Recebi o link do artigo “Swat mata herói americano na frente da família e por engano” por intermédio do @growroom e do @MarchaDaMaconha. Discordo totalmente da avaliação de que foi “por engano”. No meu entender, nos termos da legislação brasileira, foi um homicídio duplamente qualificado: “por motívo fútil” e “à traição, de emboscada”. Isso sem nem falar da obstrução ao socorro médico com o claro objetivo de certificar-se que a vítima morreria.

O artigo, de Walter Fanganiello Maierovitch, diz o seguinte:

José Guerena tinha 26 anos de idade. Morava com a esposa e dois filhos no Arizona.

Ele era um ex-mariner. Havia sido condecorado por bravura por atuações no Afeganistão e no Iraque.

No Afeganisão, o mariner Guerena, conforme grafado no seu currículo militar, combateu alqaedistas e talebans.

Ontem, Guerena foi enterrado com honras militares.

Ele não foi morto pelos talebans. Nem por membros da Al Qaeda. Muito menos por iraquianos eversivos.  Apenas a Swat do Arizona conseguiu matar Guerena. Aliás, covardes, despreparados e insensíveis agentes da Swat, a Special Weapons and Tatics do Arizona.

O ex-mariner Guerena restou morto por policiais da badalada Swat na sua casa. Teve o corpo perfurado por 60 projéteis de arma de fogo de grosso calibre.

Segundo a perícia técnica, Guerena foi atingido 60 vezes em sete segundos.

Pior ainda. Os agentes da Swat não deixaram Guerena ser atentido por médico, enquanto agonizava.

O médico chamado pelos vizinhos só pode entrar na casa de Guerena depois que os milicianos da Swat constaram que era falsa a denúncia anônima. Uma denúncia de que na casa de Guerena funcionava um ponto de venda de maconha.

Quando da invasão da Swat, por volta das 9h30, o ex-mariner estava na companhia da esposa e do filho de três anos.

O filho mais velho, de seis anos de idade, estava na escola.

Guerena só teve tempo de empurrar a mulher e o filho para um quarto, pois pensou tratar-se de ladrões.

Sem sucesso, o ex-mariner Guerena tentou apanhar uma espingarda. Os policiais da Swat invadiram o domicílio atirando. E prova técnica demonstrou que a espingarda não foi acionada.

No computador de Guerena, consoante informou a perícia, os agentes da Swat não encontraram nenhum indicativo de que traficava ou consumia maconha. E nem outra droga proibida. Na casa, toda remexida pelos membros da Swat, nada se encontrou.

PANO RÁPIDO. No final de semana, a polícia militar de São Paulo atacou os participantes da chamada Marcha da Maconha. Seus comandantes de tropas desconhecem o dispositivo constitucional que permite a liberdade de manifestação e de associação.

Os três grifos em negrito são meus. E o grifo em vermelho também. Vamos analisar um por um, numa ordem mais adequada.

1) “O ex-mariner Guerena restou morto por policiais da badalada Swat na sua casa.”

Ele não estava infringindo a lei. Ele não estava colocando ninguém em risco. Ele não estava realizando qualquer atividade suspeita. Ele estava em casa, na companhia de sua esposa e de seu filho de três anos, tranqüilo e sem perturbar ninguém no que a nossa Constituição Federal no seu artigo 5°, incisoXI chama de “asilo inviolável do indivíduo”:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

2) “Os policiais da Swat invadiram o domicílio atirando. E prova técnica demonstrou que a espingarda não foi acionada.”

Não houve alerta. Não houve identificação de que “é a polícia”. Não houve tentativa de captura. Não houve jamais a intenção de fazer qualquer coisa que não fosse matar.

3) “Os agentes da Swat não deixaram Guerena ser atentido por médico, enquanto agonizava.”

Esta é a prova máxima de que a intenção era claramente apenas matar o sujeito.

E tudo isso por quê?

4) “O médico chamado pelos vizinhos só pode entrar na casa de Guerena depois que os milicianos da Swat constaram que era falsa a denúncia anônima. Uma denúncia de que na casa de Guerena funcionava um ponto de venda de maconha.”

Aí temos a resposta: bastou a suspeita de que Guerena fosse um traficante para que a SWAT se qachasse no direito de atuar como juiz, júri e carrasco, assassinando um cidadão à revelia da lei, da justiça, da cidadania e da decência.

Mas o pior não é isso.

O pior é que, se ele fosse mesmo um traficante, ninguém reclamaria.

