Uma coisa que me incomoda é o sentimento de vergonha alheia. Eu sinto vergonha do que alguns “iluminados” escrevem por aí, tamanha a evidente desinformação, preconceito e falta de humanidade de alguns. É o caso de muita gente que fala sobre homossexualidade de forma totalmente desinformada, preconceituosa e desumana, seja em função de falso moralismo ou de deseducação religiosa.

Não tenho mais paciência para aturar imbecis que acham que porrada previne homossexualidade. Não tenho mais paciência para aturar imbecis que acham que a homossexualidade é uma “opção”, uma “escolha”. Não tenho mais paciência para aturar imbecis que acham que devem “combater a homossexualidade” porque “a homossexualidade é uma abominação aos olhos de Deus”. Não tenho mais paciência para aturar imbecis que acham que podem mudar a homossexualidade de alguém para heterosexualidade com tratamento psicológico. E não tenho mais paciência para aturar imbecis que contam histórias sobre “ex-gays”.

De fato, não existe ex-gay… assim como não existe ex-hetero. As pessoas nascem com uma orientação sexual e não mudam de orientação sexual ao longo de toda a vida. Isso porque a orientação sexual é definida e controlada pelo hipotálamo, uma área do cérebro que se forma durante o primeiro trimestre da gravidez e não se altera com a educação, nem com a vontade pessoal, nem com qualquer tipo de tratamento psicológico, assim como o controle da respiração não se alteraria qualquer que fosse a intervenção.

O exemplo do controle da respiração, diga-se de passagem, é bem adequado: tanto quanto a sexualidade, a respiração também é controlada por uma área do cérebro que não está sob controle consciente. E, tanto quanto a tal área do cérebro que controla a respiração lá pelas tantas assume o controle independentemente do quanto o indivíduo tente controlar a própria respiração conscientemente, também a área do cérebro que controla a orientação sexual lá pelas tantas assume o controle independentemente do quanto o indivíduo tente controlar a própria sexualidade conscientemente.

Mas… e se não fosse assim?

E se fosse possível cometer suicídio prendendo a respiração?

E se fosse possível cometer “suicídio” (morte em vida) “prendendo” a própria sexualidade?

Por acaso tal suicídio, com ou sem aspas, passaria a ser desejável ou sequer razoável?

A resposta é clara: NÃO.

Então, mesmo que não fosse “orientação” sexual e sim “opção” sexual, ainda assim a negação do direito ao exercício da sexualidade, a negação do direito de ver seus relacionamentos reconhecidos pelo Estado e a negação da dignidade de quem fizesse tal opção continuariam sendo uma infâmia.

Maldita desinformação, maldito preconceito, maldita falta de humanidade.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 31/05/2011

15 thoughts on “Maldita desinformação, maldito preconceito, maldita falta de humanidade

  1. MIL VEZES MALDITA!

  2. Arthur,

    Vim ao seu site a partir da sua excelente resposta no Bule Voador a respeito do texto mal-informado que pretendia defender o ateísmo pelas vias mais miraborantes. Gostei muito do seu blog, e também deste texto, mas tenho uma pergunta a fazer: terá mesmo sido definitivamente comprovado que a homossexualidade nasce como propriedade intrínseca do desenvolvimento encefálico do embrião ou do feto? Ou não terá a homossexualidade um forte componente comportamental, estando mais facilitada a sua ocorrência em certos ambientes e menos facilitada em outros?

    Abraço

    1. Manga-Larga

      03/06/2011 — 13:02

      Desculpe me intrometer na discussão de vocês, mas se o que você diz fosse verdade Henrique, um ambiente com total ausência de “elementos teoricamente homossexualizantes” (como um pai linha-dura) jamais daria origem a um indivíduo homossexual. No entanto a história está repleta de casos como este que, quando muito, deram origem a bixas enrustidas.

      PS: com o perdão do mal selecionado vocabulário.

    2. Henrique, obrigado pela visita e pelos elogios. 🙂

      Sobre a tua pergunta: se por “facilitada a ocorrência” entendes “facilitado o surgimento”, eu diria que não é por aí, mas se por “facilitada a ocorrência” entendes “facilitada a expressão”, aí concordo integralmente… o que não é nada bom para os homossexuais, é claro.

      Era isso ou eu que entendi mal?

