No artigo sobre séries de TV e desenhos animados alguém falou dos Cavaleiros do Zodíaco. E aí eu comecei a lembrar do enredo e das cenas de diversos filmes de luta e de desenhos de luta chineses e japoneses e caí na risada ao perceber que há um padrão fantasticamente repetitivo que no entanto continua fazendo sucesso e sendo repetido à exaustão. Se você pretende enriquecer no mercado de filmes ou animes de luta, aproveite o enredo básico e a cena clássica de luta revelados pelo blog Pensar Não Dói.

AAA – Aviso Anti-Aporrinhação: xô mau humor.

Enredo básico de filme de luta

Parte 1: Em algum lugar na China ou no Japão, ou em um bairro chinês ou japonês de alguma cidade ocidental, vive um honesto comerciante, viúvo, com seu jovem filho que vive reclamando da disciplina paterna e sua jovem filha que ajuda o pai a dar um sabão no irmão porque ele prefere viver com um mínimo de liberdade e prazer ao invés de acordar às 5h da manhã para começar a trabalhar e só fechar a mercearia à 1h da madrugada seguinte. O rapaz é constantemente censurado porque tem amigos com os quais quer conviver, porque fala um palavrão de vez em quando e porque gosta de mulher, ora essa que vícios nojentos…

Parte 2: A gangue local invade o estabelecimento em um momento em que o rapaz não está, quebra tudo, mata o pai dele na porrada, estupra a irmã dele e vai embora bebendo cerveja e rindo do que fez.

Parte 3: O rapaz descobre o que aconteceu, fica indignado, corre até o ponto de encontro da gangue, chega sozinho no meio de vinte marginais especialistas em artes marciais e acostumados à briga de rua, diz que vai dar um pau em todo mundo e ofende e ataca o líder do bando na frente de todos os outros. Obviamente ele toma um pau fenomenal e é jogado numa sarjeta qualquer semi-morto.

Parte 4: Um generoso, humanitário e compassivo porém desacreditado velho mestre de artes marciais encontra o rapaz, cuida dele, ouve sua história, apieda-se dele e após insistentes pedidos do jovem concorda em ensinar sua arte ao jovem, com a condição de que ele aprenda também a sua filosofia.

Parte 5: O rapaz estuda, treina, entra em conflito com o velho mestre porque ele exige disciplina como seu pai exigia, depois passa por algum momento de insight em que percebe que o velho mestre tem razão, então volta a treinar, treinar e treinar com disciplina e com verdadeira dedicação.

Parte 6: Acontece um novo encontro do rapaz com o líder da gangue e desta vez o rapaz dá um pau no sujeito, vinga o pai, reconcilia-se com a irmã que o culpava por não estar presente no momento da tragédia e assim conquista finalmente o respeito incondicional do velho mestre. Fim.

Insira algumas pequenas distrações, como uma amiga que também é violentada ou um amigo que também apanha para provocar o segundo encontro com a gangue, ou apele para a namorada do mocinho que é seqüestrada mas não é morta porque também já foi namorada do vilão, ou um ataque da gangue contra o mestre e seu assassinato devido à imensa desproporção numérica (não antes de ele quebrar ao meio uma meia dúzia de agressores), grave-se a cena final de luta ao pôr-do-sol e voilà, está pronto mais um filme “inédito” de artes marciais.

Roteiro clássico de luta em desenho animado japonês

Nos desenhos animados os motivos que provocam as lutas são um pouco mais variados, mas a o roteiro da luta em si é clássico, praticamente invariável.

O mocinho olha pro vilão.

O vilão olha para o mocinho.

A câmara vai se aproximando.

O mocinho olha de novo para o vilão, com um olhar apreensivo.

O vilão olha de novo para o mocinho, com um olhar confiante e maldoso.

Tomada em close.

O mocinho começa a tremer de medo e apreensão por causa do olhar do vilão, mas explica ponderadamente embora esteja indignado os motivos pelos quais pretende acabar com a raça do vilão.

