandro, a primeira coisa que se deve corrigir quando se aplica a teoria da janela quebrada é justamente o sistema, pois verificou-se que quando os agentes do sistema se comportam de maneira exemplar, os cidadãos também se comportam dessa maneira.

    Está escrito no texto do Arthur e reforçado no meu comentário acima.

  • Bem…agora me explique como será feito, se estamos no país que segue rumo à liberal-democracia (sic) onde o estado é cada vez mais omisso. Os serviços públicos tem, na mente da maioria da população classe média um teor de ‘coisa para pobre’ – escola, saúde, segurança. Não há senso de coletividade. Os condomínios, que vai nas assembléias? ‘Eu paguei para não me aborrecer’, é o ‘motto’ reinante. Blair quando primeiro-ministro colocava seus filhos na escola pública, aqui foram os pobres adentrarem numa ‘pseudo-escola de educação básica universal’(a LDB enrola e não afirma que o ensino médio é universal e obrigatório…) para a ‘classe média paguei e quero sossego’ dar o fora. É duro, é duro.

  • Como o estado agiria e colocaria em prática esta teoria das janelas quebradas, sendo que estamos num estado cada vez mais enxuto, e nossa formação política não sabe distinguir ‘governo’ de ‘estado’.

  • Joaquim Salles

    Lembra o que é feito desde o inicio no metro de São Paulo contra pichação e sujeira. Desde seu inicio, qualquer carro grafitado, sujo, emporcalhado é retirado para limpeza. Existem pessoas limpando constantemente os carros e as plataformas. O efeito é mais psicológico do que realmente limpar. Mostra que existe alguém se preocupando com a limpeza. Lembro de um professor na faculdade – isso de 80 a 82 – explicando isso era aplicado no metro.

    Bom artigo, parabéns.

    Abraços

    • Hmmm… esse efeito psicológico de ver alguém tentando resolver o problema pode ter o efeito positivo de mostrar cuidado e pode ter o efeito negativo de mostrar que o cuidado não é eficaz. Não sei qual dos dois efeitos é mais intenso, seria necessário um estudo específico…

  • Joaquim Salles

    No caso o aspecto negativo não é notado pelas pessoas. Isso acontece desde a fundação do Metro de São Paulo. Essa, segundo o meu professor na época, foi um experiencia que vei de fora. Por muitos anos fui usuário do metro, inclusive morava perto de uma estação terminal. Coisa quebrada, suja, grafitada era rapidamente tirado de circulação. A limpeza eficaz é feitas fora das estações. O pessoal da faxina que circula durante o dia acaba funcionado como exemplo que estão cuidando, afinal não para esse pessoal remover facilmente um grafite ou consertar um banco quebrado, contudo um chão sujo é limpo rapidamente. É como o policial fardado na esquina: mostra que esta lá e só pela sua simples presença acaba inibindo o crime.

    • Pode até ser, mas confesso que fiquei encucado… um ambiente degradado com alguém cuidando… sinceramente, acho que eu teria que circular nele para ver que impressão me causa.

  • Joaquim Salles

    Oi Arthur,

    Acho que não fui claro: evitam ao máximo deixar o ambiente degradado, e se algo acontece, tentam rapidamente restaurar o mesmo. O simples fato de ver alguém limpando ou consertando a janela já muda a atitude “psicológica” da maioria das pessoas. E fizeram isso desde o inicio para não criar o habito nas pessoas de estragar ou ficar na memoria dela que já “teve sujo”. Se não estou enganado isso aconteceu em NY. A pessoas ficaram com a lembrança que o metro era sujo e demorou muito tempo para quebrar essa lembrança. Um exemplo disso? Que fica na memoria? Até hoje muita gente tem preconceito contra a Fiat por causa do Fiat 147. Abraços

    • Ah, agora entendi. Eu estava pensando (indução devida a morar no Brasil, suponho) no velho esquema do “a gente finge que está tentando fazer alguma coisa e vocês fingem que acreditam nisso”. Mas se existe um esforço nítido para recuperar o ambiente degradado, então é realmente esperável que isso conquiste a colaboração de boa parte da população.

      Este é um exemplo de como trabalhar segundo os moldes da Teoria das Janelas Quebradas sem adotar uma Política de Tolerância Zero. Bom exemplo para mostrar para quem acha que é tudo a mesma coisa que são coisas distintas.

  • Luis Carlos

    Muito boa a postagem. Estou fazendo o trabalho de conclusão de curso sobre o Princípio da Insignificância no direito penal e penso que o contraponto ao princípio seria a teoria das janelas quebradas.

  • Fernanda

    Gostaria de fazer meu TCC sobre este tema (Teoria das Janelas Quebradas – Tolerância Zero), porém quero ligá-lo à educação. Penso que seria interessante desde a entrada do adolescente e mesmo da criança na escola, lhe fossem mostrados seus direitos e seus deveres, e em caso do não cumprimento dos mesmos lhe fossem impostas sanções mais rígidas do que as que comumente presencio (sou professora do ensino Fundamental e Médio)

    • Troca “rígidas” por “adequadas” e eu assino embaixo. Qualquer sanção deve ser proporcional ao delito cometido. Essa adequação deve ser endossada pela percepção de época.

      Tanto dizer “menininho malvadinho” quanto amputar a mão do fedelho que espetou um lápis nas costas do coleguinha são punições inadequadas. Entre estes extremos, deve haver uma faixa de opções que seja a mais didática e edificante, que reduza ao máximo a probabilidade de que a má ação seja repetida, não por medo da punição, mas pela compreensão e valorização do motivo pelo qual a ação é considerada má.

      Existe a punição que serve para ensinar o indivíduo punido que ele agiu de modo inadequado. E existe a punição que serve para mostrar para os outros o que acontece com quem age de modo inadequado. O ideal ao definir a punição para qualquer ato inadequado, em qualquer situação, é avaliar cada punição estabelecida sob ambos os prismas, com muito cuidado.

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