Quem acompanha o blog já deve saber que eu respeito o relativismo cultural tanto quanto respeito um cocô de cachorro sobre o qual tenha pisado acidentalmente, ou talvez um pouco menos, porque pelo menos o cocô de cachorro pode servir como adubo. Dá pra imaginar o quanto eu respeito as religiões que se escudam no relativismo cultural para exigir o direito de degradar a vida humana sem sofrer questionamentos?

Este artigo começou a ser redigido na caixa de comentários do artigo Com “defensores” de Direitos Humanos assim, os violadores fazem a festa. Uma das minhas respostas lá ficou tão extensa que achei melhor transformá-la neste artigo aqui.

Para quem quer ir direto ao ponto, basta saber que o papo rendeu algumas considerações sobre relativismo cultural e deu algumas voltas até que rolou esta afirmação:

“Quando você diz que a religião incapacita o indivíduo para pensar racionalmente, e eu concordo com isso, você está, a priori, dizendo que sua cultura não-religiosa é superior. Pq? Qual a razão? Há alguma lei superior que diga que não ser religioso é melhor do que ser? E se o religioso estiver certo, e existir um deus que fez o universo e que quer sim que a menina seja apedrejada? Você escolheu a razão como norte normal? Bem kantiano de sua parte.” (André, acho eu que bancando o advogado do Diabo, aqui.)

Em primeiro lugar, eu tomei o cuidado de escrever que em geral a religião incapacita o indivíduo para pensar racionalmente, até porque eu mesmo sou um indivíduo profundamente religioso e no entanto sou bastante racional.

Para a maior parte das pessoas há de soar estranho que eu me diga religioso, ainda mais “profundamente religioso”, porque não parece, né? Muitos pensam que eu sou ateu devido a minha habitual defesa da lógica e da plausibilidade, ou da racionalidade e da razoabilidade, os dois pares são sinônimos. Mas isso é porque não conhecem a minha lógica religiosa. Já expliquei isso numa Taverna Cética, talvez retome o tema aqui no blog uma hora dessas. Mas divago.

Em segundo lugar, eu não escolhi a Razão como meu norte normal. Eu escolhi a Verdade, a Felicidade e a Ética como meu norte normal. E chamo a capacidade de perseguir e/ou de produzir estes três fenômenos não de Razão, mas de Sabedoria. (Fica para outro artigo o esclarecimento de que há situações em que ser racional nem sempre é a coisa mais sábia a fazer. Podem me cobrar.)

Por exemplo, eu não acho necessário que esperemos um filósofo, antropólogo, sociólogo ou sei-lá-que-ólogo encontrar uma justificativa racional irretorquível para a gente entrar na África dando um pau em todo mundo que comete excisão clitoriana contra vítimas inocentes e indefesas – como são todas as crianças. Para mim basta saber que, se eu estivesse no lugar daquelas vítimas, eu iria querer que alguém me socorresse e que se danasse a justificativa.

Muita gente haverá de questionar “racionalmente” esse meu ponto de vista. Vão questionar levantando conceitos como “soberania”, “intervencionismo”, “imperialismo” e outros. Enquanto isso, crianças continuarão sendo sexualmente mutiladas e tendo suas vidas destruídas sem que esse pessoal mexa um dedo para socorrê-las, nem mesmo escrevendo uma carta para seu parlamentar para pedir uma solução para o problema. Sinceramente, eu adoraria dar um pau nesses caras também.

Parênteses

Abre parêntese.

Para quem achar necessário encontrar uma “justificativa racional”, eu a forneço com a maior tranqüilidade, simplicidade e concisão:

1. Aquele ato não é baseado em alegações que possam ser demonstradas como Verdade, produz exatamente o oposto de Felicidade e não é realizado com Ética, porque as mais importantes conseqüências do ato são deletérias e não recaem sobre os praticantes do ato.

2. Omitir-se perante um abuso de conseqüências tão terríveis, praticado contra inocentes indefesos, é um ato que possui as mesmas características que praticar o abuso em si.

3. Logo, intervir neste caso é uma obrigação moral, não uma opção.

Afinal, não é porque eu não acho necessário esperar pela justificativa racional que necessariamente eu deixaria de procurá-la.

O que eu quero deixar claro aqui é que o importante é não deixar as limitações dos pensadores conceituais de uma época servirem como justificativa para nos omitirmos perante aquilo que nitidamente percebemos como uma escandalosa violação.

O fato de exigirmos previamente justificativas que nos permitam ou nos obriguem a agir de modo solidário ao invés de exigirmos previamente justificativas para não fazermos isso é extremamente eloqüente sobre as prioridades e o caráter de nossa era.

Em resumo, é (o fim da picada) perverso e reprovável esconder-se atrás de limitações conceituais para agir de modo que percebemos claramente ser negligente ou cruel.

Obviamente, muita gente pode concordar com a validade do meu argumento mas discordar da verdade de minhas premissas, pelo que meu argumento não seria cogente. Basta, por exemplo, considerar “soberania” mais importante que Verdade, Felicidade e Ética. Afinal, não tem gente que diz que “prefere um filho ladrão a um filho gay”? Não me surpreendo com mais nada nesse mundo.

Fecha parêntese.

A lógica básica da alienação religiosa

Até o alienígena de K-PAX já disse que “todo ser inteligente no universo tem uma noção do que é certo e do que é errado”. Fundamentar isso tem dado um trabalho imenso para os filósofos e margem a muita discussão, mas o que importa para o propósito deste artigo é que claramente a religião em geral também perverte a capacidade do indivíduo perceber o que é certo e o que é errado, isso porque a religião elimina o relacionamento direto com o outro ser humano para substituí-lo por um relacionamento com o suposto sobrenatural, mediado por um suposto representante do suposto sobrenatural, relegando o relacionamento com o outro ser humano ao papel de instrumento para o suposto contentamento do suposto sobrenatural.

Neste novo tipo de relacionamento mediado com o outro ser humano, no qual ele deixa de ser sujeito para ser um mero objeto à mercê dos caprichos de alguma suposta entidade sobrenatural, se o suposto representante do suposto sobrenatural diz que o suposto contentamento de alguma suposta entidade depende de arrancar o clitóris das meninas ou o prepúcio dos meninos, então lá vai (a alcatéia) o rebanho arrancar os clitóris e os prepúcios de inocentes indefesos “para salvar suas almas”. Quem questiona a plausibilidade do ato de ter que comprar o Amor de Deus inflingindo dor e sofrimento a seres humanos inocentes e indefesos é “herege” e tem que ir para a fogueira, real ou simbólica, para não colocar os “fiéis” em risco.

A lógica da blindagem da religião contra a Razão

Se você questiona os deuses, isso desagrada aos deuses. Isso é um dogma praticamente universal, mesmo entre religiões completamente incompatíveis entre si. Suponho que o Onisciente, Onipresente e Onipotente Criador do Universo não seja inteligente ou paciente o suficiente para esclarecer uma dúvida suscitada pelo livre-arbítrio que Ele mesmo infundiu nas criaturas que Ele mesmo criou, é isso?

A verdade, entretanto, é que questionar as supostas orientações e exigências dos supostos deuses quase sempre coloca em perigo os supostos representantes dos supostos deuses. Ou os interesses dos grupos beneficiados pelas supostas orientações e exigências dos supostos deuses.

Nada mais lógico, portanto, que a exaltação da fé. “Feliz aquele que crê sem provas”, dirão quase todas as religiões. E “ainda mais feliz aquele que crê mesmo contra as provas“, radicalizarão quase todas as religiões quando colocadas contra a parede pelas evidências de que estão dizendo asneiras.

E como se blinda a religião contra críticas no plano temporal?

Apelando para o relativismo cultural.

Se “todas as culturas são igualmente dignas de respeito”, segue-se naturalmente que “todas as religiões são naturalmente dignas de respeito”.

E dê-lhe mutilação genital de meninas e de meninos “em nome de Deus”.

E dê-lhe líderes religiosos insuflando a turba ignara para negar a cidadania dos homossexuais “em nome de Deus”.

E dê-lhe o próprio planeta ameaçado devido à constante pregação de que o ser humano tem que se reproduzir como coelhos “em nome de Deus”.

Isso pra nem falar das fortunas incalculáveis sendo jogadas fora todo dia em horóscopos, energia de cristais, leitura de cartas e outras besteiras deste naipe, aparentemente inócuas, mas que reforçam a irracionalidade grotesca que caracteriza nossa cultura.

Há escapatória desse pesadelo?

Há.

É uma questão de Valores.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 04/07/2011

22 thoughts on “A religião em geral incapacita o indivíduo para pensar racionalmente

    1. HAHAHAHAHA!!! 🙂

      Pior que tem mesmo muita gente que “entrega a Deus” seus problemas, sem figura de linguagem, como se Deus fosse mesmo curar obesidade, garantir uma vaga num concurso ou “trazer a pessoa amada em sete dias”…

  1. Golgo,
    Legal esse lance de “relacionamento mediado”. É tão verdade q crentes de todos os naipes (em particular os cristãos) conseguem dizer “eu amo pessoas X” ao mesmo tempo em q militam contra pessoas X.

    1. Em particular os cristãos porque estamos no Brasil, meu caro. A coisa é bem parecida em quase todo o mundo. Eu que falo Esperanto que bem sei. :-S

  2. Golgo,
    Mas, no assunto do relativismo cultural: o pobrema é q, gostando ou não de relativizar, é isso q vc TERÁ q fazer durante todo o tempo q levará pràs irracionalidades, burrices e crueldades serem civilizadas pela lenta e gradual disseminação da educação, da informação e da integração. O relativismo cultural é necessário pra q, nos confrontos pacíficos da integração, demonstre sua superioridade o modo de vida racional, inteligente e incruel.

    1. Pô, discordo, Plausível. A gente tem que fazer isso às vezes para contemporizar e não se incomodar com um interlocutor irracional, burro ou cruel – mas quem quer manter um interlocutor assim em seu círculo mais próximo?

      Quando eu sou obrigado a contemporizar através do relativismo para evitar uma mini-convulsão social em algum círculo que eu freqüente, marco na paleta o desgraçado que me obrigou a fazer isso para nunca mais dar muito espaço para ele em minhas relações sociais, a não ser como “alguém que também freqüenta o mesmo local” ou “amigo de algum amigo”.

      Já com os que eu acho que têm salvação (palavra ótima neste contexto) eu ajo de modo diferente: procuro argumentar explicando que nem tudo no humano é cultural, que há características universais nos seres humanos (caso contrário quem poderia falar de “Direitos Humanos”?) e que entre elas todos compartilhamos de certas noções como DOR e PRAZER e certas habilidades como a capacidade de RACIOCÍNIO LÓGICO-ABSTRATO e a capacidade de FAZER PREVISÕES COM BASE EM CAUSA E EFEITO.

      Aí, quando o sujeito pergunta “mas que cazzo tem isso tudo a ver com relativismo cultural?” eu pergunto se, antes de eu responder, ele concorda com isso. Como TODO MUNDO concorda com isso, eu digo então que “ora, se temos universalidade de sensações e de capacidade de avaliação, como pode alguém argumentar que arrancar o clitóris das meninas e os prepúcios dos meninos “lá” (seja lá onde for “lá”) dói menos ou prejudica menos a vida sexual das vítimas destas barbaridades do que cá? E concluo emendando que é claro que podemos e devemos reconhecer que nossa humanidade em comum nos permite e nos obriga moralmente a sermos solidários com o sofrimento alheio – pelo menos se quisermos continuar alegando que somos um pouquinho melhores que psicopatas cruéis.

      Às vezes dá resultado.

  3. Arthur,

    Advogado do diabo, defendendo a religião??? 🙂

    Em um mundo ideal, toda essa discussão seria besteira, pois estaríamos todos sob a legislação do bom senso. Mas, como não estamos…

    Sua abordagem é no estilo de Peter Singer e Mary Midgley, que são dois importantíssimos filósofos na defesa dos direitos dos animais. São filósofos que baseiam sua Ética na prática, e não na teoria. Daí que ‘sentir dor’ pode muito bem ser um indicativo moral para a ação.

    Mas isso não é suficiente. É preciso que haja definições teóricas. Você usa os ‘Valores’, mas eles são tão arbitrários quanto outros valores, os religiosos, por exemplo. E pq é necessária definição teórica? Uma razão é pra evitar injustiças. Há poucos anos atrás, um homossexual, enquanto homossexual, não teria direito nenhum, simplesmente pq homossexualidade não era uma situação normal, e sim uma doença, e nem dá pra criticar quem achava que era doença mesmo, ué. Talvez eles não tivessem dados suficientes. Muitos tentaram ‘curar’ esses doentes, e com toda a boa vontade do mundo! E isso pq? Pq, por uma definição teórica, um ser humano normal não seria homossexual, já que isso seria contra a natureza.

    Concordo com você que não dá pra ficar esperando uma definição teórica e, enquanto isso, mulheres são apedrejadas e crianças são mutiladas. Mas qual a saída? Usar a força pra impedir isso? É válido aplainar a Somália com tanques e matar todo mundo que ache correto o apedrejamento?

    1. “Advogado do diabo, defendendo a religião???” (André)

      HUAHUAHUAHUA!!! Nem tinha percebido, mas é mesmo. 😀

      1. Eu uso o termo “teoria” de modo bastante técnico, então a frase “São filósofos que baseiam sua Ética na prática, e não na teoria.” para mim é quase tautológica. Mas entendi o que quiseste dizer, claro. E eu concordo quanto ao lance de “sentir dor” – que inclusive é tão universal que pode ser aplicado como princípio para decisões éticas não somente em relação a humanos como em relação a animais. É por isso que eu prefiro matar a carne que vou comer a tiros no cérebro ou guilhotinamento ao invés de porrada, sangramento ou choque elétrico. 😉

      2. Eu sabia que ia dar zica ao usar a palavra “Valores” – especialmente com “V” maiúsculo – mas não imaginei que ia dar essa zica específica de relativização dos Valores. O lance é o seguinte: basicamente, a diferença entre usar conceitos com maiúsculas ou minúsculas é um indicativo do grau de universalização deles, sendo os com letras maiúsculas os absolutos e os com letras minúsculas os relativos. Então, quando eu digo que para escapar do pesadelo do relativismo cultural são necessários Valores, automaticamente estou dizendo que é necessário partir de nossa humanidade comum para definir o que tem que ser respeitado e defendido acima de tudo. E, no meu entender, os três Valores que eu defini como meu “norte normal” são os três únicos logicamente universalizáveis de modo consistente para permitir esta escapatória de modo o mais próximo possível do consensual, tendo que se impor somente aos psicopatas.

      3. Não acredito na suposta tããããão boa vontade de quem quer “curar” os homossexuais contra a vontade deles. É como um médico querer me obrigar a fazer cirurgia para a miopia para me curar. Ora, eu tenho tanto medo dessa cirurgia – e dos 0,0000000000000001% de chance de ficar com a visão defeituosa por causa de um acidente, de um erro médico ou de algum imprevisto – que prefiro continuar usando óculos. Segue daí que, se alguém quer “curar” um homossexual que não deseja ser “curado”, tenho para mim que é o mesmo que me amarrar numa mesa de cirurgia para curar a minha miopia à força. Não reconheço “boa vontade” nesse tipo de iniciativa, a não ser que o indivíduo a ser curado esteja completamente incapaz de manifestar sua vontade. (Tipo: é lícito amputar uma perna esmagada para salvar a vida de um paciente em coma que sofreu um acidente quando a alternativa for deixar o cara morrer de gangrena só porque ele não assinou uma autorização.)

      4. Eu quero pilotar pessoalmente o primeiro tanque a invadir o território da Somália para dar um pau nos opressores daquele povo e chefiar a missão que vai instituir na marra um processo civilizatório ocidentalizante, posso? 🙂

  4. Perma,

    “Legal esse lance de “relacionamento mediado”. É tão verdade q crentes de todos os naipes (em particular os cristãos) conseguem dizer “eu amo pessoas X” ao mesmo tempo em q militam contra pessoas X.”

    É que também tem aquele negócio de amar o pecador, não o pecado. Na cabeça dessas pessoas, eles não estão de fato militando contra as pessoas X, e sim contra a ação daquela pessoa X, de modo que basta que X pare de fazer o que está fazendo ‘de errado’, que está tudo resolvido. E, na cabeça dessas pessoas, isso é verdadeiramente ser tolerante e inclusivo.

    1. Manga-Larga

      06/07/2011 — 12:58

      Só falta explicar como pretendem convencer 200 milhões de maconheiros a pararem de fumar e não-sei-quantos bilhões de gays a começarem a gostar do sexo oposto, não é mesmo?

      Tão utópico quanto suas próprias crenças!

    2. André, ver item 3 da resposta anterior.

      Manga Larga, bilhões de gays? A Terra vai congelar com tanta frescura. 😛

    3. Manga-Larga

      06/07/2011 — 19:50

      Não dizem que o mundo é gay? Também dizem que eu, por ser a favor dos direitos dos gays, sou gay. Dizem também que os homofóbicos são gays…

    4. Manga Larga, é por isso que eu sou defensor dos Direitos Humanos: o máximo que podem falar de mim é que sou gente. 🙂 Hehehehe…

    1. Plausível, eu não discordo da tua proposição sobre a “gaussocracia”. Pelo contrário, o meu texto se insere nesta lógica, bastando lembrar do conceito de viés. A religião via de regra insere na curva de Gauss da racionalidade um viés para a esquerda.

      Se pensares um pouco nas conseqüências disso, verás que são piores do que parecem, pois a geração seguinte continuará sofrendo a força de um viés para a esquerda na curva de Gauss da racionalidade, isso sobre uma curva que já continha um viés devido à geração anterior.

      Agora bota 2.000 anos de viés para a esquerda no pensamento racional ocidental e imagina onde poderíamos estar se Jesus também tivesse instruído seus discípulos a ensinar lógica e método científico para as crianças…

  5. Manga-Larga

    07/07/2011 — 20:43

    Caras eu quase nunca discuto religião, prefiro pular esse assunto porque geralmente soo muito radical quando falo dele. Vou tentar não ser tão radical e ao mesmo tempo sucinto no que eu penso, falando agora sobre o cristianismo. Sempre me imagino sendo um judeu oprimido em pleno ano 33, com Jesus pregado na cruz e agonizando aos poucos, quando chega alguém e, apontando Jesus, diz pra mim “Esse é o nosso salvador”… Só de pensar já me sinto perdido, totalmente f**** mesmo… Aí lembro dos caras dizendo que Jesus morreu pra nos salvar, p**** nenhuma, pra mim foi um BIG-HUGE-MEGA-ULTRA-FAIL, semelhante a quando a pessoa perde tudo numa catástrofe e depois pensa “pelo menos ainda estou vivo”… puro conformismo!

    1. Mesma pessoa, novo e-mail?

      Pois é, mas vai explicar isso para quem entra em transe quando o pastor grita “aleluia” e “sangue de Jesus tem Poder”. Ou para quem afirma que pão se transforma em carne mesmo que qualquer análise laboratorial mostre que o pão continua sendo pão.

  6. Golgo,
    Não vejo esse viés cumulativo q vc vê. Vejo apenas humanos sendo humanos há 3 mil anos. Os textos da Bíblia evidenciam (se evidenciam algo) q as mesmíssimas questões resistem na cachola do povaréu há 3 mil anos: há religiosos, há ateus, há indiferentes &c. Não só os da Bíblia como os de qqer outro texto existencial humano. Com o aumento populacional, as questões ficaram mais filigranadas, mas permanecem as mesmas: a curva de Gauss fica só mais detalhada, digamos. A curva de Gauss é inevitável entre opiniões pq, não importa o assunto, TODA pessoa vai querer dar pitaco. É um fenômeno natural q ainda hei de batizar com um nome gozado.

    O fenômeno é este:
    se alguém disser algo com q vc concorda 100%, *ainda assim* outra pessoa consegue achar algo pra comentar, algum ponto sobre o qual ela quer deixar sua marca, como um cachorro marcando território. Aí o q acontece é q, se 100% das pessoas porventura cheguem a concordar em 100% num assunto, *alguém* entre os 100% vai adicionar algum comentário, e *esse* pitaco vai dar origem a outros e outros e outros, resultando em q, após um tempo suficiente, as opiniões se dividirão entre 50% dum lado e 50% do outro, ao longo duma curva de Gauss. É um fenômeno inescapável: chega a ser monótono.

    O método científico é um jeito de escapar um pouquinho desse fenômeno. Mas aí, 50% confiam no método científico e 50% não confiam. No fim, dá na mesma e o único benefício q o método traz é mais conforto material e entretenimento —a um absurdo custo ambiental e social.

    Se eu não me divertisse com essa monotonia, me matava. Sempre lembro da nota escrita por um suicida no século XVIII, q antes de se matar explicou-se com apenas uma frase: “All this buttoning and unbuttoning.”

    1. Tchê, me diz uma coisa: achas possível deslocar a média da curva de Gauss de palpites através da educação?

      Tipo… põe “grau de estupidez devida à desinformação” no eixo das abscissas. Será que dá pra puxar o ponto médio da curva de Gauss um pouco pra esquerda através de um bom projeto educativo?

  7. «põe “grau de estupidez devida à desinformação” no eixo das abscissas»

    ‘Estupidez’ e ‘desinformação’ representam medições negativas. Um gráfico plotando a relação estupidez:desinformação só vai mostrar um lado da curva de Gauss.

    Informação e educação não modificam o desenho geral duma curva de Gauss da inteligência humana. O q elas modificam é a granulação da curva. Nos últimos 10 mil anos, a configuração do q se sabe (não do q se acredita) sobre o mundo não mudou muito; o q mudou muito foi o nível de detalhamento, a granulação da curva da inteligência, a quantidade de distinções possíveis.

    Um bom projeto educativo não vai capacitar um crente a pensar mais racionalmente; só vai lhe dar mais dados e detalhes pra embasar melhor suas tolices. Tipo, teu monitor pode mostrar a mesma imagem com definição de 16 ou 256 ou 16.777.216 de cores. Mas será a mesmíssima imagem.

    A massa da inteligência humana global é como um líquido q TEM q ocupar todos os recipientes cognitivos existentes. Nenhuma quantidade ou qualidade de educação vai estancar uma área idiota do recipiente, impedindo q o pensamento duma parte da população vaze pra dentro dele, e sempre mais ou menos a mesma proporção da população.

    É triste, mas é verdade.

    1. Ah, não, Plausível. Se eu trancar uma criança dentro de um armário logo após o nascimento e abrir a porta só dali a 30 anos, ela com certeza terá um QI diferente do que teria se eu a ensinasse a ler precocemente em diversos idiomas, a colocasse nas melhores escolas e a estimulasse a gostar de estudar e se aperfeiçoar intelectualmente. Ou seja, o meio ambiente faz diferença na capacidade intelectual.

      O que eu acho é que nossos sistemas educacionais estão trancando quase todos os 6 bilhões de humanos dentro do armário até os 30 anos – e que urge criar um projeto para promover um desenvolvimento intelectual mais saudável e produtivo.

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