Ontem foi votada na Califórnia a “proposição 19”, que propunha a legalização da maconha naquele estado. O resultado foi 3.906.895 votos para o “não” (53,8%) contra 3.359.776 votos para o “sim” (46,2%). Segue minha avaliação do episódio.

Em primeiro lugar, não entendo a surpresa de muitos ativistas. Entendo a decepção, obviamente, mas a rejeição da proposição 19 não foi nada surpreendente. Aliás, a única coisa surpreendente é que a margem da derrota tenha sido tão pequena, com quase três milhões e meio de votos favoráveis à legalização.

Considerando que o governo federal dos EUA promove a maior propaganda proibicionista do planeta, sustentada por bilhões de dólares em propaganda tendenciosa, manipuladora e exploradora de preconceitos absurdos, de puritanismo religioso e de muitas informações mentirosas, é incrível que tanta gente tenha votado a favor da proposição 19.

Em segundo lugar, vamos deixar claro que, ao contrário do que muitos estão dizendo, a rejeição da proposição 19 foi uma grande derrota dos ideais democráticos. Não se pode confundir “democracia” com “fazer a vontade da maioria”. Sem respeito às minorias, fazer a vontade da maioria se chama “ditadura da maioria”, e foi isso que aconteceu na Califórnia.

Se fizéssemos plebiscitos no Brasil para consultar o povo quanto à legalização da maconha e de outras drogas, do casamento gay, da pena de morte, da prevalência dos Direitos Humanos e outros temas da mais alta importância, haveria um terrível retrocesso em todas estas áreas. Só não estamos em condições muito piores, próximas à barbárie, porque a democracia é um regime hipócrita e enganador que não permite que a verdadeira vontade do povo seja feita. E, claro, porque a corrupção civilizada é mais lucrativa para os políticos e demais verdadeiros detentores do poder do que o inferno irracional que seria implantado se o povão ignorante, preconceituoso e bruto realmente exercesse algum poder significativo.

Em terceiro lugar, a rejeição da proposição 19 foi uma grande vitória do crime organizado. Se o estado da Califórnia tivesse condições de reprimir a produção, a distribuição e o consumo de maconha, já teria feito isso há  muito tempo. Manter a proibição equivale a manter um sistema que não funciona em função de delírios de moralismo puritano, de ilusões de capacidade de controlar o incontrolável e de descaso em relação às milhares de vidas que são destruídas não pela substância, mas pelo sistema legal e econômico proibicionista.

A produção continuará a mesma, a distribuição continuará a mesma, o consumo continuará o mesmo e nenhum controle efetivo será implantado, nenhum imposto será cobrado e nenhum cidadão será beneficiado exceto os traficantes, políticos corruptos, policiais corruptos, juízes corruptos, etc. O crime organizado vai continuar prosperando e a criminalidade em geral, a violência e a corrupção vão continuar crescendo.

O tamanho da estupidez

Fiquei pasmo com o modo como foram apresentados os argumentos pelo “sim” e pelo “não”. Eu não esperava que os argumentos pelo “sim” fossem tão diretos e lógicos e muito menos que os “argumentos” pelo “não” fossem apresentados de forma tão estúpida por seus próprios defensores, pois cada lado redige seus próprios argumentos.

PRO
COMMON SENSE CONTROL OF MARIJUANA. Stops wasting taxpayer dollars on failed marijuana prohibition. Controls and taxes marijuana like alcohol. Makes marijuana available only to adults. Adds criminal penalties for giving it to anyone under 21. Weakens drug cartels. Enforces road and workplace safety. Generates billions in revenue. Saves taxpayers money.

CONT.
Opposed by Mothers Agains Drunk Driving (MADD) because allows drivers to smoke marijuana until the moment they climb behind the wheel. Endangers public safety. Jeopardizes $9,400,000,000.00 in school funding, billions in federal contracts, thousands of jobs. Opposed by California’s Sheriffs, Police Chiefs, Firefighters and District Attorneys. Vote “No” on 19.

Traduzindo:

PRO
Controle da maconha com bom senso. Fim do desperdício do dinheiro do contribuinte com a proibição falida da maconha. Controle e taxação da maconha do mesmo modo que do álcool. Tornar a maconha disponível somente para adultos. Acrescentar penalidades criminais pelo oferecimento de maconha a qualquer menor de 21 anos. Enfraquecer os cartéis de drogas. Fortalecer a segurança das estradas e dos locais de trabalho. Gerar bilhões de dólares em renda. Economizar o dinheiro do contribuinte.

