De alguns anos pra cá eu gosto cada vez menos da época de festas de fim de ano. O motivo é bem simples: estas festas há muito tempo foram pervertidas e a cada dia eu tenho menos paciência com a hipocrisia. O Natal tornou-se a festa do consumo. O Ano Novo, a festa da violência. Será que perdemos de vez toda a lucidez e jamais recuperaremos o verdadeiro sentido destas datas?

O Natal, que deveria ser uma festa cristã para celebrar o nascimento da esperança e convidar as famílias, os amigos e as comunidades a se reunirem em ação de graças pela dádiva da vida, foi convertido em um deprimente espetáculo do mais vil  e materialista consumismo.

De acordo com a tradicional mitologia cristã, Jesus nasceu em uma manjedoura porque Maria e José não conseguiram hospedagem em toda a região. Eles foram obrigados a se abrigar em um estábulo e improvisar um berço em um comedouro de animais porque ninguém se incomodou em ajudar e arranjar um lugar para uma viajante grávida prestes a parir.

Manjedoura real

Mas o presépio natalino, símbolo de humildade e convite à reflexão sobre a solidariedade, foi quase totalmente substituído por um palhaço fanfarrão de uma tradição alienígena em que as crianças são chantageadas a ter “bom comportamento” (isto é, obediência dócil) para ter o direito de ganhar presentes.

A Justiça do Papai Noel

O ano-novo foi convertido de dia de confraternização universal em dia de fazer promessas que jamais serão cumpridas e de salve-se quem puder no trânsito, sendo uma das datas em que acontecem mais mortes e mutilações, lotam-se hospitais e arruínam-se vidas. Isso sem falar que o ano-novo é uma das épocas mais violentas do ano em toda a parte.

Quando caminho pelas ruas nesta época, observando o comportamento das (formigas) pessoas alucinadas em busca de brinquedos e geringonças as mais variadas para presentear namorados, pais, filhos, afilhados, tios, sobrinhos, primos, avós, amigos, colegas, o maldito amigo-secreto da empresa, sem falar do “natalzinho” do carteiro, do lixeiro, do entregador de pizza… fico fazendo as contas de quantos bilhões em presentes que vão desde a tradicional cacarecada-inútil-só-pra-não-dizer-que-esqueci até os artigos mais caros tipo olha-o-quanto-gastei-com-você. E acho tudo isso pra lá de deprimente.

Será que precisamos de uma data específica para presentear quem gostamos? Ou para estar com quem gostamos? Ou para ligar para os amigos e dizer que gostamos deles e lhes desejamos tudo de bom?

Por que não damos presentes a quem gostamos no meio do ano, em qualquer data indefinida, pelo simples prazer de presentear?

E por que não aproveitamos o Natal para celebrar o aniversário do sujeito que nasceu nesta data e damos para Ele o presente que Ele quer?

Afinal, um pouco de humildade não custa nada, e aposto que se reuníssemos toda grana que gastamos em lembrancinhas inúteis, ceias luxuosas e bebidas alcoólicas e investíssemos isso em solidariedade, o mundo realmente se tornaria um lugar melhor e todos teríamos sempre um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

O Natal já passou, mas o Ano Novo vem aí. Pense nisso antes de fazer seus votos e resoluções para 2011.

Tudo de bom pra você. 😉

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/12/2010

20 thoughts on “O que festejamos no Natal e no Ano Novo?

  1. Marcos Dias

    26/12/2010 — 09:07

    Na verdade todos percebemos isso, todo natal, mas se acomodamos a isso.
    Quem não lembra de todo natal falar que se deve presentear qualquer epóca do ano ?
    Ou falou que o ano passou rápido ?

    1. Bem, eu sou meio diferente mesmo.

      Às vezes eu vejo algo que um amigo gosta ou que quer fazer e não me importo em gastar alguma grana para deixar esta pessoa contente ou compartilhar alguns bom momentos com ela.

      Outras vezes eu tenho vontade de passear pelas praias ou ir a algum restaurante e gostaria de contar com a companhia de algum amigo ou amiga que alega não ter dinheiro. Entre não fazer o programa, fazer o programa sozinho e pagar tudo, volta e meia eu pago tudo numa boa.

      Agora me pergunta se estas mesmas pessoas fazem o mesmo comigo quando elas tem dinheiro e eu não.

      Isso sem nem falar na solidariedade média que as pessoas tem com os estranhos.

  2. Os homens adoram símbolos e o Natal não passa de um sincretismo religioso com a clara intenção de catequese.

    O Deus,no qual acredito,vive em meu coração e se alegra com minha evolução e se entristece com minhas limitações,mesmo assim me ama.

    Não preciso do Natal para ser feliz ou solidária.

    Gosto da data pela lembrança de quando minha mãe era viva.

    Gosto do Natal porque tenho ótimas lembranças de minha infância.

    Papai Noel existe e é o sentimento amoroso que deixamos aflorar nesta data.

    Pena que a decoração natalina não chegue para os que mais necessitam e que ela fique no domínio dos ricos….dos que não ligam muito para ela.

    Também não preciso de um dia especial para começar qualquer mudança.
    As mudanças podem começar em qualquer momento, basta querer.

    1. Bem-vinda ao clube, mas por enquanto somos uma minoria insignificante.

  3. “eu não preciso de muito dinheiro, graças a deus”, é triste imaginar o quanto o papel e o metal nos deixam cada vez mais nervosos, mais irracionais, mais escravos do nosso emprego,sendo que se olhar-mos ao redor veremos de onde sai o que nos alimenta, tudo que precisamos está muito perto, veremos que o nosso sustento vem da terra que cobrimos de oleo queimado, das arvores que derrubanos, da fauna que excluimos, do afeto que recusamos, e acabamos ficando sozinhos por simples querer… parece que tudo tá ficando facil de mais e isso preucupa… mas é isso aí, vai ficar tudo bem, vamo ver onde nós iremos parar, com todo meu pessimismo, ainda acho que iremos descobrir o que queremos e quem sabe um dia poderemos viajar pelas estrelas para poder dar um pouco de paz e oxigenio para velha terra.

    1. Essa crença de que “vai ficar tudo bem” é absolutamente injustificada, Marcos. Só vai ficar tudo bem se a espécie humana não provocar um colapso climático no planeta. Esse papo de viagem espacial é… bem… “viagem”. 🙂

      Mas estás coberto de razão quanto a dependermos totalmente da Terra.

  4. O Natal é aquilo que fazemos dele. Na minha família ainda mantemos a tradição e montamos o presépio juntos, fazemos orações de agradecimento, trocamos presentinhos (em um dos lugares onde vou no dia 24 – sim, vou a mais de um! – a tradição é fazer as lembrancinhas, o que é muito divertido: pode ser um desenho, uma foto bacana, um cd com músicas que o outro gosta, uma caixinha enfeitada, não importa), etc. Pra falar a verdade, meu Natal começa na noite de 23 e vai até a noite de 25, cada hora celebrando com um grupo diferente. Sim, tem tio vestido de Papai Noel trazendo presentes pras crianças, mas antes essas mesmas crianças também fizeram visitas para entregar presentes em creches e asilos. Não me importo com o ‘consumismo’ do Natal porque, sinceramente, não sou dominada por ele. Curto comprar presentes, embrulhar tudo bem bonito, enviar cartões, telefonar pras pessoas e tudo o mais, mas o verdadeiro espírito do Natal a gente nunca perdeu, e fazemos questão de passá-lo adiante para a meninada que vem chegando.
    No embalo, um ótimo 2011 pra você!

    1. Isso é tão raro, Mônica! Se 1% das pessoas conseguem manter este equilíbrio, já é muito. Mas desejo um ótimo 2011 pra ti e pra toda a tua galera. 🙂

  5. Sabe esse ser alienígena que menciona? Tem orígens igualmente consumistas, foi inspirado em um papa(ou bispo) de sei lá onde, que cultivava esse hábito durante o natal.

    Pois bem, esse cidadão virou uma das idéias mais bem sacadas da Coca-Cola na primeira metade do Século 20 (Não é teoria da conspiração, a roupitcha vermelha e branca tem motivos muito bem fundamentados.

    O fato é que a idéia da Coca-Cola pegou tão bem, que virou mito popular, que hoje faz parte da história da empresa, que tem uma saga não menos folclórica, até virar uma água com gás e açúcar na na mesa de quase todo ocidental civilizado.

    O natal é consumista, mas acredite ou não, esse consumismo tem um culpado definido, que faturou bilhões, ou trilhões com essa singela invenção.

    1. Tá esperando o que pra postar um artigo detalhado sobre isso nos Esquerdos Humanos? 🙂 Olha que é o tipo de artigo que vira referência se for bem explicadinho e tiver moral no final.

  6. Moacir Silva

    01/01/2011 — 08:39

    Ops, hoje já é 1º de 2011, foi quando tropecei neste artigo.

    Só para deixar meu depoimento. Meus planos para 2011 já foram traçados mesmo antes do circo do Réveillon, portanto não precisei nem precisarei de promessas e mandingas para levá-los adiante. Felizmente!

    Sinto pelos que fizeram correntes na areia da praia ou para os que prometeram uma série de coisas diante dos amigos e parentes. Na hora da patuscada todos são otimistas, mas basta o dia seguinte para a ressaca deletar tudo da memória e da consciência.

    Pergunte às crianças: qual a pessoa mais importante do Natal? Tenho certeza que a maioria responderá: Papai Noel. E Jesus? No 2º lugar do pódio. E por que Papai Noel? Ah, porque ele vai trazer presente.

    Bem, ainda dizem que são cristãos! Só se for lá no Polo Norte.

    Saúde e Reflexão para todos!!!

    1. Olá, Moacir! És o Moacir que conversava comigo na comunidade do Alexandre “Cabelo”?

      “Pergunte às crianças: qual a pessoa mais importante do Natal? Tenho certeza que a maioria responderá: Papai Noel. E Jesus? No 2º lugar do pódio. E por que Papai Noel? Ah, porque ele vai trazer presente.”

      Esta é a melhor definição do utilitarismo natalino que eu já li. Não é interessante – e trágico – que a resposta das crianças esteja cada vez mais semelhante à resposta que qualquer comerciante cínico daria?

      No réveillon eu vejo gente que se diz “totalmente católica” vestir somente roupas brancas, pular sete ondas na praia e guardar sete lentilhas na carteira, entre outras superstições que certamente seriam descritas pelo próprio Cristo como abominação e idolatria. Mas quem se importa? Se eu falar nisso, serei o chato e o desmancha-prazeres. Dane-se a coerência, é hora de festa.

      Recentemente eu passei a me referir às histórias bíblicas do Antigo Testamento como “mitologia judaica” e às do Novo Testamento como “mitologia cristã”. Isso foi bastante libertador.

      Agora estou pensando seriamente em adotar alguma terminologia como “festa comercial de fim-de-ano” para designar o Natal. Vou passar por chato e desmancha-prazeres, mas vou me sentir bem melhor por não compactuar com a hipocrisia.

      Só vai faltar bolar um nome razoável para a Páscoa. Talvez “festa do coelho ovíparo”?

  7. De fato, viraria um artigo do caralho. Mas li esse artigo tem mais de dez anos em um especial da Super Interessante, dedicado à contar a história da Coca Cola. Reencontrar a referência atualmente é quase impossível.

    pra se ter uma idéia de como começou, a Coca Cola, quando começou a ser comercializada, era vendida principalmente em farmácias como remédio para dores de cabeça, artrite, nevralgia, entre uma pilha de benefícios (coisa comum naquela época em que praticamente todo caixeiro viajante tinha um remédio milagroso na maleta e não e não existiam leis de defesa do consumidor).

