Desde minha infância eu sempre fiquei pasmo com a possibilidade de mentir usando a lógica. Afinal, falácias e sofismas são facilmente detectados justamente por trazerem tatuados na testa o aviso “estou mentindo”, certo? Errado. O Homo sapiens tem grande potencial intelectual, mas cai em armadilhas argumentativas dignas de fazer corar um Pongo pygmaeus

Vamos aos exemplos, que eles são divertidos!

“Embora as drogas sejam uma das principais fontes de renda do crime organizado, a descriminalização da maconha não deve enfraquecer facções criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital), de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro.” É o que diz Bo Mathiasen, representante da UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes), da ONU (Organização das Nações Unidas). (…)

“O crime organizado não existe em função da maconha. […] Legalizar a maconha não vai trazer impacto nenhum sobre as facções criminosas.”

Acho (uma graça) tragicômico como tantas pessoas engolem fácil uma besteira deste tamanho só porque foi dita por uma figura de autoridade.

Se os produtos X, Y e Z são as principais fontes de renda da Companhia W, é lógico que a Companhia W “não existe em função do produto X”, pois ela também aufere lucros pela venda dos produtos Y e Z. Porém, dado que o produto X é uma das principais fontes de renda da Companhia W, é óbvio que qualquer medida que impacte a venda do produto X vai impactar os lucros da Companhia W.

Eu entendo que um Pan troglodytes não alcance essa obviedade, mas como é que uma coisa tão simples pode ser ignorada negada por alguém inteligente e articulado o suficiente para conseguir se tornar representante da ONU? A lógica exige a seguinte conclusão: não pode. Com toda a certeza, esse cara não está defendendo o que ele diz que está defendendo. E, se ele não pode declarar abertamente o que é que está realmente defendendo, é porque boa coisa não é. 

Sem nem entrar no mérito de que tipo de falácia se trata, querem ver um truque vocabular básico para mostrar que existe uma falha no argumento? Basta substituir os elementos por outros que ocupem a mesma função sem entretanto serem contaminados pelo mesmo viés emocional:

“A imprensa não existe em função da calúnia, da injúria e da difamação. Legalizar a calúnia, a injúria e a difamação não vai trazer impacto nenhum sobre a imprensa.”

Será? 🙂

Outra das boas é esta:

“O homossexualismo é contrário às leis da natureza, portanto deve ser combatido.”

Ó, céus… será mesmo que esse pessoal não sabe que é impossível violar as leis da natureza? Tente violar a lei da gravidade. Tente violar a lei de Ohm. Tente violar a lei da ação e reação (a da física, não a picaretagem de “O Segredo”, claro).

Se um determinado fenômeno existe, então por definição ele não viola as leis da natureza. (Ou não poderia existir.) Basta pressionar um pouquinho e em geral rapidamente vem à tona que quem insiste em afirmar que a homossexualidade é “antinatural” na verdade está defendendo uma crença irracional e indemonstrável.

O que é (engraçado) tragicômico neste caso específico é que, se não a totalidade, certamente a maioria absoluta dos que partilham desta crença citam os Direitos Humanos para exigir respeito a declarações irracionais e indemonstráveis que desrespeitam abominavelmente os direitos e a dignidade de outros cidadãos. E não reconhecem falha lógica nenhuma em seu comportamento, é claro.

Enfim, eu poderia citar milhares de exemplos como estes, mas minha intuição me diz que os demais seriam ignorados na caixa de comentários em função destes dois. Não deixa de ser irônico que eu tenha certeza que, dependendo dos paraquedistas, em um artiguinho despretensioso sobre lógica (ou a falta dela nas declarações humanas) é bastante provável que nos comentários o mérito submerja perante a circunstância de ter usado temas polêmicos como exemplos…

Não é lógico?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 22/10/2010

14 thoughts on “Você sabe mentir distorcendo a lógica?

  1. Hehehe, quando eu li o parágrafo sobre a inviolabilidade das leis da natureza e a obviedade que é isso, automaticamente lembrei de um texto que escrevi quando discutia sobre a existência da vida na Terra com gente que acredita em deus, e ouvi que a entropia não permitiria a existência de vida na Terra, logo, deus existe e criou a vida.

    http://acimadedeus.blogspot.com/2008/06/entropia-no-crebro-de-um-idiota.html

    1. Falácia fácil de desmascarar. “Eu não sei como aconteceu, então Deus é que fez.”

  2. eu nunca ví um índio viado!

    1. Eu nunca vi enterro de anão.

  3. Roberto Tramarim

    30/10/2010 — 13:39

    Uma propaganda da Folha de São Paulo em 1988 dizia o seguinte: É possível contar uma grande mentira dizendo apenas verdades. Depende de como se coloca tais verdades a fim de manipular o interlocutor e levá-lo propositalmente a erro de interpretação.

