“Consultor em direitos humanos e segurança pública defende desarmamento e política de segurança em escolas brasileiras”, diz a chamada da entrevista de Marcos Rolim no Último Segundo, o jornal do Portal iG. É sempre assim. Basta que um episódio traumático promova uma comoção popular para pipocarem de todos os lados as falsas soluções “politicamente corretas” que só fazem piorar a situação. Confira neste artigo e no próximo uma análise do discurso de Marcos Rolim e um contraponto de um também defensor dos Direitos Humanos com uma visão diametralmente oposta.

Começando por uma metáfora apropriada, o que Marcos Rolim diz é que, como alguns indivíduos cometem imprudências no trânsito, eu, você e todo mundo que não for motorista profissional somos um bando de incapazes e deveríamos ser proibidos de possuir automóveis e de dirigir. Afinal, não somos “especialistas” em direção e “não precisamos” de automóveis, pois existem táxis e ônibus.

A única diferença entre a metáfora acima e a realidade é que, ao invés de querer cassar o meu e o seu direito de possuir e de utilizar os veículos adequados às nossas necessidades de transporte e nos obrigar a depender de um sistema caro e ineficiente gerenciado por terceiros sobre os quais não temos controle, Marcos Rolim e os desarmamentistas organizados querem cassar o meu e o seu direito de defender a própria vida, a vida de nossas famílias e nossas propriedades, proibindo-nos de possuir e de utilizar os equipamentos adequados às nossas necessidades de segurança e nos obrigar a depender de um sistema caro e ineficiente gerenciado por terceiros sobre os quais não temos controle. Afinal, não somos “especialistas” em segurança e “não precisamos” nos defender, pois existe a polícia.

Eu divido os desarmamentistas em dois grupos: canalhas com pretensões fascistas e inocentes úteis com pretensões “politicamente corretas”. Marcos Rolim, pelo que conheço dele e de sua militância pelos Direitos Humanos, não é um canalha um com pretensões fascistas. Portanto, eu me assombro com a ingenuidade das teses que ele defende.

Neste artigo vou analisar apenas duas declarações de Marcos Rolim apresentadas pelo iG na introdução à entrevista. O conjunto de perguntas e respostas será analisado no próximo artigo.

Primeira declaração, sobre massacres como o de Realengo:

“O normal, tomando a experiência, é que isso se repita.” (Marcos Rolim)

Hein?

Será que é normal haver a repetição de massacres nas escolas?

Que bom descobrir que há desarmamentistas que acham que é normal que massacres em escolas se repitam. Pensei que o maluco fosse eu, por querer que os professores possam dar aulas armados para poderem defender seus alunos – nossos filhos – de massacres cometidos por malucos homicidas.

Rolim, meu caro, eu não teria encrencado se tivesses dito que é muito provável que outros malucos tentem cometer chacinas semelhantes, mas não posso aceitar nem mesmo a simples expressão de que é “normal” que isso se repita. Ainda que a palavra usada tivesse sido “comum”, não seria aceitável. Não podemos jamais maneirar no vocabulário usado para analisar estes acontecimentos, sob pena de nos anestesiarmos perante a violência e perdermos o senso de urgência e gravidade requeridas para a busca de soluções efetivas e não fantasiosas para esse tipo de tragédia.

Não é normal que isso se repita. É uma aberração. É uma excrescência. É um absurdo completo. É uma ignomínia. É algo que tem que ser evitado com o mais alto grau de prioridade. Normal é mantermos nossas crianças seguras.

Normal é qualquer adulto responsável por crianças poder defendê-las de qualquer tipo de ameaça que surja. Anormal é permitir chacinas de crianças e adolescentes por causa de uma ideologia de submissão e covardia como a do desarmamento.

Segunda declaração, falando do assassino de Realengo:

“Ele pode ser louco, qualquer coisa, mas jamais teria condições de matar 12 crianças se não estivesse armado.” (Marcos Rolim)

Hein?

Será que os malucos homicidas são tão pouco criativos assim?

