Dizer que a educação no Brasil é “ineficiente” seria um elogio, dizer que é “ineficaz” seria um eufemismo. A educação no Brasil é uma completa vergonha. Vergonhosos são também os orçamentos, os métodos, os critérios, os objetivos e todos os discursos “politicamente corretos” sobre como “melhorar” a educação no Brasil. A educação no Brasil não tem que “melhorar”, tem que ser completamente remodelada do zero.

Quando eu digo “remodelar do zero” eu quero dizer do zero mesmo, eliminando o mais rápido possível toda a palhaçada que hoje constitui o currículo do ensino fundamental e do ensino médio. E, como não temos professores capacitados a dar aulas do que realmente interessa – até porque a maioria dos autodenominados “educadores” não sabem o que realmente interessa – temos que bolar outras alternativas para turbinar o ensino no Brasil.

Eu tenho uma proposta barata para promover uma revolução completa e duradoura na educação deste país, capaz de catapultar nossa cultura e nossa economia a alturas jamais sonhadas por qualquer “educador” do MEC ou dos cursinhos universitários de pedagogia que chafurdam no atoleiro dos debates passionais sobre Piaget, Vigotsky, Paulo Freire e quejandos.

Peguem o orçamento da próxima Copa do Mundo: por baixo, R$ 20 bilhões que serão gastos em quatro anos. Supondo de modo muito otimista que não haverá recálculo orçamentário nem muita corrupção envolvida, isso dá um investimento de cerca de R$ 5 bilhões por ano numa porcaria de atividade de entretenimento que só traz resultados realmente significativos para quem está diretamente envolvido no esquema: clubes, jogadores, redes de TV, imprensa em geral, a FIFA e mais uma ou outra categoria que eu nem vou quebrar a cabeça pra citar porque essa palhaçada me dá nojo. Mas enfim: serão gastos R$ 5 bilhões por ano.

Com metade deste valor, R$ 2,5 bilhões por ano, dá pra organizar um torneio semestral de leitura, matemática e ciências para crianças de três a cinco anos. Meio bilhão para a organização. Prêmios de R$ 1 bilhão por semestre, em lotes de R$ 1 milhão. No total são mil prêmios de R$ 1 milhão para serem distribuídos a cada semestre entre os concorrentes que atingirem a nota mínima em cada torneio, metade desses prêmios para os primeiros 500 colocados no torneio e a outra metade distribuída por sorteio  entre todos os concorrentes que atingirem a nota mínima, que deve ser razoavelmente exigente.

Para equalizar um pouco as desigualdades regionais, ordena-se os vencedores segundo duas listas: uma nacional e outra por estado. Os primeiros 230 da lista nacional recebem o prêmio e são removidos das listas estaduais, depois premia-se os 10 primeiros de cada estado, num total de 270 prêmios, perfazendo 500 prêmios. E o sorteio dos outros 500 vencedores é nacional também.

Critérios de eliminação do concorrente: não gostar de ler, não gostar de matemática, não gostar de ciências. Se ficar evidente que a criança foi forçada a ler ao invés de ter o gosto pela leitura incentivado, ou que não gosta de fazer cálculos, ou que não curte ciências, babaus, não ganha um centavo.

Em três anos cada criança pode participar até seis vezes do torneio, mas os vencedores não podem voltar a concorrer.

E quem é que vai ensinar as crianças a gostar de ler e de estudar matemática e ciências? Os pais e as mães, ora bolas! Afinal, no Brasil não existem professores habilitados a ensinar crianças de zero a cinco anos a ler, fazer cálculos e estudar ciências.

Metodologia proposta para ensinar a criança a ler:

Como ensinar seu bebê a ler

Metodologia proposta para ensinar matemática à criança:

Como ensinar matemática a seu bebê

Metodologia proposta para ensinar ciências à criança:

Como multiplicar a inteligência do seu bebê

Mais informações:

The Gentle Revolution Press

Imaginem o impacto que o lançamento de um programa desses teria.

Em dez anos todo o sistema educacional do país seria outro. Em vinte anos todo o país seria outro. Em trinta anos todo o mundo seria outro.

Objeções previsíveis

1 – Isso não é acessível a todos.

R: Conte uma novidade. Existe alguma coisa acessível a todos além da morte? O governo pode financiar integralmente a venda dos livros a custos baixíssimos. Quem quiser, compra. Quem não quiser, continua contando com o atual ensino universal gratuito do Brasil.

2 – Isso rouba a infância das crianças.

