Ontem meu carro superaqueceu e eu tive que parar em um lugar perigoso porque o radiador estava fervendo e não seria possível seguir até o posto de gasolina mais próximo sem provavelmente fundir o motor. Ao invés de entrar em uma encrenca, entretanto, tive uma prova de que ainda é possível acreditar no ser humano.

Lá estava eu, com o radiador assobiando e soltando vapor pelo ladrão como uma panela de pressão, no meio de uma estrada escura e com pouco movimento, passadas as onze horas da noite. Olhava o notebook sobre o banco do carona e pensava: “se eu ficar aqui esperando socorro, poderei ser assaltado dentro do carro; se eu sair carregando o notebook, poderei ser assaltado a pé; se eu deixar o notebook no carro, encontrarei a janela quebrada ao voltar, isso se encontrar o carro”. Típica situação “se correr, o bicho pega, se ficar, o bicho come”.

Desci do carro para fazer um rápido reconhecimento do terreno e tentar tomar uma decisão razoável com base mais na intuição do que na possibilidade de avaliar objetivamente a situação, convicto de que seria melhor eu mesmo escolher do que deixar o acaso escolher por mim, e imediatamente avistei um táxi. Chamei… e ele passou reto.

“Taí”, pensei, “vou tratar de chamar um táxi, deve ser o socorro mais rápido”. Liguei para uma das três companhias de táxi cujo número tenho nos dois celulares que sempre carrego comigo – um homem previnido vale por dois – e estava na linha falando com a atendente quando passou um táxi por mim, chamei e ele parou.

Expliquei para o taxista que o radiador do meu carro tinha fervido e que eui não podia deixar o carro sozinho ali para buscar água porque ele estava com um problema na maçaneta da porta do motorista e não havia como trancá-lo. Eu teria que permanecer ao lado do carro enquanto ele providenciava água para colocar no radiador.

Para não complicar a situação, pedi para o taxista buscar uma bombona de água mineral de 5 litros num posto que ficava a pouco mais de 500m dali e garanti que esperaria sua volta… até porque não tinha mesmo como sair dali. A cara que ele fez não foi das mais promissoras, mas ele disse “ok” e saiu em direção ao posto.

Olhei as horas no celular e pensei: “5 minutos para ir, 5 minutos para comprar a água, 5 minutos para voltar, 5 minutos de folga para o erro no cálculo e eu ligo de novo para a companhia de táxi”. Felizmente, não foi necessário.

Em cerca de 10 minutos, lá veio o taxista com quatro garrafas PET de dois litros cheias de água. Ele morava ali por perto e havia buscado as garrafas em casa, para me poupar o custo da bombona de água mineral. Estacionou atrás do meu carro, ajudou a colocar a água no radiador e deixou comigo as garrafas que sobraram.

Perguntei a ele quanto devia, e ele olhou o taxímetro e me respondeu: “R$ 9,20”. Como eu só tinha uma nota de R$ 50,00, pedi que ele descontasse R$ 15,00 e perguntei se estava bom, jurando que ele ia fazer cara de quem esperava mais para então eu marchar com mais R$ 5,00. Mas aí eu fui surpreendido.

O taxista agradeceu a gorjeta com um grande sorriso no rosto, nitidamente satisfeito, e me devolveu o troco de R$ 35,00 ainda sorrindo.

Imediatamente eu me senti um sovina. Afinal, ele havia me resolvido um problema que me poupou os R$ 80,00 de um guincho ou mesmo o furto do carro, se eu tivesse precisado me afastar do veículo para ir buscar água. Separei os R$ 5,00 que eu já havia decidido usar para completar a gorjeta após o esperado choro – e fui novamente surpreendido.

O taxista recusou o complemento da gorjeta.

Eu insisti, reconhecendo que ele havia me prestado muito mais que um pequeno transporte, que tinha me prestado um auxíliio muito além de sua obrigação profissional e que isso valia muito mais que aquela pequena quantia.

Então o taxista disse que não tinha feito nada demais e que não poderia aceitar meu dinheiro por fazer o que qualquer um deveria fazer. E ainda esperou que eu voltasse para o carro e o colocasse em movimento para ter certeza que o problema estava resolvido antes de se afastar.

Voltei para casa com uma fé renovada na humanidade.

Muito obrigado, Seu Domingos. Sua atitude valeu muito mais do que o preço da corrida, do notebook e do carro somados. Desejo que o senhor tenha uma vida longa, próspera e feliz e que seu exemplo frutifique e se multiplique. O mundo precisa de mais pessoas como o senhor.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 20/04/2011

4 thoughts on “Um exemplo a ser seguido e multiplicado

  1. carlos silva

    20/04/2011 — 10:01

    meu caro o que surpreende não é a atitude deste cidadão,pois todos os dias milhares seres anonimos como ele agem assim. O que surpreende é vc ter fugido de sua paranoia de pb habitual e ter aceito a ajuda de um homem do povo, do mesmo povo que é criminalizado em cada esquina, cada vez que vai a uma agencia bancaria ou tenta fazer uma tarde de lazer num destes centros de comprar e é intimidado por um adestrado segurança patrimonia que esta treinado pra ver em cada homem do povo um criminoso em potencal

    1. Milhares?

      É, talvez peneirando os 6,5 bilhões de habitantes do planeta sejam mesmo mesmo milhares.

      E o papo de paranóia e de homens do povo… pfff… nem merece resposta.

  2. São raros, raríssimos! Mas existem 🙂

    1. Mas precisam deixar de ser “raros, raríssimos”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *