Não há “valores culturais” que superem o valor de uma única vida humana. Estudar as diferentes culturas é interessante para compreendê-las e para melhorá-las, mas não há o menor sentido em preservar culturas que geram sofrimento desnecessário.

Que se dane a cultura dos grupos que enterram crianças vivas, que se dane a cultura dos grupos mutilam a genitália de adolescentes, que se dane a cultura dos grupos que apedrejam até a morte as pessoas que “ousaram” amar alguém “não autorizado”. São as pessoas que precisam ser protegidas, não as convenções bárbaras que elas herdaram e que continuarão desgraçando as próximas gerações.

Fatos interessantes:

– Se eu acho algo bom, então eu quero isso para mim. Se eu acho algo ruim, então eu não quero isso para mim.

– Os adeptos do relativismo cultural, que dizem que todas as culturas têm seu próprio valor e merecem igual respeito, jamais migram para viver entre as culturas bárbaras que defendem.

– Os demais indivíduos que vivem sob as culturas mais avançadas, tanto quanto os relativistas culturais, jamais migram para viver entre as culturas bárbaras que os relativistas culturais defendem.

– Os membros das culturas com convenções bárbaras, por sua vez, quando podem, freqüentemente migram para fora de seus ambientes culturais originais, porque comparam e preferem outras culturas.

– E os membros das culturas com convenções bárbaras, quando migram para ambientes com culturas mais avançadas, jamais se tornam relativistas culturais, muito antes pelo contrário, freqüentemente tentam modificar a situação de seus desgraçados companheiros de cultura bárbara.

Conclusões:

1) Pimenta no olho alheio é colírio.

2) Que se danem as culturas bárbaras, quem merece proteção é o ser humano.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 22/02/2011

24 thoughts on “Valor da cultura X valor da vida humana

  1. Sim, eu sei: hoje era pra ser um artigo sobre procrastinação. Acontece que eu estava travado por causa do tal artigo. Mexia, mexia, mexia e mexia no texto e nunca ficava contente com o resultado. Entre permanecer travado e postar sobre outro assunto, preferi a segunda alternativa.

    Depois de postar este artigo aqui, tomei uma decisão radical: deletei 90% do que eu tinha escrito sobre procrastinação. Guardei meia dúzia de frases que contém a idéia principal e vou tentar reorganizar as idéias nos próximos dias. Às vezes é melhor cortar a corda do que tentar desfazer o nó.

  2. Eduardo Marques

    22/02/2011 — 21:41

    Vc um dia será queimado vivo pelo que diz aqui no blog.

    1. Sinal que estou certo em criticar e querer modificar as culturas bárbaras, não é? 🙂

  3. Até que enfim concordamos em alguma coisa, nem tudo esta perdido no seu caso kkkk, defender culturas idiotas é idiotisse, simples assim, o governo deveria educalos e dar mais apoio para uma melhor ingressão no mercado de trabalho, a cultura inutil de adorar o grande deus tilapia que se alimenta de crianças vivas deveria ter sido acabada faz tempo.

    1. Hmmm… percebes que meu argumento também é válido em relação às culturas institucionais que geram sofrimento desnecessário? 😉

  4. Interessante sua opinião. Portanto, deixo aqui a minha: concordo que culturas com caractericas convencionadas bárbaras (e todas as demais) estejam abaixo da preservação do ser humano. Entretanto, não concordo com o “que se danem”. Acredito que não se deva impor a sua cultura ou os seus “bons” costumes ao outro. É claro que também não concordo com a mutilação da genitália, o apedrejamento (por qualquer razão) ou qualquer outra forma de cultura que seja danosa ao ser humano. Porém, não podemos impor a nossa “civilidade” e as nossas convenções a ninguém. Acredito também que, como disse, quando o indivíduo tem a possibilidade de escolher entre duas culturas, e está apto a isso, ele mesmo pode e deve decidir qual é a melhor pra ele. Dessa forma, tem-se a extinção das culturas convencionadas bárbaras, e não pela força e imposição. Logo, concluo que é preciso que todos tenham a possibilidade e a aptidão para decidirem aquilo que é melhor para si mesmos, e não que outros decidam o que é bom e melhor para eles. Acredito que essa tenha sido sua opinião sobre as culturas convencionadas bárbaras, e torço para que o “que se danem” não tenha o sentido de solucionar as atrocidades culturais ainda existes por meio da força e da imposição, seja ela física ou legislativa. Abraço!

    1. “Acredito que não se deva impor” * tem como editar? Obrigado (:

    2. Natan, o problema é o seguinte: vamos eu e tu lá pra Pequepelândia conversar com o ditador da vez.

      Começamos a conversar com ele e dizemos: “soubemos das práticas de torturas e mortes de crianças acusadas de bruxaria, ficamos preocupados com o bem estar do povo da Pequepelândia e viemos aqui prestar nossa solidariedade, oferecer alguma ajuda e propor um projeto conjunto de desenvolvimento cultural para eliminar essa prática, etc., etc., etc., o que Sua Majestade Imperial acha?”

      E Sua Majestade Imperial estala os dedos e diz: “esbirro, pega esses caras, tortura, esfola, arranca a cabeça deles, põe em cima de estacas na frente do palácio, atira o que sobrar pros crocodilos e espalha a informação pra mais nenhum palhaço tentar vir aqui meter o bedelho onde eu mando.”

      Isso está acontecendo no Irã, na Coréia do Norte, no Egito, na Líbia, no Sudão, etc., etc., etc., que são Estados nacionais com os quais as grandes nações democráticas mantém relações comerciais e diplomáticas sem o menor escrúpulo ou consideração ética.

      E o nosso querido, maravilhoso, eleito, reeleito e apoiadíssimo governo federal premia estes FDPs com acordos comerciais, discursos de apoio, combate às pífias sanções das Nações Unidas e até com o reconhecimento de alguns destes ditadores com honrarias de heróis (como a medalha do Cruzeiro do Sul). Uma vergonha completa.

      Agora imagina a desgraça nos grotões esquecidos pelo resto do mundo.

      Achas mesmo que temos que conversar com Sua Majestade Imperial da Pequepelândia sem “impor civilidade” enquanto ele trucida o próprio povo a seu bel-prazer?

      E o mesmo no Irã?

      E no Egito?

      E no Sudão?

      E na Somália?

      E em Bangladesh?

      E em _____________?

    3. Editei e corrigi a frase que solcitaste. 😉

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  6. Eduardo Marques

    23/02/2011 — 21:34

    Isso que vc escreveu me fez lembrar da “antropologia da maldade”, do Reinaldo Azevedo.

    http://veja.abril.com.br/051207/p_116.shtml

    “(…)O certo é que a Antropologia da Maldade decidiu fazer da barbárie uma civilização.

    Um antropólogo da maldade não acredita ser possível ensinar matemática ou a poesia de Camões e Manuel Bandeira ao morro ou à periferia, mas está certo de que o morro e a periferia é que têm de ensinar funk e rap aos “imperialistas” e aos “playboys”, já que se trataria da expressão de um novo sistema de valores. É como se aquela “civilização” já não fosse a nossa.”

    1. O Diabo não é o Rei das Mentiras, ele é o Rei das Trapaças. Se o Diabo mentisse sempre, bastaria inverter tudo que ele diz para conhecer a verdade. Até o Reinaldo Azevedo pode dizer alguma coisa certa de vez em quando.

      O problema de me comparar ao Reinaldo Azevedo quando temos a mesma opinião é que, ainda que por uma incrível coincidência do destino eu e ele produzíssemos textos com a mesma estrutura e o mesmo conteúdo, o tom e a intenção dos textos seriam nitidamente diferentes.

      Reinaldo Azevedo faz parte de uma cepa de ideólogos cuja pena pinga intolerância e ressentimento. Ele faz pose de humanista indignado, mas com freqüência mostra a que realmente veio em derrapadas como esta: “Será que devemos reagir ao assassinato dos nossos pobres com o mesmo distanciamento antropológico com que reagimos ao infanticídio entre os ianomâmis?” (Do mesmo texto linkado.)

      Ou seja: para Reinaldo Azevedo, a julgar por tal afirmação, é normal e tranqüilo assistir o infanticídio entre os ianomâmis com “distanciamento antropológico”. Seu humanismo de fachada não tem sequer suficiente consistência para perceber que sua fundamentação é completamente racista: ele está desprezando a vida de inocentes vítimas de uma atrocidade tão cruel quanto a criminalização da pobreza – e o que diferencia uma criança ianomâmi de uma criança pobre de uma favela urbana senão apenas a etnia?

      Mas o que é realmente divertido nesta cepa de ideólogos é assisti-los cuspir para cima e aparar o cuspe na testa. Reinaldo Azevedo afirma, perto do final do texto: “A periferia e o morro não são o centro. Continuarão a ser o morro e a periferia, e seus ‘valores’ particulares não são senão a manifestação de uma utopia regressiva de basbaques ideológicos que imaginam converter um dia a linguagem da violência em resistência política.” (Grifo meu.) Ou seja, ele critica os “Antropólogos da Maldade” por FAZER EXATAMENTE O MESMO QUE ELE FAZ na quase totalidade de seus textos.

      Os meus erros – felizmente – são outros.

  7. Arthur, a idéia de que uma vida vale mais do que a cultura não é parte da construção cultural que passou?
    Entendo que há o instinto de sobrevivência. A cultura muitas vezes, porém, tem mais valor que instintos.
    Se algo é ruim (para você), não quer para os outros se tiver algum medo que volte a você.

    Quando diz que “Pimenta no olho alheio é colírio.” parece que os países desenvolvidos assistem os povos “bárbaros” com sadismo, como uma espécie de briga-de-galo.

    1. “Entendo que há o instinto de sobrevivência. A cultura muitas vezes, porém, tem mais valor que instintos.”

      Concordo. Se um indivíduo sendo torturado resolve se matar para evitar contar um segredo que poderia levar à tiranização de sua família, de seus amigos ou de seu povo, isso é um ato heróico muito mais valioso do que colaborar com o tirano tentando salvar a própria vida.

      Mas o assunto é bem diferente quando alguém diz que “não é certo interferir na cultura dos outros” se essa cultura permite enfiar pregos na cabeça de crianças acusadas de bruxaria.

      O critério para saber se uma intervenção é legítima é bem simples: coloque-se no lugar da vítima inocente e indefesa e pense se você gostaria de receber ajuda externa caso estivesse naquela situação.

      Soberania nacional, autodeterminação dos povos e outras justificativas semelhantes são apenas desculpas furadas para OMISSÃO DE SOCORRO.

  8. “O critério para saber se uma intervenção é legítima é bem simples: coloque-se no lugar da vítima inocente e indefesa e pense se você gostaria de receber ajuda externa caso estivesse naquela situação.”

    Suponho que o ótimo comitê encarregado de tal tarefa nunca julgaria a vida do brasileiro “merecedora” de ser salva da barbárie por intervenção externa, com um fundo ideológico/político de dominação.

    Salvo das maracutaias, o Brasil, começa-se a discussão interminavel se existe um ponto de “evolução” que determina se uma invervenção pode ou não ser feita.

    Enquanto não termina tal discussão, prefiro que não intervenham em nada.

    Vejo que, mesmo se considerar “barbaras” ou “primitivas” tais culturas, é diversidade. De todas as explicações que eles forem dando ao mundo saem lógicas diferentes das nossas. Estruturas de sociedade, e de comportamento, diferente dos nossos. Vai que, exatamente por tal diferença, sejam os únicos a estarem vivos daqui 5000 anos?
    É prensunçoso achar que nossas atrocidades são racionais e/ou aceitaveis, e a de outros povos não. Assim como é achar que o desenvolvimento de sociedades humanas seja lienear, e que estamos adiantados – podendo assim julgar as outras culturas.

    1. “Enquanto não termina tal discussão, prefiro que não intervenham em nada.” (Felipe)

      Traduzindo: “Enquanto não termina tal discussão, prefiro que ignoremos que os gêmeos indígenas sejam enterrados vivos porque um representa o bem, o outro o mal, e como não dá pra saber qual é qual o jeito é matar os dois, que crianças sejam violentadas e contaminadas pela AIDS porque alguns ignorantes acreditam que estuprar virgens elimina o HIV, que meninas sejam mutiladas para se tornarem frígicas e não quererem trair os maridos impostos pela tribo, que mulheres estupradas sejam apedrejadas até a morte por terem cometido adultério, que multidões sejam dizimadas pela fome e por pogroms porque ditadores sanguinários têm o direito de autodeterminação dos povos em suas mãos, independentemente da vontade do povo, entre outras barbaridades, porque intervir para salvar estes inocentes chacinados pela ignorância e pela prepotência seria presunçoso.”

      É fácil vomitar bobagem “politicamente correta” sobre “não intervenção” quando não somos nós as vítimas da barbárie.

  9. Se eu sofresse essas barbáries, eu iria querer que alguém me salvasse, independente de estas serem legitimadas pela “cultura” na qual hipotéticamente fui criada, e vocês também, pois dor é dor e morte é morte independente do que as causam ser cultural ou não. Ser apedrejado no Brasil, Irã ou Japão dói e amedronta igualmente.

    1. Pois é, mas os relativistas culturais acham que naquela cultura dói menos, ou que as pessoas de lá (seja onde for “lá”, desde que não seja “aqui”) se importam menos com a dor.

  10. minha primeira aula de direitos humanos, a primeira coisa que a professora falou que a declaração é uma representação da cultura individualista ocidental, e a gente não pode impor nossa cultura nas culturas coletivistas do oriente médio e da áfrica…

    já vi que nessa matéria vai vir só bobagem…

    1. Nem me fala. Essa professora pelo que disseste nem sequer conhece as origens da DUDH. Ela foi produzida para proteger o indivíduo dos abusos do Estado – entidade coletiva. Ou seja, é óbvio que todo coletivista tende a não gostar da DUDH – porque ela estabelece direitos e garantias que os coletivistas consideram entraves para suas ideologias.

      Interessante é que a gente vê um grande número de pessoas tentarem fugir das culturas coletivistas e migrar para as culturas individualistas, mas não o contrário. E que o único país com cultura coletivista que tem alto índice de industrialização e economia competitiva só conseguiu dar esse salto quando criou um sistema competitivo individualista para progressão em poder dentro do partido comunista. (Aliás, isso vai virar artigo em breve.)

    2. Hmm, e como convencer ela de que a DUDH é um documento de ética, e não da moral ocidental individualista capitalista?

    3. Esquece. Assiste as aulas, aprende como ela pensa, descarrega a informação pela caneta na prova e protege tua consciência para não se deixar influenciar pelos conceitos distorcidos que ela vai apresentar. Nunca vi cura de zumbi. Eles têm o cérebro devorado, lembra?

      Se quiseres contra-atacar em sala de aula, só conheço um método razoavelmente seguro: fazer perguntas que obriguem o professor a expor suas contradições. Mas é difícil fazer isso. Requer planejamento rápido e sangue-frio para não responder os absurdos que surgirem.

      Por exemplo… A professora chega e diz “a gente não pode impor nossa cultura nas culturas coletivistas do oriente médio e da áfrica”.

      – Professora, a DUDH não diz que “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”?

      – Diz.

      – E a senhora diz que isso “é uma representação da cultura individualista ocidental”?

      – Isso.

      – Quer dizer que reconhecer a igualdade de dignidade e de direitos entre as pessoas de nossa cultura e de outras culturas é imperialismo cultural? Então é preferível permitir que milhões de pessoas tenham suas vidas desgraçadas por mutilações genitais, uso obrigatório de burca, acesso proibido à educação e a direitos que consideramos fundamentais da pessoa humana em respeito à “diversidade cultural”? A diversidade de convenções abstratas no planeta é mais importante que a dignidade e o sofrimento de seres humanos reais?

      – Gasp. Cof-cof. [Explicação furada.]

      E aí é hora de calar a boca pra não se ferrar na disciplina – isso se já não for tarde demais…

  11. “E os membros das culturas com convenções bárbaras, quando migram para ambientes com culturas mais avançadas, jamais se tornam relativistas culturais, muito antes pelo contrário, freqüentemente tentam modificar a situação de seus desgraçados companheiros de cultura bárbara.”

    Infelizmente tambem há os casos dos que migram para culturas mais avançadas e tentam impor seus valores a estas. Querem o que a cultura avançada produziu de bom, mas não enxergam ou aceitam que isso tem base nos valores da cultura do local para onde migraram, e que a sua cultura original muitas vezes impossibilita ou dificulta as coisas boas do local pra onde foi.

    1. Leia-se: islã na Europa, coitadismocracia no Brasil.

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