Pelo contrário, muita gente aplaudiria o homicídio duplamente qualificado cometido pela polícia se soubesse que a vítima tinha drogas em casa, pouco importando se fosse um depósito com centenas de quilos escondido no porão ou um simples baseado no bolso.

Isso me lembra um poema.

E Não Sobrou Ninguém

(Martin Niemöller)

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.

Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.

Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.

Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.

E assim o babebibobu vai crescendo no Brasil.

Quando a polícia mata “terroristas”, ninguém protesta.

Quando a polícia mata “traficantes”, ninguém protesta.

Quando a polícia mata “bandidos”, ninguém protesta.

Quando a polícia mata “vagabundos”, ninguém protesta.

E quando a polícia matar alguém da sua família? Ou você mesmo?

Quem você acha que vai se importar, se você não se importa?

Quem você acha que vai fazer alguma coisa, se você não faz?

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 29/05/2011

10 thoughts on “Swat mata herói americano na frente da família e NÃO FOI por engano

  1. Sandro dodocov

    29/05/2011 — 18:55

    O judiciário de SP está abrindo um precedente para a volta do totalitarismo. Isso tudo com aplausos do povo, afinal quem se importa com os maconheiros?
    Lamentável que poucos se incomodem com SP limpando a bunda com a constituíção.

    1. Pois é, mais gente precisa chamar a atenção dos outros quanto a isto que está acontecendo.

  2. Será que foi por causa do nome e sobrenome, hein?

    1. Pensei nisso também. Tenho cá minhas dúvidas se o procedimento teria sido o mesmo se o sujeito se chamasse William Johnson, Steven Whitehouse ou mesmo John Smith. Mas acho que o caso teve mais a ver com a natureza da falsa denúncia, mesmo.

  3. Golgo, você pesquisou sobre isso?

    Pq eles tinham um mandado de busca, e avisaram simm com um megafone. E não foi uma espingarda, foi um fuzil AR-15, o qual, de fato, ele não atirou, mas apontou na direção dos policiais.

    Eles deveriam esperar o cara atirar primeiro, pra depois atirarem de volta? No meu entendimento, se o cara apontou um fuzil na direção do policial, sabendo que era um policial (aliás, mesmo se não soubesse, mas neste caso, ele sabia) já é motivo para que a força policial atire.

    1. Não pesquisei. Repassei o peixe como me foi vendido, André. Se recebi a informação errada, posso ter dito besteira por não ter conferido. Tens algum link com contra-informação? De onde tiraste teus dados?

  4. http://abcnews.go.com/US/arizona-swat-team-cleared-marines-killing/story?id=13842029

    http://www.dailymail.co.uk/news/article-2004438/SWAT-team-shot-Iraq-war-vet-Jose-Guerena-cleared.html

    Por essas que não gosto do Maierovitch. Com palavras, é muito fácil reinterpretar qualquer situação em favor de qualquer lado que se queira. Mudando o ponto de vista, Hitler foi um herói, não?

    Só uma coisa: não estou dizendo que o tal José era um bandido, nem que merecia o que aconteceu. Acho que foi uma fatalidade. Quem quer acusar alguém é quem toma-o como inocente, enquanto culpa a Swat, como se ele não tivesse apontado uma rifle de assalto na direção dos policiais, que se identificaram. Talvez essa situação seja um bom argumento contra a posse de armas… Evitaria esse tipo de ‘acidente’.

    1. HAHAHAHA!!!

      Ô André, fala sério…

      “Pima County Attorney’s Office said the ‘use of deadly force by the SWAT team members’ in the raid on Jose Guerena’s home was ‘reasonable and justified’.

      “Dizer” não significa “provar”. E as provas são todas contra a equipe da SWAT, inclusive pela própria reportagem que linkaste.

      Olha só:

      “The Attorney’s office revealed that the 26-year-old had been previously arrested on five felony counts, but had never been convicted, as it said the shooting was justified.”

      Ou seja, “o cara foi preso cinco vezes, em nenhuma das cinco ele foi condenado, então os tiros foram justificados”.

      Traduzindo do português para o português: já que não conseguiram provas para prender o cara, resolveram matá-lo.

      “The officers were mistaken in believing that Mr Guerena fired at them. However, when Mr Guerena raised the AR-15…in their direction, they needed to take immediate action to stop the deadly threat against them,” Mr Berkman wrote.

      Já vi desculpas furadas, mas esta é pior que todas. Os cara entraram de surpresa na casa do sujeito fazendo barulho de invasão, o sujeito OBVIAMENTE reagiu pegando uma arma para se defender e então os invasores dispararam 70 tiros “de defesa”, tadinhos, né?

      “The terrifying footage released by police shows the uniformed team pulling up outside Jose Guerena’s home, sounding their sirens and banging on the door before kicking it in.”

      Pois é… então POR QUE REMOVERAM O VÍDEO que mostrava isso? “The video you are trying to view is unavaiable”. Será que foi porque o vídeo mostrava algo diferente do que foi alegado? Será?

      Além disso…

      “An ambulance reportedly arrived in a few minutes, but medical personnel were not allowed inside to see Mr Guerena for an hour and 14 minutes, the family’s attorney, Chris Scileppi, told ABC News affiliate KGUN.”

      Uma ambulância chegou em poucos minutos, mas a SWAT impediu o acesso dos médicos por uma hora e 14 minutos. Se isso não é suficiente para deixar claro que desde sempre o objetivo desta “missão” foi matar o sujeito, não imagino o que pudesse deixar.

      Mais uma prova de que havia intenção de matar:

      “Mr Storie defended the SWAT team’s actions, saying, ‘They still don’t know how many shooters are inside, how many guns are inside and they still have to assume that they will be ambushed if they walk in this house’.”

      Quer dizer que a SWAT invade residências a la loca, sem saber o que vai encontrar, com o dedo no gatilho, pronta para fuzilar com 70 tiros qualquer um que se mova? Então, ou os caras são completamente irresponsáveis, ou entram querendo mesmo matar.

      Ou será que cercar o local e chamar os suspeitos e avisá-los que estão cercados e devem se entregar é mais “arriscado” e contrário à boa técnica policial?

      .
      .
      .

      Consegui ver o segundo vídeo no Youtube.

      A sirene é ligada aos 6 segundos e desligada aos 14. Fica apenas 8 segundos ligada. Ninguém fala coisa alguma, ninguém usa um megafone, ninguém grita nada. Simplesmente uma sirene toca na rua durante oito segundos.

      Toda vez que uma sirene toca na rua devemos largar tudo que estamos fazendo e levantar as mãos por um minuto porque pode ser que uma equipe da SWAT esteja prestes a invadir nossa casa?

      No segundo 34 ouve-se um estampido e a porta abre. Presumo – também pela atitude de um membro do esquadrão que põe a mão na porta e se afasta – que a fechadura tenha sido explodida. No segundo 40 começam os disparos.

      Portanto, ouve-se uma explosão e seis segundos depois começam os tiros. OBVIAMENTE, dos 14 aos 34 segundos, sem nenhuma sirene ou identificação por voz de que se tratava da polícia, é perfeitamente possível que todos dentro da residência tenham pensado que alguma viatura passou pela frente da casa e foi embora. Então, de repente se ouve um estampido e se percebe que foi na porta de casa.

      O que um marine treinado faria nessa situação?

      Faria exatamente o que José Guerena fez: pegaria a primeria arma que pudesse alcançar para defender sua família.

      Quanto tempo um marine demoraria para fazer isso? Bem menos que um civil destreinado, talvez por isso ele estivesse recém pegando na mão o AR-15 quando passou a ser alvejado por 70 disparos.

      É óbvio que não deram tempo sequer pro cara perceber que é a polícia.

      Começaram a atirar no sujeito no segundo 40 e continuaram atirando durante 8 segundos, tendo havido mais um disparo aos 50 segundos. Ou seja, ficaram DEZ SEGUNDOS atirando no sujeito…

      … e não foi uma execução? 😛

      Não, André, não posso concordar com tua alegação de que os policiais se identificaram.

      E muito menos posso concordar que esse seja um bom argumento contra a posse de armas – para mim esse é um bom argumento para termos medo da polícia e do governo, que acoberta execuções de supostos traficantes ou de gente que foi “presa cinco vezes mas nunca condenada”.

      O que teria evitado esse “acidente” seria chamar o sujeito com um megafone dizendo: “Polícia! Saiam com as mãos para cima!” ou algum clichê batidíssimo do gênero.

      O que teria evitado esse “acidente” seria uma política de respeito aos Direitos Humanos, sem a imposição de proibições estúpidas, sem uma polícia tratada como se estivesse “acima de qualquer suspeita” e sem governos que acobertam crimes cometidos por seus agentes.

  5. Arthur,

    Bom, o vídeo deve ter ficado fora do ar por pouco tempo, pq eu havia visto, e agora vi novamente no site.

