Pessoal, eu estou bem. Não fui mordido por cachorro algum, não fiz cirurgia alguma, não vou precisar de fisioterapia e a suposta necessidade de óculos novos foi apenas uma piada. Todo Mundo foi induzido a erro pelo texto “O Portão” devido às expectativas causadas pelo contexto em que o texto se insere. Ninguém percebeu que o texto era um ensaio e não uma narrativa autobiográfica. Em minha defesa, alego apenas a verdade: tão envolvido estava com a produção do texto, que não percebi o contexto. Esclarecerei.

O texto “o autor do blog está dodói” era 100% real. Eu tive mesmo um problema sério nas costas devido a um colchão torto. Gente, não subestimem a importância de um bom colchão para a saúde. Colchão tem que ser firme, adequado ao peso de quem dorme sobre ele. Colchão velho é um perigo para saúde, troquem por um colchão novo a cada cinco anos. Mas divago.

Uma vez que Todo Mundo estava sabendo que eu tive um problema de saúde e que eu parei de escrever por uns dias (porque não dava pra ficar em frente ao micro devido à dor), nada mais natural que Ninguém, ao ler um texto em que aparece a afirmação em primeira pessoa de que “Foram 38 pontos no total. A enfermeira disse que, além da fisioterapia, eu vou precisar de óculos novos.“, pensasse outra coisa exceto que eu tinha sofrido um acidente ou passado por uma cirurgia. Mas não foi isso que aconteceu.

Durante o período em que eu estava de cama, como Todo Mundo deve imaginar, eu não tinha absolutamente nada para fazer. Reuni então alguns livros que eu havia comprado nas semanas anteriores e comecei a colocar a leitura em dia, porque para a minha felicidade Ler Não Dói, isso apesar dos protestos da coluna vertebral quando eu esticava o braço para pegar e largar os livros ao lado da cama. E, sem quaisquer outras alternativas de lazer e Ninguém para conversar, eu li vários livros interessantes em poucos dias.

Um dos livros que devorei foi A Arte da Ficção, de David Lodge. Ele é composto por cinqüenta artigos sobre técnicas usadas pelos escritores de ficção, publicados originalmente como uma série em um jornal e depois reunidos em livro. E eu gostei de algumas das técnicas que descobri e resolvi experimentá-las em pequenos ensaios ficcionais aqui no blog – como pode ser percebido na URL do texto “O Portão”, que foi a estréia da categoria “ensaios”.

O problema, é claro, é que, ao mesmo tempo em que Todo Mundo sabia que eu tive recentemente um problema de saúde, Ninguém estava acostumado a me ver escrever ensaios ficcionais. O único texto em que eu havia cometido um ensaio previamente, “Estatuto da Igualdade Racial: a institucionalização do racismo no Brasil“, nem sequer começava pelo ensaio, tinha um parágrafo introdutório que condensava todo o argumento. O ensaio era praticamente apenas uma ilustração.

Com um contexto destes, foi natural Todo Mundo interpretar “O Portão” como um texto autobiográfico. Aqui na minha Santa Ingenuidade, Batman, eu jurava que todo mundo ia perceber que se tratava de um ensaio devido à URL na barra de endereços e à TAG no final do artigo. Aprendi a tapas que Ninguém presta atenção a estas coisas e que provavelmente a classificação dos artigos em categorias e tags só deve ser útil para mim, mesmo. (Alô revisão: deixem essa vírgula antes de “mesmo” onde eu a coloquei. Não está errada. É só uma daquelas sutilezas de expressão a que ninguém mais dá bola, mas eu gosto. Mas divago novamente.)

Enfim, a lambança está finalmente esclarecida. Acho que eu e Todo Mundo aprendemos que a “surpresa” é um recurso perigoso quando o escritor não avalia corretamento o “contexto”. Cabia acrescentar uma nota de rodapé ao livro do David Lodge. E aproveitei este esclarecimento para testar uma verdadeira salada mista com diversos recursos de estilo, uns que Ninguém vai perceber, outros que vão chamar a atenção de Alguns.

Mas inserir personagem novo no finzinho do texto para fechar a trama fica apelativo. Então, encerro agradecendo os votos de recuperação e – o que seria impensável em outros contextos – comemorando um clichê: as notícias de meu acidente foram exageradas.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 29/06/2011

6 thoughts on “A importância do contexto

  1. Manga-Larga

    29/06/2011 — 16:35

    Meu desejo de melhoras Arthur, espero que os pontos não infeccionem (que é pra você perceber que a gente não lê os textos com atenção também) 😀

    1. [user banned] 😛

  2. Afinal!? Era um T. rex ou um cão? Era uma fisioterapeuta ou uma oftalmologista que foi pra cama com você?

    1. Ei, ninguém te avisou que trollagem depois que a vítima sabe onde a gente mora fica perigosa? Olha que na próxima vez eu apareço por aí às 3h da matina, hein? 😛

  3. Vim aqui só pra dizer que coloquei o livro do Lodge na minha lista de aquisições, e hoje voltei com ele da Festa do Livro da USP. Muito obrigada pela indicação! =)

    1. Boa lembrança. Vou ler de novo este livro! 🙂

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