R: Besteira. Eu aprendi a ler com quatro anos e tive uma ótima infância. Li a Enciclopédia Barsa inteira quando criança e nunca deixei de andar de bicicleta, jogar bolita e empinar pandorga. E ainda brincava com conjuntos de química, lupas e microscópios, lunetas, construía sistemas de roldanas para aumentar a força de tração e erguer objetos, criava diversos animais (de hamsters a escorpiões, de coelhos a caranguejeiras) e outras atividades que os garotos da minha idade não aproveitavam porque desperdiçavam todo seu tempo se engalfinhando pra chutar um pedaço de vaca morta pelo meio de dois tijolos colocados no chão.

3 – Isso rouba a infância das crianças.

R: Quem sabe você amarra uma pedra de alicerce no pescoço e se joga no mar pra ver se bóia?

4 – Essa proposta é fascista, blá-blá-blá, Paulo Freire, blá-blá-blá, construtivismo, blá-blá-blá, mercantilizar a educação, blá-blá-blá, Whiskas sachê.

R: Vide resposta anterior.

5 – O Brasil não tem condições de financiar este programa.

R: Claro que tem. O Brasil não tem é vergonha na cara para ordenar adequadamente suas prioridades. Enquanto morre gente esperando na fila da emergência (só essa expressão já é absurda) e a educação chafurda na lama, bilhões de reais estão orçados para construir e reformar estádios de futebol para receber um evento que vai durar umas poucas semanas.

6 – Você está falando sério?

R: Claro que estou. Estimular um imenso contingente da população brasileira com meia dúzia de prêmios milionários para formar uma geração altamente capacitada intelectualmente é uma idéia altamente viável, barata, produtiva e revolucionária. E para os que não quiserem usar o cérebro, sempre tem o ma-ra-vi-lho-so Bolsa-Família.

7 – Você é louco?

R: Não mais que você que leu até aqui…

Mudança de mentalidade

A melhor definição de loucura é fazer sempre a mesma coisa esperando um resultado diferente a cada vez.

Este artigo foi escrito a partir de uma resposta a um comentário no blog, em pouco mais de duas horas. Deveria ser óbvio que eu não acho que as coisas sejam tão simples como descrevi, afinal isso aqui é um artigo em um blog e não uma tese de doutorado.

Não haveria muito ganho em polir e esmiuçar a idéia muito além do nível de detalhamento já exposto. O fundamental é entender que existem alternativas muito diferentes das que normalmente são propostas pela vanguarda do atraso educacional que domina o MEC e os sindicatos de professores.

Não é necessário nem desejável planejar cada detalhe de um novo sistema educacional completo para promover um imenso avanço na educação. Tudo que é necessário é oferecer bons incentivos para quem produzir os melhores resultados e sair da frente para deixar a criatividade e a engenhosidade humanas produzirem frutos.

Os benefícios de implantar um sistema do tipo proposto seriam muitíssimo superiores a seus custos. Algumas famílias ganhariam um bom dinheiro, mas isso seria apenas a cenoura amarrada na frente do burro. O importante é que uma grande parte da população passaria a ser educada por pais e mães altamente motivados segundo uma metodologia capaz de aumentar significativamente a capacidade de aprendizado e a capacidade de raciocínio. Essas pessoas revolucionariam o país quando se tornassem adultas, com benefícios para toda a população, mesmo os que não tiverem usufruído das mesmas oportunidades.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 09/11/2010

33 thoughts on “Revolução na educação: do atoleiro às estrelas em uma geração

  1. complementando a tua introdução: a educação no braZil NÃO é uma vergonha! até porque, como ela não existe, não deixa de ser espetacular a maneira como as pessoas são semi-comunicáveis (na minoria das vezes, mas há sim uns semi-comunicáveis). tirando pessoas que foram educadas em casa, como eu (fui educado em casa, mesmo frequentando escola) o RESTO até que não é burro. PENSE: olha onde chegamos mundialmente mesmo sem nos educarem! incrível! fico com medo, sério, de que se for realmente implantado um sistema de educação no país acabe estragando o que já existe! LEMBRE: todos os sistemas que são implantados nessa MERDA de país FODEM a população! não, meu caro, dexe-a como está, inexistente!

    1. É por isso que o que eu proponho neste artigo é apenas pagar por resultados ao invés de propor qualquer sistema.

      Eu até tenho meu sistema predileto, mas neste artigo e no “Como qualificar o ensino público eu uso a mesma receita: pagar por resultados e deixar a criatividade produzir frutos.

      A seleção natural faz o resto e peneira os melhores memes, no caso os melhores sistemas de educação doméstica.