  3. Robson/SJCampos

    03/06/2011 — 17:21

    Arthur.
    Milhoes de vezes maldita.
    Posso falar porque por ser homossexual sei bem como é isso. Bem, toda vez que um hetero fala pra mim que a minha “opção sexual” é homo, eu lhe pergunto se ele se lembra do dia em que ele foi perguntado sobre a sua “opção sexual” e que havia decidido ser hetero. Em segundo lugar, eu acho que algum dia, a ciência ainda vai conseguir de alguma forma provar algo que eu tenho como intuição: de que a homossexualidade é na verdade uma forma de auto controle do crescimento das espécies. Que a natureza, trataria de gerar indivíduos homossexuais naquela determinada espécie, como uma forma de se auto controlar, já que esses indivíduos provavelmente não irão procriar. Enfim, são só intuições que eu tenho. Mas eu sei que nunca optei por ser homossexual e sei que cada homossexual tem uma história diferente e única e que não da pra arrumar uma formulinha matemática que resolva essa equação.
    Abração Arthur e adoro seus textos …

    Robson

    1. Robson, obrigado pela presença aqui no Pensar Não Dói.

      O interessante sobre o papo da “opção sexual” é que, mesmo ouvindo essa tua resposta e não tendo como contra-argumentar (porque ninguém “escolhe” a própria orientação sexual), mesmo ouvindo muitos gays dizendo que, se pudessem, prefeririam ser heterossexuais, ainda assim muita gente insiste que é uma “escolha” e que é “pouca-vergonha”. Um absurdo total, coisa que eu não consigo entender.

  4. Henrique,

    Eu acredito que um bom parametro de comparaçao para solucionar o seu ponto é o fato da homossexualidade ser encontra em um numero significativo de especies animais. Nesse caso, nao ha ambiente mais “homossexualizante” que outro.

    O ambiente talvez possa influenciar (particularmente, acredito que influencie) em como a pessoa em questao vai lidar com a sexualidade dela.

    1. É por aí, Juliana. A orientação sexual é congênita, mas a expressão da sexualidade sofre fortes interferências culturais.

  5. Arthur,

    De fato eu preferiria o termo “facilitada a expressão”. Como estudante de medicina, meu raciocínio tende a manter-se em meios termos, pois até mesmo as artes devem ser mais exatas que a medicina. Costumo também trabalhar por analogias. Penso, por exemplo, na hipertensão arterial sistêmica, que é uma doença multifatorial.

    Por multifatorial entenda-se, evidentemente, que é uma doença causada por vários fatores. Em se tratando da hipertensão, já foram revelados 140 genes mutantes que podem causá-la. Agora vem a parte interessante: uma pessoa que tiver cada um dos 140 genes mutantes terá grandes chances de desenvolver a hipertensão, mas pode ser quer nunca venha a desenvolvê-la!, afinal, se esta pessoa tiver uma dieta saudável, e praticar exercícios físicos, é possível silenciar a hipertensão.

    Da mesma forma, uma pessoa com apenas 10 destes genes mutantes que tenha uma dieta rica em sais, seja obesa e não pratique exercícios físicos, pode desenvolver a hipertensão!

    Ou seja, a hipertensão não ocorre apenas pelo gene, nem apenas pelo comportamento. Muitos genes favorecem a doença, mas um comportamento adequado pode silenciá-la, da mesma forma que um comportamento inadequado pode causar a doença em pessoas com poucos genes mutantes.

    Agora, pergunta-se: e se a homossexualidade for como a hipertensão arterial?

    E se a homossexualidade tiver um componente genético não determinante?

    E se a homossexualidade puder ser estimulada por uma ambiente propício? E se, neste sentido, ela puder ser evitada por outro tipo de ambiente?

    De fato, pretendo apenas levantar questões. Compreendo que a vida de muitos homossexuais deve ser razoavelmente difícil e, como tal, devem ser tratados humanamente sempre, além de se dever combater todos os preconceitos contra eles.

    1. Acho pouco provável que, ao longo de milhões de anos de evolução biológica, tivesse sobrevivido à seleção natural um gene que reduz muito as chances de deixar descendência. portanto, duvido que venhamos a descobrir algum “gene gay” ouo coisa que o valha. E há o caso de gêmeos univitelinos em que um é heterossexual e o outro é homossexual, o que torna beeeeem difícil aceitar uma hipótese genética para a orientação sexual.

      Agora… se a hipótese de a orientação sexual ser determinada pelo desenvolvimento do hipotálamo estiver correta, eu sei como determinar a orientação sexual do feto (e por conseqüência do indivíduo). 🙂 Só não sei se devo contar isso em público, porque numa daquelas precipito um movimento anti-homossexualidade de um tipo inédito e bem problemático antes de serem consolidadas as necessárias garantias legais de não discriminação. 😮

