O Pensar Não Dói anda meio pesado, eu tenho tratado muito de temas como violência, drogas, repressão policial, segurança pública, obtusidade, irracionalidade e outros deste naipe. Hoje decidi apresentar um texto clássico de maravilhosa delicadeza que convida a um retorno à simplicidade e às coisas belas da vida. Mas não se iluda: no final eu vou jogar uma bomba no seu colo. 🙂

Tudo que eu precisava saber eu aprendi no jardim de infância

Robert Fulghum – Tradução Livre de Arthur Golgo Lucas

Tudo que é realmente necessário saber sobre como viver, o que fazer e como ser eu aprendi no jardim de infância. A sabedoria não estava no alto da montanha da graduação, mas na caixinha de areia da escolinha.

Estas são as coisas que eu aprendi:

Compartilhe tudo.

Jogue limpo.

Não agrida as pessoas.

Coloque as coisas de volta onde você as encontrou.

Limpe a bagunça que você fez.

Não pegue coisas que não são suas.

Peça desculpas quando machucar alguém.

Lave as mãos antes de comer.

Puxe a descarga.

Biscoitos com leite fazem bem.

Viva uma vida equilibrada – aprenda um pouco, pense um pouco, desenhe, pinte, cante, dance, brinque e trabalhe um pouco todo dia.

Tire uma soneca depois do almoço.

Quando sair pelo mundo, tome cuidado com o movimento, segure a mão [de alguém], permaneça íntegro.

Permaneça atento às maravilhas [do mundo].

Lembre-se das sementinhas plantadas no algodão: se as raízes se firmam, a planta cresce. Ninguém sabe exatamente como ou porquê, mas conosco também é assim.

Peixinhos dourados, hamsters, ratinhos brancos e as sementinhas que plantamos no algodão morrem. Nós também.

Tudo que você precisa saber também está lá no jardim de infância: a Regra Dourada, amor, higiene, ecologia, política, igualdade, vida saudável.

Tome qualquer uma destas lições, extrapole-a em termos adultos e sofisticados, aplique isso na sua vida familiar, no seu trabalho, no seu governo ou no seu mundo e ela permanecerá verdadeira, lógica e consistente.

Pense em como o mundo seria melhor se todos no mundo inteiro pudessem tirar uma soneca após o almoço e tivessem leite e biscoitos para o lanche da tarde todos os dias. Ou se todos os governos tivessem a política de sempre colocar as coisas de volta onde as encontraram e limpar a bagunça que fizeram.

E isso permanece verdadeiro, não importa qual sua idade: quando você sair pelo mundo, é melhor segurar a mão [das pessoas] e permanecer íntegro.

Se alguém quiser ler o livro inteiro (em português, na tradução de alguém que não recebeu os créditos), basta clicar na figura abaixo.

Tudo que eu precisava saber eu aprendi no jardim de infância

Uma das maiores inconformidades de minha vida é: por que é que ensinamos coisas tão simples, belas e verdadeiras às nossas crianças e quando elas se tornam adultas cobramos delas que reneguem o que ensinamos e passem a ser “realistas”?

Será razoável esta nossa atitude? Ou será que não passa da mais cruel hipocrisia ensinar às crianças a compartilhar os brinquedos com os coleguinhas de escola e depois premiar o sucesso dos adultos que menos compartilham e mais acumulam “brinquedos”?

É muito fácil dizer “eu ajo assim”, mas a verdadeira aceitação da “filosofia do jardim de infância” nós percebemos quando alguém da família age deste modo.

Você se casaria (ou moraria junto tendo uma relação amorosa estável, não vamos discutir “casamento” enquanto “instituição”) com alguém que compartilha seus brinquedos com os amigos e os colegas, com alguém que realmente se encanta com as pequenas maravilhas do mundo?

Alguém que empresta a chave do carro para os amigos irem a uma festa em que não está interessado, ou a filmadora para um amigo que vai viajar em férias, ou o notebook para um amigo que precisa fazer uma viagem de negócios?

Alguém que deixa os colegas da faculdade virem digitar os trabalhos deles no seu computador, vai dormir e deixa instruções pros colegas assaltarem a cozinha à vontade para tomar leite e comer biscoitos, apagar a luz e fechar a porta ao sairem?

Alguém que faz todos os seus convidados entrarem pela porta dos fundos de sua casa no dia da festa de aniversário de quinze anos de sua filha porque descobriu uma crisálida fixada na porta da frente e não quer que a porta seja aberta para não correr o risco de esmagá-la até que a borboleta saia lá de dentro?

Alguém que te acorda às quatro horas da madrugada e te faz sair da cama quentinha e ir até o pátio de casa num vento frio como o pólo sul só para mostrar a beleza de um eclipse lunar?

Alguém que convida a família inteira do vizinho para passar um final de semana no motel só para as crianças das duas famílias poderem brincar na hidromassagem enquanto os adultos fazem um churrasco e levam um DVD player para todo mundo assistir desenho animado junto? E que conta essa história pra qualquer um que queira ouvir, rindo muito e se afastando dos babacas de mente suja que condenam tudo que não são capazes de entender?

Alguém que coloca a felicidade e a unidade da família e a convivência com os amigos acima daquela “oportunidade imperdível” de emprego distante duas horas e meia de casa, que manda às favas aquela promoção que exigirá longas ausências visitando as filiais da empresa pelo país e que prefere mil vezes uma farofada com a turma da praia que uma recepção de luxo entre figurões desconhecidos?

Em suma, você realmente teria coragem de viver uma vida baseada nos valores que ensinamos a nossas crianças?

Vá beber um leite com biscoitos e depois responda.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 29/11/2010

18 thoughts on “Tudo que eu precisava saber eu aprendi no jardim de infância

  1. Creio que sim, mas em certos pontos devo concordar que é um pouco difícil, como na parte da crisálida da borboleta. Mas em outras acho que é preciso ponderar algumas coisas, como por exemplo, na parte em que diz “Alguém que deixa os colegas da faculdade virem digitar os trabalhos deles no seu computador, vai dormir e deixa instruções pros colegas assaltarem a cozinha à vontade para tomar leite e comer biscoitos, apagar a luz e fechar a porta ao sairem?”, acredito que se formos propor que essa pessoa, com quem se case, esteja numa sociedade como a nossa, aonde a maioria das pessoas não tem “bom senso”, quando digo “bom senso” quero dizer que por exemplo, quando se vai fazer um trabalho na casa de um amigo que cedeu ela para vc, acho que não é de “bom senso” atacar a geladeira dele depois que ele foi dormir e ir embora. Então, estando numa sociedade como a nossa, concordo que seja complicado conviver com as demais pessoas e viver nesse mundo cada vez mais estressante e apressado. Entretanto, se propormos esse mesmo casal numa realidade diferente da nossa, com pessoas mais educadas e com relativo “bom senso”, e que vivam uma vida baseada nos valores que ensinamos hoje para nossas crianças, então acredito eu que não seja difícil a convivência entre as pessoas.

    1. Natan, eu acho que tua crítica é correta. Quando eu escrevi o artigo, hoje à tarde, eu estava concentrado na idéia de viver com leveza (“leveza”, não “leviandade”!) e não percebi que alguns dentre os exemplos citados (os de empréstimos e o que comentaste) tinham este perigoso contraponto: o risco de ser parasitado.

      Mais do que pertinente, tua crítica é fundamental. Uma coisa é ser uma pessoa de bom coração, outra coisa é ser um otário explorado por parasitas inescrupulosos por não saber estabelecer limites. Eu já fui mais das duas coisas, hoje estou tentando ser um pouco mais da primeira e um pouco menos da segunda.

      Creio que a chave do equilíbrio é saber estabelecer limites e também saber quando uma excepcionalidade exige flexibilizar estes limites. Mas é necessário um bocado de sabedoria para atingir um equilíbrio tão elevado.

      Desconfio que antes de chegar a este patamar temos que quebrar a cara umas quantas vezes, sofrendo frustrações e decepções sem desanimar e sem nos tornarmos amargos. Pelo menos este é o caminho que eu tenho tentado seguir… e tenho a sensação que está surgindo uma luz no fim do túnel, apesar de eu ainda quebrar a cara com mais freqüência do que gostaria a esta altura da vida.

  2. Fico contente, amigo Arthur, em vê-lo novamente tratando de assuntos amenos e saudáveis recheados de sutis contrapontos entre como éramos babacas e agora somos normais ou como éramos normais e agora somos babacas! Tudo o que você disse não pode ser contestado! Eu confesso que não conseguiria viver minha vida adulta segundo os parâmetros do jardim de infância. Fico na dúvida se isto é uma medida de normalidade ou de babaquice. Talvez o fato de que algumas fadas e duendes daquela época não terem sido incluídos no pacote discordante do modus vivendi atual tenha determinado a mudança. Ou quem sabe anda faltando biscoitos. .. ou coitos… ou oitos. Um abraço.

    1. Bem, caríssimo amigo, eu nunca fui “normal” e ultimamente estou decididíssimo a me tornar o mais babaca dos babacas… mas não um babaca de mente suja que condena tudo que não pode entender e sim um babaca que acredita cada vez mais radicalmente que o ser humano possui uma imensa dignidade que precisa ser resgatada do pântano de amoralidade em que a mente suja do pragmatismo fundamentalista nos obrigou a chafurdar na era do Homo oeconomicus. Bem, com essa frase eu acabo de provar que estou mesmo virando um babacossauro, né? 🙂

      Eu resolvi me demitir do serviço público, abandonar uma capital de estado e me mudar para uma aldeiazinha no interior do interior e me dedicar a uma atividade extremamente simples justamente para voltar a ter uma rotina de jardim-de-infância: dormir quando bater um soninho, tomar leite com biscoito no lanche da tarde e brincar dentro de casa quando chover. Ando precisando disso há anos, então decidi radicalizar a experiência para usufruir o melhor que puder dela extrair.

      Pelo que eu conheço de mim mesmo, não devo ficar muito tempo tão “zen” assim. Mais cedo ou mais tarde – provavelmente mais cedo – eu vou sentir falta do agito urbano e de atividades intelectualmente estimulantes, mas então o retorno se dará no ritmo de meu entusiasmo e não pela força da obrigação. Do meu ponto de vista, isso faz muita diferença. E eu estarei com as baterias recarregadas e os valores reordenados com maior clareza, que são as minhas principais expectativas em relação a este experimento de alto risco em que me meti voluntariamente.

  3. Sim,com toda certeza.Eu tive a sorte de encontrar alguém assim…..e perdê-lo.

    Mas ficou uma lição para a vida inteira,uma lição que tem me ajudado a ser uma pessoa melhor.

    E ficou minha filha e os filhos dela.

    Um “raio de sol” cruzou minha vida e a iluminou.
    A pessoa mais humana,amorosa e gentil que
    tive a sorte de encontrar.
    Não foi um homem,foi um anjo.

    Pessoas assim sofrem muito.

  4. O interessante é que nós mesmos temos que estabelecer nossos limites.
    Esperar que os outros façam isso é uma bobagem.

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  6. Viver conforme ensinamentos da infância é sinônimo de levar paulada todo santo dia na cabeça e acabar em profunda depressão tentando entender o mundo.
    Excelente o teu post e obrigada por lembrar de mim quando escreveu! Adorei!
    Bjo, e boa semana!!!!! 😉

    1. Achei que gostarias do artigo. 🙂

  7. Excelente texto, como o usual.
    Bom ver você tratar dos mais variados assuntos 8D

    1. É, eu decidi voltar a diversificar, como era no princípio. O assunto das drogas é o segundo mais importante para a segurança pública na atualidade – o primeiro é a desestabilização climática, que não depende só do Brasil – mas estava monopolizando o Pensar Não Dói. Ainda tenho muito a dizer a respeito, mas vou intercalar com outros bons assuntos sobre os quais pensar. 😉

  8. Boa noite Arthur. Fazia tempo que eu não passava por aqui. Uns tempos atrás lia constantemente seus textos – apesar de quase nunca comentar. Mas hoje vi um video de lembrei de você. É um vídeo sobre como e por que a educação atual não serve para as crianças atuais. Talvez você goste:
    http://www.cottenielab.org/2010/11/another-inspirational-video.html
    Um abraço.

    1. VÍDEO GENIAL, muito obrigado pelo link, Tadeu! Por essas e outras – não educar as crianças em lote, como numa linha de produção – é que eu sou fã do homeschoooling.

      Mas por que estiveste sumido do blog? Foi a direção que eu tomei que te desinteressou das postagens? Eu apreciaria imensamente este feedback.

  9. Oi Arthur. Andei sumido por falta de tempo – nem pude notar a mudada de direção que você citou. Confesso que os textos nos quais você expõe sua criatividade, seja sobre educação, mudanças climáticas ou outro, são os que mais me interessam. Abraço.

    1. Tadeu, eu já fiz a correção de rota necessária.

      Acontece que a questão das drogas é o mais importante tema de curto e médio prazo em termos de segurança pública, que interfere profundamente na vida de todos os cidadãos. Como eu estudo o assunto há mais de uma década, foi inevitável abordá-lo com grande ênfase no blog. Quando percebi que estava batendo muito na mesma tecla, bastou voltar a diversificar os temas, como era o propósito original do Pensar Não Dói.

      Nos próximos dias virão mais postagens sobre diversos assunto, incluindo a questão das drogas, que continua tendo grande importância, mas sem monopolizar o blog. Um deles será sobre essa mentirada grotesca da NASA que o mundo inteiro está engolindo sem perceber que não passa de um factóide com objetivos políticos. Não perca o próximo emocionante episódio. 🙂

  10. Que legal, Arthur! Não sei o que pensar, ainda, sobre a nova da NASA – poucas informações por enquanto. Aguardo seu comentário sobre o assunto. Se cuida.

    1. O artigo sobre o anúncio da NASA já está publicado. E já tem gente me jogando pedras nos bastidores…

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