      Eu não incluí essa discussão neste artigo, mas obviamente os métodos usados pelos primeiros colocados seriam fartamente informados na imprensa, o que levaria mais gente a utilizá-los e aperfeiçoá-los, gerando um forte e rápido aprimoramento dessas técnicas, até que quem não as utilizasse não teria muita chance de sucesso na nova sociedade formada… e assim teríamos uma verdadeira revolução causada pela educação.

      O lado mais interessante disso é que o método só dá certo com afeto e dá tanto mais certo quanto mais a atenção é individualizada, ou seja, o método exige disponibilidade para a família. A pressão política para redução das jornadas de trabalho seria imensa, com resultados amplamente positivos tanto do lado humano quanto do lado econômico.

      Mas se eu colocasse isso já no corpo do artigo, com o detalhamento necessário, ficaria tão extenso que quase ninguém leria…

    2. Ah, sim… saudações, Jaime!

      Pensei que virias devolver a bomba atômica… 😛

  2. Tweets that mention Revolução na educação: do atoleiro às estrelas em uma geração | Pensar Não Dói -- Topsy.com
  3. Arthur, dessa vez, numa das raríssimas vezes, discordo.
    A Copa pode trazer status internacional para o Brasil vendendo a sua imagem; futebol é, apesar de alguns (como eu) não gostarem, cultura: ele reflete a história do Brasil. Acima de tudo, com a Copa, movimentar-se-á dinheiro, pois virão mais turistas, comprar-se-ão adornos para as casas, produtos como corneta, gerar-se-ão empregos, etc; logo haverá retorno através dos impostos. Eu acho que o Brasil deveria mudar suas prioridades, uma Copa do Mundo ou apenas uma Olimpíada, não é necessário gastar dinheiro à toa com duas.
    Educação não é estimulada através de prêmios: com o nosso atual sistema, apenas a elite, cujos filhos estudam nos melhores colégios, ganhariam os prêmios. No máximo, estimularia a trapaça. O dinheiro deve ser gasto com a criação de novas escolas e triplicando o salário do professor do governo, além, é claro, de uma maior fiscalização contra roubo. Claro, é uma utopia, mas, quem sabe?, no futuro isso não se realize aos poucos. Aliás, claro, isso deveria ser feito aos poucos: em 6 anos, dá para cobrir, no mínimo, metado do que eu falei.
    Abraços, meu caro!

    1. Três pontos:

      1) Pra que raios serve “status internacional”? Enche barriga? Constrói moradias? Melhora a saúde? Protege as matas ciliares e a biodiversidade? Não? Então não tenho o menor interesse nisso.

      2) Tenho imensas dúvidas se uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada são realmente lucrativas. Não li muito a respeito, mas recordo de ter lido alguns cálculos que mostram que são deficitárias.

      3) De onde tiraste que “educação não é estimulada através de prêmios”? Isso me parece clichê esquerdóide “políticamente correto” daquele tipo que eu sempre critico…

      Se alguém oferecer um milhão de reais em prêmio para os pais que melhor estimularem seus filhos a gostar de ler, de fazer cálculos e de estudar ciências, podes ter certeza que um grande contingente populacional vai se interessar por isso, em todas as classes sociais. Os mais ricos vão pagar professores particulares, os de classe média vão fazer um pouco disso e investir um pouco de seus próprios esforços, os pobres vão investir seu próprio esforço e mais de 90% dos que recebem Bolsa-Família há anos vão continuar recebendo Bolsa-Família. É tudo uma questão de incentivos.

      As “soluções” que apontas não vão dar certo, porque não estimulam a produção de resultados. Por exemplo, triplicar linearmente o salário dos professores não resolveria nada.

      Oferecer um bônus de 50% para os 20% mais produtivos entre os professores e de 30% para os 30% seguintes em produtividade, medindo esta produtividade pelo resultado das provas dos alunos, além de mais barato, seria muito mais eficaz.

      O motivo é muito simples: só dá resultado a melhoria salarial que exige aprimoramento da contrapartida, caso contrário melhorar salário é jogar dinheiro fora.

      O sujeito que estiver na faixa inferior de salários vai querer passar para a faixa superior, logo vai se aprimorar. Já o sujeito que estiver na faixa superior não vai querer perder salário, logo também vai se aprimorar. Isso se chama competição e funciona muito bem em qualquer mercado com muitos agentes, em que não é possível a formação de cartel.

      Quanto àqueles profesores que ficarem acomodados, não tiverem boa qualidade de ensino e não reagirem aos incentivos para melhorar seus salários, o melhor é simplesmente demiti-los.

      Já leste o artigo “Como qualificar o ensino público“?

  4. “A melhor definição de loucura é fazer sempre a mesma coisa esperando um resultado diferente a cada vez.”

    Oras, acaba de definir o conceito de vestibular para as faculdades públicas do Brasil.