  6. Há desinformação? Sim! Há preconceito? Sim e em vários seguimentos. A desumanidade é gritante, mas na questão de amor ao próximo, de fraternidade, de partilha, de ajudar aos que passam fome… mais relevantes que a tão discutida….blaá, blá, blá ….homossexualidade! Isso já é antigo! Opção ou escolha ou outra coisa similar? Problema de quem prefere se identificar com essa forma de sexualidade. Agora, não é possível digerir estes tipos “movimentosinhos desmunhecados”, “consciência disso”, “consciência daquilo”. Cada um que assuma sua vida, suas escolhas, seja autêntico, e seja consciente. Assim como os homossexuais têm o direito de viver, as pessoas não são obrigadas a aceitar, a serem impostas através desses movimentos, como também não podem, sequer têm o direito de impedir que cada um viva sua vida.
    Um país de dimensão continental como o nosso e com problemas de muito mais relevância a serem discutidos,legalizados, cujos processos encontram-se em arquivo morto, e enterrados do Judiciário, que deveriam ser levados a sério, em busca de alternativas para minimizar ou até erradicá-los: CORRUPÇÃO= FOME, FALTA DE EDUCAÇÃO, MORADIA, SAÚDE DO POVO.Profissionais com salários vergonhosos. Enquanto um aposentado mal recebe por ano,pouco mais de r$5.ooo,oo aqueles que ganham o salário-mínimo, os corruptos ganham por mês 10 vezes mais de remuneração, fora as mordomias e “vantagens” e a roubalheira crescente à luz do dia, em quatro paredes ou através de celulares enfim. ACORDEM!

    1. Lenir, a questão do reconhecimento das uniões homoafetivas e dos direitos dos homossexuais não é um assunto de menor importância, é simplesmente o assunto de maior importância que existe para milhões de pessoas. Ninguém tem o direito de dizer que “não é obrigado a aceitar” a homossexualidade. É obrigado a aceitar, sim, e não tem que dar palpite a respeito, tanto quanto não quer que outras pessoas venham lhe dizer o que pode e o que não pode fazer na cama.

      A existência de corrupção, fome, falta de educação, moradia e saúde não tem nada a ver com a garantia dos direitos dos homossexuais, que não precisa de um único centavo para ser resolvida. Mascarar discriminação contra os homossexuais alegando haver “outras questões de maior prioridade” é uma tática velha, batida e nada ética dos intolerantes.

  7. João Paulo

    04/02/2012 — 21:59

    Boa noite. Achei seu blogue por acaso procurando informações sobre o esperanto. Eu gosto de suas argumentas e seu humor acido e sua ironia. Bom eu não concordo que a homossexualidade tenha origem nessa questão do hipotálamo. Acho uma explicação binária demais, meio cara ou coroa. Eu não considero o homossexual um “não-hetero”. Há várias variações de homossexuais, tanto homens quanto mulheres. Da mesma forma que os heterossexuais não são iguais. Cada um tem sua maneira de ver e se relacionar com o outro. Caracterizar uma pessoa por seu objeto de desejo (seja ele homem, mulher ou ambos) é muito restrito. Um homossexual masculino ao contrário que muitos pensam, tem muito pouco de semelhança como uma mulher hetero, além de possuirem o mesmo objeto de desejo, tanto na forma de pensar, se indentificar e viver sua sexualidade. A “teoria do hipotálamo” não explica o bissexual. A bissexualidade então não existe? “é fase”, “é erustimento disfarçado”?

    1. Saudações, João Paulo.

      Eu não vejo problema nas explicações “binárias demais”. A Navalha de Occam é perfeitamente aplicável em todas as ciências, inclusive quando o objeto da ciência é o próprio ser humano.

      A Síndrome de Down é causada por um único fator: a trissomia do cromossomo 21.

      O tipo sangüíneo ABO é definido por um único par de genes.

      Cada tipo de diabetes é causado por um único fator: a incapacidade do organismo de produzir ou de utilizar a insulina.

      Por que a orientação sexual deveria ser extremamente multifatorial, tão complexa que não pudesse ser causada por um único fator, o desenvolvimento do hipotálamo em função da exposição a hormônios na vida intra-uterina?

      O fato de a orientação sexual ter um significado muito mais profundo na vida das pessoas do que o tipo sangüíneo não quer dizer absolutamente nada em termos de sua complexidade causal. É perfeitamente possível que ela seja definida por um único fator, tão prosaico quanto uma exposição hormonal, independentemente do desejo injustificado dos pesquisadores das ciências humanas de encontrar uma causa multifatorial extremamente complexa.

      Essa questão possui um interessante fundo ideologico. Muita gente pensa que, se for cientificamente descoberto que características complexas do ser humano forem determinadas por causas simples, então o ser humano será “desumanizado” ou “maquinizado”.

      Ora, isso é uma grande bobagem! Nós continuaremos sendo os mesmos de sempre, só que sem a possibilidade de nos acharmos grande coisa mais do que realmente somos! 😉

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