Meu coração é forte. Caso contrário, não sobreviveria à experiência de ontem. Passei a noite toda em um bar com duas grandes TVs de plasma. Se a atitude dos freqüentadores do bar perante cada um dos programas for um indicador minimamente razoável dos interesses da população, dá licença, mas vou emigrar. De planeta.

Na hora do jornal, eu queria ouvir as notícias sobre o panorama político e econômico do Brasil, mas não consegui, tamanho o conversê. Ninguém deu bola para a programação e nem para os dois únicos que estavam tentando assisti-la – eu e um outro sujeito, cada um com o ouvido colado numa das TVs, em vão.

Na hora da novela, a maioria das mulheres e boa parte dos homens ficaram vidrados. As conversações se tornaram intermitentes, acontecendo somente na hora dos comerciais, exceto por alguns homens desinteressados que conversavam entre si – baixinho, para não atrapalhar os demais. Dava para identificar de olhos fechados quando estava passando a novela e quando estava passando o comercial, não por ouvir a TV, mas pela flutuação do volume das conversas.

Na hora do futebol, a maioria dos homens e algumas mulheres ficaram vidrados. As conversações se tornaram um zum-zum-zum elevado, entrecortadas por grandes ovações ou xingamentos, tudo sempre em tom exaltado, a favor ou contra, geralmente contra. Dava a impressão de que o assunto mais importante da Terra estava sendo debatido e decidido naquele momento, todo mundo com uma sólida e importante opinião que precisava ser exposta a todo custo.

Terminado o jogo, 70% dos presentes foram embora e alguém sintonizou as TVs num programa genial sobre maravilhas da ciência. Fiquei quietinho, observando o que iria acontecer, já esperando pelo pior, e acertei na mosca: menos de dois minutos depois (cronometrados), ouvi alguém chamar o programa de “chato” e mudar o canal de volta para um programa sobre futebol.

Pára o mundo que eu quero descer!

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 15/04/2011

6 thoughts on “Pra que cidadania e ciência se eu tenho futebol e novela?

  1. Manga-Larga

    15/04/2011 — 11:05

    Você é minoria, e minoria sofre, na realidade.
    minoria tem que sofre sem reclamar, para alguns
    e a minoria deveria ser protegida contra a opressão da maioria, para nós

    1. E sabes o que é mais maluco nisso aí que disseste? É que praticamente nenhuma minoria se articula com outras para fazer valer seus direitos.

      Eu vejo isso no movimento pelos Direitos Humanos. Quem milita em causas feministas, só milita em causas feministas. quem milita em causas GLBT, só milita em causas GLBT. Quem milita no movimento negro, só milita no movimento negro. Mas todos dizem que são “defensores dos Direitos Humanos”.

      Na verdade, nenhum deles é “defensor dos Direitos Humanos”, cada um deles está interessado em uma causa específica e somente nela, usando a expressão “Direitos Humanos” apenas para justificar a validade de sua causa, sem no entanto contrribuir de forma cooperativa e integrada para a promoção dos Direitos Humanos – o que torna suas causas ainda mais fracas, mas eles não conseguem perceber isso.

      Avisa aí quando descobrires um planetinha mais interessante e razoável para eu visitar e ver se dá pra colocar uma casinha de sapê na beira da praia.

  2. Manga-Larga

    15/04/2011 — 17:00

    Da-lhe Arthur,

    “praticamente nenhuma minoria se articula com outras para fazer valer seus direitos… Mas todos dizem que são “defensores dos Direitos Humanos””

    É por isso que chama-se minorias. Talvez de fato suas causas tenham apenas em comum o fato de serem vítimas de violações de direitos humanos.

    Mas quem hoje em dia sai em defesa de causa tão genérica? Hoje em dia quem o faz, é tachado de defensor de bandidos. Aliás, o correto hj é ser fora da lei, inclusive o próprio estado! E se vc reclama, vc é bandido… tudo trocado!

    1. Eu nunca fiz uma tatuagem, mas acho uma pena que a DUDH seja extensa demais para que eu pudesse tatuá-la na testa!

      Se todo mundo que se diz “defensor dos Direitos Humanos” conhecesse pelo menos a DUDH e se articulasse com as demais minorias que defendem as causas relacionadas a cada artigo da DUDH, exigindo em conjunto a regulamentação de cada artigo da DUDH na legislação ordinária e avanços sociais reais em cada um destes setores, o avanço político seria pra lá de significativo.

      E, que o mundo está de cabeça para baixo, isso eu não tenho dúvidas… olha essa agora sobre o desarmamento: não atenderam a vontade das urnas (deu o NÃO, mas promoveram o desarmamento assim mesmo) e estão querendo fazer outro plebiscito onde, mesmo que o NÃO ganhe de novo, o povo continuará sem acesso às armas que precisa para garantir sua própria segurança.

      Independentemente de tua posição sobre desarmamento, não é um absurdo essa “lógica”? Não deveria haver uma consulta e se o “SIM” ganhasse baniríamos as armas e se o “NÃO” ganhasse flexibilizaríamos o porte?

  3. Manga-Larga

    15/04/2011 — 19:50

    Claro que sim, mas como diz um amigo meu, o estado é dono do campo, da bola e do juiz.

    Foda que as pessoas preferem alguma conquista, mesmo que incompleta, a nenhuma. E por isso, ninguém luta a luta dos outros. É foda sim, mas fazer o que?

    1. Bem, eu e um pessoal do movimento do NÃO estamos criando uma ONG para lutar pelo direito de o cidadão brasileiro poder se defender dignamente e não ser obrigado a ficar à mercê dos criminosos até mesmo dentro de suas casas, como querem os desarmamentistas. E eu estou redigindo uma proposta de Projeto de Lei para substituir o Estatuto do Desarmamento. Vamos ver se consigo colocar o pessoal da ONG alinhado com essa idéia…

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