    1. E também o conceito de votar nos partidos que aí estão…

  5. Elvis, a elite só teria vantagem se os melhores colégios mudassem seus sistemas para optimizar a performace doas alunos em tais provas.
    Arthur, achei interessante a idéia, pois daí sairia uma diversidade incrívrel de métodos tanto de ensino quanto de motivação.

    Se isso é uma alternativa bolada por um biólogo em duas horas, o que fazem os pedagogos na sua tese de doutorado?

    1. Ah, eu adorei essa pergunta! 🙂

      Avisa quando tiveres a resposta!

      Um milhão de reais é uma quantia que só não motivaria quem já fosse multimilionário. Muita gente – muita gente mesmo – se lançaria a educar seus filhos pequenos de olho na possibilidade de ganhar esta bolada.

      Pode parecer terrível que as pessoas não se empenhem em educar os filhos de modo intensivo sem uma motivação tão rasteira como “ganhar uma bolada”, mas é realista.

      Ao invés de tapar os olhos para esta característica desagradável dos seres humanos, eu prefiro me utilizar dela para produzir benefícios.

      Dinheiro é um motivador quase universal. Por que não usar esse motivador para produzir uma geração inteira de indivíduos com altas capacidades cognitivas?

      Sempre lembrando que aqueles que não forem os primeiros nem forem sorteados entre os que atingiram a meta mínima terão a dádiva de uma excelente cognição durante sua vida inteira, o que certamente não é pouca coisa. Este, aliás, é o objetivo da proposta: o dinheiro é só a cenoura na frente do burro, o importante é para onde vai a carroça.

  6. Já falei em outras oportunidades, já escrevi artigos a partir de fontes fiáveis e citáveis:

    Sou apaixonado por futebol. Mas Copa e Olimpíadas, do ponto de vista financeiro e do desenvolvimento social, não passam de embustes. Países que sediaram esses eventos nos últimos 20 anos concordam. Os eventos trazem PREJUÍZOS.

    esse breguete só vem pra cá por causa de um orgulho besta (Putz, o País do futebol não sedia essa merda já a 50 anos, vamos trazer pra cá a qualquer custo).

    Essa grana faria uma falta do caralho em coisas que realmente andam deficientes por aqui.

    1. quod erat demonstrandum

  7. Falha nossa no comentário acima, são 60 anos.

  8. O pior de tudo é lembrar que Copa é realizada dois meses antes da eleição presidencial. A Dilma ainda será nossa presidente. Logo, a Dilma será reeleita ou então um apoiado seu será eleito.

    Uatarrél?!!!! Como eu não tinha pensado nisso antes?

    1. Com um pouco de sorte, o Brasil será eliminado nas oitavas de final por um gol de mão de um zagueiro argentino impedido e fazendo falta no goleiro. 🙂

  9. Não falo latim, pode traduzir a expressão por favor?

    1. Quod erat demonstrandum é uma expressão em latim que significa “como se queria demonstrar”. É usual aparecer no final de uma demonstração matemática com a abreviatura Q.E.D. ou na versão em português C.Q.D.. Frequentemente é substituído por um dos símbolos ■ ou □.”(Fonte: Wikipédia) 😉

  10. O status serve para turismo, pois á a imagem de que país bom é país risco, país que paga dívida, ajuda no FMI. Isso trará lucros.

    Sim, deve trazer perda de dinheiro porque são duas boladas imensas. Pense nisso como uma equação do segundo grau cujo termo do x² é negativo: seu gráfico fica como um U invertido, como o sinal de interseção. Quando o investimento (eixo x) é pouco, o retorno do dinheiro (eixo y) é negativo; quando é médio, o lucro é altíssimo, quando é demais, causa deficit. Creio que só um evento seria bom: em 2011, haverá os Jogos Mundiaisn Militares; em 2013, a Copa das Confederações; em 2014, a Copa do Mundo; em 2016, as Olimpíadas. Apesar de esses eventos se realizarem no Rio, claro que o federal também investe.

    Com o prêmio de dinheiro, o pobre vai continuar pobre. Ele não terá como competir com o rico, que terá, como disseste, professor particular, livros, tempo (muitas crianças trabalham para ajudar os pais, etc). Apenas aumentaria as disparidades, deixando os ricos mais eruditos (e, como ocorro às vezes, talvez preconceituoso), e o pobre vai ficar igual: não conseguirá vaga na universidade pois seu concorrente, o rico, preparou-se melhor pelo prêmio.