CONTRA
As “Mães Contra Dirigir Bêbado” são contra porque os motoristas poderiam fumar maconha antes de dirigir. Põe em perigo a segurança pública. Põe em perigo 9,4 bilhões de dólares em financiamento de escolas, bilhões em contratos federais, milhares de empregos. O Sherife da Califórnia, os chefes de polícia, os bombeiros e os procuradores de justiça distritais são contra. Vote “não” na proposição 19.

Enquanto a exposição dos argumentos pelo “sim” clama pelo bom senso, a chamada pelo “não” apela para a autoridade moral da mamãe e da polícia.

Enquanto o “sim” informa que a medida vai enfraquecer os cartéis de drogas, o “não” omite qualquer referência à existência de tráfico sob a proibição.

Enquanto o “sim” informa a óbvia geração de renda e de impostos, o “não” apenas contradiz essa informação sem qualquer justificativa razoável.

Enquanto o “sim” diz claramente que a proibição falhou, o “não” divulga a opinião de profissionais que lucram com a proibição como se fossem parâmetro confiável.

E mesmo assim o “não” venceu.

Conclusão

Ô povo burro!

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/11/2010

67 thoughts on “A queda da proposição 19 na Califórnia

  1. Bom…..como fui EU que falei sobre o que NÃO deveria falar e como fui EU
    quem desvirtuou o assunto…te peço desculpas.

    O espaço é teu,tens todo o direito de escolheres o assunto,rs.

    Ainda mais QUANDO TODOS SABEM…….que homens são de MARTE e mulheres são de VENUS,rs.

    1. Eeeeeeei… sem grilo, venusiana! 🙂

  2. Ou… Com Dorival como técnico, o Galo não será rebaixado. (^^)

    falando sério. Depois de muito me posicionar contra a legalização das drogas, hoje em dia sou a favor, principalmente depois da proposição XIX da Califórnia. Acho uma pena que não tenha passado.

    É um puta medo de sair do status quo.

    1. Exato.

      Até parece que votar “não” na Proposição 19 alteraria a realidade de produção, comércio e consumo já instalada na Califórnia…

  3. Enquanto isso, no Canadá, querem que cana não mais dê…
    http://stopthedrugwar.org/chronicle/2011/nov/25/vancouver_mayors_say_legalize_ma

    1. “Marijuana prohibition is — without question — a failed policy,” the former mayors wrote. “It is creating violent, gang-related crime in our communities and fear among our citizens, and adding financial costs for all levels of government at a time when we can least afford them. Politicians cannot ignore the status quo any longer; they must develop and deliver alternative marijuana policies that avoid the social and criminal harms that stem directly from cannabis prohibition.”

      Todos estes argumentos estão corretos.

      O que me incomoda é que não tem quase ninguém levantando a bandeira de que as drogas devem ser legalizadas pelo simples fato de que jamais deveriam ter sido proibidas, uma vez que se trata de uma opção moral sobre a qual os Estados não devem ter qualquer poder de intervenção exceto aquele que justifica sua existência: regular as relações sociais e econômicas em busca da harmonia, da garantia da maior liberdade possível e da justiça.

      Não podemos aplicar uma ética utilitarista ao Estado, uma vez que isso significa (abrir) escancarar as portas para o fascismo! (Até eu já estou de saco cheio de usar essa palavra, mas o que posso fazer se é exatamente a palavra adequada e necessária?)

  4. Será que isto é verdade?
    https://fbcdn-sphotos-f-a.akamaihd.net/hphotos-ak-frc3/1239439_10150335442834949_371540636_n.jpg
    Parece que a ideia do veneno é, mas não achei sobre as mortes.

  5. Mudanças?
    http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/maconha-comeca-a-ser-vendida-em-lojas-no-colorado

    [Começa venda de maconha para uso recreativo nos EUA
    Primeiras lojas abriram hoje no Colorado. Autoridades esperam que o negócio movimente 578 milhões de dólares por ano e arrecade 67 milhões em tributos

    Comerciantes do Colorado abriram nesta quarta-feira os primeiros estabelecimentos autorizados a vender maconha para uso recreacional nos Estados Unidos. O consumo da droga com esse objetivo foi aprovado em referendo estadual em novembro de 2012. Também foi autorizado o plantio da cannabis sativa. Outro estado que também liberou a comercialização do entorpecente para lazer foi Washington, mas a medida ainda não foi regulamentada. O uso da maconha para fins medicinal é permitida em outras dezenove unidades federativas…]

    1. Prevejo um súbito crescimento populacional no Colorado. 🙂

    2. Tá se institucionalizando:
      http://www.denverpost.com/ci_22558182/thc-university-denver-holds-first-class-how-grow-marijuana

      Será que teremos provadores como temos com o café? Sommeliers?

    3. Com o tempo, sim.

      No início qualquer porcariazinha pura será saudada como a melhor erva do mundo, devido à péssima qualidade do produto nacional.

      Com o tempo o pessoal vai aprender que terra com bosta de vaca não é maconha e vai começar a selecionar melhor as variedades.

      Aí até curso universitário de cannabinologia nós vamos ver surgir, porque a cultura de picaretagem no Brasil vai longe.

    4. 🙁

      É verdade, aqui é o Brasil. Imagino quanto será o imposto sindical do Sindicato dos Maconheiros e quanto irá cobrar o CRMA! Vão arrancar o couro!

      Assistiremos à organização de movimentos sociais? MSM? CUFM? PFMA?

    5. Conselho Regional de Maconharia? 😛 Com um pouco de sorte a Maçonaria entra na justiça exigindo respeito à marca (os nomes não podem ser tão semelhantes que se confundam). 😉

      Vamos ver se eu saquei os outros…

      Movimento Sem Maconha.

      Central Única dos Fumantes de Maconha.

      Partido dos Fumantes de Maconha?

      Em Porto Alegre havia uma instituição chamada FFFCMPA – Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre. O critério de ingresso era um teste de QI: quem conseguisse memorizar a sigla entrava.

      Teremos agora a FFFCMaPA? 😛

    6. Caiu a ficha aqui: o critério de ingresso na FFFCMaPA não poderá ser memorização da sigla. 😉

    7. HAUAUAHUAHUAHUAHUHAUAHUHAUHAUH!!!!

    1. Agora a coisa vai andar direito, finalmente. Estava fazendo falta algum bilionário investir no setor. Quando estes caras entram em qualquer negócio, o fluxo do dinheiro muda o comportamento de muita gente.

      Advogados começam a estudar o assunto, a aperfeiçoar os argumentos com que apresentam as questões aos tribunais, a informar melhor os juízes, a defender candidatos aos parlamentos que defendem a causa, etc.

      Jornalistas começam a estudar melhor a questão, empresas de comunicação passam a pensar melhor no que dizem para não perder anúncios de outras companhias dos mesmos investidores e o público deixa de receber muita abobrinha.

      Gente como o Ronaldo Laranjeira perde espaço na mídia.

      Políticos diversos passam a defender a causa abertamente.

      Tudo funciona melhor quando um bilionário se interessa.

  6. É O FIM DA CIVILIZAÇÃO…

    1. Julio, não diz bobagem. Vai ler a opinião do pessoal do Instituto Mises a respeito, vai. 😉

    2. HUAHUAHUAHUHAUAHUHAUHAHA!!! Usar a força do adversário contra ele.

      Mas já que você tocou no assunto…
      http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1722

      Isso ilustra bem o conflito entre a direita conservadora e a liberal séria!

    3. C’est la vie… 🙂

  7. http://spotniks.com/como-legalizacao-da-maconha-colorado-esta-ajudando-falir-traficantes-mexicanos/

    [A legalização da venda e do cultivo de maconha no Colorado, Estados Unidos, parece estar impactando a vida de pessoas muito além dos limites do estado. Conforme mostra uma reportagem da agência NPR, o preço da erva nos cartéis mexicanos caiu mais de 65% só nos últimos 2 anos. No Colorado, a erva é legalizada há apenas 11 meses.

    Como afirma Nabor, um plantador de cannabis de 24 anos entrevistado pela NPR no México, a queda nos preços pode estar matando os cartéis.

    “Dois ou três anos atrás, um quilo de maconha valia entre 60 e 90 dólares. Mas hoje, eles pagam somente 30 ou 40 dólares no quilo. É um grande diferença”, explica. “Se os Estados Unidos continuarem legalizando a erva, vão destruir nossos negócios”…]

    1. Isso é algo que todo mundo deveria saber há décadas. É muito óbvio. Só existe contrabando de cigarro e CD porque os preços são absurdamente abusivos. Basta que o preço seja decente que todo mundo procura o mercado legal, com garantias legais, simplesmente porque vale a pena.

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