Eu fiz um pequeno porém macabro exercício de imaginação ao ler essa afirmação do Rolim: cronometrei um minuto e comecei a pensar nas alternativas que um maluco homicida poderia utilizar para matar crianças em escolas. Em apenas um minuto eu pensei em sete alternativas completamente diferentes: facas ou outros objetos perfurantes ou cortantes, martelos ou outros objetos contundentes, fogo, bombas, gases venenosos, injeções letais e obviamente a boa e velha motosserra.

Se eu pensei em sete alternativas diferentes em menos de um minuto, dá licença, Rolim, esse papo de que o assassino “jamais teria condições de matar 12 crianças se não estivesse armado” só demonstra que te faltou criatividade na hora de dar palpite.

Um maluco com uma faca em cada mão seria muito mais perigoso dentro de uma escola que um maluco com um revólver em cada mão.

Armas de fogo precisam ser recarregadas; facas têm um potencial infinito de matança sem precisar de recarga. Armas de fogo podem falhar; facas não falham. Armas de fogo fazem barulho; facas são silenciosas. Armas de fogo são inúteis frente a um contra-ataque do tipo em que alguém grita “-Pra cima dele, todo mundo!”; facas são muito eficientes para combate corpo-a-corpo.

Wellington Menezes de Oliveira estudou e planejou cuidadosamente o ataque. Movido por um coquetel perigosíssimo de perturbação mental e fanatismo religioso, ele certamente encontraria um meio de alcançar seu objetivo.

A premissa por trás desta afirmação é que seria possível evitar que malucos tivessem acesso a armas, o que é totalmente fantasioso.

Armas de fogo sempre tiveram e continuarão tendo um promissor mercado negro capaz de abastecer todo tipo de criminoso e de maluco que souber onde procurar, a não ser que deixem de ser produzidas em todo o mundo. Este mercado foi estimulado pelo famigerado Estatuto do Desarmamento do Cidadão Honesto, que tornou muito mais lucrativo o tráfico de armas. É muita ingenuidade acreditar que um mercado multimilionário pode ser impedido de funcionar pela lei em um mundo com um sistema capitalista globalizado.

Armamentos leves e pesados atravessam cotidianamente as fronteiras, são facilmente desviados das polícias e das Forças Armadas, circulam entre políticos, membros do judiciário, policiais, empresários, líderes de quadrilhas, bandidos pé-de-chinelo, malucos religiosos como Wellington e cidadãos honestos desesperados para proteger suas vidas e suas famílias em um país onde a violência e a criminalidade crescem em taxas muito mais elevadas que o crescimento populacional e onde “segurança pública” não passa de um oxímoro. E tudo isso vai continuar assim, o que nos traz às propostas de Rolim para resolver o problema.

Segundo o iG:

Para evitar a repetição ou mesmo reduzir eventuais danos, ele defende o banimento das armas de mão no Brasil e a criação de uma política de segurança nas escolas.

Hein? Será que eu li direito?

Por trás da aparente respeitabilidade destas duas propostas, só existe uma proposta clara: o banimento das armas de mão (pistolas e revólveres). A outra proposta é vaga e obscura: que tipo de “política de segurança nas escolas” Rolim propõe? Há alguns exemplos na entrevista que permitem tirar algumas conclusões sobre o quanto a proposta de Rolim é vaga e mesmo assim nitidamente equivocada desde suas mais básicas premissas. (Este é o gancho para que você leia o próximo artigo.) 😉

Qualquer “desarmamento geral” põe em risco a vida do cidadão honesto e facilita a vida dos bandidos e dos malucos perigosos.

Na ânsia ingênua e simplista de tentar desarmar os criminosos e os malucos, os desarmamentistas querem legislar para manter todo mundo longe das armas, mas não percebem ou não admitem o óbvio: desde quando criminosos e malucos obedecem à lei? Somente o cidadão honesto obedece a lei, o que faz qualquer legislação desarmamentista retirar as armas justamente de quem não oferece perigo a terceiros e que poderia ajudar a garantir a segurança de todos.

Qualquer legislação desarmamentista ou torna o cidadão honesto imediatamente vulnerável e indefeso perante a bandidagem, ou transforma o cidadão honesto em criminoso, caso ele insista em seu absolutamente legítimo direito de ter condições de defender sua vida, sua família e sua propriedade sem depender de um Estado evidentemente incapaz de garantir a devida proteção a cada cidadão, a cada família e a cada residência.

Desarmar o cidadão honesto é um terrível perigo para a estabilidade política e institucional de um país.

O golpe militar de 64 aconteceu no Brasil, mas jamais teria acontecido na Suíça. O extermínio de cidadãos em campos de concentração aconteceu na Alemanha nazista, mas jamais teria acontecido na Suíça. O extermínio de milhões de dissidentes aconteceu na Revolução Bolchevique russa, mas jamais teria acontecido na Suíça. Os exemplos são inúmeros, e nenhum deles aconteceu ou poderia acontecer na Suíça, simplesmente porque o exército suíço é composto por toda a população da Suíça.

Precisamos aprender com a história, para não repeti-la “como farsa ou como tragédia”, e com a Suíça, país que tem toda a população armada e vive em paz e tranqüilidade, com índices de criminalidade ínfimos e que obviamente nunca registrou um massacre cometido por um maluco.

Nas mãos de cidadãos honestos e devidamente capacitados, mais armas significam menos crimes, menos violência, mais estabilidade política e mais paz e tranqüilidade para todos.

Clique aqui para ler a parte 2 deste artigo.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 12/04/2011

5 thoughts on “Metralhando o discurso desarmamentista de Marcos Rolim (parte 1)

  1. Manga-Larga

    12/04/2011 — 10:16

    Só uma pequena e rápida observação: as duas pistolas e toda a munição utilizada pelo maluco na escola, foi obtida na ilegalidade. De que maneira a proibição o impediria de ter acesso a essas armas, visto que foram obtidas na ilegalidade?

    1. O argumento “brilhante” dos desarmamentistas é que toda arma ilegal foi um dia uma arma legal. Eles acham que proibindo o cidadão honesto de possuir armas vão conseguir eliminar as armas ilegais de circulação, porque os bandidos não teriam de quem furtar as armas.

      A (imbecilidade) falácia deste argumento é evidente: nem de longe o furto de armas legais do cidadão honesto é a única via de abastecimento do mercado negro. Primeiro porque existe e continuará existindo furto e desvio de armas das polícias e das Forças Armadas, segundo porque existe, continuará existindo e será cada vez mais lucrativo o tráfico internacional de armas.

      Aliás, como bem podes imaginar, o mesmo tipo de processo que acontece devido à repressão ao tráfico de drogas vai estimular o tráfico de armas, tornando as quadrilhas cada vez mais organizadas e violentas. Na verdade acho que é exatamente isso que a Rede Globo e os canalhas com pretensões fascistas desejam, para instituir mecanismos de controle social cada vez mais duros e limitantes, ao ponto de converter toda a população em um rebanho de ovelhas submissas e assustadas que só se preocupam com futebol e novela enquanto a camarilha que governa o país e a grande mídia chafurdam em lucros indecentes.

  2. Joaquimde Campos Salles

    12/04/2011 — 12:01

    De uma olhada em http://www.youtube.com/watch?v=f2R1MerOcqI

    1. Despindo o discurso deste sujeito, que eu não conheço, de sua evidente matiz ideológica, restam três afirmações do mais elementar bom senso: primeiro, que associar o massascre de Realengo com a posse LEGAL ou o porte LEGAL de armas é de uma desonestidade ímpar; segundo, que é um direito natural de todo ser humano defender sua vida, sua família e sua propriedade contra agressões injustas, e que a posse e o porte de armas constituem condição sine qua non para o exercício deste direito no mundo atual; terceiro, que evidentemente existem interesses escusos por trás da campanha desarmamentista, que atenta contra o mais elementar bom senso e repete falácias a la Goebbels para doutrinar o povo a agir contra seus próprios interesses aproveitando-se de um momento de perplexidade e comoção nacional.

  3. Alô, pessoal!

    O próprio Marcos Rolim acaba de me enviar o link para download do livre dele, “Evidências Científicas sobre o Desarmamento”:

    http://bit.ly/eDqCgu

    Eu já baixei o livro, dei uma passada de olhos nele e achei interessante. Vou primeiro publicar o segundo artigo sobre a entrevista dele no iG, para minha análise da entrevista não ser contaminada pelas idéias expostas no livro, e depois lerei o livro e comentarei no blog.

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