Alguém ainda acha a sério que o motivo pelo qual a maconha é proibida é porque ela faz mal à saúde? Ou porque haveria um suposto aumento no custo de financiamento do SUS? Ou porque maconha é coisa de vagabundo? Ou porque é “pecado” fumar maconha? Ou porque a legalização traria prejuízos ao país? Pfff…

Vamos facilitar as coisas: é óbvio que inalar qualquer fumaça faz mal à saúde, é óbvio que haveria um aumento no custo de financiamento do SUS em função deste mal à saúde, é óbvio existem pessoas que se tornam improdutivas porque preferem fugir da realidade através do uso de alguma substância, é óbvio que algumas pessoas se preocupam legitimamente com a relação entre as ações mundanas e o desenvolvimento espiritual e é óbvio que o ingresso de qualquer produto no mercado gera algum custo para o país.

Nenhum defensor da legalização nega o óbvio.

Mas os defensores da repressão negam o óbvio.

– É óbvio que se o argumento do “mal à saúde” fosse sincero, muitos alimentos que podem ser encontrados em qualquer prateleira de supermercado e adquiridos por qualquer criança teriam que ser banidos do mercado com urgência.

– É óbvio que o custo de financiamento do SUS baixaria se houvesse a legalização da maconha, porque os custos em atendimentos e ocupação de leitos causados pelos conflitos diários com o tráfico seriam eliminados e isso compensaria amplamente o ínfimo aumento causado pela inalação da fumaça da maconha.

– É óbvio que existe um preconceito econômico historicamente enraizado em função das fortes campanhas anti-canábicas promovidas pelos senhores de escravos, o que não é reconhecido oficialmente porque implicaria campanhas de resgate cultural com o uso da maconha. (A maconha foi trazida pelos escravos e combatida pelos senhores de escravos porque causa relaxamento muscular, fome e sono – tudo que dá prejuízo ao explorador da escravidão. A lógica é: se prejudica os lucros da elite econômica, então é coisa de vagabundo e do demônio. Nunca houve e não há preocupação com a saúde do usuário.)

– É óbvio que existe um preconceito religioso historicamente enraizado porque os escravos que trouxeram a maconha praticavam religiões não-cristãs e era conveniente demonizar a erva em campanha conjunta com os interesses dos senhores de escravos.

– E é óbvio que existe uma série de imensos interesses econômicos e geopolíticos que seriam prejudicados com o final da farsa moralista.

A negação do óbvio, entretanto, não é o único problema deste debate.

Uma série imensa de argumentos extremamente secundários invade este debate toda vez que ele é proposto. É um artigo no jornal que diz que um percentual qualquer dos usuários tem este ou aquele problema, é a opinião de um especialista pró ou contra ou muito antes pelo contrário que é tomada como verdade absoluta, etc. Nada disso é o verdadeiro foco.

Para cada argumento de que a maconha faz mal é possível mostrar que há milhares de vidas que poderiam ser salvas ou pelo menos ter seu sofrimento imensamente reduzido se a maconha fosse legalizada. Não existe medicamento na face da terra que seja mais eficiente que um simples baseado para combater as terríveis náuseas da quimioterapia, para citar um exemplo dos mais dramáticos. Pacientes de câncer estão sofrendo terrivelmente porque os grupos pró-repressão se negam a aceitar o fato que a maconha pode fazer bem à saúde em algum contexto. Isso implicaria eliminar a demonização da maconha e trazer o debate para um plano racional, o que é contra o interesse destes grupos.

Para cada argumento de que a maconha traria algum prejuízo sócio-econômico é possível mostrar que há inúmeros benefícios que superam em muito quaisquer ônus da liberação para o consumo recreativo. A maconha é mais eficiente para produzir celulose que qualquer outra planta. A maconha é fonte de excelentes fibras têxteis. A maconha é o melhor medicamento contra a náusea da quimioterapia e contra a inapetência aidética, podendo salvar vidas e reduzir sofrimento. A maconha é um excelente ansiolítico, cujo uso pode provavelmente evitar doenças cardíacas e vasculares. A maconha é uma droga recreativa que não causa agitação nem propensão à violência, pelo contrário, tem efeito tranqüilizante.

Mesmo com todas estas evidências, basta falar “legalização da maconha” para obter reações contrárias exacerbadas e irracionais. É óbvio que existe algo importante por trás deste debate, algo que não cede à razão e à lógica. 

Derrubando as máscaras

A guerra contra essa planta foi motivada muito mais por fatores raciais, econômicos, políticos e morais do que por argumentos científicos. E algumas dessas razões são inconfessáveis. Tem a ver com o preconceito contra árabes, chineses, mexicanos e negros, usuários freqüentes de maconha no começo do século XX. Deve muito aos interesses de indústrias poderosas dos anos 20, que vendiam tecidos sintéticos e papel e queriam se livrar de um concorrente, o cânhamo. Tem raízes também na bem-sucedida estratégia de dominação dos Estados Unidos sobre o planeta. E, é claro, guarda relação com o moralismo judaico-cristão (e principalmente protestante-puritano), que não aceita a idéia do prazer sem merecimento – pelo mesmo motivo, no passado, condenou-se a masturbação.(Dennis Russo Burgierman)

Fonte: A Verdade sobre a Maconha (Revista Superinteressante)

(Leia a reportagem completa no link do quadro acima. Vale a pena.)

É hora de trazer este debate para seus fundamentos e deixar de lado os ataques moralistas e a irracionalidade. A questão é importante demais para ser debatida em termos chulos.

Todos os grupos que combatem violentamente a liberação da maconha – os governos, a maioria dos partidos políticos, as igrejas fundamentalistas, os políticos corruptos, a banda podre das polícias e os narcotraficantes – lucram com a manutenção da repressão. Todos estão falando em nome de seus próprio interesses, não para o bem da sociedade.

Estamos sustentando um sistema absurdo, fundamentado em preconceitos, mentiras e interesses escusos que só trazem dano a muitos e benefício a poucos. Os danos causados pela ilegalidade e pela corrupção associada são muito maiores que os danos do consumo. É hora de abrir os olhos.

Precisamos de uma regulamentação inteligente, não de uma repressão ora burra, ora mal intencionada.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 19/11/2010 

 

Postado originalmente no Orkut em outubro de 2008. Revisto e ampliado em 19/11/2010.

67 thoughts on “Desmascarando a repressão hipócrita da maconha

  1. luiz claudio

    21/06/2013 — 23:02

    nossa me assusta a quantidade de gente que quer liberada a maconha… alguem tem estatistica de quantos usuarios no Brasil?

    1. Se houvesse apenas meia dúzia de usuários, ainda assim eu seria a favor da legalização de todas as drogas.

  2. Dizem 6 milhões, mas chuto para perto de dez, 5% da população…

    1. Pode no mínimo dobrar isso aí.

  3. luiz claudio

    23/06/2013 — 17:23

    que bom seria se houvesse soh meia duzia de usuarios!

    1. A minha preocupação não é com o número de usuários, mas com os motivos pelos quais os usuários são usuários e o modo como a sociedade e o Estado lidam com o usuário.

  4. luiz claudio

    24/06/2013 — 09:56

    Acho a quantidade um parametro bom imagine se fosse ao contrario 5% de nao usuarios…

    1. Desde que o mercado fosse regulamentado de modo inteligente, qual o problema?

  5. Apoiando o Uruguai na regulação da maconha
    A proposta de regulação que se discute no país não parece centrar
    esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança
    públicas

    ARTIGO – FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

    Publicado: 16/07/13 – 0h00

    Há dois anos, em minha qualidade de presidente da Comissão Global de Política sobre Drogas, realizei um chamado público pela descriminalização do consumo de drogas e pela experimentação com modelos de regulação legal. Eu e meus colegas fizemos este chamado a partir do reconhecimento de que o proibicionismo fracassou em muitos níveis. Por tempo demais, o modelo repressivo implicou o desperdício de recursos públicos inestimáveis, que pouco resultado proporcionou para a segurança e a saúde públicas.

    Assim, apoiamos a busca de modelos de regulação legal porque acreditamos que reduzirão o poder do crime organizado e ajudarão a proteger a saúde e a segurança das pessoas. Por este motivo, acho que a proposta do Uruguai de regular a maconha é digna de consideração.

    Uma série de fatores leva a concluir sobre a necessidade de um controle regulatório no Uruguai e em muitas outras localidades do mundo. Um fato relevante é que, no modelo repressivo, os usuários estão vinculados ao mercado criminoso. Essas pessoas são efetivamente conduzidas a um mercado ilícito que não impede a venda de drogas a menores de idade, não se preocupa com indivíduos que desenvolvem o uso problemático ou certifica a qualidade sanitária da substância, envolvendo a cadeia de uso em um contexto de violência e delinquência.

