Quem acompanha o Pensar Não Dói sabe que eu gosto de resolver problemas e que sou adepto de “Soluções Radicais”: ou é pra resolver, ou não é pra resolver. Mas volta e meia alguém me pergunta: “e na sua vida pessoal, você resolve seus problemas com soluções radicais?” ou “você acha que todo mundo deve resolver seus problemas de modo radical?” As respostas são “sim” e “sim”.

Em primeiro lugar, é necessário entender que “resolver um problema” é bem diferente de “dar uma melhorada na situação”. Eu sei que às vezes é necessário primeiro dar uma melhorada na situação para depois poder resolver um problema, mas o foco tem que ser a busca de uma solução ou acabamos gastando muito mais energia em procrastinação, isso quando não sofremos danos muito maiores.

Em segundo lugar, é necessário entender que “solução radical” é bem diferente de “idéia ou atitude extremada que não se aceita questionar ou reavaliar”. Trata-se na verdade de ir até a raiz do problema ao invés de adotar um paliativo após o outro. Isso não quer dizer que os paliativos sejam inúteis, mas que eles devem ser usados somente como estratégia para tornar uma situação mais gerenciável para que então se possa implementar uma solução realmente eficaz, sob pena de piorar a situação cada vez mais.

Por exemplo, imagine que um belo dia você acorda no meio da noite com uma baita dor de dente, daquelas de ver estrelinhas. Você olha no relógio, são duas horas da madrugada. Você não tem como resolver o problema naquele momento, mas tem como melhorar a situação até as oito horas da manhã para então procurar uma solução definitiva. Você utiliza um paliativo, neste caso uma dose generosa de um antiinflamatório mais um analgésico, consegue dormir o resto da noite e de manhã procura um dentista.

Se, todavia, você acordar de manhã ainda sem dor e por isso resolver procrastinar a busca de uma solução definitiva, provavelmente a dor vai voltar. Se ela voltar no meio da noite seguinte, você estará novamente na mesma situação e provavelmente tomará mais antiinflamatório e mais analgésico. Pode ser que isso funcione novamente por mais uma noite, ou mesmo por várias noites, mas o problema que causou a dor não foi resolvido e deve estar causando um estrago cada vez pior, mais difícil de tratar, mais dispendioso e quiçá mais dolorido, isso sem falar dos problemas adicionais que podem ser gerados pela utilização excessiva de antiinflamatórios e analgésicos.

Dar uma melhorada na situação quando não se pode resolver o problema naquele momento só deve ser feito quando realmente não se dispõe de uma solução que incida imediatamente sobre as raízes do problema, caso contráro torna-se um hábito e nossa vida se perde no meio da procrastinação.

Portanto, lembre-se:

“Solução radical” é um pleonasmo.

Se uma solução não é radical, então não é sequer uma solução.

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Uma década de morte em vida

Imagino que você concorde conceitualmente que “paliativos não são soluções”, que “soluções efetivas devem incidir sober as raízes dos problemas” e que “aquilo que sempre se faz vira hábito”. Imagino que o exemplo da dor de dente seja bastante esclarecedor e que você o tenha compreendido completamente. Mas o meu objetivo com este artigo não é apresentar conceitos para debate teórico nem tampouco angariar comentários sobre a extensão em que o exemplo escolhido é aplicável em outras situações.

Meu objetivo com este artigo é dar um chute no seu traseiro para que você acorde, se mexa, saia de sua zona de conforto, faça o que tem que fazer e não perca preciosos anos ou décadas de sua vida para aprender o que eu tive que aprender do pior jeito.

Eu perdi dez anos da minha vida procrastinando o momento de pedir demissão de um serviço que não me traz realização profissional, que não me dá o retorno financeiro que eu quero e que me rouba tanto a saúde quanto o tempo de fazer as coisas que eu realmente quero fazer. Nenhum paliativo pode tornar tolerável e muito menos satisfatório ou recompensador viver deste modo.

De melhorada em melhorada na situação, eu comprei um carro para poder viajar com conforto e liberdade, comprei um computador para curtir inúmeras horas de lazer na internet e comprometi meu salário em diversos “itens de conforto”, desde TV a cabo até mensalidades de uma academia que abandonei antes de completar um mês de freqüência, mas minha vida continuava cada vez mais insatisfatória.

A única maneira de ver uma luz no fim do túnel foi tomar a decisão radical de mudar drasticamente de estilo de vida, reassumir as rédeas da minha determinação e meter-lhe as esporas nos flancos para romper o marasmo degererante que estava transformando minha vida em uma confortável porém morna e insossa perambulação entre insignificâncias à espera do envelhecimento e da morte.

Dramático? Não.

Dramático seria continuar daquele jeito e naquele ritmo até um dia – tarde demais – perceber que tinha desperdiçado minha vida agarrado à enganadora segurança de um salário medíocre ao final de cada mês.

Dramático seria aniquilar minha dignidade do meu amor-próprio, permitindo que algum quadrúpede travestido de gente tenha mais poder sobre a minha vida profissional que eu mesmo.

Dramático seria “deixar a vida me levar”, que é a forma mais medíocre de se tornar infeliz e desperdiçar a vida que Deus nos deu.

Vou contar essa história aqui no blog ao longo dos próximos artigos, desde quando comecei a perder o rumo, duas décadas atrás, passando por um longo período de vida perdida, em especial os útimos dez anos, até quando comecei a me recuperar e reassumir o controle da minha vida, uma tarefa que ainda não está completa.

Espero que você aprecie conhecer a minha jornada e que tire dela alguma lição útil para sua vida. Em especial eu espero contribuir para que, se você não está satisfeito com os rumos de sua vida, você tome alguma decisão radical e bem pensada em busca de felicidade e realização.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 1°/01/2011

20 thoughts on “Uma lição da minha vida para você

  1. Feliz ano novo, Dom Arthur! Vou ser seu leitor em “Soluções”! Concordo com a definição de pleonasmo para o conceito de solução radical! Bom exemplo! Bem achado! Boa retórica! Que dê bons frutos! Desenvolvo o conceito do “Já” e o expresso sinteticamente no Cágado
    http://romacof.wordpress.com/2010/12/31/duvidas-e-certezas-e-votos-de-fim-de-ano/ .
    Saudações.

    1. Feliz 2011, Romacof!

      Grato pelos elogios. Fiquei me sentindo a última bolachinha recheada do pacote. 🙂

      Falar de mim mesmo foi uma decisão difícil de tomar, mas já estava na hora de lavar um pouco de roupa suja em público. 😛

  2. Eduardo Marques

    01/01/2011 — 20:11

    Feliz ano novo, antes de tudo.

    Fiquei curioso p/ conhecer sua história. Vou confessar que não gostei de vc ter escrito esse texto enorme só p/ anunciar isso.

    1. Obrigado, Eduardo!

      Feliz 2011 pra ti também!

      Mas eu não escrevi tudo isso só pra anunciar que falaria de mim! Eu já postei a lição de que trata o título do artigo, ele até poderia terminar nas letrinhas vermelhas. O resto é um “plus a mais”, claro que para deixar o leitor interessado nos artigos seguintes… 🙂

  3. Parabéns pela coragem, Arhtur.

    Estou numa situação parecida com a que você estava. Trabalho há cinco anos num emprego que me dá a sensação de estar desperdiçando meu tempo a cada expediente que se encerra. Já pensei em adotar uma solução “radical”, mas ponderei sobre outras coisas que estão em jogo.

    Mas independente disso tudo, acredito que 2011 será o melhor ano da minha vida, assim como foi 2010. Assim também desejo pra você.

    1. Sai correndo deste emprego, Teles!

      Há dez anos atrás eu também “ponderei sobre as outras coisas que estão em jogo” e resolvi não rasgar o maldito telegrama. Em conseqüência eu perdi uma década de vida.

      A gente sempre “vai levando” até a situação se tornar insuportável. Só que aí já perdemos um enorme tempo de vida que poderia ter sido bem melhor vivida.

      É possível que saias deste emprego e entres em uma fria? É. Mas o que é uma fria para quem já está em uma gelada?

      Não recomendo simplesmente chutar o pau da barraca e jogar uma torta de merengue na cara do chefe na frente de toda a equipe, claro. Mas recomendo enfaticamente tomar a decisão de ser feliz, sair da zona de conforto e tratar de fazer o que é necessário fazer em busca deste objetivo.

      Se teu emprego não te deixa realizado, se não tens gosto pela atividade que desempenhas, então não há salário que compense o desgaste emocional de fazer coisas e obedecer ordens, horários e regras para as quais não vês sentido.

      Reserva um tempo para pensar o que gostarias de fazer, traça um objetivo e vai atrás dele. Vai lá e faz. Não deixa pra depois, não espera a fruta ficar madura para colher ou ela estará podre na hora de comer.

      Eu descobri que, se a gente espera tempo demais para realizar um sonho, quando finalmente o realizamos pode acontecer de nos sentirmos frustrados por acharmos que ele não valeu todo o tempo e esforço que gastamos para concretizá-lo. Portanto, temos que realizar nossos sonhos logo. (Isso também vai aparecer nos artigos seguintes.)

      Não procrastina.

      Pensar Não Dói, mas agir é necessário. 😉

  4. Achei extraordinária a máxima da definição do pleonasmo da “solução radical”. Concordo com você, as soluções tem de englobar tudo, senão é uma simples procastinação. Elas nem sempre são fáceis e podem doer, por isso são, muitas vezes, adiadas, mas no final as consequências são geralmente piores.
    Parabéns pelo post, seu blog é, realmente, uma fonte de inspiração!
    Bj
    Adri

    1. Muito obrigado, Adriana. Mas o que há de errado com o link do teu blog? O blogspot diz que esse blog não existe. Posta o link certo pra gente poder visitar o teu blog!

  5. Manga-Larga

    02/01/2011 — 21:52

    Se eu escrevesse tudo que me passa pela cabeça, certeza que teria um blog da metade do tamanho do seu. Mas eu gostaria de saber que meus dígitos não são em vão, por isso gasto algumas teclas pra me expressar. Não pare. Se quiser. Se quiser pare. No fim, não faz diferença. Mas pra mim faz!

    1. “Se eu escrevesse tudo que me passa pela cabeça, certeza que teria um blog da metade do tamanho do seu.”

      HAHAHAHAHA!!! O pessoal anda se esmerando pra ser criativo nos elogios. 🙂

      Valeu, camarada. Bom 2011! 😉

  6. És feliz,já sabes o que fazer.
    Milhares de pessoas nem desconfiam.

    1. Sei como fazer. 😉

  7. Adoro o seu blog. Leio quase todos os dias.
    Acho que vc tem uma escrita muito direta e coerente.
    Estou ansioso para ler o que vc vai escrever sobre sua vida.
    E a respeito de mudanças radicais eu penso que todas as escolhas na vida são baseadas no seguinte julgamento: o custo de mudar e o custo de manter.
    As vezes converso com amigas que reclamam horrores dos namorados/maridos/etc, mas não mudam a situação. Geralmente é porque o custo pra mudar (inclusive no aspecto financeiro) e muito maior do que o custo pra manter.
    Enfim é isso.
    Abraços e fica com Deus!
    Robson / SJCampos

    1. Robson, obrigado pelas visitas freqüentes, espero te ver mais vezes na caixa de comentários! 🙂

      A minha história não é de outro mundo, espero não ter gerado excesso de expectativas, mas resolvi escrever sobre mim apenas para ilustrar a importância de tomar decisões que incidam sobre a raiz dos problemas ao invés de empurrar com a barriga as decisões importantes.

      Estive atarefadíssimo esta semana, mas acho que logo vou conseguir postar os artigos desta série.

  8. Arthur, adoro seu blog, sou leitor assíduo desde que descobri sua existência. xD
    Me identifico demais com o que vc escreveu nesse post…na verdade não eu, mas meu pai. Há anos eu sei que ele não está nem um pouco feliz com a vida que está levando. Vou mostrar esse post a ele (entre outros), tenho certeza que será algo pra motivá-lo a mudar de vida também.
    Grande abraço, continue o ótimo trabalho que faz nesse blog!

    1. Obrigado, Victorzito. Espero que este artigo e os próximos da série possam ajudar. Estou há semanas procrastinando a postagem de um artigo sobre procrastinação que quando sair deve deixar claro por que não devemos adiar decisões importantes em nossas vidas. Tomara que isso inspire teu pai a buscar fazer as pazes com a vida.

  9. Arthur,

    Não quero perder a oportunidade de dizer que seu blog é interessantíssimo e, esse post em especial, me marcou de forma muito forte. Estou num momento divisor de águas e suas palavras contribuíram de forma muito rica pra abrir os meus horizontes na tomada de decisão. Espero, um dia, poder contribuir de alguma forma também para melhorar a vida das pessoas e da sociedade como um todo!

    1. Obrigado, Juliana. Tu não podes imaginar o quanto me deixa realizado saber que contribuí para alguém tomar coragem, sair de sua zona de conforto e partir em busca de algo melhor para si e para terceiros. Busca concretizar teus sonhos sem medo e sem desistir, porque de outro modo é da vida que terás desistido.

  10. arthur sua escrita é precisa e muito segura ,muito obrigado!acho que vc semeia muito bem a luz de esperança e dá aquele empurrãozinho necessário aos que tinham se acomodado!eu era um desses e agora encontrei nas suas documentações um norte muito importante para seguir,mais uma vez muitíssimoobrigado mesmo!!!

    1. Muito obrigado, William! E boa sorte! 🙂

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