Acabo de perder todos os meus documentos, cartões de crédito e cheques, recuperar tudo e sofrer um furto provavelmente por parte da mesma pessoa que devolveu parte de meus pertences. Escrevo ainda sob o impacto emocional do episódio, que tem nuances bastante complexas, e pergunto a opinião dos leitores do Pensar Não Dói sobre o aspecto ético do ocorrido.

Hoje fui ao supermercado, comprei um rango, voltei até o carro, descarreguei o carrinho de compras no porta-malas e voltei para casa. Ao descer do carro coloquei a mão no local onde costumo deixar a pochete com os documentos, cartões de crédito e talão de cheques… e ela não estava onde deveria estar.

Pulei do carro, revisei todo o interior e nada. Abri o porta-malas, procurei dentro de cada sacola do supermercado, procurei no meio da bagunça que fica sempre no fundo do porta-malas e nada. A pochete tinha mesmo sumido.

Voltei ao supermercado para ver se uma vez na vida a Lei de Murphy me daria uma folga e se por acaso eu encontraria a pochete caída no estacionamento ou se alguém a teria encontrado e devolvido. O resultado foi: a Lei de Murphy deu uma folga… mais ou menos.

Um funcionário do supermercado havia encontrado a pochete e deixado no balcão de informações. Alívio total, só de pensar em não ter que bloquear os cartões de crédito e o talão de cheques, fazer nova CNH e ainda correr o risco de circular alguns dias de carro sem documentos.

Perguntei o nome do funcionário que devolveu a pochete, para dar-lhe uma recompensa pela honestidade (incrível que a honestidade tenha que ser recompensada, né?), mas imediatamente percebi que algumas coisas estavam faltando. Fiquei tão perplexo e enfurecido naquele momento que simplesmente saí sem dizer mais nada e fui embora.

Por um lado, eu estava aliviado por não ter que passar pela imensa incomodação, burocracia e desconforto de ter que bloquear os cartões e os cheques, nem ter que solicitar segunda via dos documentos. Por outro lado, eu havia sido furtado, então a satisfação por ter encontrado alguém honesto deu lugar à frustração por ter pensado em recompensar um ladrão.

Os objetos furtados eram de pequeno valor. O pior foi a terrível sensação de conflito interno, entre o alívio e mais uma decepção com o ser humano. E a situação é mais complexa do que parece à primeira vista.

Por um lado, o sujeito que encontrou a pochete poderia ter roubado tudo. Por outro lado, ele talvez não tivesse como carregar a pochete até o vestiário sem levantar suspeitas.

Por um lado,  ele a devolveu, quando podia apenas ter pego o que lhe interessava e deixado o resto no carrinho de compras onde eu a esqueci. Por outro lado, ele talvez estivesse com um colega por perto, o que poderia ter inibido um furto mais completo.

Além disso, nada me garantia que o sujeito que encontrou a pochete tenha sido o responsável pelo furto, pois ela passou pela mão de pelo menos três pessoas até chegar em minhas mãos.

Mas o que realmente me perturbou foi a consciência de que, se eu quisesse levar o episódio adiante, chamando a gerência e denunciando o furto, poderia fazer alguém perder o emprego por justa causa e responder um processo criminal por furto, o que poderia estimular que numa próxima vez o furto fosse completo, sem a devolução dos documentos.

Este é um dos raros artigos em que eu apenas descrevo um episódio e não dou minha opinião. Gostaria de saber a opinião dos leitores do Pensar Não Dói sobre o ocorrido, especialmente sobre o aspecto ético.

Agi corretamente ao deixar sem investigação um pequeno furto? Ou pisei na bola porque é obrigação do ser humano ser honesto e em minha confusão emocional acabei acobertando um crime? Se eu tivesse levado o episódio adiante, a punição do ladrão (perda do emprego e processo) teria sido proporcional ao delito? Que mensagem ficou para o ladrão, que afinal de contas sabe que eu sei que ele cometeu um furto?

Se foi um funcionário que encontrou a pochete e outro que cometeu o furto, um é um herói e o outro é um ladrão. Neste caso, a não investigação e a ausência de qualquer recompensa ou mesmo agradecimento não terá sido frustrante para o sujeito honesto? Temo que sim, e neste momento lamento não ter denunciado o furto. Porém, se foi a mesma pessoa que devolveu a pochete mas furtou uma parte de seu conteúdo, sabendo que poderia ser pego, o sujeito é um herói ou um ladrão?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/03/2011

11 thoughts on “Herói ou ladrão?

  1. Na dúvida é melhor não prejudicar um inocente.

    Alguém te roubou,mas quem foi?

    Se a pessoa pegou tua grana,esqueça!Dinheiro tu ganhas outro.

    Mas a pessoa que te roubou vai ficar com a consciência pesada,e um dia será punida.

    O problema é que criamos uma cultura de babacas,gente que acreditam que levar vantagem em tudo é o máximo.

    E o que deveria ser normal,honestidade,justiça,compaixão,acaba sendo ato de heroismo.

    No teu lugar,eu teria feito o mesmo,só não teria ficado com raiva,rs.

    É o ser humano em ação,caro amigo!

    Se tivesses feito a denúncia,possivelmente,seriam três pessoas a perder o emprego,e só uma era culpada.

    É por isso que gosto de ti.

    Em muitos casos o melhor mesmo é não fazer nada.

    1. É, foi nisso que eu pensei ao cair fora dali rápido: não pisar na bola movido pela emoção para não correr o risco de prejudicar um inocente. Mas confesso que ainda não tenho certeza se optei pelo melhor caminho.

  2. Rafael Holanda

    27/03/2011 — 22:32

    Olá Arthur. Não comento muito por aqui, mas acredito que vc já tenha me visto na página de comentários do (se não estou enganado) “Argumento do Violinista”.

    O meu conselho, que não é um “Melhor Conselho Possível”, é o seguinte: Se vc tem a paciência necessária para acompanhar uma investigação e se você acredita que esta pode pegar o verdadeiro criminoso sem prejudicar nenhum inocente no processo, vá no posto de autoridade mais próximo e faça o escarcéu pelos seus itens furtados.

    Eu tb fico abismado com o fato de que a honestidade precisa ser recompensada. Pra mim, essa qualidade deveria ser padrão em todo o ser humano. E quando for (e tenho fé que um dia será) todos irão perceber que sempre foi, e sempre será, melhor agir pra cuidar do bem comum do que só se preocupar com o bem próprio.

    E para que a humanidade caminhe em direção a essa noção é preciso mostrar as pessoas que nenhum ato antiético é aceitável. Não existe meia-bondade, meia-ética ou meia-honestidade. O criminoso que pegou os seus itens não lhe fez um ato de bondade deixando seus documentos e etc. Se ele quisesse realmente ser ético ele não teria tocado em nada.

    1. Lembro, sim, Rafael. Aliás, eu tenho que achar a parte 2 do artigo do Argumento do Violinista e publicá-la, não sei em que maldita pasta escondi o segundo artigo. 😛

      Gostei da menção à MCP. 🙂 Espero conseguir reativar aquela comunidade. Vou fazer uma promoção e pedir para os amigos multiplicá-la. E, claro, tentar passar mais tempo lá, apesar de ter vários “projetos orkutianos” em andamento…

      Chegando ao ponto central do artigo, o fato é que por um lado eu concordo que “não existe meia-bondade, meia-ética ou meia-honestidade” e por outro lado eu penso que pelo menos o sujeito que me roubou só levou quinquilharias, tendo bondade suficiente para não causar maiores prejuízos. Se não foi ético, pelo menos não foi maldoso. Isso é que me deixa confuso na avaliação do episódio.

  3. Rafael Holanda

    27/03/2011 — 23:25

    No meu comentário acima, acho que a palavra “ciência” foi mal empregada.

    Talvez a melhor expressão para transmitir o que eu queria dizer seja ” se vc acredita que…”.

    Arthur, quando for ler, por favor, substitua a antiga palavra pela nova expressão.

    1. Corrigido. 😉

  4. Um supermercado é um local por onde passam muitas pessoas, nada pode lhe dar a certeza de que foi um funcionário que roubou as suas coisas ou mesmo que tenha sido esse funcionário que devolveu sua pochete. Por que não poderia ser um freguês que estivesse do seu lado e, ao ver a pochete, a pegou, tirou o que lhe interessava, e depois a deixou em qualquer lugar? A pergunta é: se você reclamasse do ocorrido, haveria a menor possibilidade dos objetos serem recuperados? Falo objetos porque você não especificou o que estava faltando. É claro que você poderia tê-los recuperado se fosse algum funcionário, porque a gerência promoveria uma revista; porém, se não fosse, você corria o risco de humilhar pessoas inocentes com a suspeita e nunca mais seria bem vindo ou bem tratado nesse supermercado. Em seu lugar, eu não reclamaria…
    Já corrigi o endereço do blog, obrigada pela dica!
    Um abraço,
    Adri