    Estes são apenas alguns dos riscos para as pessoas que fazem uso de maconha. Porém, o próprio mercado gera preocupações adicionais.

    O lucro deste mercado sustenta uma economia informal, cujo alcance pode ser apenas estimado. Os informes oficiais indicam que o tamanho do mercado de maconha no Uruguai gira em torno dos US$ 30 a US$ 40 milhões por ano. Quanto deste dinheiro é utilizado para corromper as forças de segurança ao largo das fronteiras dos países de origem da droga? Quanto deste dinheiro é utilizado para subornar a polícia ou é “lavado” através de instituições financeiras? E quanto acaba sendo empregado na compra de armas e financiamento de quadrilhas criminosas?

    Tais preocupações não são derivadas do consumo de drogas, mas consequências de uma política que ignora as condições do mundo real. A proposta de regulação que se discute no Uruguai não parece centrar esforços na geração de lucros, mas na promoção da saúde e segurança públicas. Também é evidente que essa proposta possa significar uma soma pela subtração: simplesmente retirar recursos do crime organizado seria um benefício em si mesmo.

    Como em qualquer lugar do globo, a transformação interna na política sobre drogas gera controvérsia, simpatizantes e antagonistas. No Uruguai, diversas organizações sociais e personalidades públicas consolidaram seu apoio à plataforma “Regulación Responsable”, que tem por objetivo enriquecer o debate cidadão com dados reais e tornar visível o apoio à iniciativa de regulação da maconha. Com muito entusiasmo, saúdo o compromisso da cidadania uruguaia e com satisfação declaro publicamente minha adesão a Regulación Responsable.

    Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e foi presidente da República. Este artigo foi escrito para o grupo de jornais associados ao GDA

    Fonte: http://oglobo.globo….maconha-9045080

  6. Enquanto isso, no Brasil…

    “Grupo de policiais cobrava propina de traficantes no interior de São Paulo

    O delegado de polícia e supervisor da Unidade de Inteligência do Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc), Clemente Calvo Castilhone Júnior, preso sob acusação de participar de um esquema de cobrança de propina em troca de proteção a traficantes em São Paulo, costumava dar palestras sobre o combate às drogas. Em uma delas, em julho de 2011, o delegado participou da audiência pública de relançamento da Frente Parlamentar Mista de Combate ao Crack, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Após a prisão do delegado e de outros seis agentes, o Denarc passará por uma reestruturação. O governador Geraldo Alckmin e o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, devem se reunir nesta terça-feira para definir como será feita a reestruturação no departamento.

    O delegado do Denarc chegou a falar sobre as estratégias de prevenção e repressão adotadas pelo órgão no estado. E defendeu ainda a “necessidade de integração das polícias estaduais e federal, tanto operacionalmente quanto em atividade de inteligência, como forma de combater esse problema sistêmico”. As informações da palestra estão em um release publicado, com foto, no site da Secretaria da Segurança Pública. Castilhone ainda falou da “dinâmica da atividade do tráfico, desde a transformação até a distribuição do crack”.

    O delegado e outros seis agentes do órgão foram presos nesta segunda-feira em uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil. Segundo as investigações, eles recebiam R$ 300 mil por ano, além de uma mesada mensal, para proteger traficantes e permitir o tráfico de drogas. Castilhone Júnior também atuava na agência integrada de inteligência dos governos estadual e federal para combater a violência. O delegado é suspeito de ter vazado informações a criminosos que poderiam comprometer a investigação do Ministério Público.

    O advogado do delegado, João Batista Augusto Jr., não foi localizado em seu escritório na manhã desta terça-feira. Em entrevista à rádio CBN nesta terça-feira, o diretor do Denarc, Marco Antonio Pereira dos Santos, disse que vai apresentar algumas mudanças. Entre elas estão o maior controle de policiais de departamento que atuam no interior e Grande São Paulo e a redução no número de policiais. Hoje, o Denarc conta com 362 policiais.

    Nesta terça-feira, a Corregedoria-Geral da Polícia Civil tenta cumprir seis dos 13 mandados de prisão temporária expedidos pela Justiça à pedido do Ministério Público Estadual contra policiais civis suspeitos de envolvimento com traficantes. Na segunda-feira, sete policiais foram presos.

    À rádio CBN, o governador Geraldo Alckmin declarou que o desvio de conduta de policiais é intolerável. – Polícia aliada de bandido, é bandido ao quadrado. Xadrez neles. Não há a menor hipótese de tolerar. Tem que agir rapidamente e tirar da polícia – disse o governador.”

    Fonte: O Globo, 16/07/2013

    1. Tudo isso seria evitado se não houvesse essa proibição absurda.

  7. César Munhoz

    24/07/2013 — 22:46

    Nunca experimentei maconha, embora tenha fumado cigarros por vários anos e parei. Sou a favor da legalização de todas as drogas,desde que acompanhada por uma ampla conscientização de seus males a saúde quando leva a dependência.

    1. SEMPRE acompanhada pela melhor informação técnica disponível seria o melhor. Sem essa de embalagem com terrorismo emocional, tem que ter informação técnica adequada.

  8. Arthur vai gostar:

    Mises explica a guerra às drogas

    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1722

    1. EXCELENTE!!!

      Gostei mesmo. Aliás, adorei! 🙂

      Ludwig von Mises não está me parecendo de direita. É interessante e estranho que as pessoas que usam o nome dele e divulgam o pensamento dele sejam de direita. Creio que terei que ler mais o que ele escreveu, para entender melhor o que ele dizia e por que o pessoal da direita o divulga.

  9. Os conservadores e liberais ou libertários tem idéias em comum na área econômica e no que diz respeito as liberdades individuais como armas, liberdade de expressão etc e discordam no campo da moral e dos limtes a liberdade de certas condutas consideradas pelos consevadores como imorais ou perigosas para se deixar livres, como drogas por exemplo. Eu discordo sobre a liberalização das drogas, já tivemos experiências delas, como o desastre do ópio da China, onde metade do país estava inutilizada pelo vício.

    1. Mas o jeito certo de evitar esse tipo de desastre não é proibindo o que faz mal, porque isso tira a liberdade de todos e exige que todos gastem muitos recursos para sustentar o aparato de vigilância e repressão.

      O jeito certo de evitar esse tipo de desastre é educar tão bem a população que seja muito raro alguém entrar pelo cano com decisões burras como se permitir viciar em drogas. Com a vantagem que uma boa educação resolve milhares de problemas que nem imaginamos ao invés de nos exigir resolver todos os problemas um a um através de leis que nunca conseguem ser totalmente justas e aparatos que nunca conseguem ser baratos e eficazes.

  10. “Le Monde Diplomatique Brasil” n°79 – Fev.2014 (apenas na versão impressa para os não assinantes) https://www.diplomatique.org.br/edicao_mes.php publicou duas matérias muito boas, informativas, sintetizando a situação da cannabis no mundo. Times they are a-changing…

    1. Tens como me conseguir uma cópia?

  11. Agora vou viajar , mas voltando, na 4a, posso escanear e mandar, sim. Se não tiver paciência e puder investir, custa 14 reais nas bancas. Abs

    1. Ah, eu não sabia que estava disponível nas bancas. Vou ver se acho um exemplar aqui no fim do mundo. Se não encontrar – tanto porque é fim de mundo quanto porque é fim de mês e carnaval, tudo junto – aí eu peço uma cópia. 🙂

  12. “Chose promise, chose due”, Arthur. Os artigos estão escaneados, em PDF. Talvez você já tenha comprado a versão impressa, mas pode ser que alguns leitores do Pensar não doi queiram ler. Como posso anexa los?

  13. Pronto! Liberou!? https://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1584
    Assim como: https://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1599
    Já algum tempo atrás…: https://www.diplomatique.org.br/edicoes_anteriores_det.php?edicao=2
    E no mês atual (paciência é uma virtude, dizem), edição 80, uma intervenção de Renato Cinco.

  14. Achei ótimo: Maconha não elva significativamente riscos de acidente no transito…
    http://revista.webmotors.com.br/yahoo/meu-carro-e-eu/maconha-nao-eleva-significativamente-riscos/2015211171652189_1

  15. Mais uns argumentos de peso a favor da maconha medicinal, expressos pelo iniciador de todas as pesquisas sobre ela, Rafael Mechoulam. “…Além de vários tipos de câncer, Alzheimer parece responder favoravelmente aos compostos da maconha. O sistema endocanabinoide está envolvido em todos os tipos de doenças…” https://www.youtube.com/watch?t=71&v=SIi1k5LPTBA

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