Sempre que descrevo os métodos e conteúdos que considero mais adequados para a educação infantil surge o argumento de que eu quero “roubar a infância das crianças” ou “transformar as crianças em adultos em miniatura” ou mesmo “robotizar as crianças”. Esses equívocos são causados pelo desconhecimento em biologia evolutiva e pela crença em um mito muito pernicioso: o mito de que “criança gosta de brincar para se divertir”.

Quem gosta de brincar para se divertir é o adulto. Criança gosta de brincar para se organizar neurologicamente e maximizar suas chances de sobrevivência e seu sucesso reprodutivo.

Assim como todo filhote de mamífero, os filhotes do primata Homo sapiens aprendem as habilidades necessárias para a sobrevivência através da observação do comportamento dos adultos e da simulação das atividades observadas – sozinho ou em conjunto com outros filhotes.

É através destas simulações e posteriormente das tentativas de realizar “a sério” as mesmas atividades que os filhotes de mamíferos se organizam neurologicamente e se capacitam a desempenhar as atividades necessárias a sua sobrevivência. Aqueles que falham nesta tarefa simplesmente não deixam descendentes.

Assim como todo filhote de animal, crianças brincam para aprender e para se organizar neurologicamente. É óbvio que elas não sabem disso e muito menos saberiam explicar por que gostam de brincar, mas a biologia evolutiva e a psicologia evolutiva já elucidaram muito bem esta questão. Portanto, basta que a maior parte do ensino seja organizado de modo lúdico que as crianças vão adorar “brincar” (isso é, aprender).

O papo de “roubar a infância das crianças” ensinando coisas “impróprias para a idade delas” é absolutamente falso, fruto de desconhecimento da biologia evolutiva e da crença em ideologias pedagógicas mal fundamentadas.

É completamente impróprio para o filhote de leão lutar pela posse de um harém de fêmeas, mas ele brinca de luta com seus irmãos, meio-irmãos e primos. Por quê? Porque “brincar de lutar” é um treinamento para o sucesso reprodutivo.

Isolemos um filhote de leão dos outros, ou intervenhamos sempre que ele estiver brincando de luta para que ele não corra o risco de se machucar, e teremos garantido seu total fracasso reprodutivo: ele jamais será capaz de manter um harém se não desenvolver a habilidade de luta na idade correta.

O mesmo fenômeno ocorre em nossa espécie.

Os campeões de F-1 em geral começaram suas carreiras no kart, quando crianças. Coincidência? Mera questão de gosto? Nada disso. A organização neurológica de uma criança que pilota kart é bem diferente da organização neurológica de uma criança que nunca teve que lidar com fenômenos como aceleração, coordenação entre mãos e pés, previsão de rota de diferentes veículos para fazer ultrapassagens, etc.

Um indivíduo que passou pela infância e pela adolescência sem lidar com esses estímulos jamais chegará ao mesmo nível de excelência, por mais que tente e se esforce, porque a idade certa para sua organização neurológica já passou. Ele até poderá vir a ser um motorista razoável, pois nunca perdemos totalmente a capacidade de aprendizado, mas sua dificuldade de aprendizado será muito maior e muito raramente ele terá a possibilidade de atingir um nível de excelência que permita competir de igual para igual com quem teve a organização neurológica adequada para aquela tarefa na idade em que seu cérebro tinha o maior potencial de organização – a infância.

A infância é, portanto, o momento certo para o aprendizado.

Esqueçam os pseudo-humanistas, os esquerdistas de botequim e os pedagogos de fundo de quintal. A boa notícia é que é impossível “roubar a infância das crianças” ensinando coisas a elas desde que o aprendizado seja organizado de modo lúdico, divertido e interessante, de preferência através do exemplo e de um gradual aumento da complexidade dos conteúdos. E a segunda boa notícia é que praticamente tudo pode ser ensinado deste modo.

O método de ensino que eu proponho

Digamos que quiséssemos ensinar equações de segundo grau a uma criança.

O método tradicional seria metê-la em uma sala de aula, apresentar o conteúdo de modo impositivo, fazer ameaças caso ela se negue a aprender e impor punições se ela não conseguir aprender.

O método pseudo-humanista dos esquerdistas de botequim seria metê-la em uma sala de aula, deixá-la expressar-se livremente, dialogar com ela de igual para igual, agir como agente facilitador para ela construir seu próprio conhecimento, instituir um sistema de progressão continuada para que ela não seja excluída do sistema e bradar impropérios contra qualquer sistema de avaliação burguês, culpando os baixos salários dos professores pelo péssimo desempenho das crianças.

O meu método seria levar a criança para um acampamento e atirar em alguns alvos com um rifle calibre .22 com a melhor mira telescópica possível a diferentes distâncias.

Brincando de meter bala em alvos, o que é inegavelmente divertidíssimo, a criança logo perceberia que, quanto mais longe estiver do alvo, mais vai errar para baixo os seus tiros. (Nem que seja porque eu vou dispor os alvos no chão linearmente para que ela perceba o fenômeno.) Ela vai perguntar por que isso acontece. Neste momento eu terei o interesse e a atenção da criança voluntariamente voltados para minha explicação e utilizarei esta oportunidade para explicar a ação da gravidade.

Voltaremos então a atirar nos alvos, eu e a criança. Só que desta vez eu acertarei sempre na mosca, a qualquer distância, enquanto ela vai errar bastante. Frustrada, a criança vai ficar furiosa comigo. Então, antes de ela achar que aquilo perdeu a graça, eu vou perguntar se ela quer aprender a atirar tão bem quanto eu. Se você entendeu como funciona a motivação e o mecanismo de aprendizado dos mamíferos, já sabe que não existe criança na face da Terra que não vá responder que sim, é claro que ela quer aprender.

Este é o momento no qual eu pego caneta e papel e faço os cálculos balísticos apropriados na frente da criança: distância até o alvo no eixo das abscissas, diferença de altura entre o cano do rifle e o ponto de impacto no eixo das ordenadas, equação de segundo grau, patati, patatá… e dou um tiro certeiro.

O próximo passo é mudar o alvo de distância e dizer para a criança: “tá legal, tua vez, calcula aí a correção necessária para compensar a queda do projétil devido à atração da gravidade a essa distância, do mesmo jeito que eu fiz“.

Um pouco de paciência, bastante estímulo positivo, uma correção aqui e outra ali, alguns cálculos em diferentes distâncias e em breve a criança estará atirando e fazendo cálculos bem melhor que eu.

Esta é a hora de deixar a criança brincar um pouco e então desafiá-la a atirar em alvos móveis, para desenvolver novas e mais complexas habilidades.

Conclusão

Na próxima vez que um primata lhe disser que o ensino precoce rouba a infância das crianças, jogue-o para os leões.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 28/02/2011

8 thoughts on “Criança não gosta de brincar, criança gosta de aprender

  1. Eduardo Marques

    28/02/2011 — 20:52

    Interessante. Também vale para adolescentes. Uma vez eu li em algum lugar que Aristóteles ou algum outro filósofo grego falava que o adolescente era cheio de vontade de aprender e de saber as experiências dos mais velhos. Pq será que isso difere brutalmente como que mostra a mídia hoje em dia deles? Um dos motivos de o adolescente de hoje ser assim está na obra de Montesquieu, “Do espírito das leis”:

    “Hoje, recebemos três educações diferentes ou contrárias: a de nossos pais, a de nossos professores, a do mundo. O que nos contam na última delas vira de cabeça para baixo todas
    as idéias das duas primeiras. Isto vem, em parte, do contraste que existe para nós entre os compromissos da religião e os do mundo, coisa que os antigos não conheciam.”

    Tá certo que esse livro é cheio de bullshit, mas algumas observações como essa são pertinentes.

    Na sociedade atual, as pessoas relegam a educação dos filhos a terceiros tanto quanto podem. Babás, escola… Cadê a vontade própria e a alegria em tudo isso? E o calor humano? É claro o jovem hoje é idiota: ele é tratado como estorvo por todos desde a infância!

    1. No artigo Meus filhos não irão à escola! eu dei umas pinceladas sobre métodos de ensino. Desta vez eu dei um bom exemplo. Futuramente pretendo escrever sobre o currículo que pretendo oferecer a meus filhos, seja por homeschooling, seja eu mesmo abrindo e supervisionando uma escola para garantir que eles (e mais alguns sortudos) tenham uma educação realmente de qualidade.

      A verdade é que 90% do currículo de 1° e 2° graus no Brasil são lixo e apenas lixo, sem qualquer utilidade prática e muito menos qualquer utilidade para “aprender a pensar”, que é a desculpa usada sempre que um aluno pergunta para que serve aquele lixo todo.

      Deus – se Ele existir – me livre de permitir que meus filhos passem por um destes infernos apelidados de “escola” neste país. Muito melhor ser palhaço e semi-analfabeto, para poder integrar a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados.

  2. Olá Arthur,

    Bem, antes de mais nada, gostaria de parabenizá-lo pelo ótimo blog que faz. Acompanho-o há alguns meses, mas sempre fiquei meio acanhado em comentar ou discutir. (Ainda acho que estou em processo de formação de opinião nos temas que você trata aqui, é melhor ler muito antes de comentar… :P)

    Sobre o post, tenho que concordar com a teoria que tu mostrou. Crianças gostam de aprender, isso é justificado até no comportamento natural delas: Quem não ouviu uma mãe reclamando de sua criança que “pergunta demais” ou te “enche de por ques”? Essa idade é crucial para o desenvolvimento mental da criança e é nela que a própria está mais apta a “adquirir conhecimento”.

    Mas bem tenho algumas questões sobre seu método de ensino abordado. Tem alguma idéia de como implementar isso em uma larga escala? Como conseguiríamos implementar isso em uma escola de tamanho moderado (Por volta dos 200 alunos)?

    [E uma sugestão, não seria melhor usar uma arma de paint-ball? :P]

    1. Obrigado pelas visitas e pelos elogios, Max.

      Por favor, não te acanha em comentar. Isso aqui é um blog pessoal, não é um site de divulgação científica. Duvido que a Nature ou a Science publicassem minha sugestão de usar um rifle .22 para ensinar física e matemática para crianças. 😛

      Acreditas que durante a redação do artigo eu nem me lembrei da “fase do por quê”? Eu estava tão preocupado em manter o foco (guardei alguns parágrafos para artigos posteriores) que esqueci de usar essa evidência em favor de meu argumento.

      Hmmm… implementar isso numa escola com 200 alunos?… Que tal construir um estande de tiro na escola? 😛

      Falando sério, o exemplo não é a parte mais importante. O foco é o método: despertar a curiosidade, o interesse e a atenção da criança realizando atividades em conjunto e aproveitar quando estes fatores estão no auge para explicar aquilo que a criança deseja – invertendo a lógica do “você tem que aprender isso porque eu quero”. O pulo-do-gato é conduzir a criança a perguntar o que queremos ensinar.

      A arma de paintball não serve porque não tem alcance nem precisão suficiente para demonstrar claramente a queda do projétil devido à ação da gravidade. Por isso eu citei “um rifle calibre .22 com a melhor mira telescópica possível”. 😉

  3. Ah! Sim sim, eu não tinha pego o “espírito da coisa”. Risos. O foco está em fazer a criança perguntar e incitar a sua curiosidade; e a partir disso repassar o conhecimento.

    O que faz muito sentido mesmo, afinal, digo por experiência própria. Dos muitos casos, vou usar o mesmo exemplo da equação de 2º grau: Aprendi a resolve-la somente no inicio da 8ª série (Sim, o ensino da minha cidade era uma MERDA, “Graças a Lhama Sagrada” eu passei no teste seletivo da UTFPR onde fiz o ensino médio integrado ao curso técnico em informática. Foi lá que eu “abri os olhos”) – E bem, ficou somente por isso: “Agora eu sei resolver ax² + bx + c = 0”.

    Eu tinha idéia nenhuma porque aprendia-se e onde usava-se no cotidiano. Somente quando eu fui para o meu ensino médio – em física – que eu entendi a relação dela com o “mundo real”. Foi uma epifania, tudo agora fazia sentido, risos, desde a resolução dos problemas até semelhança da trajetória do “objeto lançado” com o gráfico da função.

    Considero isso terrível devido ao atraso e ao mesmo tempo “sortudo” por ter compreendido isso. E creio eu que do nosso sistema de educação, muitos ainda saem da escola com essa de “Porque eu tenho que aprender isso? Só porque o professor quer?”. Que no fim, além de serem atrasados, aprendem com “mau gosto” e aos trancos e barrancos…

    1. Na verdade a gente não “aprende”, justamente porque não vincula o “conhecimento” a qualquer coisa significativa. Eu sempre fui muito bom na escola e não me lembro da maior parte dos conteúdos justamente porque eles foram quase todos apresentados como unidades estanques, sem qualquer relacionamento com qualquer coisa significativa. Não é assim que funciona a memória do ser humano.

      Porém, se eu tivesse aprendido eletricidade construindo circuitos, matemática financeira fazendo investimentos na Bolsa de Valores e comparando isso com os juros bancários e do comércio, geografia viajando, biologia criando plantas e animais em um microcosmo laboratorial, química testando qualidade de alimentos, filosofia discutindo os grandes temas políticos da atualidade, etc., todo esse conhecimento estaria indelevelmente gravado em minha memória e pronto para acesso imediato.

      Por isso eu digo que todo nosso sistema educacional é uma grande farsa, uma imensa creche para crianças e adolescentes com o objetivo tão-somente de liberar os pais para terem sua mais-valia explorada por um sistema econômico que trata o ser humano como mero “recurso humano” (percebes o absurdo desta expressão tão comum?).

  4. Mui bom o artigo, o dono do blog sempre nos traz assuntos bem legais de serem discutidos e bla bla bla…
    Eu me sinto um kra muito ruim sabe, por saber que estou na maioria das vezes entre pessoas ingenuas e sem conhecimento prático, entre pessoas que não sabem educar e se prostrar diante dos seres irmãos, e tendo que enfim jurtar-me a vocês, minoria instruída e inteligente, para comentar os assuntos akí postados no artigo.
    São ótimos metodos realmente, fazer com que a criança amplie a sua vontade de conhecer, de aprender é ótimo, mas eu pensava em remeter as crianças a aprender o modo rudimentar, o modo mais simples, o respeito, o cuidar das tribos, a obtenção de alimento de uma forma mais digna e menos cruel, afinal, se deus existe, para que tanta evolução? E se não existe pq acabar tanto com o planeta já que só temos um? Será que viver de uma forma mais antiga (já que nós sabemos que os anos antigos eram bem mais brandos) não seria a melhor forma de viver, para que aprender formulas e teorias? Para chegar onde?
    Acho que educar a criança moderna hoje é um grande desafio, atividade de grande responsabilidade, que além dos cuidados dos anos de vida, ela ainda traz consigo as consequencias adiquiridas das gerações passadas. Não regredirmos por vontade propria a idade da pedra, iremos fazer isso de uma forma mais violenta e mais nervosa, e não sei como nos prostaremos diante tanta periculosidade.
    ‘Vide desastres naturais e humanos.’

    1. Marcos, viver em um mundo mais simples seria ótimo… se houvesse essa possibilidade. Como ela não existe, o máximo que podemos fazer é viver uma vida mais simples apesar da complexidade do “mundo lá fora”. Eu uso essa expressão porque não temos necessariamente que deixar tudo que existe no mundo entrar em nossa mente, nem em nossa casa, nem em nossa vida.

      Por exemplo: eu não assisto mais filmes de violência. O último foi “Jogos Mortais” (o primeiro da série). Depois daquilo, eu decidi não alimentar mais a minha mente com violência gratuita. Já me basta toda a violência de que eu tomo conhecimento devido à militância pelos Direitos Humanos, pra que eu haveria de contaminar ainda mais a minha mente com “violência lúdica”?

      Eu digo a meus amigos: convidem-me para assistir comédias, romances água-com-açúcar e até mesmo filmes “violentos” (bangue-bangue, guerra, etc.) que não contenham cenas de agonia e desespero, mas nunca mais me convidem para assistir um filme em que alguém têm que cortar fora o próprio olho, em frente ao espelho, para recuperar uma chave enfiada atrás do globo ocular e assim poder livrar-se de um instrumento de tortura que arrancaria sua mandídula fora e o degolaria. (Cena de “Jogos Mortais 2”)

      Eu manter distância dessas coisas vai mudar o mundo? Não. Mas vai tornar minha vida mais agradável.

      Educar as crianças do modo que eu proponho vai mudar o mundo? Talvez. Mas vai tornar a vida delas mais agradável e segura tanto na infância quanto na vida adulta, entre outros benefícios.

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