    Ela virou um refrigerante num belo dia em que um pião chegou numa farmácia com dor de cabeça, pediu uma Coca-Cola pra amenizar, mas mandou o farmaceutico misturar com Água com Gás pra mudar o gosto. Aí foi inventada a marca que provavelmente é a mais cobiçada por qualquer mega empresário ao redor do globo.

    Durante a guerra do Vietnã, a Coca, como medida pra reforçar a marca, vendia garrafas a 1 centavo a soldados americanos.

    Bom, achando a referência escrevo a bagaça e ponho no ar.

    Vou mandar um e-mail pra Abril, de repente me cedem o artigo.

    E só pra não fugir ao clichê. Feliz ano novo, muita felicidade, saúde e sucesso.

    1. Pensei que viraria um artigo do Danilo… 😛

      Mas é isso aí, FELIZ 2011, muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender. (Impresionante como tudo gira em torno da mesma coisa, até as musiquinhas mais banais…)

      Abração, velhinho!

  8. Bom. Achei referências na Wikipédia que contradizem, em parte, o que eu disse, atribuindo a imagem do Papai Noel a outro autor, mas mencionando que de fato a Coca Cola e sua campanha publicitária contribuiu de maneira decisíva pra difusão dessa cultura. Acompanhe:

    É amplamente divulgado pela internet e por outros meios que a Coca-Cola seria a responsável por criar o atual visual do Papai Noel ou Pai Natal (roupas vermelhas com detalhes em branco e cinto preto)[2], mas é historicamente comprovado que o responsável por sua roupagem vermelha foi o cartunista alemão Thomas Nast[3], em 1886 na revista Harper’s Weeklys.
    Papai Noel ou Pai Natal até então era representado com roupas de inverno, porém na cor verde, tipico de lenhadores[carece de fontes]. O que ocorre é que em 1931 a Coca-Cola realizou uma grande campanha publicitária vestindo Papai Noel ou Pai Natal ao mesmo modo de Nast[carece de fontes], com as cores vermelha e branca, o que foi bastante conveniente, já que estas são as cores de seu rótulo. Tal campanha, destinada a promover o consumo de Coca-Cola no inverno (período em que as vendas da bebida eram baixas na época), fez um enorme sucesso[carece de fontes] e a nova imagem de Papai Noel ou Pai Natal espalhou-se rapidamente pelo mundo. Portanto, a Coca-Cola contribuiu para difundir e padronizar a imagem atual, mas não é responsável por tê-la criado.

    O link é este aqui

    Divirta-se.

    A quem dar crédito, não sei. Se a super interessante, ou ao autor da matéria da wikipédia. Mas enfim, fica a curiosidade.

    1. Faz sentido que no princípio Papai Noel se vestisse como lenhador, visto que esta é uma das principais atividades econômicas da região onde ele supostamente viveria. Interessante é o alcance da nova imagem do Papai Noel.

      Genial teres pesquisado. 🙂

  9. Outro artigo que menciona a história da Coca Cola junto da difusão (não criação) do Papai Noel. Cliquem aqui

    Esse, em especial, fala sobre a Coca Cola, e não necessariamente o natal.

    Ambos os links separei de forma a entrar diretamente na parte do post da wikipédia em que as informações se cruzam.

    1. Faltou colocar o link.

  10. http://pt.wikipedia.org/wiki/Coca_cola#Coca-Cola_e_o_Papai_Noel_.2F_Pai_Natal

    O link é esse, na postagem anterior digitei errado a AgáTêÊmeÉle.

    Divirta-se lendo a cronologia da empresa.

    Eu pretendia fazer um artigo com o que sugeriu, mas lendo esse, acabei tendo outra idéia relacionada a sua sugestão.

    1. Avisa aqui se postares algo a respeito!

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