O vilão, impassível, responde apenas que é o mocinho quem vai sofrar as conseqüências de ter buscado esse confronto. Debocha. Diz que o outro pode atacar à vontade.

O mocinho, indignado, dá um piti e um gritinho histérico, faz uma coreografia qualquer e joga uma luzinha colorida no vilão.

O vilão se defende com facilidade e solta uma risada sarcástica.

O mocinho diz “hã”, faz uma cara de apavorado de dar dó e diz “não pode ser”.

O vilão pergunta se aquilo é o melhor que o um pode fazer e diz que vai mostrar o que é poder de verdade.

O mocinho aparece em close tremendo e suando frio, apavorado.

O vilão grita algo como “Dragããããããão Bichooooooona”, faz sua coreografia também e solta uma bola de purpurina envolta em raios laser que atira o mocinho vinte metros para trás, cavando um sulco no solo.

O mocinho aparece caído, todo lanhado e com as roupas rasgadas, mas se levanta, faz uma cara do tipo “isso não vai ficar assim”, dá um discurso moralista afirmando que não será vencido e manda o outro se preparar porque vai aniquilar com ele em nome da honra da mocinha/pai/mestre/história da carochinha em questão.

O vilão apenas debocha e avisa que o mocinho vai morrer tentando.

O mocinho reúne todas as suas forças, concentra suas energias, grita algo como “Bichooooooona Afetadééééééérrimaaaaaaa” e solta ainda mais purpurina e raios laser contra o vilão.

O vilão é atingido, lançado quarenta metros para trás e fica nitidamente espantado.

O mocinho dá mais discurso moralista dizendo que o mal jamais superará o bem.

O vilão diz que aquilo foi apenas um golpe de sorte, que jamais será derrotado, grita “Dragããããããão Bichooooooona” de novo e lança outra bola de purpurina com raios laser contra o mocinho.

Desta vez é o mocinho que resiste ao golpe com relativa facilidade, olha para o vilão com uma cara de quem diz “agora você vai ver”, diz “agora você vai ver”, dá mais um discurso moralista e novamente manda o vilão se preparar para a derrota.

Agora é a vez o do vilão se mostrar apreensivo e aparecer em close tremendo e suando frio.

Então o mocinho grita de novo “Bichooooooona Afetadééééééérrimaaaaaaa” e solta uma enorme bola de purpurina com raios laser contra o vilão.

O vilão é atingido em cheio, lançado sessenta metros para trás sulcando o chão e cai desacordado.Vitória do bem sobre o mal.

A cena termina com mais um discurso moralista do um, que já está recuperado e aparece em close com um ar de “dever cumprido, justiça feita”.

E não esqueça:

Cite meu nome nos créditos e reserve 10% do faturamento para meus honorários, ou vai rolar processo por plágio de minhas idéias originalíssimas.

Arthur Golgo Lucas – arthur.bio.br – 26/08/2011

19 thoughts on “Pancadaria de zoinho puxado é tudo igual

  1. Olá Arthur, primeira vez que comento aqui. Ando lendo bastante este blog, muito interessante! Muitos artigos nos fazem pensar, leio boas discussões.

    Vou complementar o fluxo das histórias que você citou. Não esqueça que depois de derrotar o vilão, a paz volta a imperar no mundo do herói, até que.. surpresa! Surge um vilão mais malvado, mais forte e que deixa o antigo vilão na poeira. Claro, nosso herói, como todo herói, surge para combater a nova encarnação do mal. Como o novo vilão é mais forte, o herói toma um ca*ete, e volta para treinar novamente com o mestre, a fim de aprender novas técnicas e novas superações. O treinamento é duro, mas a nova técnica é aprendida, e nosso herói consegue superar o vilão e vence a batalha.
    O que acontece depois?
    Depois de derrotar o vilão, a paz volta a imperar…

    Isso porque sou descendente de orientais e sempre assisti a esses seriados também. É uma fórmula padrão que já foi e é bastante utilizada. Moral da história? Lembre-se que isso tudo é voltado principalmente para adolescentes, para que lembrem-se de seguir “o bem” e nunca desistir dos seus objetivos.

    Olha, nem sei porque escrevi esse comentário todo, mas parabéns novamente pelo blog.

    1. Concordo.

    2. Leitor antigo, comentarista novato? Bem-vindo então à caixa de comentários do Pensar Não Dói, Flash. E agradeço os elogios. 🙂

      Eu era o fã n° de Ultraman na infância, tanto na versão “Go” quanto na versão “Ayata”. Tinha uma japinha na Patrulha do Espaço que eu achava sim-ples-men-te-lin-da e que despertou minha atenção para a beleza das mulhers orientais. E eu dava muita risada assistindo a tosqueira do Spectreman combatendo do Dr. Gori e seu assistente Karas. Tenho saudade daqueles bons tempos com produções ingênuas e toscas mas encantadoras.

      O teu roteiro é o roteiro do filme 2, Flash. É a continuação previsível da saga previsível, mas a gente sempre assiste, não é mesmo? Nem que seja para descobrir que nova roupagem vão dar para mesma velha fórmula.

      Pode continuar não sabendo por que, mas comentando, viste? 🙂

      Abração aí.

  2. Tremendo exagero, só para começar tem grupo ninja que dança em cinco com colãzinho azul, verde, amarelo, rosa e vermelho, mas tem ninja que baila sozinho.

    1. Pô, mas eu estava falando de filme e de desenho animado de luta, não de ballet. 😛

  3. Hehehehehehe. Quanto aos filmes de luta chineses ou séries japonesas, daquelas que geralmente tem equipes de 5 com o líder em vermelho, você está certo.

    Mas quanto aos desenhos é meio injusto. Muitas séries de porrada tem elementos variados. Claro, muitos tem esse padrão mesmo, mas alguns contam com estratégia e astucia na trama e nas batalhas. O problema é que as pessoas ficaram muito com Cavaleiros do Zodíaco na cabeça o que dá nisso.

    1. Ah, mas também é injusto dizer que eu escrevi isso com base exclusivamente em Cavaleiros do Zodíaco… Eu também vi uns dois ou três episódios de Goku. 😛

  4. Camarada Moderado

    27/08/2011 — 19:03

    O problema Arthur, é que graças ao sucesso monstruoso de Dragon Ball as séries shones(orientadas ao público masculino jovem) tem esse perfil. Existem exceções, quando o autor pensa na saga como um todo, caso de One Piece, ou quando o enfoque é no esporte, como Hajime no Ipo e Slam Dunk. Mas os shonens tem esse mal justamente pelo sucesso estrondoso do Dragon Ball que, inclusive, era muito bom até a saga Z.

    1. Isso é uma coisa que eu lamento: nunca assisti um único episódio de Dragon Ball. Tanto é que nem sei por que a série tem esse nome esquisito.

  5. Camarada Moderado

    29/08/2011 — 21:17

    É por causa das esferas do dragão, o desenho começa com uma aventura animada, acaba virando aquele besterol de porradaria sem sentido quando o autor parece ter ficado sem idéias.

    Existia as lutas, mas eram inseridas no contexto da aventura de capturar as esferas do Dragão para realizar um desejo(qualquer um), ou seja elas era acessórios da história e não o enfoque como acabou virando depois.

    1. É, muita coisa na TV se perde no meio do caminho. House por muito pouco não degenerou na mera exploração do estereótipo do misantropo no início do ano seguinte àquele em que houve a greve dos roteiristas. Foi tão marcante que todo mundo percebeu uma súbita virada com a retomada do “clima” e da qualidade da série depois de alguns capítulos chochos.

      Só uma curiosidade: o que eram exatamente as tais esferas do dragão?

  6. Eu sou fã de animações, quadrinhos, tiras, animés, mangás e o caramba. Arte visual invariavelmente não tem apenas o apelo de uma história escrita: há uma poesia própria nos traços, nos enquadramentos, no movimento. Dito isto:

    http://en.wikipedia.org/wiki/Monomyth
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Monomito (artigo menos detalhado como sempre)

    Basicamente, é tudo formulaico mesmo. O diabo está nos detalhes.

    Não sou muito sofisticado em meu gosto por mangás. Curto CDZ, DBZ, Inuyasha, Naruto e os filmes para cinema do Miyazaki, basicamente. Com ou sem clichés.

    1. Acho que só li uma mangá na vida: “Mai, a garota sensitiva”.

      Creio que isso me desautoriza expressamente a opinar. :-S

  7. As esferas do dragão eram 7 esferas mágicas criadas por habitantes do planeta Namek. Juntando as 7 e proferindo as palavras mágicas, um dragão aparecia e concedia desejos. Era o plot device original, mas espaço para a pancadaria. Que, aliás, ou se originava de sua busca ou cujos resultados funestos eram por elas revertidos (como Goku ressuscitando várias vezes)…

    Não é pra ser levado à sério… 🙂

  8. “perdeu” foi comido… :p

  9. Alguns mangás/animês são muito bons. Faz algum tempo parei de seguir os comics americanos. Não aguento ver a mesma estoria rerereciclada. Não aguento ver personagens superexplorados. Gostava do Wolverine, do Aranha, e até do Super Homem, mas não dá mais, é como assistir a mesma novela há 40 anos. E atualmente não há preocupação com a coerência, poderes e características são mudados, fatos são retconeados sem o menor respeito ao QI do leitor.

    Os mangás em sua maioria são autorais, e tambem em sua maioria a estoria acaba depois de algum tempo. Mas alguns se prolongam demais e se a qualidade cai eu paro de seguir a série (parei Bleach e estou meio que parando Naruto, faz meses que não leio). Um problema de Dragon Ball é que como fez $$u$$e$$o durou mais do que deveria, devia ter acabado na fase Freezer, no máximo na saga Cell.

    Recomendaria o drama/horror Mushishi em animê:
    Em zaponês com lehiendas en espanõl:
    http://www.youtube.com/watch?v=2aZFeDejwRI
    Em purtugueis, pois:
    http://www.youtube.com/watch?v=Y0wBfSltR-8

    O personagem principal é um Mestre dos Mushis, que vaga pelo Japão feudal investigando e solucionando casos de Mushis, criaturas sobrenaturais. Estes seres são irracionais em sua maioria, etéreos, e tem relação como os ecossistemas locais. Não são maus, mas às vezes causam problemas, como qualquer ser vivo. Um Mestre dos Mushis é ao mesmo tempo biólogo, médico, exorcista e explorador. Nem todos os contos tem final feliz.

    1. Assisti o episódio 1, as 3 partes. Interessante a estética do desenho e o tom ao mesmo tempo ingênuo, místico e profundo. Se não fosse mais de três da matina eu assistiria mais um episódio para captar o espírito da série. Mas acho que amanhã eu resolverei isso. 🙂

  10. Assisti recentemente Samurai Champloo, se passa no fim do período Edo. Apesar de ser uma série de ficção (como alertado logo no primeiro episódio), me fez ter outra visão sobre o Japão. Primeira vez que um desenho me fez rir, chorar e me arrepiar ao longo da história.

    Avatar: The Last Airbender, apesar de ser produzido no ocidente, é considerado um anime e é igualmente surpreendente, tanto em narrativa quanto em qualidade de animação. Se lhe interessa, o personagem principal, o garoto Aang, é baseado na figura de um monge tibetano. 😀

    Leia: http://blogdohammer.blogspot.com/2008/08/doze-motivos-para-voc-assistir-avatar.html

    1. Eu sei, eu sei, eu tenho que assistir esse Avatar… do outro, aquele que perdeu o Oscar, eu gostei. Que falta de criatividade esse pessoal tem com nomes, hein? Ainda bem que a qualidade da produção não depende dos nomes…

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