    Concordo que “oferecer um bônus de 50% para os 20% mais produtivos entre os professores e de 30% para os 30% seguintes em produtividade, medindo esta produtividade pelo resultado das provas dos alunos, além de mais barato, seria muito mais eficaz” é muito mais eficaz, mas ainda assim não estimula tanto, pois o salário do professor ainda é baixíssimo (menos de 1000 reais em vários casos). As duas medidas, juntas, teriam muito mais resultado que cada uma sozinha.

    A competição estimula sim, mas de que adianta realizar uma corrida de 100 metros quando um já está no metro 90 e o outro, no 0? Já se sabe o resultado.

    1. É, parece que não chegaremos a um consenso…

      Primeiro, “gastar com futebol ao invés de gastar com educação porque isso trará turismo” pra mim soa como “cozinhar a galinha dos ovos de ouro ao invés de usar a grana da venda dos ovos porque isso trará proteínas”. Só faz sentido para quem está prestes a morrer de fome e não pode esperar a venda do próximo ovo. Pode ser o caso de Bangladesh, mas com certeza não é o caso do Brasil.

      Segundo, o argumento da parábola invertida é uma hipótese interessante, mas não é bem esse o foco aqui. Vamos supor que uma Olimpíada, ou Copa do Mundo, ou as duas junto, fosse lucrativo para o país. E daí? No que isso melhoraria a educação? No que isso elevaria a capacidade intelectual dos brasileiros? Continuaríamos com o mesmo problema, só com um pouquinho mais de grana em caixa para os políticos roubarem.

      Terceiro, quem vai se beneficiar com o método do prêmio em dinheiro não serão os ricos. Os ricos já podem usar os métodos propostos, ou contratar babás e professores particulares, e a maioria não faz isso e provavelmente não vai alterar muito suas vidas porque não precisam. Já a classe média e boa parte dos pobres pode se beneficiar muito de um incentivo desta natureza. De olho no dinheiro, eles vão dar um imenso presente para os filhos: sinapses.

      Quarto, os dois métodos de incremento salarial para os professores não são compatíveis. Assim como ácido e base são corrosivos individualmente, mas juntos se anulam e se tornam inócuos, instituir uma competição e ao mesmo tempo garantir que todos recebam o prêmio é uma fórmula perfeita para aniquilar a competição. Quem vai se esforçar para melhorar se o prêmio for garantido até para o último colocado? Ninguém.

      Quinto, a analogia da corrida dos cem metros não está correta. Os ricos estarão em melhores condições do ponto de vista da aquisição do material preparatório, mas isso importa muito pouco para este método. Os limitadores relevantes são tempo, atenção e afeto, coisas que estão ao alcance da maioria. Aliás, quem estiver desempregado tem maior chance de educar melhor o filho, desde que tenha uma mínima fonte de renda – e não tenho notícia de gente morrendo de fome no Brasil.

  11. Eduardo Marques

    10/11/2010 — 15:52

    “Critérios de eliminação do concorrente: não gostar de ler, não gostar de matemática, não gostar de ciências. Se ficar evidente que a criança foi forçada a ler ao invés de ter o gosto pela leitura incentivado, ou que não gosta de fazer cálculos, ou que não curte ciências, babaus, não ganha um centavo.”

    Ñ faz sentido. Gosto é gosto. Tive professores de química muito inteligentes que disseram que não gostavam da área de humanas pq não gostavam de ler, preferiam pensar. E como os pais vão fazer para estimular um gosto, se ele deve nascer sozinho na pessoa?

    1. De onde tiraste essa idéia absurda de que “um gosto deve nascer sozinho na pessoa”? Isso é totalmente falso! Gosto se ensina. Ninguém nasce gremista, nem colorado.

      Crianças de zero a cinco anos têm uma plasticidade cerebral imensa. Qualquer coisa que for apresentada do modo certo, através do exemplo e com entusiasmo e alegria, se tornará “gosto” da criança.

      Esse critério é fundamental para que a proposta faça sentido. De outro modo, a proposta se tornaria uma sentença de tortura para milhares de crianças. Os resultados de uma “forçação de barra universal” nós já conhecemos: a escola de hoje é assim e quase ninguém mais lê, quase ninguém sabe escrever meia dúzia de frases numa seqüência coerente para compor um raciocínio razoavelmente estruturado.

      E esse teu professor de química que disse que “não gostava de ler porque preferia pensar”, tenhasantapaciênciabatman, podia ter ido dormir sem dizer uma bobagem daquelas. Ler é o melhor exercício para a organização neuronal. Ler aumenta imensamente a capacidade cognitiva e de raciocínio. Ler provê ferramentas lógicas e “material de construção” (conhecimento) para o pensamento. Portanto, ler bastante e precocemente é a melhor coisa que se pode fazer para ajudar a transformar um filhote de símio em um Homo sapiens que mereça esse nome.

      A lógica da coisa é: um país se faz com Homens e Livros. Procura essa frase no Google. 😉

  12. Mas discutir é bom, assim se conhecem os argumentos e aumenta o nível intelectual ;D

    Turismo é retorno de dinheiro, o dinheiro irá circular, haverá impostos. O governo irá lucrar com isso, logo poderá investir esse dinheiro em educação, saúde, moradia, etc; portanto o povo se beneficia disso. Isso pode melhorar muito o país, já que o Brasil é uma grande potência turística, logo pode e deve explorar essa característica.

    Os ricos não precisam de dinheiro, mas, quando se fala em um milão, todos querem. Seja rico, pobre, etc. Por exemplo, um adolescente cujos pais fazem R$30.000 por mês não necessariamente tem acesso a esse dinheiro, os pais dão-lhe apenas uma parte para sair, divertir-se com os amigos. Mas, se ela puder ganhar R$1.000.000,00 , nem que os pais fiquem com 70%, ela vai querer. Seja para sair, etc. Eu, por exemplo, iria melhorar meu computador e o que ia comprar de livros e filmes… O único empecilho seria a burocracia, não a vontade. Algo que valeria a pena com essa competição seria dar bolsa para as crianças para investir na educação, mas, ainda assim, acho que um milhão para uma pessoa é demais. Além do mais, não seriam todos que participariam. É melhor investir na educação pública pois ela é um direito de todos que pagam impostos: eu não quero, por exemplo, pagar colégio particular. Se a educação pública melhorasse, todos seriam atingidos. Sou contra esse discurso que apenas os pobres devem ser beneficiados, devem todos os que pagam impostos.

    Outro ponto que eu achei desinteressante, como falaram acima, foi o seu critério de eliminação. Uma pessoa que tem talento para Teatro, por exemplo, não tem de saber achar a raiz de várias funções, ler toneladas de livros. Fosse o caso da competição, dever-se-ia fazer um projeto que englobasse todas as competências, e o único “teste” que deveria ser feito seria uma prova de conhecimentos gerais (geopolítica, língua portuguesa, ciências, matemática prática, etc) e uma prova específica daquilo que quer (no caso do exemplo, história do Teatro, técnicas de interpretação, Teste de Habilidade Específica, por exemplo), algo como o vestibular deveria ser feito. E eu creio que as pessoas nascem com gostos: eu, por exemplo, com 4 anos de idade só assistia ao Animal Planet e canais que tratassem de ciência, sabia e amava tudo de Biologia. Que incentivo eu recebia/fui ensinado? Meu pai chegava a mandar-me parar de estudar para ir jogar bola. Acho que alguns devem ser estimulados, mas nenhum deve ser imposto.

    Agora, quanto ao salário dos professores. Você pode até considerar isso um prêmio para o último lugar, mas não se esqueça que, teoricamente, esse último lugar se esforçou bastante para chegar a ser professor do Estado. Tem faculdade, às vezes mestrado. Em concursos como o do Pedro II, há uma prova de conhecimentos e uma aula prática para saber como o candidato é. Portanto, apenas os mais aptos têm de passar. Agora, imagine-se tendo feito uma faculdade pública, ralado estudando para passar para um concurso público e, enfim, dando aula. Você já vai estar decepcionado com o salário de 1100 reais, levando em conta que até algumas funções de segundo grau ganham mais do que isso. Você tem filho, esposa e casa para sustentar. Mal consegue pagar as contas, frequentemente fica no vermelho.

    Agora, vem a “grande” melhora, um bônus de 30% no seu salário se você for um excelente professor. Pode até não parecer difícil, mas todos os professores na sua escola são também excelentes. Logo, o que vai acontecer é que apenas um se destacará sempre, sendo ele o único beneficiado, pois é raro um professor mudar seu jeito de dar aula; afinal, todos tentarão melhorar, até o que ganhou. Perceba que nas competições, sempre á um melhor e é raro alguém ultrapassá-lo. Quando se pensa em natação, por exemplo, só se pensa em Michael Phelps, que tirou quase todos os primeiros lugares referentes À natação. Uma hora, com esse monopólio, os professores vão se desanimar, logo a aula voltará a ser ruim. A outa opção é limitar o número de vezes que um professor pode ganhar esse prêmio. Então, assim que ele ganhar uma vez, ele vai deixar de dar uma aula boa, pois já ganhou mesmo, agora ele não vai ganahr nada a mais. E, se ganhar, fica com 1400 reais. 1400 reais não dá para comer num restaurante bom, comprar uma casa boa, pagar uma escola boa, ver uma peça de teatro, pois tem que sustentar a família com um mínimo de decência.

    A medida começa a ser efetiva assim que os professores ganham, no mínimo, 3.000 reais, pois, ainda que percam, vão ter um salário bom. E, obviamente, deve-se demitir os professores ruins: se o seu secretário não anota as mensagens, não agenda nada, você o demite. Outra medida que deve ser tomada é melhorar a infraestrutura, mas isso é outro papo.

    Os limitadores podem ser apenas tempo, pois não creio que atenção e afeto mudem isso. Perceba que vários gênios são os que têm Síndrome de Asperger, marcada pelo que a maioria chama de ser “antissocial”, logo não se necessita de carinho e atenção. Tempo é uma coisa que é muita relativa, uma criança tem todo o tempo, tudo que ela tem que fazer é estudar, o que auxilia na competição.

    Espero ter demonstrado meu ponto de vista 🙂 Abraços

    1. Uma coisa de cada vez…

      1) É, ganhar grana com turismo é bom. Mas isso não tem a ver com o que estamos discutindo: melhoria na educação. Tem apenas a ver com o fato de os investimentos para um e outro terem de vir do mesmo lugar, o caixa do governo. E, entre um e outro, a curto prazo pode ser mais interessante investir em turismo, mas tenho certeza absoluta que a longo prazo vale muito mais a pena investir em educação.

      2) Acho não entendeste bem a proposta. Falei em organizar um concurso semestral com 500 prêmios de um milhão cada. Somente 500 famílias vão ganhar esta bolada, mas dezenas de milhares de crianças de zero a cinco anos serão educadas precocemente em habilidades que são fundamentais para tudo que fizerem na vida, ou seja, leitura, cálculos matemáticos, pensamento lógico e noções de método científico.

      Criança dessa idade não tem isso de “querer um percentual para gastar”. Ela nem vai saber que está participando de um concurso, nem vai saber que ganhou o prêmio, nem tem que saber de nada disso, porque terá de três a cinco anos ao participar – e nessa idade ela não tem a menor condição de decidir nada por si mesma.

      3) O critério de eliminação que propus é crucial. Sem ele, ao invés de estimular que os pais e as mães adotem um método que estimule as crianças a gostar de ler, gostar de matemática e gostar de ciências, o que seria produzido seria um monstro: haveria muita gente obrigando as crianças a ler, fazer cálculos e estudar ciências, inclusive com castigos. Meu objetivo é estimular o gosto por essas coisas, o que só pode ser feito com métodos suaves, com carinho, com atenção, com participação dos pais e das mães.

      No popular: eu bolei um jeito de canalizar a ganância para unir as famílias e propiciar um convívio de muito melhor qualidade entre pais, mães e filhos pequenos, durante a fase da vida da criança em que isso é mais importante, e que propiciará uma grande estimulação intelectual e amadurecimento neuronal durante a fase da vida da criança em que isso é mais produtivo. Tudo isso apenas abanando uma cenoura de um milhão de reais na frente dos burros. 🙂

      4) Atenção e afeto são fundamentais. Meia dúzia de gênios anti-sociais não servem de exemplo para o que deve ser feito pelos pais de quem não nasceu gênio. E é muito mais provável que surjam gênios em um país em que as crianças são intelectualmente estimuladas precocemente do que em um país onde isso não acontece.

      5) A questão dos salários dos professores é outro assunto, nada a ver com a proposta em questão, é bom lembrar. A lógica de premiar por resultado eu já expliquei. O que tem que ficar claro é o seguinte: eu não quero premiar somente o número um e sim os 50% melhores, de modo escalonado, para estimular a competição.

      O dos que ficarem abaixo dos 50% não pode mesmo ser uma maravilha, porque isso aniquilaria o estímulo à competição, mas também não pode ser indigno, tem que garantir a segurança e o conforto o básico. Daí a permitir todo conforto e até luxo eliminaria toda a eficácia da premiação escalonada por resultados.

      E os incompetentes, que não atingem metas mínimas, têm que ser demitidos. Acho um absurdo que um professor medíocre seja premiado com uma função “administrativa” na qual não precisa trabalhar justamente por ser incompetente.

  13. Haha, desculpa a tamanho do texto, mas gosto de escrever tudo bem explicado.

    1. A contrapartida é ter que ler as minhas respostas igualmente imensas. 🙂

  14. Não me importo de ler; desde que haja argumentos sólidos, é bom pois abrange a mente.

    Sem dúvida nenhuma investimento em educação deve ser a longo prazo, é claro. Do que adianta ter apenas uma geração com inteligência bem desenvolvida? ;D

    Não há como provar que uma pessoa gosta de ler, gosta de fazer conta; esse seria um grande problema. Fora isso, seria um bom incentivo sim, mas, é claro, apenas livros suaves, cheios de imagens, etc. Dar a alguém dessa idade até mesmo um livro de mais de 100 páginas é algo bem grande, poucos são as pessoas que desenvolvem tamanho gosto pela leitura que, a partir dessa idade, já leem livros de quase 300 páginas. E nem sempre há a garantia que a criança será tratada com carinho ao estudar, a muitas serão impostas várias horas de seu dia que elas perderão sua “vida de criança”.

    Quanto ao resto, concordo com tudo.

    Abraços!

    1. Ei, é justamente para evitar que as crianças sejam obrigadas que inseri aquele critério de eliminação. Ele serve para obrigar pais e mães a seguirem um método suave, que trará grande benefício emocional às crianças.

  15. Elvis. É o seguinte. Sempre afirmei ser um apaixonado por futebol, acho que realmente existe um ganho cultural com a bagaça, mas suas propostas não condizem com a realidade, e já ouvi elas outras vezes também. Explico por que:

    O Custo benefício de uma Copa do Mundo ou Olimpíadas não compensam, sabe por que? Por que todo o gasto com estádios e infra-estrutura fica sub-aproveitado quando o evento acaba, e nem precisamos de uma copa pra avaliar isso, já que temos um exemplo cabal da coisa, o estádio Engenhão. Encher estádios em jogos contra clubes pequenos não é fácil, o que corresponde a 90% de uma temporada. Se o custo de manutenção de um estádio é caro, os ingressos pros jogos são caros, daí vira um Engenhão da vida, que dá prejuizo pro governo, e é arrendado a uma mixaria pro Botafogo, o que me faz imaginar quem consegue fazer essa equação dar certo.

    O mesmo vale pro Bezerrão em Brasília.

    É o que vão dar os estádios da copa e olimpíadas. Ou vão resultar num prejuizo crescente por que os ingressos são muito caros pro severino que trabalha de peão na obra e não pode ir assistis aos clássícos Curíntia VS Ponte Preta, ou vão ser cada vez menos aproveitados.

    E isso não é achismo meu. Foi o que aconteceu nas últimas décadas em países que sediaram Copa do mundo e olimpíadas, com referências confiáveis borbulhando na net, inclusive com uma matéria muito interessante, e em português do Wall Street Journal sobre as estruturas pras Olimpíadas de Atenas.

    Pense nisso. A Copa não deve ser abolida. Mas Só deve vir pro Brasil no dia em que pudermos bater no peito e falar que somos um país de 1 mundo e podemos nos dar ao luxo de tomar um prejuízo eventual.

    1. Pois é, tem o Engenhão, o Bezerrão e agora querem o Corrupção. 😛

  16. “Sim, deve trazer perda de dinheiro porque são duas boladas imensas. Pense nisso como uma equação do segundo grau cujo termo do x² é negativo: seu gráfico fica como um U invertido, como o sinal de interseção. Quando o investimento (eixo x) é pouco, o retorno do dinheiro (eixo y) é negativo; quando é médio, o lucro é altíssimo, quando é demais, causa deficit. Creio que só um evento seria bom: em 2011, haverá os Jogos Mundiaisn Militares; em 2013, a Copa das Confederações; em 2014, a Copa do Mundo; em 2016, as Olimpíadas. Apesar de esses eventos se realizarem no Rio, claro que o federal também investe.” [ELVIS]

    De boa, véi, não entendi chongas desse parágrafo, mas parece coisa inteligente… Ah, se eu estudasse matemática e gostasse do breguete. Boa, campeão.

    1. Traduzindo, ele disse que com pouco investimento se tem pouco retorno, com o investimento adequado se tem bom retorno e com excesso de investimento se tem desperdício, portanto cai o retorno.

    1. Já tinha visto, mas não tinha dado a merecida atenção. Adorei rever o vídeo. Concordo com tudo ali expresso, com talvez uma única exceção: não entendi bem se quando ele falou em iluminismo ele estava criticando por extensão o ensino formal de lógica e de ciências, que considero essenciais para a boa formação do intelecto. Se esse não era o caso, concordo realmente com 100% da explanação. Na verdade, só não fiz sugestões naquele sentido porque sei que a escola pública brasileira jamais teria condições de se adaptar àquilo em meu período de vida – ou de meus netos – sem uma revolução que sacudisse completamente a estrutura política e social do país a ponto de não deixar pedra sobre pedra.

      Obrigado, Gerson! Se aparecer outro semelhante, posta aqui!

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