Uma vez (em 2006) eu disse na comunidade de Direitos Humanos do Orkut que toda família deveria ter um FAL em casa e receber o mesmo treinamento da SWAT. Quase fui linchado pela galera da mesma trincheira… Porém, na Suíça algo semelhante acontece, e lá a violência é mínima “apesar” de a posse de armamento pesado ser ubíqua. A minha tese é que não é “apesar” de a posse de armamento pesado ser ubíqua que a violência é mínima, e sim em função de haver praticamente um fuzil na mão de cada reservista treinado, espalhados por todo o país, em cada rua, em cada esquina, em cada prédio, que a violência na Suíça é extremamente reduzida.

Percebam que não estou dizendo que meramente distribuir armas reduziria a violência. Estou afirmando que o que reduziria a violência seria treinar um grande contingente da população em técnicas de defesa pessoal e uso de armamentos, e então garantir que estes indivíduos tenham acesso a armamento pesado (nada que possa ser escondido sob um casaco), logicamente após exame de desempenho e estabilidade emocional e sem limitação financeira artificial (sem cobrar altas taxas para o porte).

Na Suíça é assim e funciona. E não, não é porque os suíços são culturalmente mais avançados que os brasileiros. O sistema suíço pode funcionar em qualquer país, pois tem um fundamento lógico-matemático sólido que não depende da cultura média de um povo.

O importante é que ocorra uma implementação seletiva focada na defesa e bastante comentada na grande mídia para que ele surta efeitos rapidamente. E tanto faz se for elogiado ou execrado pela grande mídia, ele funciona igual: é um caso típico de “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

Fundamentação teórica

A fundamentação teórica para isso é a da eficácia das mútuas coerções multilaterais qualificadas oriundas dos trabalhos do ecologista Garret Hardin sobre a tragédia dos bens comuns (“The tragedy of the commons”).

A tragédia dos bens comuns é encenada toda vez que ocorre a exploração privada de um bem de propriedade compartilhada. É a famosa “capitalização dos lucros e socialização dos prejuízos”, dado que cada unidade extraída é totalmente capitalizada por quem dela se apropria, enquanto os danos ambientais são repartidos entre todos, tornando sempre “racional” a decisão de explorar até a última gota ou grama de um recurso, mesmo que o resultado final seja a destruição completa do ambiente e a total inviabilidade de manutenção da vida ou da qualidade de vida.

A questão da segurança pública é um destes casos. Se um único indivíduo resolve explorar uma pequena diferença de potencial de causação de dano, seja aprendendo a manejar uma faca, seja formando uma quadrilha armada, e começa a fazê-lo de fato, ele terá um benefício líquido sempre superior à perda de qualidade de vida geral que se estabelecerá na sociedade. Ele capitalizará o lucro do emprego da violência, enquanto que o prejuízo será dividido entre todos os cidadãos, inclusive ele, mas sua decisão sempre será economicamente racional enquanto houver algo a lucrar com a violência.

Esta racionalidade econômica não é falsa: é suicida. Gera uma escalada generalizada de violência, do mesmo modo que ecologicamente gera um escalada generalizada de exploração predatória dos recursos, pois cada indivíduo procura sempre maximizar o próprio lucro até que aconteça o completo colapso do sistema. Mas existe uma maneira de romper este círculo vicioso, antes que ocorra o colapso.

Mútuas Coerções Multilaterais Qualificadas (MCMQ) é uma expressão que eu criei para sintetizar conjuntamente a estratégia descrita por Garret Hardin e algumas de minhas considerações teóricas de maneira clara e referenciável. Trata-se do único sistema não-ingênuo capaz de ser instalado “a quente” (ou seja, a partir de uma situação real, e não de uma situação ideal) e que se torna rapidamente efetivo e capaz de auto-manutenção. Ou seja, não depende de uma “conspiração da maioria” para se tornar praticável. É um sistema robusto.

Um sistema de MCMQ pode ser implantado gradualmente, e se torna efetivo imediatamente após atingir uma determinada massa crítica, que não necessita ser majoritária. Na verdade, provavelmente é suficiente um total bem inferior a 10% da população.

Um sistema deste tipo inverte a racionalidade econômica da tragédia dos bens comuns tornando altamente provável uma descapitalização radical do lucro obtido de maneira a causar prejuízo ao grupo e um imediato prejuízo líquido aos agressores do bem comum.

Como o modelo funciona

Imagine que um sujeito resolva explorar uma capacidade extra de causação de dano, por exemplo aprendendo a manejar uma faca, para capitalizar lucros (para si) e socializar prejuízos (entre suas vítimas). Se ninguém mais possuir uma faca, ou se quem possuir uma faca não souber usá-la, ele se apoderará virtualmente de todo o sistema.

Surgindo entretanto um único oponente, o primeiro sujeito terá que ser mais eficaz que ele no uso da faca, ou perderá sua posição. O problema é que nada se resolve com isso, todos os demais continuam dependendo das intenções do único que restar entre os dois donos de facas. Mesmo que o segundo tenha sido contratado para garantir a segurança de todos, agora que ele detém a única faca (ou é o único que sabe ou pode usá-la) todos ficam a sua mercê. Qualquer semelhança com o que aconteceu no Brasil em 1964 não é mera coincidência.

Imaginem agora que um percentual expressivo da população possua facas e esteja bem treinada para usá-las em defesa própria. Um único indivíduo não poderá exercer poder sozinho ou apenas com uma faca. Terá de fazer alianças, ou arranjar uma pistola. Esta é a fase de corrida armamentista do sistema, em que as alianças se tornam maiores, e o potencial de dano maior, por um tempo, e até um determinado limite. Este limite é a chave do raciocínio.

O limite superior desta corrida é o botão do fim do mundo: aperta-se um botão e se explode o planeta. Este limite já foi atingido, e o planeta não foi explodido. Pelo contrário, nunca houve uma guerra nuclear entre EUA e URSS, nem nunca haverá. O Fim da Guerra Fria se deve à constatação de que ambos detém o botão do fim do mundo. A alta probabilidade de retaliação é que garante a inexistência de agressão.

A partir da fria constatação de que qualquer agressão não pode gerar lucro, a única alternativa econômica racional é o diálogo em busca do bem comum. Não há outra alternativa lógica, e isso é matematicamente demonstrável.

Proposta prática

A minha proposta é que adotemos o sistema da Suíça, ou seja, que cada família possa ter um FAL em casa, desde que os responsáveis recebam um treinamento daqueles estilo SWAT (lembre aquelas cenas em que o sujeito anda no meio de um campo de treinamento em que cartazes se viram repentinamente e o sujeito tem que decidir num piscar de olhos se atira ou não, dependendo da figura) e sejam submetidos a um rigoroso exame de desempenho e estabilidade emocional, mas sem limitação financeira (nada de preços estratosféricos e impostos ou taxas altíssimas).

A lógica desta proposta é de que as armas permitidas sejam exclusivamente as de impossível ocultação, para que ninguém entre num bailão ou fique assaltando na sinaleira com uma delas. (Atualização de 25/01/2015: eu já não recomendo isso. Passei a recomendar o livre porte de qualquer arma para o cidadão honesto, treinado e com desempenho comprovado.)

Não vejo por que isso não possa ser feito no Brasil. Não acho uma boa idéia deixar a responsabilidade na mão exclusiva do Exército, até porque não vejo nenhum bom motivo para militarizar a questão, nem na mão das polícias, que não possuem massa crítica para fazer funcionar o modelo e não são eficazes na defesa do cidadão. Basta licenciar escolas de tiro e criar um “provão” teórico-prático que poderia ser conduzido tanto pelo Exército quanto pela Polícia Federal quanto por universidades credenciadas.

Refutando a objeção mais comum

Muita gente diz que, ao invés de permitir que a sociedade se arme, seria melhor investir mais nos salários, equipamentos e treinamento das polícias. Discordo veementemente.

As estratégias tradicionais dependem de esforço coordenado e dirigido, enquanto uma estratégia de MCMQ independe de qualquer centralização após alcançar uma determinada massa crítica.

Toda estratégia que depende de coordenação e direção pode ser enfraquecida, desviada ou corrompida. Uma estratégia de MCMQ se torna de muito difícil enfraquecimento, e impossível desvio ou corrupção, porque não depende de uma instituição, de um órgão centralizador ou de uma conspiração social – ela atua elevando a probabilidade de retaliação contra o agressor até eliminar a racionalidade econômica do ato agressivo.

No caso de uma guerra nuclear, por exemplo, a probabilidade de retaliação entre duas potências nucleares é de 100%. Isso significa que ninguém terá jamais interesse de apertar o botão do fim do mundo.

No caso da segurança doméstica, a probabilidade de retaliação pós-estatuto do desarmamento é ínfima. Isso significa que, graças ao estatuto do desarmamento, a cada dia se torna economicamente mais racional assaltar residências. A chance de lucro para o criminoso é cada vez mais alta e a de prejuízo cada vez mais baixa.

Quanto mais baixo o percentual de residências armadas, maior a chance de arrombamento, assalto, espancamento, estupro, seqüestro e homicídio para qualquer um, independentemente de possuir armas ou não, porque a racionalidade econômica torna o mercado do crime mais e mais lucrativo.

Com um percentual crítico de residências fortemente armadas presente, a racionalidade econômica torna o mercado do crime não atrativo, porque a possibilidade de terminação abrupta da atividade (eufemismo para uma bala de fuzil no crânio) aumenta rapidamente conforme o percentual de residências capazes de retaliar. (O risco aumenta imensamente para o agressor em função da freqüência de exposição.)

MCMQ é um método de redução da própria racionalidade econômica do crime, não um método de combate contra uma atividade rentável!

:: Fim do artigo original. ::

Se você leu até aqui…

… lembre que este é o sistema vigente na Suíça, não é uma idéia minha.

A minha contribuição neste artigo foi apenas esclarecer uma das possíveis fundamentações teóricas para o sucesso de um sistema de MCMQ. Eu mesmo prefiro o modelo pombo-gavião-retaliador exposto por Richard Dawkins em O Gene Egoísta, que considero ainda mais esclarecedor dos mecanismos básicos pelos quais um sistema de MCMQ atua de modo tão eficaz. Mas isso fica para um artigo futuro.

Eu gostaria de ver esse modelo instituído no Brasil. E você?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 03/12/2010

21 thoughts on “Devíamos adotar o sistema de segurança da Suíça

  1. Marcos Dias

    26/12/2010 — 18:21

    Na suíça pode bem funcionar, mas no brasil, cultura tudo é diferente, pode ser bom, apenas para criminosos.

    1. Se perdeste este parágrafo, eu repito:

      Na Suíça é assim e funciona. E não, não é porque os suíços são culturalmente mais avançados que os brasileiros. O sistema suíço pode funcionar em qualquer país, pois tem um fundamento lógico-matemático sólido que não depende da cultura média de um povo.

      Tá ligado na palavra “média”? É central no argumento. 😉

  2. Na suíça pode bem funcionar, mas no brasil, cultura tudo é diferente, pode ser bom, apenas para criminosos.(2)
    …………
    Acho que aqui também poderia funcionar, mas é complicado, muito arriscado colocar fuzis na mãos de brasileiros, é capaz da cidade X entrar com a cidade Y, a torcida X entrar em combater com a torcida Y por ai vai.

    1. 1) Ver resposta acima.

      2) REGULAMENTAÇÃO INTELIGENTE, pô. Não é livre distribuição.

  3. Marcos Dias

    30/12/2010 — 01:28

    Seria melhor proibir comercialização de armas fora do exercito, mas mesmo assim, começariamos a usar paus e pedras, para se matar.

    Como diz no death note, humanos são interessantes.

    1. Quanto mais as armas são proibidas, mais elas são encontradas justamente nas mãos de quem não deveria possuí-las. A proibição não funciona. E, do meu ponto de vista, nem é desejável.

  4. Manga-Larga

    30/12/2010 — 11:13

    Marcos Dias, o fato de proibir a comercialização de armas não as faz desaparecer!

    1. Nem a proibição da produção as faria desaparecer. Nenhuma proibição consegue fazer desaparecer algoque é muito útil e muito desejado.

  5. A coisa mais fácil do mundo é fazer bomba caseira, só pesquisar na net e logo vai achar varios sites ensinando a fazer bombas, inclusive como estrair explosivos mais potentes em produtos de farmacia e supermercados. O atirador da Noruega fez aprendendo na net como achar o ingrediente em fertilizantes e como fabricar e maneijar com cuidado paasso a passo.

    Veneno?
    Coisa mais fácil do mundo.

    Lojas veterinarias, ond evende plantas.
    É Fácil achar.
    Se quiser fazer um veneno fortissimo, a coisa mais fácil a fazer é achar um baiacu, peixe que existe em todo nosso litoral em abundancia e extrair um veneno fortissimo das gandulas que mataria um elefante, qualquer pessoa sabe disso, que é um peixe altamente venenoso, no japão um cozinheiro esqueceu de retirar-las e só com unico peixe matou mais de 100 pessoas.

    Qualquer louco poderia usar isso e matar várias pessoas por envenenamento.

    Comprar bestas na net, arco e flechas, fazer uma arma caseira é não dificil.

    Qualque pessoa que aprendar maneijar ferramentas e tenha curisosidade em fazer o mal, aprende qualquer coisa.

  6. Se eu fosse um louco com intençôes de matar várias pessoas, o ultimo metodo que usaria seria arma de fogo, se o louco tivesse colocado veneno nas caixas dagua do colegio teria matado muito mais do que com armas de fogo, ou tivesse se vestido de palhaço distribuindo doces envenados.

  7. Arthur, melhor vc apagar essas postagens, daqui a pouco pode aparecer um doente lendo falando que seu blog e um integrante estar incentivando e ensinando malucos a cometer crimes.

    1. HAHAHAHA!!!

      Não, Nelson, não te preocupa: isso que disseste é a mais pura verdade, os loucos realmente perigosos já sabem disso e é bom que as pessoas percebam que o controle de armas nas mãos de cidadãos honestos nem de longe protege alguém contra ataques ideologicamente motivados.

      Na verdade tuas intervenções reforçam a idéia de como é importante investir em um estado de bem-estar social. 🙂

  8. Arthur, por exempo, você acha que os Chineses conseguiriam faz o que fizem no Tibet se fosse a suiça?

    1. Só se exterminassem toda a população tibetana.

  9. Na Suiça o governo incentiva o cidadão a ter um fuzil e uma pistola em sua residencia. Hitler invadiu os países vizinhos mas não invadiu a Suiça. Porque? Seria chumbo vindo de todos os lado.
    Veja: http://www.armaria.com.br/suicos.htm
    Um povo armado gera respeito. O governo respeita mais e os cidadãos se respeitam mais.
    Armas ilegais continuam a ser vendidas e os delinquentes continuam mais armados do que nunca. O Estatuto do Desarmamento só afetou quem quer andar dentro da lei. O governo obriga o cidadão a ser como os políticos integrantes do governo: um fora da lei, um corrupto!
    Lembrando que suiça todo mundo tem arma e a criminalidade é baixíssima.

    1. Ora, é justamente por isso que eu considero necessário adotar um sistema semelhante ao da Suíça.

  10. Armas e liberdade

    Recentemente aconteceu algo em Buffalo, Nova York, que contradiz a propaganda daqueles que apóiam o “controle de armas” — isto é, o controle de cidadãos cumpridores da lei que desejam apenas ter uma arma para se proteger dos vários elementos nefastos deste mundo. Um cidadão de fato usou uma arma, uma espingarda, para defender sua casa e sua família de invasores armados. E, de acordo com a manchete, ele já havia sido vítima de outras invasões domiciliares.
    Não, sua arma não lhe foi tomada e usada contra ele — essa seria a conseqüência inevitável de se possuir uma arma, dizem os defensores do desarmamento. Não, sua arma também não foi roubada. Não, ele não teve tempo de esperar pela polícia, não obstante esta tivesse chegado minutos depois, tendo também atirado nos invasores, ferindo um deles. Sim, ele foi capaz de pegar sua arma a tempo. Sim, ele apontou, mirou e acertou os alvos maléficos. De acordo com a propaganda desarmamentista, as pessoas raramente — quase nunca — usam armas para a auto-defesa.

    O desarmamento é uma daquelas idéias que, na superfície, parecem fazer sentido; uma idéia que as pessoas sensatas inicialmente estão inclinadas a aceitar; uma idéia que parece oferecer uma solução fácil para um problema difícil. E esse é o problema com o controle de armas. Não passa de uma auto-ilusão, um pensamento baseado no desejo; é simplista, ingênuo e até mesmo infantil. É um pensamento tipicamente esquerdista: achar que problemas sociais podem ser resolvidos colocando-se palavras num papel e transformando-as em estatutos federais e estaduais.

    Sempre que você ouvir que esse ou aquele tipo de arma foi banido, lembre-se que palavras escritas num papel jamais mudaram a natureza humana. Existem pessoas ruins lá fora que irão se aproveitar das pessoas boas. Elas não serão impedidas por palavras em um papel, seja onde for. As pessoas boas, por outro lado, desejosas de obedecer a lei, serão. E é por isso que assaltantes, estupradores e assassinos sabem que em paraísos desarmamentistas — isto é, qualquer lugar em que saibam que as potenciais vítimas estão desarmadas — os cidadãos estão totalmente indefesos contra eles.

    Nos EUA, em particular, acontece um fenômeno interessante. Sempre que o congresso ameaça aprovar novas regulamentações anti-armas, o povo americano responde comprando e estocando a maior quantidade de armas possível.

    Em 1989, o congresso aprovou restrições sobre as chamadas “armas de ataque” (assault weapons), tais como a Colt AR-15, a H&K G36E, a TEC-9, todos os AK-47s, e as Uzis. Esse fato provocou uma explosão na venda de armas. Após uma breve folga da máquina legislativa, surgiu a Brady Bill em 1993, um projeto de lei que impunha a checagem do histórico do comprador. Os políticos alegaram estar apenas atrás dos criminosos. Mas o principal efeito da lei foi o de convencer as pessoas de que o governo federal estava mesmo era determinado em desarmar o público.

    Os políticos, é claro, sempre dizem que estão atrás apenas dos criminosos, e não de caçadores e de pessoas que apenas desejam a auto-proteção. Mas, por definição, os criminosos não ligam muito para regulações. Restrições legais sobre a venda de armas só servem para fazer com que as pessoas que escrupulosamente seguem a lei não consigam se defender daqueles que não a seguem.

    Esse ponto pode ser demasiado complicado para os políticos entenderem, mas as pessoas comuns entendem. Após a aprovação da Brady Bill houve mais uma explosão na venda de armas, com a população aumentando seus estoques, antecipando-se a mais regulamentações futuras.

    As percepções da população provaram-se certeiras. Sem perder tempo, os federais baniram a fabricação doméstica de armas de estilo militar e de pentes com capacidade para mais de 10 projéteis. O resultado foi o maior tiro pela culatra da história das regulamentações. O limitado número de “armas de ataque” ainda em circulação passou a ser vendido pelo dobro do preço pré-banimento. E como era necessário ter mais balas para poder se igualar ao poder de fogo antigo, os fabricantes de munições passaram a desfrutar de lucros recordes, de acordo com dados reunidos pelo Wall Street Journal.

    E, por fim, o que levou o mercado à velocidade total de operação foi a ameaça de que os fabricantes de armas seriam levados à falência por conta de ações judiciais. As pessoas viram o que os tribunais fizeram com as empresas de tabaco e o que aconteceu com os preços do cigarro como conseqüência. Ao contrário dos cigarros, armas não são perecíveis, e assim as pessoas perceberam que poderiam – aliás, deveriam – começar a estocar o mais rápido possível, antes que os juízes fizessem com os fabricantes de armas o mesmo que fizeram com os fabricantes de cigarro.

    Fanáticos anti-armas viram toda essa estocagem como uma catástrofe, uma vez que sua meta era o desarmamento completo da população. Mas eles estavam em um dilema. Costurar o processo legislativo para implantar o desarmamento completo toma mais tempo do que os períodos de espera e as barreiras regulatórias já aprovadas e transformadas em lei. As janelas de liberdade existentes permitiram às pessoas desafiar as intenções dos desarmamentistas enquanto ainda havia tempo.

    A estocagem que passou a ocorrer em todo o país provavelmente animou até mesmo as pessoas que não tinham interesse em ter uma arma. Isso porque uma posse de armas amplamente difundida por toda a sociedade confere aquilo que os economistas chamam de “externalidades positivas” sobre as pessoas que não planejam ter armas. Por exemplo, mesmo que você não possua uma arma, ainda assim você se beneficiará da percepção de que você ainda pode vir a ter uma, uma percepção que só vai durar enquanto a realidade da posse difusa de armas continuar existindo. O temor de que as pessoas estejam dispostas a reagir é o que mantém os criminosos acuados.

    Uma literatura maciça e detalhada já comprovou, seguidamente, que quanto mais armas uma comunidade possui, menor é a criminalidade que essa comunidade tem de aturar. Os dados são tão devastadores que nenhuma pessoa sensata poderia negá-los. (A “planilha de fatos das armas de fogo” deveria estar na lista de favoritos de cada ser pensante). Por que, então, o lobby desarmamentista continua a dizer que as restrições às armas são a chave para diminuir a criminalidade?

    Um livro altamente elogiado pelos desarmamentistas — o Arming America: The Origins of a National Gun Culture, escrito por Michael A. Bellesiles, professor da Emory University — foi inteiramente desacreditado por ser baseado em fatos fajutos — para não dizer fraudulentos —, e o autor foi forçado a se demitir de seu posto. Bellesiles tentou contestar a sabedoria convencional e argumentou que no período colonial os americanos tinham poucas armas e muitas delas não funcionavam. (Joe Stromberg já refeutou devidamente tal asserção).

    Ele parecia não estar ciente de que a Revolução Americana foi originada por uma tentativa de desarmamentistas britânicos de confiscar armas americanas em Concord. Na batalha de Lexington e Concord, esses americanos supostamente mal armados de alguma forma conseguiram infligir 273 baixas no mais bem treinado exército do mundo, os Redcoats.

    Um bom antídoto para o livro de Bellesiles é o livro Guns and Violence, escrito por Joyce Lee Malcolm, professor de história do Bentley College. Malcolm argumenta que na Inglaterra a taxa de crimes violentos vinha declinando por séculos à medida que mais armas iam se tornando disponíveis. Foi só começarem a aprovar leis anti-armas e a taxa começou a subir.

    Já um estudo do economista John R. Lott, Jr. — Ph.D. e autor dos livros Mais Armas, Menos Crimes e O Preconceito Contra as Armas — mostra que em 1985 apenas oito estados tinham leis que permitiam às pessoas andarem armadas livremente — as leis permitiam que uma pessoa automaticamente conseguisse uma licença, desde que ela tivesse seu histórico aprovado e completasse um curso de treinamento. Atualmente existem quarenta estados que apresentam alguma versão dessas leis. O exame que Lott fez dos dados mostrou que “de 1977 a 1999, os estados que adotaram leis que permitiam o porte livre de armas apresentaram uma queda de 60% nos ataques contra indivíduos e uma queda de 78% nas mortes em conseqüência de tais ataques”.

    Já é hora de a orientação ideológica desses confiscadores de armas ser examinada mais minuciosamente. Observe que a teoria deles sobre a posse de armas não aparece isolada; ela é parte de um pacote maior, um pacote de crenças políticas sobre o papel do governo na sociedade. Quase sem exceções, eles defendem toda a agenda estatista típica do politicamente correto. O que eles querem não é uma sociedade desarmada, mas uma sociedade onde o governo tem o monopólio da posse de armas.

    O que nos leva ao dia 11 de setembro de 2001. Nesse dia, descobrimos que todo o aparato de $400 bilhões do governo federal dos EUA não foi capaz de proteger os americanos contra um catastrófico ataque terrorista, ao passo que uns poucos revólveres nas cabines de comando dos aviões — medida essa que há muito havia sido desencorajada pela polícia federal americana — poderiam ter salvado o dia. E, apesar disso, a idéia de que pilotos tenham permissão para estar armados contra invasores ainda é controversa, após quase 7 anos e duas guerras sangrentas que já mataram muitos milhares.

    O propósito principal da Segunda Emenda é fornecer a todos os cidadãos os meios para se defenderem contra a tirania governamental. No século XX, muitos governos por todo o mundo mataram milhões de seus próprios cidadãos, que estavam desarmados espontânea ou compulsoriamente. Isso ocorreu na União Soviética, na Alemanha Nazista, na China Comunista, na China Nacionalista, no Camboja, na Coréia do Norte, em Cuba e em vários outros lugares.

    Nesse quesito, devemos ser muito gratos ao que restou do livre mercado de armas, que tornou possível às pessoas responderem à ameaça de regulamentação de armas comprando e estocando. Se realmente valorizamos a liberdade e a segurança, precisamos não de mais restrições sobre a propriedade privada, mas da revogação das restrições existentes. E com os recentes eventos no Iraque, já deveria estar claro que o congresso precisa aprovar restrições muito severas é na liberdade de burocratas e políticos belicistas adquirirem e usarem armas.

    O perigo para a existência de uma sociedade livre não está nas armas em posse dos cidadãos, mas em um governo que é livre para agir, especialmente um que está mais bem armado do que o povo. Uma sociedade armada é uma sociedade autônoma e independente, assim como um povo desarmado está vulnerável a poderes arbitrários de todo tipo.

    Cidadãos armados resultam em menos crime e mais segurança, e ainda faz com que o governo seja constantemente lembrado de que seus burocratas não são os únicos com poderes.

    E é exatamente por isso que a matança horrível e sem sentido ocorrida em abril de 2007 na Universidade de Virginia Tech serviu para reforçar esse sentimento inquietante ao qual muitos americanos se acostumaram após o 11 de setembro: o sentimento de que o governo não pode protegê-los. Não importa quantas leis sejam aprovadas, não importa quantos policiais ou agentes federais sejam colocados nas ruas, um indivíduo ou um grupo de indivíduos decididos ainda podem causar grandes danos. Talvez o único bem que ainda pode advir dessa matança terrível é um reforço na compreensão de que nós como indivíduos é que somos responsáveis por nossa segurança e pela segurança das nossas famílias.

    Apesar de o estado da Virginia de fato permitir que indivíduos possam portar armas ocultas caso eles tenham antes obtido uma licença, os campi universitários do estado estão especificamente excluídos dessa lei. A Virginia Tech, assim como todas as outras faculdades da Virginia, são zonas livres de armas, ao menos para civis. E como pudemos ver, não importou quantas armas a polícia tinha. Apenas os indivíduos presentes na cena poderiam ter impedido ou ao menos diminuído a tragédia. A proibição de armas no campus fez com que os estudantes da Virginia Tech ficassem menos seguros, e não mais.

    Você se sentiria seguro se pusessem um aviso na frente da sua casa dizendo: “Essa casa é uma zona livre de armas, seus moradores NÃO possuem arma de fogo”? Cidadãos cumpridores da lei poderiam ficar satisfeitos com tal aviso, mas para criminosos ele seria um convite irresistível. Aliás, por que será que ninguém entra atirando nas reuniões da National Rifle Association?

    Também de acordo com John Lott, antes de 1995 era permitido a professores levar armas para as universidades em vários estados e “a erupção de tiroteios estudantis nas escolas começou em outubro de 1997, na cidade de Pearl, Mississipi, após a proibição”.

    Já dá pra ouvir a gritaria: “E se um professor for psicótico e decidir atirar nos seus alunos?” Ora, se um professor for emocionalmente instável não há absolutamente nada que o impeça de levar uma arma para a universidade e cometer este ato covarde e patético hoje.

    Ademais, se tivéssemos um livre mercado para a educação, aqueles pais que não confiassem em professores armados mandariam seus filhos para escolas livres de armas e aqueles que sentissem que uma escola com professores armados pudesse fornecer um ambiente mais seguro iriam recompensar com seu dinheiro as escolas que oferecessem esse serviço. O treinamento e a avaliação dos professores poderiam ser feitos por instituições do setor privado.

    É válido também mencionar que Israel e Tailândia têm sido citados como exemplos de como armas nas escolas podem salvar vidas.

    A tragédia da Virgina Tech pode não necessariamente levar a mais controles e regulamentações sobre a venda de armas, mas provavelmente irá levar a mais controle sobre as pessoas. Graças à mídia e a muitos funcionários do governo, as pessoas ficaram acostumadas a ver o estado como seu protetor e como a solução para todos os problemas. Sempre que algo terrível acontece, principalmente quando se torna notícia nacional, as pessoas reflexivamente exigem que o governo faça alguma coisa. Esse impulso quase sempre leva a leis ruins e à perda de mais liberdade. Isso está em completo desacordo com as melhores tradições individualistas, como a auto-confiança e a austeridade.

    Será que realmente queremos viver em um mundo repleto de postos policiais, câmeras de vigilância e detectores de metal? Será que realmente acreditamos que o governo pode fornecer segurança total? Será que queremos involuntariamente encarcerar todo indivíduo descontente, perturbado ou alienado que tenha fantasias sobre violência? Ou será que podemos aceitar que a liberdade é mais importante do que a ilusão de uma segurança fornecida pelo estado?

    É bem possível que o Congresso ainda venha a usar esse evento terrível para tentar implementar mais programas obrigatórios de saúde mental. O estado-babá terapêutico só sabe estimular os indivíduos a se enxergarem como vítimas, e a rejeitar qualquer responsabilidade pessoal por seus atos. Certamente existem doenças mentais legítimas, mas é função de médicos e da família, não do governo, diagnosticar e tratar tais doenças.

    A liberdade não é definida pela segurança. A liberdade é definida pela capacidade que os cidadãos têm de viver sem interferência governamental. O governo não pode criar um mundo sem risco, e nem nós iríamos querer viver em ambiente tão fictício. Apenas uma sociedade totalitária poderia alegar a segurança absoluta como um ideal válido, porque isso iria requerer um controle total do estado sobre a vida de seus cidadãos. A liberdade só tem sentido se ainda acreditamos nela quando coisas terríveis acontecem e um falso manto de segurança governamental nos acena.

    (Fonte)

    Lew Rockwell, James Ostrowski e Ron Paul

    Lew Rockwell é o presidente do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.; James Ostrowski é advogado e mora em Buffalo, New York; Ron Paul é um congressista republicano do Texas e foi candidato à nomeação para as eleições presidenciais de 2008.

  11. O que achou do texto?

    1. Muito bom, apesar de vir de onde vem.

  12. Uma dúvida:
    Se porventura adotarmos esse tipo de sistema, a polícia por acaso deixará de existir ou ela terá um novo papel na sociedade? Quer dizer, se é que ela terá um papel. Bom, não sei.Acho razoável a minha pergunta.

    Não deixo de admitir que esse sistema pode eventualmente dar certo, entretanto tenho lá as minhas dúvidas.Vou reler de novo, e se surgir mais dúvidas, não hesitarei em perguntar novamente, afinal é uma coisa bem ortodoxa.
    Não vou avaliar até saber mais detalhes e raciocinar ponto por ponto.

    1. A polícia nem deixará de existir nem terá um papel muito diferente, Alexandre. Ela continuará a ser um corpo funcional voltado para a segurança pública, com patrulhamento ostensivo e serviço de inteligência. As diferenças serão apenas de ênfase, uma vez que haverá muito menor criminalidade, e de eficiência, uma vez que haverá muito maior disponibilidade de tempo e de recursos para fazer o trabalho de inteligência.

      Ou seja, a mudança seria benéfica para a polícia também.

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