    Após as sirenes terem sido desligadas, mal dá pra ouvir qualquer coisa por causa dos barulhos da rua, mas dá pra ouvir que um dos policiais está gritando alguma coisa. Segundo o primeiro link, o que ele está gritando é justamente que é a polícia e que há um mandado de busca, em inglês e em espanhol.

    Aí os policiais entram na casa e vêem um fuzil apontado pra eles. O que deveriam fazer?
    E, de fato, acho que a ação teria que ser rápida. Ficar avisando por quanto tempo que é a polícia? Se fossem traficantes, talvez o tempo suficiente para jogar a droga numa privada e dar descarga? Ok, você pode até dizer que deve-se presumir que NÃO sejam traficantes. Aí é outra conversa. Mas o problema foi que os policiais, ao entrarem, viram um fuzil apontado para eles.

    Acho que agiram corretamente, defendendo-se.

    Repito: dizer que alguém falou que os tiros foram justificados PORQUE o cara já havia sido preso é forçar a barra. Os tiros foram justificados pq o suspeito apontou um fuzil para a polícia. Assim como é forçar a barra dizer que a SWAT invadiu a casa sem razão, pronta pra atirar em quem se movesse. Eles tinham ordem judicial, eles avisaram que era a polícia, e só atiraram naquele que os ameaçou com um fuzil.

    Isso que você está dizendo (entraram prontos pra atirar em quem se movesse, alguém disse que os tiros foram justificados pq o suspeito já havia sido preso) é torcer a verdade.

    E quanto ao número de disparos, sim, é exagerado. Mas, são quantos policiais? Uns 10? Pô, se eu estou com uma equipe, e um dos meus vê um fuzil apontado pra si e grita, acho justificado que todos atirem, e muitas vezes. Diferentemente daquele caso que um soldado do Bope confundiu uma furadeira com uma arma e atirou no cara, já que o soldado atirou SEM ter certeza do que se tratava. Nesse caso, não. Havia, sim, um fuzil apontado para eles.

    1. Repetindo:

      “The Attorney’s office revealed that the 26-year-old had been previously arrested on five felony counts, but had never been convicted, as it said the shooting was justified.”

      Então, não fui eu quem disse que os tiros foram justificados devido ao histórico do sujeito, está lá na reportagem essa afirmação.

      E SIM, em minha opinião eles deveriam ter cercado o sujeito e alertado quanto à presença da polícia, especialmente se havia dúvida quanto ao fato de haver traficantes dentro da casa. Por que isso? Porque quem joga droga na privada e dá descarga é o usuário, um sujeito que só tem pequenas quantidades de droga consigo. Traficantes têm grandes quantidades de droga, instrumentos de refino, balanças, embalagens, eventualmente grandes quantidades de dinheiro, etc. Muita coisa para jogar na privada e dar descarga.

      Tu estás te prendendo ao fato de os policiais “terem visto uma arma apontada contra eles”, mas isso foi causado pela maneira absurda como foi realizada a ação policial. Se os caras tinham um mandato de busca, deveriam ter batido à porta… e esperado alguém atender! Pra que pedalar a porta? O que havia a perder esperando alguém atender?

      Supondo que eles não tivessem interesse em matar o sujeito – o que eu duvido, porque há uma declaração de que os tiros “foram justificados porque ele foi preso cinco vezes mas nunca condenado” – a SWAT quis resolver tudo do modo mais rápido possível e acabou se precipitando de modo terrível. É ÓBVIO que alguém que ouve a sua porta ser pedalada vai pegar uma arma se puder. Ninguém espera que a polícia entre pedalando ao invés de avisar que chegou e exigir que abram a porta. Quem chega pedalando porta é bandido.

      Além disso… 70 disparos em 10 segundos é uma piada. Tens idéia do tempo que são 10 segundos para quem está atirando? É uma eternidade!

      Outra coisa: o sujeito foi atingido por 22 disparos. Uma equipe bem treinada precisa de 70 disparos para acertar 22? E o coitado agüentou EM PÉ 22 disparos até cair? Isso não tem cara de execução para ti?

      E há um “detalhe” que estás esquecendo: por que a SWAT teria impedido o socorro do coitado por uma hora e catorze minutos? O que isso significa? (Além do crime de omissão de socorro.)

      Eu defendo a polícia quando a polícia age de modo correto e buscando defender o bem maior que deve defender – a vida do cidadão. Pelo que eu vi no vídeo não foi esse o caso, infelizmente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *