Volta e meia alguém feminista me aparece com uma defesa do pretenso “direito” da mulher de matar um ser humano inocente e indefeso que ela mesma trouxe ao mundo e que por irresponsabilidade e egocentrismo ela considera um estorvo. A bola da vez foi um link que me mandaram com um argumento pra lá de esdrúxulo que não se sustenta perante a mais elementar análise lógica.

Eu conheci o argumento do violinista no blog Dúvida Metódica, dos professores de filosofia Sara Raposo e Carlos Pires, da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, da cidade de Faro, Portugal. Espero que o objetivo deles ao apresentar tal argumento a seus alunos tenha sido debater as falhas que o invalidam, porque isso é o que eu farei a seguir.

Vejamos então o argumento do violinista tal como foi apresentado no blog Dúvida Metódica:

A filósofa norte-americana Judith Jarvis Thomson (n. 1929) escreveu, em 1971, um artigo “Uma defesa do aborto”, onde propõe ao leitor a seguinte situação imaginária (o que em Filosofia designamos como experiência mental):

«De manhã acorda e descobre que está numa cama adjacente à de um violinista inconsciente – um violinista famoso. Descobriu-se que ele sofre de uma doença renal fatal. A Sociedade dos Melómanos [dos apreciadores de música] investigou todos os registos médicos disponíveis e descobriu que só o leitor possui o tipo de sangue apropriado para ajudar. Por esta razão os melómanos raptaram-no e, na noite passada, o sistema circulatório do violinista foi ligado ao seu, de modo a que os seus rins possam ser usados para purificar o sangue de ambos.

O director do hospital diz-lhe agora: “Olhe lamento que a Sociedade dos Melómanos lhe tenha feito isto – nunca o teríamos permitido se estivéssemos a par do caso. Mas eles puseram-no nesta situação e o violinista está ligado a si. Caso se desligasse matá-lo-ia. Mas não se importe, porque isto dura apenas nove meses. Depois ele ficará curado e será seguro desligá-lo de si”.

De um ponto de vista moral, o leitor teria a obrigação de aceitar esta situação? Não há dúvida de que aceitá-la seria muito simpático da sua parte, constituiria um gesto muito generoso. Mas teria de aceitá-la?»

Como responderia o leitor?

Considera que o facto de admitirmos o direito do feto à vida significa que o aborto não é moralmente permissível?

Espero que fique claro que os autores daquele blog se limitam a fazer perguntas porque o objetivo do blog é didático e os professores querem que seus alunos aprendam a pensar por conta própria e argumentar com seus próprios recursos. A ausência de posicionamento no artigo deles é proposital, é condizente com os objetivos do blog e não constitui uma falha.

Para entrar no espírito da coisa e ser fiel ao objetivo dos professores, eu decidi escrever este artigo assim que conheci o argumento, sem ler quaisquer comentários ou análises certamente já existentes e disponíveis na internet. Espero, portanto, repetir involuntariamente muito do que já deve ter sido dito por aí. Na verdade, ficarei bastante frustrado se isso não acontecer.

Agora vamos ao que interessa.

Análise da estrutura lógica da fábula

O que esta fábula pretende é justificar um pretenso “direito de escolha” da mulher sobre a interrupção de uma gravidez indesejada. Entretanto, o argumento é falho porque a metáfora não possui a necessária equivalência entre a situação dos personagens da fábula e a situação de uma gestante, a não ser que ela tenha sido estuprada.

Vejamos:

A fábula traz apenas dois agentes: a Sociedade dos Melômanos, que gera a situação de conflitode interesses entre o violinista e o leitor, e o próprio leitor, que decide sobre a resolução do conflito. O violinista não tomou qualquer decisão nem tem como se comunicar para opinar.

A situação de uma mulher que engravida devido a um estupro traz os mesmos dois agentes: o estuprador, que gera a situação de conflito entre o feto e a vítima do estupro, e a própria vítima do estupro, que decide sobre a resolução do conflito. O feto não tomou qualquer decisão nem tem como se comunicar para opinar.

A situação de uma mulher que engravida devido a relações sexuais voluntárias só tem um agente: ela mesma, que gerou a situação de conflito de interesses entre si e o feto, e que pretende ter o direito de resolver tal situação jogando as conseqüências de suas ações sobre outro ser humano, que não tomou qualquer decisão nem tem como se comunicar para opinar.

Esta fábula, em conseqüência, só serve como metáfora nos casos de estupro, visto que é o único caso em que ocorre adequada correspondência de papéis do agressor (Melômanos/estuprador), da vítima da violência (leitor/mulher estuprada) e do desafortunado sem possibilidade de opinar (violinista/feto).

No caso de uma mulher que engravida devido a relações sexuais voluntárias, portanto, o “argumento do violinista” não tem correspondência lógica, não representa uma situação semelhante e não pode ser usado para que dele se extraia qualquer princípio pertinente.

Isso do ponto de vista estritamente lógico.

Existe [pelo menos um] outro ângulo de análise que torna as coisas bem piores.

Análise dos pressupostos morais da fábula

Vejam que a tal filósofa constrói a situação de conflito vitimizando o leitor com o recurso a um crime violento, o seqüestro:

(…) “Por esta razão os melómanos raptaram-no e, na noite passada” (…)

Ora, se a tal filósofa que inventou a fábula pretende que haja equivalência entre a situação do leitor na fábula e a de uma gestante que engravidou devido a relações sexuais voluntárias, então, das duas, uma:

– ou ela acha que o feto rapta a mulher e que isso dá à gestante o “direito de escolha” de matar um “agressor” como se fosse uma “legítima defesa”, o que é uma alegação de uma sordidez imensa, além de totalmente incorreta;

– ou ela tem que conceder logicamente que quem gera tal conflito comete um crime, devendo portanto ser responsabilizado por suas ações. (Que suave “pena” ter que cuidar de uma criança que a amará incondicionalmente e a chamará de “mãe”.)

Ora, é evidente pela contextualização emocional que a autora da fábula pretendia que o leitor repudiasse a responsabilidade de passar nove meses preso a um leito hospitalar para salvar a vida de um estranho.

E é evidente pelo título da fábula que a autora pretendia estabelecer um paralelo entre a situação do leitor e a situação de uma gestante que alegasse ter uma gravidez indesejada para justificar a legitimidade de um aborto.

Portanto, necessariamente há que se descartar a segunda entre as alternativas citadas e reconhecer que a autora pretendia com seu argumento vitimizar a mulher e não responsabilizá-la.

Isso nos conduz à conclusão necessária de que o argumento do violinista é “uma alegação de uma sordidez imensa, além de totalmente incorreta”.

Proposta de um novo experimento mental

Vamos supor que o violinista não estivesse incosnciente, mas apenas incapaz de se mover e de se comunicar, embora pudesse ouvir, sentir e compreender tudo a sua volta.

O leitor, ao final da explicação do médico, diz que não tem qualquer vínculo emocional com o violinista, que não se sente responsável pela vida dele e que tenciona desligar-se dele para seguir sua própria vida.

Neste momento o médico, que sabia que o violinista estava consciente, tira do bolso do jaleco uma seringa e injeta nele um medicamento. Quase imediatamente o violinista recupera os movimentos e senta-se na cama, enquanto o leitor desaba paralisado mas consciente.

Então o médico diz o seguinte ao violinista:

“O medicamento que lhe injetei só pode manter sua capacidade de movimento e de comunicação por cinco minutos antes de perder o efeito, depois disso a paralisia voltará e uma nova dose não funcionará.

Infelizmente, o efeito deste medicamento em uma pessoa saudável é o exato oposto do efeito em uma pessoa com sua doença. Como o sistema circulatório de vocês dois está ligado, a pessoa da qual depende sua vida não poderá lhe responder, embora esteja ouvindo tudo que você disser.

Você tem uma única oportunidade de cinco minutos para tentar convencer esta pessoa a salvar sua vida, aproveite bem este tempo.”

Na fábula de Judith Jarvis Thomson você era o leitor.

Agora você é o violinista.

Você tem uma única oportunidade de cinco minutos para colocar-se mentalmente na situação do violinista, imaginar o que ele deve sentir ao ouvir a explicação do médico e a decisão e as justificativas do leitor e argumentar para tentar reverter a decisão do leitor e salvar a própria vida, então aproveite bem este tempo.

Depois corra para a caixa de comentários do Pensar Não Dói e descreva o que você sentiu e como argumentou para tentar salvar sua vida.

O cronômetro já está ligado.

Tic… tac… tic… tac… tic… tac…

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 28/12/2010

81 thoughts on “Aborto: o argumento do violinista (parte 1)

  1. A idéia central do texto para reflexão (violinista) é interessante, mas deixam algumas ressalvas e dúvidas. Ele sim, ao contrário do comentador (athur) é um texto reflexivo de cunha argumentativo, pois queira ou não queira, somos um “parasita” no sentido de dependencia e vivencia em outro, na espera de sua autonomia. O problema encontra-se também no fato de a estuprada, gerar o filho e o estuprado ter o direito de dar o sobrenome ao filho, (lei Nascituro) e provavelmente poderá vê-lo. Vamos lha analogias ou fabulas: Você tem uma filha de 15 anos, é estuprada por um homem de 30, recebe o sobrenome dele, legal. Imagine nas escolas? Faculdade? É facil defender, sendo homem, ou não tendo responsabilidade sob a pessoa, grávida. Ou em outras circunstancias existe uma carreira, metas, e futuro, que foram trocados por um gravidez não desejada. Defendo o direito consciente de escolher.

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