    1. Eles estavam certos. É perfeitamente possível produzir uma conclusão falaciosa distorcendo apenas o modo de apresentar as informações.

      Este é o caso típico, por exemplo, das falácias do tipo post hoc ergo propter hoc: “drogado mata a mãe com trezentas facadas após fumar um baseado”.

      Não existe nenhuma relação causal que possa ser provada entre fumar um baseado e cometer uma violência, mas é isso que fica na cabeça de quem lê ou ouve isso.

      Mas por que ninguém diz assim: “glutão mata a mãe com trezentas facadas após comer uma churrascada”?

      A informação é a mesma: um adjetivo que descreve pejorativamente um indivíduo, um ato de violência e um evento de consumo de alguma coisa ligada ao adjetivo previamente apresentado.

      Mesmíssima lógica, mas nesse caso fica evidente a falta de ligação entre uma coisa e outra, enquanto que no outro caso ocorre um vínculo subjetivo devido à predisposição dos interlocutores em acreditar que exista a relação.

      Isso se chama SOFISMAR… e, quando acontece na imprensa, é particularmente devastador para o interesse público.

  4. Neilany Soares

    24/10/2012 — 20:56

    Pesquisando para elaboração de um trabalho, (que tem como tema falacias) adorei seu blog e não consigo mais parar de ler. Amei este artigo.

    1. Que bom que gostaste, Neilany. Continua por aqui! 😉

  5. Prezado,

    Pesquisando sobre falácias…
    Apaixonei-me pelo seu blog.
    Parabéns!

    1. Seja bem vinda! 🙂

  6. O cara abre um tópico para falar em distorção de raciocínio e o que faz se não distorcer a lógica?

    Afinal, o que a autoridade disse está absolutamente CORRETO.

    A maconha é apenas um produto comercializado pelo tráfico. Se este produto se tornar legal, o que tende a acontecer são duas coisas?

    1) Aumento do número de usuários de drogas (já que o Estado estaria transmitindo uma mensagem equivocada para o público em geral, como, aliás, os próprios discursos equivocados sobre legalização de drogas causam, elevando os índices de consumo, principalmente em países subdesenvolvidos, cuja população desdentada pensa ser o cúmulo do primeiro mundismo e “progressismo” consumir drogas, como o Brasil;

    2) Fortalecimento do consumo de outras substâncias ilícitas pelos consumidores atuais, uma vez que a maconha (embora seja uma droga alucinógena e, como tal, deva ser proibida, pois além de causar prejuízos não apenas do ponto de vista físico, mas da saúde MENTAL dos usuários, pode causar efeitos que colocam em risco a segurança física de terceiros) viraria mainstream e o que o típico imbecil que consome substâncias ilícitas com fins boçais mais quer é chamar a atenção, como, aliás, graças a estupidez da maioria dos políticos (que de drogas e psicologia de drogados parecem não entender nada, talvez até porque seja conveniente a seus interesses políticos), tem conseguido, uma vez que paternalizado pelo Estado, além de glamourizado por uma mídia igualmente incompetente.

    1. Ai, que tédio…

      0. Não, o que a “autoridade” disse não está correto. Isso já foi bem demonstrado no artigo, não tenho por que repetir a explicação.

      1. Todas as experiências de descriminalização e legalização no mundo mostram o contrário: os índices de consumo invariavelmente diminuem. Mas essa nem é a questão central, porque a questão central é a violação da autonomia do indivíduo.

      2. Nossa, isso parece o discurso raivoso típico do Mídia Sem Máscara. Tirando os adjetivos, o que sobra é uma simples análise errada. Primeiro, porque esse aumento não ocorre, como eu disse acima. Segundo, porque fazer mal a saúde não é critério para proibição, ou o Estado teria que te proibir de comer fast-food e de ser sedentária, o que significaria controlar tua comida e te obrigar a fazer exercícios. Terceiro, porque esse papo de usar drogas para chamar a atenção toma um exemplo extremamente minoritário como se fosse a regra, o que invalida qualquer conclusão tomada a partir desta premissa.

  7. Joaquim Salles

    11/08/2013 — 14:28

    Como hoje é dia dos pais, lembro de um falso silogismo que meu pai contava de gozação:

    Um cavalo tem quatro pernas . (verdade)

    Um mesa tem quatro pernas. (verdade)

    Logo um cavalo é uma mesa (tá pode colocar no plural, mas mesmo assim, esse tipo de falso silogismo é usual por ai…) 🙂

    Vc tem um links muito bons no seu menu a esquerda ( de quem olha) apontando para site que falam de falacias e silogismos…

    1. Boa essa “lógica” da identidade entre os quadrúpedes. 🙂

      Os links à esquerda estão ali há anos, pouca gente percebe ou se interessa em fuçar neles. Acho que vou simplificar um pouco aquela coluna, retirar uns links sobre outros assuntos e deixar somente esses e os blogs dos amigos.

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