Acordem, jornalistas da grande mídia: vocês estão sendo feitos de otários. Não existe “nova forma de vida”. Não existe prova nem indício de vida extraterrestre. O anúncio da NASA não tem nada a ver com astrobiologia. O anúncio da NASA e a acusação de estupro contra o criador do site WIKILEAKS são factóides forjados para abafar e reduzir as repercussões do vazamento de informações que escancarou as partes mais vergonhosas da política externa dos Estados Unidos da América e de muitos outros países. E vocês estão se prestando direitinho ao papel que o Tio Sam reservou para vocês. De novo.

Os Estados Unidos da América são mestres na arte das estratégias diversionistas.

Quando Bill Clinton se envolveu em um escândalo sexual, tratou de tacar um míssil na cabeça de Saddam Hussein para desviar os holofotes dos chifres que havia tacado na cabeça de Hillary Clinton. Funcionou.

Quando George Bush estava perdendo popularidade, tratou de aproveitar o ataque ao World Trade Center para se apresentar como herói no combate ao terrorismo e desviar a atenção de sua administração medíocre. Funcionou.

Barack Obama acaba de perder o apoio do Congresso Nacional, cuja maioria passou a ser do Partido Republicano, e de sofrer um imenso constrangimento que o colocaria em choque com diversos países aliados. Como as próximas eleições presidenciais ainda estão muito distantes, ainda não é conveniente queimar o bode expiatório usual do Oriente Médio. O factóide da vez é, portanto, um anúncio “bombástico” sobre a possibilidade de vida extraterrestre. E está funcionando.

Não é de surpreender que o público leigo seja facilmente enrolado, mas não deixo de me surpreender e de me decepcionar com a quantidade de cientistas e de jornalistas que não são capazes de somar dois e dois. O anúncio da NASA sobre a descoberta de uma “nova forma de vida” só é “bombástico” para quem não conhece nada de biologia nem percebe a “coincidência” com o momento político.

A descoberta

Uma bactéria com um detalhe metabólico interessante. Ponto.

Isso é tudo que foi descoberto.

Por mais interessante que seja este detalhe metabólico, ele não é nem sequer uma novidade: Felisa Wolfe-Simon, Ariel Anbar e Paul Davies já haviam publicado um trabalho na Revista Science em 2009 apresentando a idéia de que o arsênio poderia substituir o fósforo.

A suposta “nova forma de vida” também não é desconhecida: trata-se de uma gammaproteobacteria, um grupo comum de bactérias do qual faz parte a conhecidíssima Escherichia coli, que vive nos intestinos humanos.

Bactérias são conhecidas por sua imensa capacidade adaptativa. Há bactérias que vivem na presença de oxigênio e outras que vivem em sua ausência, há bactérias que vivem nas matas decompondo frutos e outras que vivem nas fossas abissais alimentando-se de compostos de enxofre, há bactérias presentes em nosso organismoque são benéficas e outras que causam doenças mortais, há bactérias que conseguem digerir petróleo e outras que se reproduzem alegremente no meio de pesticidas mortais para quaisquer outras formas de vida.

A GFAJ-1, como foi chamada a bactéria-factóide, é apenas uma bactéria de um grupo já conhecido que desenvolveu uma habilidade metabólica já esperada. Uma simples adaptação a um ambiente anteriormente inóspito, o mesmo fenômeno que todos sabemos ser característico da vida em geral e muito em especial das bactérias. Qual é então a novidade “bombástica”? Nenhuma.

As bobagens

Os cientistas que fizeram o anúncio da descoberta da GFAJ-1 foram cautelosos e habilidosos com as palavras ao divulgar o factóide, proferindo um tipo de declaração que é bem típico de quem está blindando sua reputação junto a seus pares ao mesmo tempo que sabe que está ou que pode estar ajudando a induzir a erro uma audiência leiga:

“O organismo pode crecser tanto com fósforo quanto com arsênio. Isso o torna muito peculiar, mas ainda distante de ser uma verdadeira forma alienígena de vida, pertencente a uma outra árvore da vida, com origem diferente. A grande descoberta seria um  microorganismo que não contivesse nenhum fósforo”. (Paul Davies, cosmologista da Universidade Estadual do Arizona)

Apesar disso, tem gente por aí dizendo que “caiu o paradigma da ciência de que todos os seres vivos que conhecemos descendem de um ancestral comum”. Não é verdade. Como vimos acima, a bactéria-factóide pertence a um grupo comum de bactérias, não há qualquer indício de que “alguns organismos tenham vindo de um ancestral diferente” e muito menos que “a definição de vida ficou mais complexa” ou que a descoberta seja “um incentivo para a busca de ETs”.

Porém, ridícula mesmo é a hipótese que a NASA tenha provado haver “sinais de vida fora da Terra“, que é como essa história começou a ser anunciada. Foram feitos alguns dias de suspense, para o mundo inteiro ter tempo de repercutir a suposta novidade, e então divulgada uma notícia muito mais cautelosa mas ainda assim fantasiosa e com ar de “pílula dourada”.

Por que tanta purpurina e confete?

Se a tal descoberta não é nada fantástico, pois não passa de uma adaptação biológica já prevista de uma bactéria já conhecida, por que então foi inicialmente anunciada como “possível vida extraterrestre” e agora tratada como “nova forma de vida”?

Simples: diversionismo.

Uma notícia supostamente bombástica camuflada por palavreado técnico que o público leigo não tem conhecimento para avaliar é o factóide perfeito para monopolizar as atenções da imprensa – também ignorante em ciências – e desviar a atenção de fatos políticos atuais de grande importância. E o único fato político atual de grande importância que precisa ser abafado ao máximo é o vazamento de informações do site WIKILEAKS, que desmascarou o que os EUA realmente pensam de seus aliados e o que muitos de seus aliados pensam realmente uns dos outros.

Enquanto os cientistas se limitam a comentar aspectos teóricos e possíveis implicações científicas da descoberta anunciada, comportadinhos em seu papel de comentaristas da ciência, discretos e comedidos, e os jornalistas comem mosca por não analisarem detalhadamente o discurso dos cientistas, repercutindo apressadamente uma informação superficial em manchetes chamativas para vender jornal, o verdadeiro fato relevante da época é abafado.

Quanto riso, quanta alegria deve haver hoje na Casa Branca e nos corpos diplomáticos do mundo inteiro que tiveram suas indiscrições reveladas.

Há mais de mil palhaços no salão.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/12/2010

Atualização a 10/12/2010

O Carlos Oliveira, do blog AstroPT, apareceu na caixa de comentários e metralhou a tese de que a NASA estaria ativamente envolvida em uma “conspiração” para abafar o caso WIKILEAKS. Os argumentos dele são ponderados e plausíveis e merecem atenção. Para quem se interessa pelo assunto, recomendo também a leitura do artigo “NASA descobre vida baseada no arsénico!” lá do AstroPT e da discussão que ocorre naquele artigo.

E eu? Mudei de opinião?

Ligeiramente. Eu sou um cabeça-dura contumaz e não fiquei plenamente convencido de que a “coincidência” entre dois eventos tão relevantes seja mesmo uma coincidência, especialmente devido ao papo-chama-trouxa sobre vida extraterrestre, mas passei a reconhecer a possibilidade de a NASA ter feito todo este estardalhaço meramente em busca de fundos.

O que realmente não muda é a minha crítica à grande mídia, que não levantou a lebre nem da hipótese que eu lancei, nem da hipótese lançada pelo Carlos Oliveira, e ainda ficou papagaiando alguns dias sobre a busca de vida extraterrestre.

E, de um modo ou de outro, tenha sido o anúncio feito do modo como foi feito por interesse político ou econômico, permanece o fato que o desvio da atenção do mundo todo do caso WIKILEAKS para a possibilidade de ter sido encontrada vida extraterrestre atendeu os interesses do governo estadunidense.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 10/12/2010

45 thoughts on “Anúncio da NASA é factóide para abafar caso WIKILEAKS

  1. Joao Azevedo

    15/12/2010 — 09:34

    Mas por que diversionismo?

    Os wikileaks sao uma vergonha porque representam uma quebra de sigilo dentro do Departamento de Estado, mas o conteudo dos telegramas mostra que o Departamento de Estado americano tem um staff de uma qualidade impressionante e, ate agora, desmente as tipicas teorias de conspiracao da esquerda ignorante que viceja na Europa e America Latina.

    Por isso mesmo, a besta do Ahmadinejad acusou o Wikileaks de ser alguma teoria de conspiracao da CIA!

    1. Estado democrático não tem que ter “segredos de Estado”. Apóio integralmente o Wikileaks e qualquer um que se proponha a escancarar as entranhas sujas da política nacional ou internacional para que o povo tenha conhecimento das falcatruas, abusos e irregularidades cometidas em seu nome.

  2. Quem disse que a depressão é o mal do século, não queria admitir que é paranóico.

    Que grande mistura de Cientologia, Iluminati, WikiLeaks, V de Vingança/Matrix que está acontecendo!
    Não sei se você reparou, Arthur, mas ta todo mundo perdidão com isso tudo. Dai entra CIA, NASA, Rede Globo e Faustão nessa, só acho esquizofrenicos por aí.

    Ficou pensando daqui 200 anos que grande piada vai ter sido tudo isso de nossa época.

    1. A quantidade de dados sobre nossa época será tamanha que episódios como este dificilmente serão alvo de investigação detalhada, creio eu. Mas quem quiser fuçar em busca de absurdos cômicos terá farto material ao visitar os arquivos do século XX e do século XXI. 🙂

  3. Manga-Larga

    20/12/2010 — 09:03

    Olha aí Arthur:

    http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI4848425-EI8147,00-Cientistas+furor+sobre+descoberta+da+Nasa+e+injustificavel.html

    1. HAHAHAHAHA!!! Ah, eu adoro essas coisas! Nada como ver o que eu digo confirmado. 🙂

      Posso até estar errado ao julgar que a NASA teve interesse em ajudar a abafar o caso WIKILEAKS (embora eu ainda considere isso possível e provável), mas que eu estava 100% certo na avaliação da importância científica da tal descoberta é inegável.

      Hehehehe… acho até que vou escrever outro artigo sobre isso. 🙂

    1. HUAHUAHUAHUA!!! Além de ser muito menos relevante do que eles diziam, a história ainda era furada? 🙂

      Raios… Se nem na qualidade das pesquisas da NASA se pode confiar, imaginem a “ciência” produzida nas nossas universidades…

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