    1. Oi, Adriana. Bom te ver novamente por aqui. 😉

      Sim, eu acho que havia uma grande chance de recuperar os objetos, mas na verdade eu fiquei com pena de detonar a vida de um miserável que furtou uma quinquilharia. (Os objetos foram um isqueiro e uma cigarreira de metal que uma amiga me deu quando parou de fumar e que, como eu não fumo, eu usava para transportar analgésico, anti-inflamatório e anti-alérgico, pois os comprimidos ficavam bem protegidos ali dentro.)

      E, sobre o endereço do blog, estou aqui dando risada, porque deu erro mais uma vez… 😛

  5. Coisa de um mês atrás, em uma brincadeira boba com a minha namorada de trocar de carrinhos esqueci minha carteira no carrinho deixado pra trás. Percebi em questão de 10 minutos e pedi ajuda a um funcionário. Fomos imediatamente ao local do achados e perdidos e lá estava ela, intacta. Reitero o “intacta”, pois ela já é velha e fica sempre com metade do zíper aberto: incentivo maior para um furto rápido não poderia haver. Confesso que teria me dado por satisfeito se tivessem levado só o dinheiro. Seria capaz até de agradecer em pensamento ao sujeito por pensar em mim, caso deixasse os documentos e os cartões: uma gentileza, afinal de contas. Mas o que me motiva a escrever é o que o funcionário espontaneamente me disse enquanto íamos até o posto de achados e perdidos: “Não se preocupe. Ainda há gente honesta no mundo”. Minha namorada disse que foi sorte. Eu disse que não foi sorte nada: foi por acaso. Ainda há gente honesta o suficiente no mundo para num caso aleatório qualquer o improvável também poder acontecer. Não consigo deixar de pensar, entretanto, que deixar os documentos é uma boa ação embutida numa pior. Ético, não é. Mas é de um bom senso impressionante.

    1. “Ético, não é. Mas é de um bom senso impressionante.”

      Chocante essa frase. Acho que fiquei ainda mais confuso. 😛

  6. Desculpa, Arthur, era brincadeira. 🙂 Na maior parte do texto eu estava sendo ironico, embora – e lendo agora me parece muito mais óbvio – não tenha sabido distinguir adequadamente o que era sério do que era brincadeira. Tudo misturado resultou em um tom realmente escandalizante que não foi intencional.
    Acredito que a banalização da violencia e da desonestidade eh (por favor, perdoe o meu teclado que não sabe o que escreve e ultimamente tampouco o que acentua) um absurdo que se contrapõem ao dever da indignação. Uma visão de mundo em que se ri da degradação moral é tão pouco ética quanto esse mesmo mundo, muito embora sejam as próprias vítimas os adeptos dessa retórica. Particularmente, mesmo sabendo disso, também escolho rir, pois me poupa a energia de procurar qualquer punição moral que seja válida de generalização e de quebra ainda exercito meu lado cristão. Serei sempre conivente com um mundo mais injusto por essa atitude? Pode ser, mas acredito ser difícil prever a lição que se dá ao ladrão quando se desiste de puní-lo, por cada ação estar envolta em um contexto do qual desconheço ou ao menos seria capaz de conhecer de todo, tampouco sei dizer da lição que verdadeiramente se dá ao punir, ainda mais quando, como voce disse, a punição é completamente desproporcional ao crime. Se considerarmos os poucos problemas que lhe foram causados e os grandes problemas que seriam auferidos ao criminoso, caso fosse punido, me parece uma punição não só injusta, mas cruel, digna de um verdadeiro ranço moral. Não resultaria em reparação de danos, tampouco num arrependimento sincero, que me parecem ser os nobres objetivos de qualquer punição. Quanto a recompensar o herói, também acredito ser desnecessário. A própria escolha de fazer o que é certo deveria ser suficiente para aquele que a fez com verdadeira boa vontade.
    Essa escolha moral de rir da banalização entristece o meu eu positivista? Sim, mas toscamente ou não, prefiro rir, na medida em que o estrago for pouco. Mas concordo que rir não é remédio, nem as questões que voce propos dignas de brincadeiras. Portanto, espero que desculpe a infeliz obscuridade na mensagem anterior. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *